domingo, dezembro 25, 2011

amor

lustres acessos iluminam as tochas de livros.
o vento em cólera de encontro a todos vidros.
mulheres histéricas as portas nos umbrais.
águas cadentes pesam nos tapetes.
desordens milimétricas,
caóticas formigas.

a boca aberta do abismo mostra seus dentes,
e engole a carne de todas as coisas.

só a minha cama flutua,
e nós duas
nada percebemos.

judia

tem algo no meu cabelo,
tem algo no meu cheiro,
tem algo ruivo
tem algo cru.

tem algo perpétuo,
tem algo forte,
tem algo que continua,
e outra coisa que cessa.

milhares de anos impressos na pele,
nos dentes,
embaixo das unhas,
em cima do texto.

sábado, dezembro 24, 2011

cobra coral

que gosto estranho você tem de viver o pior de nós.

abre a porta com esse sorrisinho marrom.
e cobra cobra cobra.
senhora da virtude és tu,
com seu colar de pérolas.
e eu o porco.

que gosto secreto (e imundo)
tem por trás dessa invenção.

se você me quer assim,
que posso .......... ?
senão
abocanhar uma maça.

sábado, dezembro 17, 2011

agora

hoje eu não queria dormir.


queria prolongar na pele esse cheiro.
queria cantar com os galos
- vagabundíssima.
queria sentir o céu estourando e ficando mais calmo,
orgasmo matinal.
queria cantar um pouco, e rir,
ao invés de antecipar a ressaca.
quero mais,
quero desafiar a manhã,
o ritmo,
a natureza.
desafiar estando junto, do mesmo lado,
como o poder dentro do sexo.

hoje vendo o céu arrebentar esse vermelho é tanto que quero,
e simples o ser.
sim.
sou.
estou.
agora.

feliz.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

escritasdesonhoshipocritas

Também quero salvar a floresta,
mas não consigo manter vivo nem um vaso de planta.
Visualizo em sonho cidades de pedestres, ciclistas e transporte público,
mas não abro mão da minha caranga para nada.
Brado alto contra os preconceitos,
mas eu mesma vivo falando mal das "peruas" e dos bancários.

Primeiro passo sonhar,
quem sabe ano que vem arranjo uma bicicleta.

sábado, dezembro 10, 2011

brisa estelar

no começo não tinha nada.
aí surgiram as estrelas.
imensas.
densas concentrações químicas.

no universo quase azul
vaga no nada
o passo discreto das estrelas.

antigas e caladas.
luz, no tempo.
e nós pequenos olhando para elas,
lembrando dos gregos,
nos esquecemos.

(que até uma estrela é menor do que um buraco negro).

stella

no começo não tinha nada.

aí,
surgiram as estrelas.

segunda-feira, novembro 28, 2011

estática

pra mim parecia ótimo olhar seu corpo todo desenhado em tatuagens.
você me explicava passando os dedos por cada uma.
contando as histórias, as memórias.
eu devia ter imaginado, mas não imaginei.
você levantou rapidamente e disse
você é má.
você levantou e o enxame de abelhas chegou a piscina.
eu percebi que não podia mais sair.
eu devia ter sabido, mas não soube.
do fundo da piscina eu olhava as abelhas me esperando na superfície.

terça-feira, novembro 22, 2011

simples

eu queria ser mais macio.
guardar em casa as minhas flechas,
correr só com as palavras soltas.

eu queria ser mais cuidado.
lançar chamas só pela música
e som só que te acaricie.

quero destilar, meu amor,
o nosso ódio, a nossa raiva,
e ficar só com a graça.

meu bem, nos dar bem,
é bom e é cachaça.
nos dar bem, meu bem,
é de graça.

domingo, novembro 20, 2011

cor

meu braço esquerdo tá formigando.
eu não sei bem a que figura de linguagem isso se presta.
hoje a sua maquiagem melancólica,
uma escada circular de sonhos antigos,
o cansaço
e a desgramada persistência.
ali,
onde a hipocrisia.
E você falou palavras tão belas.
por não acreditar em nada falou de não acreditar.
eu vim pra casa sozinha
e meu braço esquerdo tá formigando.
eu espero que esse mau sinal
não seja mal.

quarta-feira, novembro 16, 2011

galho

por favor,
não pense que eu fui longe demais.
não fique com vergonha,
nem raiva, nem nada.

é que eu descobri que o que mais gosto de você é sua força.
essa sensação de estar nos seus braços e sentir que eu posso quebrar como um galho.
eu sei que sou forte também,
e grande,
e difícil de matar.
mas eu acho que você poderia,
e é por isso que eu te amo.

madru

madrugadas que me dão vontade de voar.
de abrir meu sorriso geminiano muitas vezes guardado da verocidade das coisas
e esmagar o tédio,
esse gigante anão,
na alma da minha palma.
beber um vinho e viajar
planar, no ar.
ser, pensar,
delícia.
e na cara,
uma placa:
aqui.
vida.

quinta-feira, novembro 10, 2011

primeira verdade

gosto de ver as horas passando
escorrendo lentas pelas paredes
tingindo com seu rastro pegajoso
a meditação silenciosa do desabrochar das flores.

segunda-feira, novembro 07, 2011

depois

eu não quero te ver.
é simples, e me enche de angústia.
por que, novamente, não bastará querer,
tenho quase certeza.
e você vai me enveredar nesse cheiro imenso,
e eu vou andar todo esse caminho mais uma vez.

não adianta querer.
não adianta sequer mudar de nome,
apagar o rastro da minha pele com pedra pome.
não basta inventar um novo cheiro.
não basta sequer dizer não.

quando menos perceber estarei nas suas mãos,
e de novo, e novamente, e mais uma vez,
depois da escuridão terei muito pouco de mim
para fingir saber.
o por que, mais uma vez, novamente, de novo,
branca, úmida, pálida,
da noite a flor enfim entregue.

antes

no princípio era assim.
ou ao menos eu acho que era assim.
o silêncio que às vezes faz na madrugada
me lembra daquelas manhãs.
o tempo sem governo
e o barulho improvável das plantas crescendo.
lembro das folhas de chá
e lembro do sol batendo.
eu lembro quando você olhava para minha pele
e via o degradê incessante do calor e da sombra.
faz tanto tempo.
que agora eu quase que só lembro do silêncio.
era outra vida,
essa que você me ensinava,
da paz nas folhas, gestos e copos d'água.
agora estou sozinha e tenho que me lembrar,
embora quase sempre somente me reste,
o insuportavelmente alto
silêncio da sua voz.

segunda-feira, outubro 24, 2011

fiat lux

os fósforos servem para tudo.
para queimar rastros
para furar peles
para matar tudo que prospera no aço.

sem cais

afastou o vinho da boca com certa repulsa quando viu que ele chegava de madrugada.
nenhuma palavra trocada por eles selaria acordo algum,
mas ele deu a entender,
ela sugeriu,
que não viria.
a madeira da sala respirava a relativa paz de um corpo quente protegido do frio,
e ele viria quebrar o silêncio como um pedaço de pedra
cravado na pele dela.
ela pediria.
ela imploraria.
ela beberia.
ela cederia.
e entraria no universo dele de novo.
nas suas enganações, nas suas mentiras.
no seu cheiro de amora com cigarro.
no seu duro macio.
no seu suor limpo.
ela entraria.
e de manhã já não entenderia mais
o que a levara até ali.

segunda-feira, outubro 17, 2011

sincera


Nesses últimos dias estranhos foi bom ter essa sabedoria aguardente. Os cabelos daquela menina, a voz daquela menina, o seu grande casaco roxo. Nada combinava entre si. Mas ela falava, falava. Rompia a madrugada com suas palavras ditas sábias. Se não estivesse bebendo seria insuportável arcar com tanta besteira. Ela, que era a melhor daquelas meninas tão pequenas e acesas. Nem o nome combinava. Marília. Que é mar e ilha, terra, ovelha, capricórnio. E as outras. Os nomes, que a bebida grata me fez esquecer.
Foi principalmente a cerveja. Que me convenceu a dar meia volta e voltar. Mas agora também as delícias do vinho. Penso se foram eles que tornaram tudo mais interessante, ou então, eu. Não bastava escrever palavras no ar, meditar tristezas, respirar incensos. Melhor é inspirar fundo esse cheiro de carne humana, os segredos do cheiro da nuca, as dobras, os pelos, as fun-du-ras. Melhor é beber fundo, e sentir a vida azeitonando novos horizontes. Ser ateu é muito duro. É preciso algo que amacie essa carne imensa, essa noite.
É que também tem as mulheres. Eu gosto muito delas. Às vezes me esqueço, mas gosto muito delas. Eu gosto das magras, loiras e trêmulas. Procurando sempre algo na sua bolsa. Essas tem bolsas enormes. E tremem, fremem. Pálidas. Eu tenho vontade de alimenta-las, ou de engana-las. Elas duram o tempo de uma noite, e pagam qualquer preço. Elas não tem medo de quebrar seus ossos finos com a agressividade-cocaína. Mas se a manhã chega elas se desfazem. Com dinheiro (sempre) para o taxi.
E as morenas inseguras. Sempre respondem úmidas e sem jeito a qualquer galanteio. Elas duvidam das suas palavras. E jogam esse jogo silencioso que acabará em porta aberta ou medo.
Tem as de casca também. Sorrindofingindo. Normalmente dão em cima de todo mundo na mesa do bar. Normalmente já treparam com todo mundo da mesa de bar. Por que ninguém é de ferro. Essas são as mais de vidro. Se sair da pele dura e engordurada pelo uso é capaz de começar a chorar.
Não sei por que acho que entendo as mulheres. Às quartas feiras. Acho que entendo as gordas e as magras. Acho que as entendo. E quando falo com elas sou dócil e arrogante. Talvez eu saiba que é um embuste, uma cilada. Talvez eu goste de ser enganada. E goste de ter a alma bem pequena, até gozar forte e oceano, e também ser esse mistério encanto, carne alma de mulher.

terça-feira, outubro 11, 2011

Casa 1

Invadiu o silencio com o barulho estupendo de uma porta estourando a sala. Entrou amparado em suas coxas troncos em movimento. Ali, onde todos se perdiam entre olhares que já não dizem mais nada. Ali, onde o silencio se instaurou como fala. Ele ousava gritar. Seus olhos vermelhos, e os braços, arrepio daqueles braços. Ali, onde eles se desenhavam com tintas vãs, corpos languidos se espreguiçando no chão, ervas antigas e sussurros. Ele em pé. Ele homem. Ele disse – a sala é minha. A primeira sala do mundo. E agora eu vou cavar o ralo, para que esse mar indócil possa escorrer.

segunda-feira, outubro 03, 2011

déjame decirte de ti

Óculos, casinha do óculos. Copo dágua, três, um meio cheio, outro meio vazio, outro na metade. Papéis que se repetem: cedo à terra, me organizo para os organizar, os coloco iguais em outro lugar. Sobre meus dedos teclas macias. O ar um pouco carregado da tinta usada para losangos. Câmera, câmera, lente, lente, filtro. Livro, texto, sapo, sapo e ovelha. Agora já posso parar de descrever e falar o que eu tô pensando. Meu professor falou que eu só escrevo fluxo de consciencia e não sei descrever nem escrever histórias narrativas. Bobagem. Acabei de descrever um montão. Fora que me parece muito mais interessante que o Caetano Veloso cantando no meu quarto, o jeito que ele reverbera macio nas portas, o jeito que o lá fora repete um sorriso, essa doçura esparramada em alegria cruel da noite mansa. A palavra amor é muito vil, prefiro apelar para o espanhol meia boca do caetano.

sexta-feira, setembro 30, 2011

sana

quando alguém fica louco
todos os outros ficam com medo.
tem algo grande e vermelho que grita
na verdade algo branco
um muro alto, muito alto,
um muro infinito alto branco.
e é melhor que todos olhem para o outro lado.
o muro crescerá até tapar a vista,
se eles também perceberem que estão loucos.

quinta-feira, setembro 29, 2011

O freio da língua

O cloro ( grego khlorós, esverdeado ) ( 17 prótons e 17 elétrons ), encontrado em temperatura ambiente no estado gasoso. Gás extremamente tóxico e de odor irritante.”

Junto o indicador ao polegar. Contra a vontade armo arma em minha mão. Não sei de que tese é feito o seu tecido, imantado sobre minha pele. Esses olhos marrons escuros, claros, de cloro, vacinas e mantras. Minto que tento te retirar desse corpo meu, entre as unhas afiadas da mão pequena. Minto. Gostaria que você aumentasse de tamanho até cobrir meus olhos. Criasse braços galhos mil para me conter. Sentir o gosto amargo e doce da seiva escorrendo casca de árvore – a maturidade inverossímil.

Tenhas, todas as coisas que podes ser ou que planejo, sob ociosas retinas. EM silêncio, me darás a permissão para lançar mão do seu olhar para fomentar textos, cores, lagos profundos e outros planetas. O peixe escapando do rio, pulo cintilante, como se pudesse fugir da armadilha que é não dever morrer. O peixe escancarado, cruelmente cedido em farinha, limão e sol das três. O peixe vil, vingando-se em espinhos, a própria estrutura eletrocutada, hegelianas vontades. O peixe, imaginação, passagem em aberto.

Ceda-me fome, tingida de carvão e amarelo. Deixe-me rimar os acordes que saem leitosos dos meus dedos, com os seus passos estranhos. No vão do seu cabelo, fica o espaço do meu hálito. Somem as desordens dos segundos, e a ordem do minuto. Resta a conjugação do verbo: tu cloro, eu quero.

quinta-feira, setembro 15, 2011

aramaico

Eu queria escrever numa língua estranha.

como cantar uma melodia sem letra, só água.

como foto preto e branco e luz de amanhecer

como uma semente pode virar planta.

como um texto sem tema, só coisa.

ser sendo, só beleza,

nenhuma das estreitezas da palavra.

Nenhuma forma para limitar,

o que também foi maior do que meu corpo.

quarta-feira, setembro 14, 2011

declaração

Se você soubesse entrar no mar vestida, do lado de fora da sua porta. Se você pudesse abrir sua porta, e encontrar uma janela nua comendo vasos de flores. Se você pudesse achar a areia densa se formando para além do seu capacho. Se você pudesse abrir os olhos e me ver, sem que eu estivesse ali. Se você pudesse sentir o cheiro doce. O cheiro denso. O cheiro forte. Se você pudesse entrar nas ondas azuladas do cheiro, e ao final dos raios pudesse encontrar o corpo. Comer flores, sentir frutos. Se você pudesse.

Eu estaria te esperando.

terça-feira, setembro 13, 2011

música para você musicar

aqui sequer posso puxar o fio,
levar a música de um ouvido só
para a sala,
batendo delicada na parede, subindo as escadas,
bebendo a água da torneira.
eu não posso me deitar nua
e tentar entender com a coceira do tapete,
por que botão entra a vida.
sequer posso dormir
e sonhar as coisas que não pude saber.
tocar um blues não posso,
nem um samba, nem um rock.

terça-feira, setembro 06, 2011

chão de estrelas

dormir é muito difícil.
dormir é aceitar esse punhado de terra na boca.
é engolir cada formiga cavada durante o dia.
é sentir as picadas dentro das veias,
comendo o ar,
entupindo as artérias de veneno.

dormir é aceitar dormir para sempre.
dormir é cair na noite profunda.
dormir é sonhar,
e sonhos são loucuras
que a luz do dia não soube conter.

dormir é viver um pouco do maior medo
para conseguir viver sem.
dormir morrer
dormir enlouquecer.
dormir.
e depois acordar?

apnéia

escapam tentáculos purpúreos. se embrenhando. sentindo cheiros, lambuzando os dedos de matéria nenhuma. procurando, água profunda, escondida através dos cílios, da sua carne forte, do seu sorriso carnívoro.
correm para todos os lados. os cabelos se espalhando prendidos. pernas areias espraiadas.
fome obscura, retidão.
olhos escuros e claros.
olhos piscinas,
o cheiro do cloro entrando nos meus pulmões
o azul rasgando minhas tripas
resguardado pelo silêncio profundo
das mortes menores.
das doses bebidas para me aproximar,
dos cigarros suportados em sorrisos cínicos.
das mentiras manchando minha pele branca com cera pálida.
pegue leve.
eu beberei o néctar oferecido sem pensar ser veneno.
eu beberei o gim.
eu beberei o rum.
eu beberei até o fim.
sem morrer nem enlouquecer.
sem que nenhuma de nós perca o fôlego debaixo daágua.

terça-feira, agosto 30, 2011

cu

eu quero comer tinta até parar de ouvir o relógio da cozinha tocando dentro de mim.

quarta-feira, agosto 24, 2011

lodo



Os corpos brancos e arredondados das mulheres submersas nos mares de barro.

Afundam um centímetro a cada ano,

e do seu sorriso entreaberto e irônico,

vejo fumaça saindo.

Toco n'água com a ponta dos dedos,

minha língua sorve os restos adstringentes.

Cabelos cruzam meu olhar,

não posso me defender.

Tampouco frio, os mares enlodados são gelados,

simpáticos ao que se passa dentro daqueles corpos.

Passo os dedos entre os seios patéticos

e penso que deviam chamar melancolia, o que usualmente se chama mulher.

Vejo seus narizes de 15 anos marcados pelo uso contínuo do pó,

a carne descolando sincera de suas costas.

Tão frágeis as meninas mais violentas,

fragilmente violentadas,

tão loucas.

Como são poemas, ou poetas desvairados,

são como cachorros abandonados ou coléricos.

O reflexo do céu branco em seus olhos acredita alguma paz,

além mar, escuto seus rumores.

Invento no silêncio sussurrado que escuto:

para além desse pântano

um enorme planeta

onde elas possam desaguar.

Talvez seja plutão.

Os corpos brancos e arredondados das mulheres submersas nos mares de barro.

Afundam um centímetro a cada ano,

e do seu sorriso entreaberto e irônico,

vejo fumaça saindo fio de sangue.

kino

o buraco é uma toca de coelho. e eu sei que não vou brincar com ele. não vou brindar suas cores. não pisarei em sua água sem botas. eu conheço o cheiro abismal do lodo. o cheiro de nada. o ar o ar o ar. entrando na minha cabeça em excesso e me torturando em confusões conhecidas.
só o movimento pode me salvar.
e a música.

sábado, agosto 20, 2011

tempo ancião tempo

não me cabe mais o ódio. nem o gosto amargo do gin: minhas cores brancas reclamam de tais ausências de pudor. não me cabe mais o ópio: os textos bem cravados, flechas delicadamente acesas.

tampouco me cabe a tristeza, o luto velado por um maço de cigarro no fim.

já não caibo mais nas estrelas. nem nos pântanos. não caibo na lenta velocidade com que as emoções se decompõe.

nada disso mais me cabe. nos cabe.
cabe pouco, quase nada.
uma migalha de perdão para simplificar o silêncio,
o que sobrar de compaixão.

Precisamos.
somos como dois velhos que dificilmente se ajeitam
num mesmo cobertor.

quarta-feira, agosto 17, 2011

branca

não sei por que minha mão se fecha tão bruta no seu pescoço alvo. talvez seja o meu senso de proteção. que quer te dar um lar. quer te amamentar com cachaça e bom ar. o meu seio sentido, o meu sexto imenso senso, para você e talvez para mim. não sei se é a morte que te quero enfeitiçar. talvez eu simplesmente queira te matar, como um dia quis no berço a morte. talvez eu queira te conter, como se contêm o mar. mergulhar, adensar, sufocar, e sair molhada e sem posses. talvez eu queira te ferver, para poder ver a água partindo lúcida manhã por cima das montanhas longe longe. talvez eu simplesmente queira te amar. mas então não entendo minhas mãos correndo em perigo, nos errados lugares dos lugares antigos. navalhas, socos, unhas levantadas, violências amorosas e o desejo de contenção. eu devia te amar sem mãos, só bocas, umidades escusas, cheiros e curvas. as armas não letais que ser mulher me deu.

água da palavra


tem gente que escreve para poder amar.
tem gente que ama para poder escrever.
tem gente que escreve para se sentir amado.
tem gente que ama para se sentir literatura.

tem gente que só ama depois de ler,
gente que escreve para alguém amar.
tem sexos que são
como que uma palavra.
tem gestos, reflexos,
amores projetos como que um conto.

tem gente que ama para contar.
e tem gente que ouvindo o amor escreve.
tem gente que ao mesmo ama para projetar o texto que amando escreve.

tem gente que preste.
e tenta mesmo assim
viver o presente do presente de tudo:
saber amar mudo.

neméia

essa noite
costurei com as mãos uma canoa.
cacei o leão,
lambi as feridas de um deus morto.

tirei neméia das costas
e pus no mar.

essa noite
procurei no cheiro do vento
as direções negadas pelas estrelas
para chegar a sanga da praia de pedra.
a praia da selva.

lá o calor deitado por todas as coisas,
e a carne verde ficando vermelha
bananeira, manga, mim, mamão.
frutas maduras
inventando verão.

essa noite
tirei neméia das costas e pus no chão.
essa noite
cavei na minha carne o doce, o tenro e o alcóolico.
essa noite
uma fruta chamada leão.

domingo, agosto 14, 2011

#

delicada força bruta a levar meu coração embora.

sábado, agosto 13, 2011

todas as coisas que eu queria um dia.

saber abrir e fechar a torneira do pensamento.
perder o medo de barulhos muito altos.
aprender o tato sincero da ressaca.
descobrir o cheiro da solidão.
agarrar com as mãos a paz.
morder sem morrer milhão de flor.
dar-me o nome que sempre tive e que nunca ousei saber.
abrir todas as portas até encontrar.
deglutir vento.
misturar sal, vermelho, veneno e amarelo.
descobrir os caprichos do amor inseticida.
enfileirar palavras trôpegas.
achar um som para cada tipo de .
engolir o mundo sem ter lombriga.
encostar no lodo da vida
depois de mergulhar bem fundo.


vozes da minha cabeça

eu só quero que se funke-se

vozes da minha cabeça

Às vezes até eu me acho louca.

vozes na minha cabeça

santa ressaca de todo dia.

segunda-feira, agosto 08, 2011

pianista não

você pegou minhas mãos como quem corta folhas.
como quem pinta quadros na terra.
você pegou minhas mãos
e as transformou em buquês.
você olhou minha veias e disse que eu devia ser escultura.
você olhou minhas mãos pequenas
e achou que elas eram grandes.
você me olhou e não viu nada.
nada do que eu era,
mas viu muita coisa.
você viu mãos grandes
e quando você descobriu que elas eram pequenas
você foi embora.
então eu peguei minhas mãos pequenas
e montei um buquê.
então eu peguei minhas mãos pequenas
e fiz um poema.
então eu peguei minhas mãos pequenas
e cometi uma bobagem.
então minhas mãos me pareceram grandes,
e eu percebi que ter mãos era tentar entender
talvez o por que
de algumas mãos serem grandes,
e outras pequenas.

domingo, agosto 07, 2011

praça

por que que seus olhos são tristes?

vem cá, quero te ensinar a contar
as pétalas em número primo.

o sol vai descendo atrás do mundo,
fazendo carinho
com seu calor meia boca.

nessa praça tudo é tão leve doce,
as crianças põe tudo na boca.

os cachorros me olham
para eles tudo parece natural.

rima grama, sol, fim do dia.
talvez seja bobagem,
mas também rima alegria.

o mundo é muito maior,
e mesmo assim é importante
estarmos juntas aqui
balançando no ar leve.

-

as pintas do seu braço
foram pintadas à mão?

declaração

eu quero saber da piscina.
da margarina.

eu quero saber de você.

-

hoje acordei com os dentes cheios de bobagem.

-

dar descarga denuncia minha presença.

quinta-feira, agosto 04, 2011

-

eu queria te ver mas você não passava de uma imagem balançando sobre meus olhos.

quarta-feira, agosto 03, 2011

dia ruim

não sabia como começou porque aonde que merda. quando que a mãe de repente estava com as mãos no seu pescoço, gritando algo, coisas bíblicas, pássaros. quando que jurou de morte, expulsar de casa, sangrar os bois. não sabia.
talvez tenha começado quando a mãe ordenou que subisse as escadas para pegar um casaco para o pai. e ela respondeu que pegaria sem problema, não precisava de ordens.
talvez tenha começado aí.
ou talvez quando olhou o olho da outra e viu labaredas.
quando estendeu os braços e disse em voz firme.
eu vivo
e estou aqui.
essas palavras eram demais para a mãe,
que vivia na psicose de que era a única pessoa real de sua casa,
e que podia manipular os familiares como títeres,
uma vez que se não cumprissem com suas estipulações absurdas
ela se mataria.
quando a menina olhou em seus olhos e disse - eu vivo e estou aqui,
a mãe reagiu como reagem todos os ditadores,
o extermínio.
mas a violência de uma mãe contra uma filha era algo que a razão não era capaz de explicar.
não sabia como começou porque aonde que merda. quando que a mãe de repente estava com as mãos no seu pescoço, gritando algo, coisas bíblicas, pássaros. quando que jurou de morte, expulsar de casa, sangrar os bois.
não sabia.

movimento

ouvir a mesma música
escrever o mesmo texto
até que o movimento tenha se completado.
talvez gritar as palavras dispersas no peito
seja o mesmo
que desenhar um círculo com os pés.
quiçá falar da água
seja como chorar
emoções inventadas e contínuas.
sentir no contratempo da massa,
lamentar um cinzeiro,
lamber as feridas do sol,
encher o asfalto de sal.
comer folhas de dor,
escrever tintas de rios,
encontrar no silêncio
a perfeita desculpa
para poder falar.

marcas marcadas

quero insistir até te entender,
pelas mãos.
quero encontrar as cores que matizam o seu passo.
quero te servir os cheiros das amoras
imbuídas no espírito do álcool.

certezas maduras
são lentas e brancas.

no porto

você aprendendo a falar,
e eu te olhando entre os dedos.

é tão difícil te ver partir,
de um lugar que você nunca esteve.

quero pintar as estrelas com outra cor,
testar o paraíso com as próprias mãos.

ainda balbucio o seu nome nas noites mais frias,
e minha voz se confunde com o vento.

véus negros rompem os meus olhos,
é tão difícil dizer adeus.

terça-feira, agosto 02, 2011

serindo

sem razão.

sem ódio sem cor.
sem mérito.
sem porque,
indecisão.

assim são as coisas,
perdidas num mundo sem ordem
sem deus.

talvez por que haja tanto motivo para chorar

rir bonito,
rir azul.

rir um sol no dia de domingo.

rir de verdade,
rir de profundo.

de lágrimas feitas já existe o mar.

quarta-feira, julho 27, 2011

deserto

se eu tenho medo 'e bom olhar para o sol.
se tenho vontade de parar
percebo que minhas pernas continuam.
se o silencio me assusta
percebo que ele 'e feito de musica.
o deserto 'e feito de noite,
se o calor 'e insuportavel
me nutro dos seus lencois escuros e frios.
o deserto se repete a cada novo horizonte,
de passos que nao podem mais parar.

quarta-feira, julho 13, 2011

hortelã

novos ares te acompanham vindos do meu hálito.
se você quiser eu posso te chamar para dançar,
batizar suco de amora com gim.

segunda-feira, julho 11, 2011

sempre o mesmo

essa [água toda não tem pra onde correr
as horas passam represas sob meu nariz
barricadas
vazamentos
gotas gotas d'água.
se anoitece eu desenho um aquário com meus dedos,
e dou um pouco de paz à esses peixes.

louca

uma quase alegria sussurra meu nome.
ouço o barulho das muletas atravessando o terraço,
se misturando na terra úmida.
conheço o som dos besouros
e das bebidas ácidas.
você bate as cinzas do cigarro e olha fundo.
vou desvia-los e acreditar
no som, no som, no som chegando.
eu vou acreditar no sussurro da alegria.
eu vou surgir
palidamente vermelha
mais raia que o dia.

domingo, julho 10, 2011

truques de facas

ponho uma mão na frente e outra atrás.
anestesio possíveis mal-estares com aspirinas.
canto, rio, até falo.
olho pro seu olhar de esguelha,
e fujo inevitável quando o ar se fere
desse nosso possível encontro.
minhas calças vivem caindo,
e faz tempo que eu tomei banho pela última vez.
estou com o rosto inchado do algo errado,
espinhas, anemias, palintomias.
embora meus dedos se movam em sua direção,
e digam em novos dias
essa noite eu sonhei com você.


tietê

eu quero viajar, quero me safar, quero dizer com todas as letras Essa Merda. Sem culpa no cartório ou peito. eu quero ir, e nunca mais voltar. eu quero ir, sem saber o que já sei. que essa cor, esse tejo, não estão nas coisas, madeixas e merdas flutuando no tietê, mas dentro. talvez tristeza, quiça algo além.

sábado, julho 09, 2011

i ching

anemia emocional.
enche a boca de farinha.
tinge cada estrela de carvão.
trás na boca a marca da fome,
e no estômago a invariável náusea.

perguntei ao velho magro o que fazer,
ele disse que era necessário que a casa caísse
para que eu pudesse me levantar.
a alma cabendo nas estreitezas
e larguras do corpo.

lar estrada

todas as coisas boas que a escuridão esconde,
que só ao tato cabe saber.
as curvas contínuas e derradeiras
dos morros na estrada.
o sol nascendo nas beiradas,
por trás dos bicos de seio
a caminho de casa.

quinta-feira, julho 07, 2011

azul bandeira

Quando você pisca esse azul bandeira para mim,
eu percebo que sou um pouco louca,
só por que sem querer você me empresta seus olhos.
Não adianta,
os dias vão seguir nessa sucessão embaralhada,
de nenhum lugar para lugar nenhum.
Enquanto você constrói palácios de cristal,
castelos de carne e osso.
Enquanto você passa com pressa me olhando de esguelha.
Eu brinco de modelar o chão, lama, areia e grama.
Nós dóis somos tão diferentes,
e nos queremos tão bem,
que às vezes eu até lembro
que vidro é feito de areia.

sábado, julho 02, 2011

simnão

às vezes sobra um sopro,
um acorde maior
com vontade de ser sustenido.

às vezes sobra um assobio,
um irrito quase calado
de um ato que não convém.

às vezes sobra um hiato,
o espaço cavado
em prosa e pressa
entre um encontro que vai
e um desencontro que vem.

cheguei em casa com as botas cheias de lama,
pensando a cada passo,
assistida pela lua.

pensei numa alegria,
ou quiçá senti.
meu coração palpitou, sem saber.

e eu pensei,
que mesmo com tanto desencontro
a emoção balbucia um encontro.

palavras bêbadas
de uma boca geminiana,
a síntese é rala:

às vezes o encontro acontece,
e pode durar um dia,
um feriado, um segundo prolongado,
um milésimo.
às vezes, tão raro,
e mesmo assim se esquece.
com a pressa do desapego da grande cidade,
um encontro e um silêncio denso criado depois dele,
dilatando nostalgias de estação.


um sorriso no meio da escuridão.

quarta-feira, junho 29, 2011

zahir

talvez nua, perdida no sem tato da escuridão
suspeitar um jaguar passando
no vão entre os dedos.


seja lá o que for

as sombras do amor deixadas no corpo.
a ressaca dos excessos.
olhar atravessando a porta,
o toque fazendo curva.
a secura de um silêncio desfeito.
a umidade do som.
coxas espalmadas,
espanto em palmasdalmas.


segunda-feira, junho 27, 2011

cronos

ouvi um relógio tocando lençois,
gritando números imaginários de fila de espera.
ouvi seu rumor, lento anticoração,
conclamando o mundo a uma só ordem.
ouvi o silêncio responder a cada batida com estupefação,
ouvi as gotas vazando em cima do tapete.
ouvi os segundos passando em semáforo e areia.
vi saturno estalando os dedos,
e caçando seus filhos a agulhadas.
senti a dor profunda do tempo pedindo por seus nove homens e mulheres,
olhando para o ar, na fila do horizonte.
segui os ponteiros,
que apostavam corrida uns com outros,
eterno retorno ao mesmo lugar.
olhei o relógio na minha mão,
olhei o relógio no meu peito,
e senti que ele era dor,
dor de algo que não é tempo.

quinta-feira, junho 23, 2011

6 da manha

e de repente ir numa festa e ouvir uma menina completamente adequada-linda falar do andrezinho, e de como - não - sei - que - não - sei - que lá. tamanha besteira, ali explícita na sala,
entre a poltrona bege e o tapete peludo. entre a casa perfeita e a vida perfeita.de repente sentir tão errada, e sentir tanto ódio. os papos mais imbecis. um machismo explícito. as meninas dançando michael jackson. os meninos bebendo red label. fim da vida, aquelas cores tão adequadas, cinza queimado, azul petróleo e bordeaux. bordeaux e não bordô, magina.
pequeno suicídio, amanhecendo pequenas vontades de abstinência, pavor e medo.

segunda-feira, junho 20, 2011

beijo partido

quando você abre dois dedos da janela e me olha passar
eu quase penso que você também é capaz de sentir.
quando você abre dois dedos da janela e me olha partir
eu quase penso que talvez isso seja o amor.
quando você abre dois dedos da janela para se esconder
eu quase penso que um dia tudo isso vai virar
uma onda enorme e carregar
a janela, a rua, a casa,
e até eu e você.

quarta-feira, junho 15, 2011

ar

o que você quis,
e eu tentei entender.
vendo as formigas subirem com paciência,
as mãos marcando o vidro embasado.

eu quis poder te dar algo para beber.
mas eu nunca soube se você preferia vinho ou cicuta.
eu quis tapar suas feridas te olhando.
mas elas eram escuras.

quando o barco partiu,
tudo ao meio deixou,
o resto virou mar
o além, já nem sei.

e isso ou aquilo
enfim
naufragou.

esse foi o começo do fim.

segunda-feira, junho 13, 2011

besteira

castiçal de aço não quebra. ele pensou na dureza dessas palavras e as lançou no ar: passarinhos de muitas cores apontadas: flechas. nada era inútil para aquele intuito. o vinho borbulhava o vermelho do céu de cólera. ariadne gritava presa no labirinto, implorando perdão. era soda cáustica o karma espalhado sobre suas palmas. o fio anoitecia os desígnios. tudo que era sabedoria matéria de se perder. mirava o topo da janela e o corvo transparecia indiferença no olhar. mas ela sentia que se movesse mais uma pena ele devoraria seu fígado.
então ela passava as tardes olhando para ele. aflita. implorando por suas penas. rememorando o tempo em que ele permitia seus passos. lembrou do vôo, da queda, do coice. lembrou e quis de perto o corvo. passar os dedos sobre seu bico aflito. a penagem afiada. quis antes o tudo. e talvez se cansara. embaixo dos seus pés o labirinto era o mundo. acima, o céu infinito - inacessível.

terça-feira, junho 07, 2011

poxa

tão bom ver as coisas doces que houveram entre nós.
feixes de sol invadindo a sala.
mas se esse calor encarna em saudade,
é uma pena,
você fala coisas duras,
coisas escuras.
e eu me fecho,
transformo a doçura em território intransponível.
talvez você ainda me odeie,
e eu ei de compreender.
mas será que você não percebe,
que a gente só odeia,
quem a gente ama?

segunda-feira, junho 06, 2011

trouxa

eu sempre soube que quando eu olhava para o lado você roubava minhas coisas.
eu sei. sei que é uma acusação forte. mas não há de haver peso, quando nunca antes houve.
quando você roubava meus lápis vermelhos,
minhas borrachas persas.
quando você roubava meus encontros,
meus desencontros.

foi quando eu percebi que você queria roubar eu
que me apaziguei.
que você queria ser outra coisa
que não era você
e que talvez fosse eu.

isso você nunca vai ter.
a água quente e lenta de um ser em suas diferentes facetas.
nem monet pode com isso.
então te dou de presente todas minhas coisas.
te dou meu estojo.
te dou até meu coração.
para que você possa fazer mais do que pode,
para que enfim você possa roubar algo legítimo,
no mínimo - a vida do instante.

domingo, junho 05, 2011

lua vazia

Não sei porque estou tão forasteira.
Tão esquiva ao toque,
curtindo em madeira nobre
o gosto estranho dessa solidão.
Não sei daonde veio e pra onde vai.
Não sei onde meu gêmeo foi se esconder.
Não é frio,
não é cansaço.
É o imperativo do só,
dama de copas quietinha no seu castelo.

sábado, junho 04, 2011

soluço


sobram passados
inconcebíveis.
vicejam futuros,
nus,
brancos,
deitados implacáveis
no olho do olho de tudo.
não sei porque
quando falei dele chorei.
algo me escapou,
como a ordem,
como tudo em seu devido lugar.
sentir embaralhou o antes e o depois,
e repentinamente,
lembrei do agora.

sexta-feira, junho 03, 2011

common reaction

finja saber e te surpreenderá amanhã o gosto propenso de uma flor mastigada em cada pétala. o som branco se rompendo entre seus dentes. a carne tenra adentrada por seus dedos. não me engane saber o gosto salgado da escuridão. nem tudo se conhece, nem tudo se compara. você só conhece aquela música, não me venha com palavras soltas. seus acordes maiores são bobagens soltas no ar. eu te olho acordada e sei que algo te escapa. e meus dedos. procuram, tocam, embaixo de lençóis infinitos. sua brancura me machuca. a areia do seu beijo rompe o segredo da minha pele. nada disso restará depois de vento passado. você acorda. e nunca ainda saberá.

quarta-feira, junho 01, 2011

aquilo

ela: delicada, quase vinte anos, contando ladrilhos azuis esperando por ele.
ele: do tipo sempre atrasado, com a barba imberbe e orgulhosa dos 18 anos e meio.
eles: olhando-se tímidos enquanto a mesa girava. - que faculdade cê tá tentando prestar? - girava - prefere bigode ou barba? - girava - bebe mais uma? - girava - gim com limão - girando.
e ali, num fundo de garrafa qualquer
restava o essencial preciso
entre o Antes, e o Aquilo.

Antes de todas as intenções se desabrocharem com o teor do álcool,
em cama, língua e esfinge.
Aquilo que é mais que nada,
muito menos que tudo ainda que nunca será.

banais os copos vazios,
os assuntos estraçalhados em plena terça feira,
a inútil madrugada.

entre o Antes, e o Aquilo,
humilde reinava,
em cheio o instante.

sábado, maio 28, 2011

aniversário

sempre achei que fazer aniversário era uma coisa meio boba,
outros desses marketings que vão colorindo datas ao longo do ano.
sempre atendi os telefonemas do dia 28 da minha tia avó bem velhinha
com aquele sorriso maroto de quem não compartilha a velhice.
fazia cara de tacho quando cantavam parabéns e me esbaldava de bolo.
nunca achei nada de mais
e no máximo aproveitava para ver as pessoas queridas,
para poder pedir pros pais aquele presente mais bacana.

mas esse ano não.
fui no supermercado comprar umas coisas para o almoço
e no meio de um turbilhão de coisas fiquei super feliz de estar viva.
parece um pouco patetice, ou comercial de margarina,
mas não é.
talvez seja sombra da operação do ano passado,
das tristezas vividas e contornadas,
desse ano tão estranho e cheio de novidades.
dessa sensação aguardente de aos poucos ir ficando mais velha.
é.
foi um ano cheio da solidão de ir adultecendo.
e de repente o sol voltou para o mesmo lugar que há 23 anos estava,
quando eu nasci.
e talvez eu tenha sentido que esse ano foi tão difícil quanto o parto,
com cordão umbilical no pescoço,
demora e medo.
mas daquela vez eu tava lá,
e hoje também estou aqui.
e isso é bom, é feliz.
e acho que é isso que é fazer aniversário.

sexta-feira, maio 27, 2011

pai,

eu sei
que é possível ter coração
numa cabeça em ordem.

é rio de água transparente,
correndo entre as pedras
cada uma em seu lugar.

a água não para de correr,
e no entanto, tudo se move,
enquanto alguns pedaços de erva se escondem.

na água transparente
também há dores, amores, quimeras.
há esperas e curvas feitas mansas.

já a minha água tem pressa,
às vezes é tempestade balançando as janelas,
as vezes refresca chuviscos de primavera.

às vezes é lago profundo e negro,
onde caem troncos, musgos e pedras,
e cada coisa lenta se decompõe na escuridão sincera.

às vezes minha água é preguiça
fazendo curvas e volteios indecentes
em sua falta de praticidade.

mas minha água vai,
minha água corre,
segue, sempre, o caminho tortuoso da vontade.

é belo, e sempre dá saudade,
quando a sua água prática
encontra e minha água amansa
e finalmente juntas,
pro mesmo mar elas correm.

mirko

uma vez eu conheci um menino cigano.

os seus olhos eram bestas-feras
e fugiam com asco do meu crivo forte.
o seu cheiro desprendia das pregas da roupa vermelha,
o seu perfume arisco
de suor e cerveja.

perguntei com voz grave dos seus pais,
e ele me fitou em silêncio.
eu passei as mãos em sua ferida aberta,
ele tomou o braço só para si.

eu quis passar meus dedos por seus cabelos negros e sujos.
dizer não se preocupe,
querido menino ébrio.
mas ele me olhou profundo olho
deixando-me quieta em toda minha tolice.

ele já se salvara da loucura,
agora deveria restar apenas solidão
música,
talvez azar,
talvez sorte.

quinta-feira, maio 26, 2011

muda

mudar foi o que pude,
o tempo -----------
e acabei ficando muda.
para ter tato
é preciso que a vida se apresente.
A vida - de frente,
que eu me apresente a vida.
Querida,
aqui estou de repente.

quarta-feira, maio 25, 2011

um pouco

eu queria mais
as palavras brotando como garranchos do meio da minha mão.

domingo, maio 22, 2011

pois é

tudo tão pequeno.
tudo tão mediocre.
eu lembro.
eu lembro - da manhã acesa
eu quase lembro
daquela casa pronta.
eu lembro
de uma carona
de fusca amarelo.
nem sei em que vida foi,
sei que foi
que foi até o fim.
eu lembro
do dia ser belo.
eu sei
do sol amarelo,
o gosto
daquela fruta seca.
nem sei em que vida foi,
mas na cachoeira
sereia ia, sereia vinda.
E era,
entre cervejas,
o gosto
acre da bebida
nos era
possível -e assim
éramos nós.
E hoje,
tudo impossível.
Os filhos,
e também o alcoól.
eu lembro daquela quadra.
daquela cor
e era eu
e era eu
e era quase um nós.
faz tempo e é impossível conter:
todo esse tempo num ser.
e era eu,
e era nós
e era o tremendo poder.
era o silêncio de ser,
e era belo.
e ainda é.

sinta.
e sentirá.

sexta-feira, maio 20, 2011

solidão parcial

era possível pedir um vinho, uma cerveja, um café.
era possível se sentar num sofá, numa cadeira,
se sentar no chão.
era possível conhecer alguém no mesmo dia,
ou um amigo de anos, ou um irmão.
era possível conversar a noite toda,
sobre todos os assuntos,
cantando qualquer alegria.
era possível algo no violão,
falar uma frase.
era possível ultrapassar o limite exato do ar,
deixar de falar de ontem, de antes de ontem, de antesantes de ontem,
e entrar na lógica estranha e sincera do agora.
era possível deixar a água se infiltrar nessas paredes,
inflando o tempo de um olho que olha o outro,
silenciosamente preparado
para o surpreendente isso.

terça-feira, maio 17, 2011

sábado, maio 14, 2011

folhas secas

às vezes paixão tem forma disso.
às vezes daquilo.
lagartixa subindo ligeira a parede.
gota descendo devagar a folha d'árvore.
às vezes é chuva no deserto, intempesto.
às vezes a tempestade só existe dentro do peito.
outras ainda é dia de sol.
às vezes dá certo,
às vezes não.
às vezes é gay, às vezes é hetero, às vezes escorpião.
paixão é dia de circo,
escolher bem o lugar com receio das bestas feras.
paixão é dedo na garganta,
é olhar inteiro,
é se perder na corrente do outro,
morrer um pouco,
e renascer
com sal e gosto.

quinta-feira, maio 12, 2011

plie

se eu fosse dizer que não, eu estaria mentindo. e mentir faz mais mal do que fumar. eu vejo o mundo entrededos, e às vezes, vejo ela dançando. não sei se ela sabe que a vejo, que roubo esses instantes de beleza clandestina, chuva no deserto. ou se ela sabe e dança ainda mais bonito. toda segunda feira ela está lá, e eu também. a minha função é outra, nós sabemos. escrever, fotografar, registrar. e ela ensaia ao lado, como se o mundo tivesse parado para ela dançar, ou o contrário. as meninas que tenho que fotografar fazem poses, querem se sentir bonitas, Mulheres. querem ser conscientes de cada passo dado, e ficam um pouco ridículas. ela não. não quer ser consciente de nada, acho. ela fica rodeada como se estivesse nua. às vezes os nossos olhos se encontram. e eu quero muito que ela saiba que assim digo: coisas azuis, aspereza da areia, longidão do céu, luanda, alcaçuz e breu. mas também: vermelho, maciez da pele, umidez do tejo, terra ardida, lama, lama perdida. ela me olha de volta e fico na dúvida. se ela soube tudo compreender, ou se diz outras coisas, outros silêncios. se ela escancara nos olhos o ser Outro, ou se ela também, me convida.

eupele

foi tão difícil começar a andar. a terra girando em volta do sol, corte infinita. e os músculos juntando os pedaços. eu lembro dos gritos dados a noite, quase os escuto. lembro das rodas do carro girando cada vez mais rápido, como se pudessem fazer rodar a água parada de dentro - a má água, a mágoa. se foi difícil parar de chorar, mais difícil foi recomeçar. tocar com as pontas dos dedos a ferida, olhar no espelho e falar em voz firme, embora doce - estou aqui. se o gosto amargo da bebida foi difícil, mais difícil ainda voltar a beber. ainda assim caminho junto de mim. depois de tantas rodadas inúteis, rostos vividos no anonimato. se pedir eu vou, aqui estou - de fato.

domingo, maio 08, 2011

tempesto

às vezes, quando o mundo se distrái e faz um pouco de silêncio,
eu percebo algo de sentir.
sinto o som salgado, e abro bem as mãos esperando ele sair.
agora estou aqui,
de olhos abertos,
em cima do meu mundo.
aqui eu me alimento das folhas das parreiras
e bebo sem reclamar da água salobra de rio e mar.
não é de chorar esse sentir, nem de rir.
é de ser só travessia,
ser o sabor
asfixiante,
a quase morte
de deixar a tempestade viver em mim
e nutrir-me do raio.

sábado, maio 07, 2011

pinga

vão os músculos, casa da vontade.
ligeiros, subindo paredes.
vertigens, bebendo coragens.
vão os homens,
passam mulheres, cachorros, gatos.
passam na madrugada as gentes.
despidas de qualquer verdade.
dançam na noite em carros,
alcoolizados.
em festas,
combinam passos de astronautas.
lixam as paredes com suas unhas.

a noite tudo é vontade,
tudo é ir e voltar,
encontro e desencontro.
matéria de sonho,
a escuridão aguardente.
presentifica o ante-desejo.

terça-feira, maio 03, 2011

madrugada

eu lembro de uma madrugada que eu passei na varanda do décimo segundo andar, ouvindo música, com um espelho na mão. na época quase tudo era composto da mesma solidão roxa das madrugadas. eu era criança e ninguém queria conversar comigo nada além do banal, do imediato. eu acho que as tardes eram assim também. como olhar o mundo mudando rápido em silêncio, do alto de um farol, esperando o sol aparecer. naquela madrugada eu precisei de um espelho pra me enxergar. hoje talvez eu precise de uma lanterna. naquela época eu sentia que ninguém sabia quem eu era. então eu inventei no espelho o outro que me olha e reconhece. hoje eu sinto que eu não sei quem eu sou. um espelho serviria apenas para adensar esse susto. talvez se eu tivesse tempo. se eu tivesse uma madrugada inteira para acordar. se eu tivesse tempo para abrir os olhos no cheio da solidão. talvez eu lembrasse o meu antigo nome.

segunda-feira, maio 02, 2011

espadas

quando você atravessar a grande água,
eu vou ter que ir embora.





talvez depois você pense que eu nunca existi.

quinta-feira, abril 28, 2011

instantâneo

quero fugir dentro dessa foto furta-cor.
voar perdida no corredor em correntes de ar,
afundar o pé em lama plástica.

elástica,
menina.

quero esquecer os nomes
que me atormentam a noite,
quero atropelar as ordens do dia.

quando tudo ficar por demais complicado
quero me enquadrar
por onde a luz entra bem.
deitar nas faixas amarelas sob o chão cinza,
nas estrelas acumuladas
em segundos roubados da objetiva.

furta cor,
o tempo num instante,
o teu olhar distante.

elástica,
menina.

quarta-feira, abril 20, 2011

de chirico


quis eu fingir estar sozinha nessa planície imensa.
o maciço das suas coxas voltavam, voltavam.
zuniam sobre minha cabeça.
negava a ti,
com todas minhas coisas a fazer nas mãos.

a criança entrou em sombra e pegou minha mão.
falou macio, como a pele, como os olhos, como os ossos, que eu tencionava ignorar.
- você mente.

quando a verdade me tocou olhei para o horizonte e você havia partido.



(quis eu fingir não estar sozinha nessa planície imensa).

sábado, abril 16, 2011

noves fora zero

se eu pensasse porque gosto de você proporia uma competição incoerente de atributos que em nada elucidariam a verdade. poderia pensar em afinidades, no som das plantas crescendo, na alquimia calorosa do cozinhar.
tantas bobagens.
eu gosto de você porque me sinto nova,
recém nascendo densa e imersa
a cada presente sucedido
como se não houvesse o depois
nem o antes.

quarta-feira, abril 13, 2011

ou não

mal sabe que ao falar
trama as águas salgadas em que irei mergulhar.
conhece o gosto dos morangos, a cica vertical dos kiwis, a doçura, a cor, e o tecido da manga.
já sabe em cima o céu abaixo a terra ou mar.
quase sempre se perde
nas amarras abstratas do pensamento.
suas cores são vermelhas, marrons, brancas e pretas.
ou então azul tão profundo que se olhar muito é de se perder.
fora há um mundo factual, perfeito se ninguém o olha.
entre há todos os sentidos a deformar as coisas dessa terra.
dentro há algo que não se toca, não se sabe, não se vê.
dentro há o fora, há o entre, e há o dentro.
entre agir, cuidar, pensar, sentir,
antes,
me perco
onde termina o corpo
e começa a vida.

segunda-feira, abril 11, 2011

são eles

na porta do hospício nasce uma erva, encruzilhando dúvidas no entrar e sair. as cores utópicas daquele lugar branco bege no máximo marrom se infundem de verde. os internos mascam, os funcionários fazem grandes panelas de sopa. o jardineiro teima em podar.
quanta bobagem, a erva sempre volta a nascer,
e os loquinhos ficam olhando pro lado de fora sabendo que quem está do lado de fora
são eles.