segunda-feira, janeiro 05, 2009

fazenda

Naquela noite sem começo nem fim.
as únicas luzes que preenchiam a cidade vinham daquela casa de mil portas. E, embora ninguém nunca fosse visto nas sacadas, também a ela pertenciam os passos e sussurros escutados noite a fora.

Adentrando cautelosamente tais umbrais, as coisas do chamado "mundo real" perdem os contornos, como um primordial caos, como um silêncio de suspiros.
Se entrares neste vasto reino das causas perdidas, tu, como coisa real por fora, também perderás o sentido e a forma, e por mais batidas que dês nas portas, por mais vezes rezadas sob a virgem, não serás notado.

As salas desta casa nunca estão vazias.
Os corpos esgueiram-se nus, a procura de algo. Sãos, e de boa índole, por vezes conversam entre si. Perguntam o resultado do jogo, e, inclusive, comentam o tempo, com a nostalgia de outras estações.

Comem o que lhes aprouver, e bebem chás rejuvenescedores.


Há um Porém.

Ouço gritos. Gritos e pancadas intromentendo-se nessa solidão.
Ouço, e entro sem medo por esses corredores.
Duas vezes à direita está o quarto de onde gritam.
Lá, molhadas, duas rasgam-se na malha de um mesmo contratempo. Principalmente por amor juntam as mãos em preces e acertam os móveis mais próximos.
Devaneios de uma casa sem espírito.

Um comentário:

Rebecca disse...

isso aí tá demais. mesmo a casa de menos, solidão que maximiza. mas tá demais e sensacional esse texto, ana-verde.