sábado, março 10, 2007

bolero de ravel

(pra se ler como se a tia velha lhe desse um relaxamento daqueles bem persiana-oriental)

- de repente o corpo,
seguindo os fluxos do mundo,
vai se envolvendo em si mesmo,
murchando,
passando o ponto.
torna-se repentinamente esquálido,
os lábios, os músculos, tornam-se acinzentados,
e, de compasso em compasso,
vão perdendo seu sentido.
o que era antes carne putrefata e antiga
torna-se o pó sem vida do tempo,
a forma que antes envolvia os tecidos comprimidos
desfez-se nos desenhos que o ar, a gravidade,
(e invariavelmente o destino),
desenharam ao chão.
do pó, rasteiro e raro,
o vento fez o vazio.
e o vazio, que já era pouco, assim ficou.

Um comentário:

carlos drummond de andrade disse...

"A alma cativa e obcecada
enrola-se infinitamente numa espiral de desejo
e melancolia.
Infinita, infinitamente...
As mãos não tocam jamais o aéreo objeto,
esquiva ondulação evanescente.
Os olhos, magnetizados, escutam
e no círculo ardente nossa vida para sempre está presa,
está presa...
Os tambores abafam a morte do Imperador.
"