segunda-feira, setembro 21, 2009

42

o quarto branco retumbava qualquer som.
houvesse gota ou sussurro.
o homem das prateleiras levantou o dedo e todos tremeram de medo,
anonimidade de destino, controle indesejável de acaso.
a voz grave do homem, como todo o resto, retumbou.
- número 42.
silêncio de precariedade no quarto branco,
só um respirar mais denso escondido por tantos corpos.
os números assustados foram abrindo prece, deixando nuzinho no fim da fila o 42.
era um homem negro e magro, com as carnes carcomidas de fome, os olhos secos de tristeza por demais antiga. o corpo todo demonstrava todas as fraquezas que podem dar no fora, as marcas e marcas de muitos homens por demais crus. a mente acesa nos olhos, entretanto, o andar de quem engoliu o mundo, preferindo que se cuspir.
o negro era além do corpo que o possuia,
causava o espanto nas pernas que a ciência disse que não o sustentaria.
a fome assentada em esquecimento,
e mais uma vez,
a mente acesa nos olhos.
a voz grave do homem inqueriu.
- e para que porta pensa que vai?
o negro em pé olhando as portas.
o negro com os olhos mudos.
o negro existindo com as duas pernas negras tremendo,
o negro para além das pernas, sendo.
não precisou juntar as forças para continuar a andar,
seguiu os próprios passos com paciência e passou o umbral da porta direita.
a voz grave do homem se calou satisfeita,
o homem negro não precisou pensar.

Um comentário:

Maria Negrão disse...

Tem sido difícil escrever nos ultimos tempos.
Mas você anda bem