Anos passaram sem que eu soubesse a cor do seu sorriso.
Os seus olhos opacos
não guardavam espaço para universos.
Os livros e as viagens pareciam esquecidos.
Ela não sabia mais meu nome, penso.
Essa foi a primeira grande dor.
A segunda foi outro tipo de esquecimento,
quando o coração se torna um pouco míope,
para amores menos desenvolvidos.
A última vez que ela me viu,
embora eu já não tivesse nome,
ela sorrindo me enxergou.
Foi quando eu toquei violão na sala.
Nos encontramos no macio do instante.
E eu me tornei por mais uma vez sua neta,
afeto sem nome,
só calor.
Hoje quando a família uniu-se em ombros para ver seu rosto,
foi sob uma tristeza branca,
compreendendo a natureza da partida,
de morrer e viver,
- e que não há nada para compreender.
Seus olhos eram os mesmos,
sem vida.
Porém,
naquele objeto rarefeito que a nos se apresentava
havia algum tipo de luz
incomum nos mortos.
Era o nosso afeto.
De uma família inteira reunida
tecendo as memórias
para que se transformem em despedida.