quarta-feira, março 30, 2011

Je suis folle

o riso da maldade desce tão seco quanto esse litro. o cinzeiro cheio sugando o ar, a única luz caramelo, não sei como tudo acabou assim. aqui, os labirintos na minha cabeça parecem muito naturais. estou sendo má, porque cansei de ser louca. raspei as unhas no cal até chegar na carne. vi o sangue aflorar como nascem as plantas. e entendi.
agora sou má da paz de ser louca. mulher, na calma de ser eu.
é preciso muita calma para ser mulher. é preciso enfim muita paz para ser louca.

domingo, março 27, 2011

julia

por trás dos seus olhos maquinavam os ossos da memória. entre os passos duros no piso de madeira, ouço seus planos. Ela me olha dentro dos olhos e não lembra meu nome. sorri como se me conhecesse. ela sente que deve ter o dever de me conhecer.
Ela finge. sua boca aberta expele generalidades como uma vela que consome o pavio. seus olhos mudos, inertes. através deles vejo a intensa atividade cerebral. Ali, à minha procura. revive cores e cheiros. procura jogando no chão do quarto todos os pápeis inúteis das gavetas, cada festa um cômodo esbranquecido, entre contatos tão efêmeros como esses e bebidas dos gostos mais variados.
sua boca fruta à mostra, aberta, depois de ter caído voluntariamente no chão. sua boca mamão, quanta bobagem caroços esparramados. extiro-me na relva ainda úmida e quase divirto-me preguiça de seu esforço vão. sei que vale a pena que se lembre de pedro, no outono, com seu cachecol vermelho quase vinho. que se lembre de marcinha, de suas tatuagens e quantas besteiras. do dia em que no concerto era quase carnaval e para ela era silencioso como uma manhã cinza de chás cidreira, vitrola e alguma espécie de paz.
Embora ela não olhe no olho de nenhuma dessas salas-casas ela olha para mim Embora ela não olhe para eu. da cozinha gritam alto seu nome. ela ainda nada diz e eu ainda quase nada sei. exceto que ela pensa que me engana e parte satisfeita. Também estou satisfeita. não importa-me que não saiba um nome que sequer é meu. me importa que me empreste seus olhos mudos e suas maquinações, para que eu também possa falar besteiras, bobagens e outras poesias.

saturno

tudo no agora se conhece.
é esse senhor muito sisudo que sabe as coisas que desconhecemos.
hoje ele deixou essa casa carregando um faisão.
não sorria. senti em seus olhos que suas expectativas eram outras.
em dois anos ele retornará,
talvez me leve embora.
talvez ele me devore inteira,
um mandrião revolvido em aspargos e molho bechamel.

ou encho seu bucho de pedra
ou correspondo
a cada milímetro neurótico, terraqueo, funesto.

sexta-feira, março 25, 2011

voar

eu sei que eu te assusto empoleirada nesse alto de mim. pássaro enorme negro, ou ancião nu. eu sei que extraio seiva do ar que fica entre nós, e gorjeio se assum gorjeia: perdão.
vocês dois geléia de damasco. porta vermelha, retrato. gosto de gim, gosto de vento, gosto de mato.
vocês dois planície caverna.
saí vendo as nuvens passarem entre os abertos braços. saí música. saí pássaro.

quinta-feira, março 24, 2011

estória

Era tudo mentira. Eu te disse e você sorriu molinha como se já soubesse, como se soubesse todas as vezes que eu menti pra você e passasse as mãos na minha cabeça querida-menina-maluca. Finalmente, eu pensei. Alguém que entendesse, que nas veredas tortas das histórias que eu inventava, não havia traição, não havia a vileza tradicional das mentiras, mas sim a intenção carinhosa de te mostrar um mundo mais azul. Ela ria pra mim, enquanto eu me perdia nesses labirintos. Eu falava muito, e era muito jovem. E ela ria como se eu fosse uma criança me sujando com as tintas vermelha e amarela.
Mesmo quando a gente dormia junto ela tinha esse jeito. Passava os dedos entre meus cabelos suados enquanto eu inventava prazer onde antes só tinha dois corpos iguais, espelho transcendental.
Eu não sei bem onde ela me achou, ou eu achei ela. Ela quase nunca falava nada, e ria, ria. Ria das molecagens que eu sabia a supor feliz. Escondendo sempre minha também velhice, nos olhando atenta, como o tempo que passa no ritmo contínuo e exato de uma cadeira de balanço.

quarta-feira, março 16, 2011

lobinho-guará

abre suas asas lobinho. disse para a menina doente com olheiras e fraquezas por baixo dos olhos.
abre suas asas lobinho, deixa esse catarro pra lá e vamos voar.
chá não dá pé, pé é que dá. vamo que vamo,
esconder as cidades sob o peso dessa omoplata.
eu te dou uma pena nova, de pavão ou tiê sangue.
abre suas asas lobinho, você não precisa nem sair dessa cama.

terça-feira, março 15, 2011

ódio

eu tenho ódio às vezes. coisa do coração descarrilhar e ir batendo carro-velho-em-cada-buraco-da-estrada. a terra vermelha é seca e sobe, cega os olhos, nubla, e deixa na boca esse gosto seco por sangue. minhas mãos se fecham e coçam, coçam. embora você não esteja aqui te vejo passando-sombra-na-minha-calçada. você não é nem um pouco flor, e cheira a caatinga de homem bruto. se for pra te regar é com cachaça. se for pra te carregar é embora. te ódio, ódio, odeio. embora ame. mas é coisa passageira, de dirigir e às vezes perder o freio.

sexta-feira, março 11, 2011

o pé

Cala a boca.
Você fica aí se olhando entre os cacos de vidro que sobraram no chão da sua casa e ainda me diz que tem medo de se cortar.

purgatório

Eram anjos azuis. Eles dançavam zonzos com os olhos tortos, embasados um dentro do outro. Eram anjos tortos. Suas mãos escorriam entre os copos de água forte. Seus pés escorriam. O suor escorria por seus corpos inteiros, limpando, limpando. A cada volta ali corpos branco e moreno rodando contra a escuridão de um chão sem luz algo se deixava. Voltava a volta, a mãe se ia, volta ia volta, ia-se o bairro, volta que dá, o pudor, o sapato. Ali atração e repulsão - ciranda. O braço dele ia e puxava de volta, o olhar fissurava, a perna dele recortando, os cabelos também dançando. Ali imersão de suas juventudes, nada mais haveria de haver, exceto os dois, girando, gostando, cada vez mais. Era por isso possível se entregar, o instante era largo, o imediato cabia exato (dentro do eterno).

A música é que levava os dois. As vezes morria, e eles se entreolhavam assustados, como se também fossem morrer. E então recomeçava, inflando as mesmas cores, os mesmos ares. O corpo deles era forte, e aguentava resistentemente a noite. Lá fora havia mar. Lá fora havia lua, havia maré. A areia também chamava a água salgada, fazendo deles parte de tudo. O rosto deles quase encostava, o pulso pedia distância, a barba roçava, o braço caia. Ia e vinha, com cada vez mais vontade, os corpos fortes, a água, o suor, a praia, o vento sul.

Já não tinha mais ninguém na pista.

O vazio em volta deles se difundindo como os desertos que nunca param de crescer. De fora na varanda, os outros olhavam. Fingiam conversar. Perdidos entre copos de vinho, canapés e banalidades. Eles fingiam não olhar. Fingiam não enxergar dois homens lindos, fingiam não se incomodar. Era belo e perfurava seus olhos, cortava em pedaço suas invejas. Eles dançavam, e eram lindos. Como anjos tortos. Como anjos azuis.

E essa imagem se repetia a cada gole. No copo, azulado, os beijos eram acrescidos de gemidos suaves. As ondas iam e sempre voltavam, sem ritmo, mas com intensidade. Aos poucos, a tentativa de fixar o olhar, o tornava mais embaçado ainda. E, pela tontura, pelo enlevo, pela primeira vez na vida, tomou coragem: agarrou a borboleta que tremulava as asas ao seu redor e foi beijando, devagar, cada pedacinho do corpo. Desde o peito até os pés.

Enquanto isso, um sol malemolente hesitava em aparecer no universo. Por ali, estrelas, astros e um imenso buraco negro acompanhavam os anjos azuis, os casulos se romperam e assim o tempo foi passando sem nada haver, apenas ser.



ana e sílvia c.

quinta-feira, março 10, 2011

re-sentir

eu queria chorar um pouco.
por tudo o que foi
por tudo o que não foi.
eu queria chorar do tamanho.

eu queria conseguir chorar,
me unir em água salgada
com a grandeza de todas as mulheres (e homens também).

eu queria chorar-ser.
chorar-sentir.
chorar-lembrar.

eu queria poder limpar,
toda essa poeira que me embasa os olhos.

eu quero abrir um sorriso limpo
como céu depois de tempestade.

quarta-feira, março 09, 2011

noite

Eu estou deitada na cama à espera.
Sinto suas mãos se escorrendo pelo meu corpo, em nada parecidas com as metáforas sem osso dos poetas, que falam em água e fogo.
Suas mãos são de carne, sólidas e macias.
Elas sabem por onde ir, e vão, com ferocidade e segurança.
Sinto minhas costas se arqueando à mera sugestão de um arrepio,
e sua língua roxa entrando por cada curva e esconderijo do meu corpo.
Nos descobrimos em tato e gosto, envoltos nessa dança anfíbia.
Se suas mãos rudes quase machucam os momentos em que minha pele é mais delicada, sua umidade quase me cura, amolecendo-me numa zonzeira doce, para o começo do meio do fim - a rija entrada do seu corpo no meu.

carna

sair daqui,
sair do corpo.
entrar numa escuridão de confetes,
tato e canção.

e então voltar,
e não encontrar (o tufão do carnaval).

é meu bem,
está tudo no mesmo lugar.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

estate

eu quero ver coisas belas.
flores, frutas,
noites maduras
ressurgindo do calor
através das suas mãos.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

vermelho

bundas e peitos
e rostos cardíacos.
cidades de terra
e corpos perdidos.
sobe a poeira rubra,
sob os carnavais da fumaça
o sopro da carne brinca em seus rostos.

mãos dúbias,
línguas molhadas
duras.
entre dedos mamilos
festas.

os meninos sabem cantar e dançar,
vestidos com sua cor animal
pseudônimo.
eles sobem nos varais e se equilibram entre aves negras.

trombetas tocam
cornetas.
o tempo urge como a terra.

os corpos e os espaços conspiram,
instante largo e vermelho.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

azul

deixa eu deitar aqui. deixa eu ver o céu se fechar. deixa vir
é noite ou chuva.
deixa a imensidão azul cair nos meus olhos,
e entender qualquer coisa ou quase nada.

A cada volta que ela dá
a barra do vestido da rainha vem me molhar.
ela dança longe longe
não vejo o baile,
mas escuto os tambores.
eu vejo é a fumaça
que acompanha tão bem
a embriaguez do fígado ou da alma.

o rosto moreno dela se esconde nos passos e véus,
se ela olhar demais nos seus olhos
gira gira e puxa muito
labirinto de se afogar na escuridão.

respira fundo,
aqui você é pequeno demais.
estica os pés.

Lá em cima o moço fecha os passos fazendo a corte,
seu terno branco, anoitecido
é negro e negra é a ferida.
os dois se chamam
cachaças e excessos,

segredos sussurados em ventos,
danças correntes de ar,
a noite elétrica profunda e azul.

perder o pé, o gole
deixa-los dois
e dormir aninhado em amplidão.


de manhã a luz é pouca com cuidado para não os acordar.
tudo é ressaca, preguiça.
na praia sozinho você se estica,
flores e garrafas vazias.


terça-feira, fevereiro 22, 2011

sol

dá medo, sim dá medo.
cheiro de escuro
placidez.
o gosto de sangue negro
por trás de todas as camadas de pele.
o cheiro de coagulo.
sim dá medo.
o gosto de poeira.
num dia meio morto,
num sábado meio morro,
o sol só me diz da sombra.

dá medo, sim dá medo.
o som das pessoas em casa
os vultos
quando é sábado e você está só.
o sol é forte e arrasta as sombras pela parede de casa.
mas não importa.
ainda dá medo,
sim, dá medo.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

mar

o absurdo. o absurdo.
talvez o absurdo possa vir salvar.
o corpo quer se embrenhar no cheiro precários das ervas.
é verde, úmido
e intimamente real,
daninhas ou não,
as ervas que não vejo nessa cidade.

escuto ao longe como uma respiração
o chamar rouco do mar.
os canais correndo
gostos salgados ou doces
se misturado na boca dos deltas.

por todos os poros invadem as naturezas precisas
cores azuis, verdes, amarelo quase cinza.
aqui nessa cidade sem mar, sem rio, sem quase nada,
a lua é cheia e a única vida sou eu e os outros.

barcelona

suas aulas de balé só para acertar o passo,
que leva aos lugares mais inusitados.
entre ruas planejadas (e outras nem tanto),
entre a praia, o bar, a praça.
O cinza do paralelepípedo, o ortogonal asfalto,
e as cores e (re)formas de Gaudi.

Tudo que é antigo nessa cidade se refaz em luz e cor num novo sopro.
La rambla lotada.
As ruas tortas da gracia.

Barcelona se dá,
a você e a mim, em palavras interessantes sobre qualquer coisa como o mar.

Barcelona ficando bêbada
e não reparando na sua blusa cada vez mais reveladora.

Barcelona que sorri virando o rosto,
mas que olha nos olhos como se ouvisse música.

Barcelona e seu charme estranho,
de meia calça e postura de gato, de óculos e perna aberta.

Barcelona que transa como se respirasse,
e que parte, cálida manhã,
deixando saudades.

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

lisboa

A palheta cinza, branca, azul, dos retratos europeus eram anteriormente frutos idílicos de estados de espírito que nunca conheci. Quando cheguei em Lisboa, porém, conheci essa luz opaca e azul atravessando os prédios - tão antigos quanto as histórias - as árvores nuas, as praças, a fumaça de castanha.
Lisboa nessa época do ano é azul. E linda de morrer.
Como uma menina bem menina, tímida e pudica, a irmã menor dentre todas as filhas da europa.
Lisboa é como uma menina que não sabe que é bela, e que deixa que você se esbalde na sua inocência. Até que ela se torne vazia, e você, morto de tédio, vá embora para a próxima paisagem.
Lisboa é uma menina muito pálida e quebradiça, macia e quase gorda, que você receia que de tanta doçura adoeça ao anoitecer.
É uma cidade que te dá vontade de viver, e andar, e morder, e morar, até que você perceba que nada que você faça vai mudar sua natureza: eterna menina pálida, com seus olhos bem azuis mais velhos que o mar.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

silêncio outro

medo
de algo como
um elefante no meio da sala.
ou
no meio da barriga.
razões pouco conhecidas,
sabotagem, fraqueza,
a morte se espalhando como praia
de águas negras
tóxicas.
com o risco de não mais gerar nada,
gero novamente dentro de mim a morte,
tamanho de fruto maduro a apertar os nervos.
procuro com pouca aptidão nesse dentro de mim
a mulher cinza,
sábia gorda antiga.
peço seus conselhos.
agora estou em seu altar olhando direto em seus olhos
e ela ainda está calada.
o tempo dura para que eu espere sua resposta,
o tempo que dura
talvez seja sua resposta.

sábado, dezembro 25, 2010

travesseiro

algo antigo
algo próximo
algo novo.
cheiro denso de mata.
o agora sempre pronto,
a voz dele que se perde.
a voz dele que perpetua
visão mundo,
só não faz se não quiser.

sexta-feira, dezembro 24, 2010

agora

você sôfrega
se espalhando nas paredes
entre marcas de sangue e saliva.
o cheiro dos seus restos é tão real
que me compunge.
e saio desse dentro de mim tão distante,
ilha de árvores antigas selvagens e cheias de polpa,
e te olho com os olhos cheios
como a lua olha o mar
quando entre eles há maré.
sua boca é cheia de peixes
suas curvas cheias de escuridão
esse sexo que nos ocorre
é presente,
e apenas isso.
nada tem medida do calculo,
é a primeira vez que duas mulheres puderam se entregar nessa luta amorosa de um fim.
é assim que te olho me sinto olhada e mergulhamos
no cheiro denso, nem bom nem ruim,
do selvagem que paira no ar.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

maré

ela era uma verdade como o mar.
indo e vir de um respirar perfeito
entre a lua o corpo.
era assim óbvia,
a relação entre ela e todas as coisas.

domingo, dezembro 19, 2010

o marinheiro

sempre pensei em porque os olhos mudam de cor. não sei se são todos. os meus pelo menos mudam um pouco às vezes, ficam mais castanhos, mais verdes. sempre aventei teses que pudessem preencher esse vazio: que eles mudavam conforme o número de mentiras que se andava contando, que talvez a alma estivesse mais perto dos olhos, que o sol, que o som. lendo caio fernando abreu descobri a resposta:
"— Abraça tua loucura antes que seja tarde demais — ele disse, e seus olhos tinham a cor do mar. Tinham a cor exata de quem por muito tempo, todas as horas, todos os dias de muitos meses e anos, olhou detidamente o mar, acompanhando o vôo das gaivotas, interrompendo-se em rochedos, nivelando-se ao movimento incessante das ondas. Verdes de um verde movediço entre o denso do vidro e o suave da hortelã recém-plantada, líquidos como água móvel, interior de gruta, rasos de pedras claras. "

mudo

por dentro somos infinitos.
é na carne que tudo se presentifica.
é na carne que se manifestam:
os medos, as vontades, as doenças,
os ires e vires necessários para que se sinta.
é na carne que o tudo e o nada tomam forma,
deixam sua magnitude excepcional
para virar jogo.
o bem e o mal como dois lados de uma mesma coisa
contraste necessário para ainda não entender
pleno
o silêncio.

sábado, dezembro 18, 2010

haikai

era meio assim no começo do fim.
viver como um espantalho
alegria de espantar os pássaros.

sexta-feira, dezembro 17, 2010

mistério

As luzes vermelhas pontuais refletem
um medo dentro
como se tivesse fora.
O avião passa riscando as nuvens,
algumas delas se inflam
são raios que as preenchem
centros magnéticos energéticos.
É fácil pensar nas explicações práticas, racionais.
É deslumbrante pensar no batuque de deuses muito antigos por dentro das nuvens.
O mistério está dentro do olho.
A coragem para se predispor a ele está entre.

terça-feira, dezembro 14, 2010

re

queria voltar a escrever.
acho que preciso reaprender um pouco.
minhas mãos estão tortas, tocam as teclas, o papel, com receio e pouco jeito.
na verdade é minha emoção que está um pouco rota.
pela primeira vez acho que a dureza surtiu efeito,
congelou um pouco esse mar de dentro.
às vezes olho-me de fora e sou puro silêncio.
mas não silêncio de estar,
vazio, sem preenchimento é que fico.
dizem que doença do peito é tristeza.
emoção mal formulada por esses encanamentos.
então talvez tenha que sair pelas mãos,
mesmo sem jeito,
mesmo egocêntrico,
mesmo sem mediações mais sofisticadas.
mesmo sem saber direito a que veio.
faz tempo que não choro, que não falo, que não sinto.
tenho esse sorriso estático.
alegria por não ter nada a mais.
alegria nilista esquisita.
talvez essa seja a normalidade.
não sei, nunca visitei esse lugar.
essa ausência de.
presença de muito pouco.
alegria fácil.
solidão que não arde.
quero voltar a mim.
voltar a sentir de novo.


segunda-feira, dezembro 13, 2010

re-ver-na-água-o-peixe

li vários emails seus e dela. comecei lendo os dela, e fui entrando num terreno estranho, úmido, verde. chorei até. era um território de emoções ainda vivas, embora podres. algo como uma floresta muito antiga. eu andei nesse pântano e reconheci alguma doçura, alguma maciez, o contrário da dureza e frieza que tenho agora. no meio das coisas delas comecei a ver coisas suas, emails seus. as cores eram azuis, e vermelhas, era estranho, mas você era muito mais familiar para mim do que ela. eu te reconheci, olhei nos seus olhos. vi as frases que trocamos no ano passado, e torci, sem ne mesmo perceber no início, para você. eu era a imbecil que entendia sempre muito menos. todo ano tenho bronquite, todo ano sou obrigada a repensar tudo. todo ano sinto saudades e muita tristeza.
é assim que todo ano te vejo, e sinto, e resinto, e te amo pra sempre. é assim que pelo menos posso, ao invés de parar de escrever, escrever algo que talvez não seja poético, não seja literário, mas sincero e um pouco doce como eu costumava ser.

foto

eu sou essa mão, eu amo essa mão.
a palavra é nua
e é também injusta.
mentiras não são mais verdadeiras se gritadas.
eu grito.
essa mão sob um fundo verde,
natureza selvagem
de algum país bem distante.
eu quero me misturar a essa mão.
essa mão que nunca vi desvestida de olhos,
esse tato que não alcanço.
paixão devastadora que me tomou essa mão,
essa foto dessa mão.
quase como uma pessoa,
ou um fato.

sábado, dezembro 11, 2010

cromático

quais as cores de quando se perde a cabeça?
todas.
mas nenhuma delas sei.
dentro do dentro do dentro
é a quentura mais fria.
olhos vivos, no centro da alma, sem sou.
olho a tudo indiferente.
emoção descontrole,
nada afeta o afeto sem cor.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

sagitário

intensifico o breu, pois nele há oculto.
não há horário para a prece,
a escuridão me pertence
não como posse, mas como tenso.
abro os braços para aquele que tem os braços abertos,
entre passos trôpegos, descuidos,
vertical caminho de encontrar a sombra.
é luz,
e eu a levo.

gêmeos

É olhando para o alto
que horizontalmente divago.
Os passos estão dentro dos olhos
que se perdem a cada piscar.

Encontrada a lógica exata de um estar: muda-se.
um é mais que um,
dois é apenas símbolo
de um muito vago e imenso multiplicar.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

novo

uma vez por ano uma senhora imensa se senta sobre meu corpo.
ela tira meu ar, e machuca meus ossos
quase até os romper.
ela não me fala nada. enquanto eu esmurro suas costelas distantes
ela sorri para mim explicando o mundo.
sua pele é suada e gorda, seu cabelo é imenso e sujo, sua pele é cinza, e acobreada.
de dentro de suas dobras eu grito impropérios, e busco saídas.
o som que ouço é quase o mesmo que emito, transformado pelas condições insalubres propostas por seu corpo.
sem ar, sufocada com o gosto amargo da tristeza ignorada por muito tempo, sou obrigada a encarar uma escuridão muito mais profunda.
meu corpo frágil, pálido, quebradiço, se faz de labirinto.

quando chego a sua última curva, certa de encontrar
o cerne,
encontro um espelho.
nele me recordo longinquamente.
é assustador e torna-se imprescindível voltar.
a mulher com suas tetas imensas me alimenta, e me deixa partir.
continua sorrindo impassível.

é quase irônico o modo como seu silêncio diz: talvez ano que vem voltemos a nos encontrar.

domingo, dezembro 05, 2010

lembrar

são coisas doces
e coisas ásperas.
que me tocam a língua cega
como quem não pode mais lembrar.
memória sem olhos
inesperado sabor
quentura ou corte,
metal do sangue
doçura escondida no ar.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

gravidade

era desproporcional o peso que sentia subindo as omoplatas, puxando os ombros para baixo, arqueando o corpo todo. eu disse a ela que não conseguia mais amparar meu próprio peso. ela pediu que eu me calasse, pediu que eu me sentasse, e perguntou "você tá sentindo?". se eu estava sentido, estava sentindo uma série de coisas de sentir, talvez fome, talvez sono, principalmente a ausência de uma confusão. ela continuou "sentindo uma força imensa te puxando do centro da terra". então ela me explicou, que a força mais forte do mundo chamava meu nome do meio do mundo, e que todo o peso que eu sentia era ela quem segurava. eu fechei os olhos, e por um instante pensei que pudesse flutuar pelo quarto.

sábado, novembro 27, 2010

como

Era assim como o que, ou como quem.
Como se
(na maioria das vezes),
ela tivesse um bigode espesso,
atrás do qual pudesse se esconder.
Como quem estivesse bêbada,
como se fosse poeta,
como tal literatura.

Entretanto,
o rosto dela era frio,
como se não houvesse bigode,
seu gosto era pálido,
como se não houvesse conhaque,
não havia poesia,
como se não houvesse literatura.

Eu te devo no mínimo essa verdade:
tirando os como's
sobrava quase nada.


quarta-feira, novembro 17, 2010

frutoprojeto

poderia ser do seu temperamento colérico. da cor rubra da pele - que dá a impressão de queimar quem a toque. da voz de baixo ecoando por tudo que é sólido nessa casa vazia.
poderia ser por qualquer banalidade dessas
a razão da sua mão ser tão cheia de veias.

mas é engano ser banal assim.
sua mão quase explode de tanto sangue
porque você não muda de idéia.
porque a cidade te ordena que ordene,
e você obedece
em direitas e escancaradas esquerdas.
é assim que tem vivido,
com a mão sempre em punho,
iluminando no fundo da retina apenas projetos.

é por isso que hoje parto.
para aprender a perder a direção.
tornar o plano concluso,
estático movimento do corpo que volta a si,
contemplando a tudo imenso imerso.

é por isso que o deixo só entre os copos de vidro,
para que você não tema mais que eles se quebrem.

é por isso que o deixo só entre tantos caminhos,
para que você se perca sozinho.

é por isso que o deixo só, nu, e talvez desiludido,
para que talvez quando eu volte,
você possa me enxergar pela primeira vez.

essa noite

Essa noite acordei pensando em você.
Eram duas da manhã,
ou meia noite,
ou talvez já tivesse amanhecido.
Acordei com sua imagem colada nos meus olhos,
como antes a escuridão das pálpebras.
Eu nunca tinha te visto assim, na madrugada,
com esse rosto pálido.
Nunca tinha te visto em silêncio.

No meio da escuridão fiquei grata,
pela verdade do afeto ser outra que a dos fatos.

sábado, novembro 13, 2010

a tartaruga

A tartaruga é o ser mais antigo que existe na região de Guruka. Eles a cultuam devido a seu mito ancestral, e o modo como ele se perpetua através de seu símbolo contínuo. Eles dizem que Deus é um camarada esperto, pois inventou os símbolos para guiar os bichos nesse caminho sem fim. A tartaruga, segundo contam, surgiu quando a terra era toda água, e toda fogo. Seu casco permitia que ela ficasse entre esses dois humores tão distintos. E o pouco ar que restava lhe bastava. Entretanto, através dos milhares de anos que foram passando, duas coisas aconteceram: o marejar contínuo do fogo e da água em seu casco lapidaram 24 formas hexagonais, que desenhavam um caminho circular, que ia do fogo à água (tais formas foram as primeiras letras, que embora não se pudessem formar palavras com elas, podia se entender o mundo, pois elas eram símbolos, mas também eram a coisa em si); de tanto perpetuar-se por esse espaço insalúbre, a tartaruga começou a modificar seu meio, tornando próximos o fogo e a água, gerando seus descendentes, a terra e o ar. Foi assim que foram criadas as instâncias que os gregos conhecem como Gaia e Urano, e foi assim que foi criada a palavra, que depois derivou duas de suas formas, o silêncio e a fala. A natureza no seu estado bruto, e a maioria dos seus animais, se utilizam da fala como silêncio (que é o dizer-se sendo, metáfora e realidade do mundo inventado no casco da tartaruga). Já os homens, que são como as crianças do mundo, utilizam a palavra como fala, necessitando dos códigos da comunicação para alcançar-se como ser.

nublou

metáfora porca, e exata. essa nuvem espessa cobrindo o sol como ter que adivinhar o que há de mais denso e quente.

quinta-feira, novembro 11, 2010

cfa

me mastigava um pouco olhar para os outros e imaginá-los tão certos. falando concisos, analisando eloqüentes e específicos as direitas e as esquerdas.
quando eles usam esse tom encorpado eu me arregalo toda nesse dentro de mim,
criança acreditando que se foi falado é fato, sentindo o mundo diminuir ou aumentar embaixo dos pés.
nesses dias de cinza cálido perco esse chão diversas vezes.
então eu olho para o lado e vejo sorrisos,
ou pior, indiferenças.
como se todo mundo dividisse um segredo menos eu,
que é algo assim:
a vida é isso.
eu fico procurando ela (a vida) entre as dobras da mão,
neurótica.
procurando nos mesmos lugares
nunca acho,
já sem esperança de achar.

é nesses dias de cinza cálido e solidão difusa e opaca que eu leio caio fernando abreu.
sinto que se ele também não entendeu nada,
talvez não seja tão ruim assim.

quarta-feira, novembro 10, 2010

poeira

não sabia muito onde te por.
como um móvel cheio de poeira que a gente encontrasse.
Agora sei.
já que não existe nem futuro,
nem passado,
te coloco no presente.

zen

Você me disse enquanto gastávamos as solas:
nós somos a cidade.
Fiquei sem ar por um instante,
esperando desiludida
que minhas emoções não corressem em bueiros.

domingo, novembro 07, 2010

constelação

se a cidade cimenta a terra em cima da pedra,
a hera infesta os rios que correm nos esgotos.
o preto e o branco,
a falta de gosto, de tato, de pranto,
sempre perdem para as cores saturadas de um dia bem quente.
noites de verão ou primavera
cheias de cores e cheiros,
corpos soltos no ar,
frescor
e mistério.

sê

o espanto dessa alegria.
tinge meu corpo
bagunça o cabelo
muda meu rosto.

carro-boi

amanhecer essa coisa frouxa.
luz do sol luzindo as costas dessas varanda,
limpando com esponja algo desse ontem roto.
é pra frente que todo mundo anda
é pra frente que todo mundo olha.
homens, mulheres, idosos, crianças,
todos servindo uma mesma emoção furta-cor.

quarta-feira, novembro 03, 2010

agreste

rachada a parede agreste, terra solta, várzea de água escorrendo ligeira por entre as escoriações. a carne dessa casa de memória e tato. secura escura, se água espessa. há voz, ecoa por entre as paredes. nua, metálica. portas se perdem por entre espelhos. a voz não possui dono, nenhum rosto vaga. há o cheiro denso da terra, e tudo é labirinto. se entrevejo sorriso por entre essas espécies de flor sem madeira é desilusão próxima, prenhe nos passos sempre, balé dos equívocos. o cheiro forte, o gosto. o chão daquela cidade nessa casa é parede, tudo quanto é sabor na boca arde. e embota os sonhos com uma branquidão leitosa. nessa casa não existe você. nessa casa não há eu. quem há de haver se perde nessa impessoalidade, a luz acesa se ilumina é escuridão.

terça-feira, novembro 02, 2010

estampa

ela caminha com seus sapatinhos doces.
lilás, vermelho, bolinhas.
ela anda com seus sapatinhos e sorri para mim com o cinismo de quem tem calos.
ela fuma fazendo barulho e olha para mim,
como se quisesse saber algo.
como quem quer ser olhada.
ela tem óculos escuros nos olhos,
e mãos bonitas.
ela é como essa cidade.
muita vontade
e pouca coragem.

sexta-feira, outubro 29, 2010

caverna boca úmida

era ali, na boca da boca
que havia de se sentir tudo.
não era ponta,
porque profunda.
um vazio escuro
de ar e temperatura.
ali a língua descansava
como na gruta entra um braço d'água.
úmida saliva e escuridão,
mansidão do ar entrando e saindo.
ali onde os passos se dispersavam
e se reuniam:
em doce, azedo, amargo e salgado.
perdi o medo de sentir
ali,
entre as obviedades do sabor.

terça-feira, outubro 26, 2010

músculo

é estranho ter medo e de repente se encontrar nesse corpo forte.
continuação de um mundo ordenado de cimento armado,
asfalto e mangue.
mentira,
meu corpo não cede a malícia da cidade,
seus músculos mesmo exaustos cedem a uma força anterior,
interior.
brutal nudez.
meu corpo é forte como aquilo que não se inventa do nada.

segunda-feira, outubro 25, 2010

noite

a noite, esse bicho imenso e preguiçoso.
bicho negro,
do ventre de carnudos anéis acinzentados
que se arrasta lento.
sempre deixando rastro, elástico líquido, com cheiro de sexo usado.
a noite engole os homens com seus dentes verdes.
ninguém é jonas, mas ainda é um pacto.
verossímil,
inato.
entre o permitido
e o necessário.

vestido

mulher, o sol desponta sobre sua cabeça, são os deuses acordados pela falta de algo. o gosto das frutas vermelhas não é vermelho, nem salgado. existe algo que preenche a polpa, das palavras e das coisas. talvez eu pense em deus, no universo, nesse equilíbrio denso e muito maior. embora isso tudo pareça só uma desculpa para eu poder te olhar dançar com os olhos cheios de frutas, a boca cheia de flora, a mente cheia de peixes.

poucomuito

aonde a água encontra tudo que é seco,
ou quase.
reconhecer em silêncio
o gosto da palavra mar
não é oco.
como um instrumento vibrando o ar,
ou dançar
e ser-saber-se o mundo.

terça-feira, outubro 19, 2010

olhos

martela as teclas de madeira antiga. embora a luz amena, nada na sala te acalma. cada nota gritada, a falta de ritmo escandaliza
os vizinhos ausentes.
eleva
embora os pés tijolos no chão.
não há nada que se beba antes do fim.
o concerto se baseia em vapores mais sutis,
os olhos
mais claros pela mentira contada
coragem da verdade daquele momento.
enquadrada pela janela, a outra
vida.
fora
todo calor se dissipa.
o ódio tornando quase harmônico pelo esmurrar do piano,
crê em um deus da ira.
o fora lá é ensolarado,
a menina passa olhando para dentro e nada vê.
é como conversamos e você se detém nos meus olhos,
minhas janelas estão embaçadas.

domingo, outubro 17, 2010

agora

sua nudez perpetua
as marcas de sol
feitas ontem.
cicatrizes revelam
a marca salgada do sangue.
seu olhar para o céu é sincero
nele nada alcanço,
libra, ursa, escorpião,
os anos luz são só seus.

sábado, outubro 16, 2010

En

hoje fomos espinho.
gosto áspero na palma
das sobras descuidadas da doçura.

olhando você passar
meus bolsos se encheram de coisas
- moedas palavras pedras.
juntei todas elas na mão com calo e sangue
e quis te dar.

poderia escorrer seiva
entre um nós forte
(pele de árvore),
ou fruto ruivo selvagem.

era melhor que você se fosse.
e eu me calasse.

ainda destilo nas mãos
o silêncio denso do cheiro das flores.

quarta-feira, outubro 13, 2010

tempo e espaço, corpo

dentro do meu corpo percebo
o ritmo contínuo é tempo
repetido rito,
dia e noite percussão da vida.

dentro do meu corpo é praia,
maré tocando sino,
meu corpo é o espaço pro tempo passar.

domingo, outubro 10, 2010

to

os caminhos não tomados
tornados em pó
dos passos não dados.

quinta-feira, setembro 30, 2010

cheio de inferno e céu

Quando uma mulher sente a solidão
e é como adensar-se numa floresta de céu leitoso.
Quando uma mulher deitada na cama ouve o ruído da mata,
ou ainda mais denso, seu silêncio.
Quando uma mulher olha para o céu do seu quarto
e sorri sem motivo e sem temer.
Quando uma mulher ouve música e é como se fosse acariciada
pelas ondas maiores dos acordes menores.
Quando uma mulher sente a cidade do lado de fora da sua parede
batendo seu nome como o mar.
Quando uma mulher não pensa mais em ninguém.
Quando a mulher não é flor, perfeita intuição dos outros,
mas mata, esparsa, selvagem, melódica.
Quando uma mulher é toda escuridão,
e seu toque não é luz.
Quando uma mulher é você.
Quando uma mulher sou eu.

terça-feira, setembro 28, 2010

no ceiling

se aproximar,
não como a maré
enganadora com suas coxas de sal e água.
como a paz,
sobrevindo algo delicioso e delicado
dentro do olho, escuro do quarto.
entre motins
e gritos mudos
tem um estado em mim que não se cala
patético silêncio.
um sorriso quase estúpido,
passo ante passo
perseguindo.
mais perto.
mais perto.
escuto o seu eco naquilo que é sólido,
chão e paredes.
mais perto,
desconheço seu tempo,
forma, nome,
espaço.
pressinto,
e tola
sorrio.

domingo, setembro 26, 2010

exercício

O homem nu sonha na cama. Todos os homens que o precederam eram nus e sonharam inumeráveis sonhos. Ele sonha estático o improvável sonho que lhe coube, e não a todos os homens do passado, do futuro, ou, muito pior, do presente infinito de homens, mulheres, meninas, velhos, plantas todos nus sonhando os sonhos que lhes couberam. Esse homem, que não serei vulgar a ponto de nominar, sonhava que era outro homem. Ou então, ainda mais surpreendente, sonhava ser ele mesmo um homem que não era, talvez um menino reinando numa antiga fazenda de café - como dita o sonho, talvez um homem que sonhasse o mesmo sonho exato que lhe cabia naquele momento.
Dentro de um, ou infinitos, círculos de sonhos, algum homem sonhava que era um menino. Que andava na fazenda. Que a fazenda era de café. E que haviam negros dançando e cantando em volta de uma fogueira de luz vermelha. Os negros bradavam: olhe nos olhos do demônio e veja se ele te devora. O menino, ou o homem, olhava então para a máscara do demônio, e via apenas a máscara, para além das órbitas vazias apenas a máscara - materialização de quem sabe que a máscara não vela, mas sim revela; como um sonho que não tivesse por quem ser sonhado.
Aquele que olha a máscara, que já não ousarei saber se era menino, homem, se era aquele que me contou esse conto, se era você ou se era eu, se assustou perante a ausência do rosto, a ausência dos olhos, e subitamente pensou "talvez o demônio seja eu". Aquele que olha encarou profundamente a máscara, e com ela desenhou em passos círculos em volta da fogueira. A fogueira vermelha chilintava a umidade das madeiras, denunciando a imensa improbabilidade daquele momento. Não havia carne a se emprestar para esse instante, tudo ocorria no plano disperso onde ocorrem os sonhos, as memórias e os textos, não havia unidade a se retornar, senão o homem nu distante - em outra cidade, em outros tempos.
O menino do sonho, entretanto, continuava a dançar com a máscara, como o medo, o outro e o espelho. A máscara sem rosto, e o menino sem nome. Ele então começou a se distanciar, dando passos mais espassados - queria alcançar a porta. Antes de deixar para sempre o sonho, porém, alguma espécie de intuição mobilizou o menino, que deu um último olhar de soslaio para a máscara. Ele não viu o vazio recheando sem pudores os buracos dos olhos. Ele não viu. Por trás da máscara dois olhos reais o observavam.

sexta-feira, setembro 24, 2010

ótica

tartaruga de fogo é barriga.
umbigo da humanidade,
uísque com muito gelo, ou gim.
entre a cruz e a espada está o ar,
h do homem barulho na garganta
que jorra e seca da água.
música ordenação possível - caos ou dialética
ordinário na beleza, sem julgamento possível.
a melhor interpretação é a alegria
fico com essa
mentira pode ser verdade
só por hoje
ficção é fazer
outro em mim
fim.



texto semi ébrio da alegria da ana e lau

quinta-feira, setembro 23, 2010

vênus

falta o feminino
de saber que o vazio
sou eu.

autor

quando algo lindo assim embrenha forte no cheiro da gente,
vê que o que não tem autor
é a vida.

Fazedor

Faz tempo que não escrevo. Todos os meus textos tem sido silenciosos. Uma palavra ou frase puxa a encadeação vã. É na minha mente que projeto sua continuação. É na minha mente que dela me desfaço.
Se sou real ou não faz depender ser uma história ou uma estória.
Nas minhas ficções (caminhos) acabo chamando de acaso deus, de materialidade importância.
Nem deus, nem importância.
Antes percebo, a realidade das coisas que dão certo ou errado,
a inexistência de mérito ou ordem,
nem forças maiores ou menores.
Não há karma, destino,
muito menos materialismo-histórico.
Antes percebo,
dança de acasos, Loteria da Babilônia.

segunda-feira, setembro 20, 2010

carne

é na carne que cresce.
como flores carnudas cheias de cheiro
a vontade; com o gosto acre da cerveja
a poesia; com as palavras tortas
as cartas nunca enviadas;
e o gosto torpe da língua.
é na mansidão da carne que prospera.
o movimento como música
talvez sexo; o gesto sutil ou escancarado projeto
ou política; o amor como idéia ou como tempo,
subjeto.
é no corpo e na carne.
olhar, resto do passado
ou memória; vislumbre do futuro,
ou destino;
é na carne.
que o tempo cessa,
que tudo se encontra,
acaba e recomeça.
é na carne, corpo, olhar.
que o presente acontece,
vida imensa:

sábado, setembro 18, 2010

si

ela não me diz nada,
e dança.
olha como-que para um futuro
que não me cabe entrever.
às vezes lança o quadril em minha direção
ou um dos olhos
cubismo próprio do charme.

quando nos beijamos
a minha boca permanece na dela,
mas meus olhos se afastam.
se assustam.
sentem a altura inverossímel desse silêncio.

sal

areia da noite!
jogada para cima
com sorriso e gosto áspero na língua.
éramos nós as crianças
brincando com facas
os jogos dos adultos.
se sentávamos era nas cadeiras
flutuantes dos mares
bares, céus estrelados e ovos.
esbaldados de cachaça e amor
dormir como anjos
e acordar domingos.

quinta-feira, setembro 16, 2010

marinheiro das horas inteiras

antes não sabia se vinha a sensação - madeira escorrendo cheia de sulcos, cheiro de amora e fumaça. marrom e listrado azul e branco, ou se a emoção nostalgia como chá morno melancolia leve de dois cigarros alegria estúpida. por excesso de constrangimento dos outros decidira deixar o seu na porta de casa, usava azul listrado com branco na blusa e na calça, marinheiro das vagas, as horas, não as ondas. tinha uma estrela em cada olho e nas mãos um universo. tecia destinos com lã vermelha e previa as estações em copo d'gua.
era assim que sentia saudades, derradeiro e estúpido sentado na cozinha. abria e fechava os dedos e pensava, principalmente na estupidez que era pensar no sentir e ser. em volta dele tudo se modificava aos poucos, os olhos piscavam era dia ou era noite, os móveis dançavam como a provocar a exatidão da ciência.
ele não dava pelota para esse mundo outro. não era rei, mas também na barriga tinha mundo. e sabia que existiam os homens, as estrelas, a terra e o quarto último amigo, o acaso.
por isso ele usava listrado. por isso cada mar era uma surpresa, cada dia uma baleia.

segunda-feira, setembro 13, 2010

médio ex

foi quase. foi por um fio.
mas aí a noite veio e me trouxe de volta
bicho imenso
serpente dos olhos opacos
em fluxo debaixo dos pés.
o ônibus entrou no túnel
e as luzes laranjas batiam ritmadas
no olho do olho de tudo.
a lua não sorria nem chorava.
era nada imenso tudo aquilo.
sem vontade nem pensamento
nenhum espaço para babaquices:
tudo que fosse pequeno por favor que esperasse
a noite e a vida imensas
sorrindo em disparada.

domingo, setembro 12, 2010

sorriso maroto

Bate o sol delicado
ou é luz de dentro
baixa,
feminina.
Que esconde sua pele e mostra
ao mesmo tempo
o que eu achei que só meus olhos podiam achar no seu rosto.
Nas minhas mãos talvez carregue algum tipo de máquina,
metal frio, cor de cobre,
nesse tempo que invento
é com ela que te retrato.
Ao ve-la você sorri
escancarando por todas as vezes necessárias
a beleza intensa de um instante
que embora não exista
pudemos todos ver.

sábado, setembro 11, 2010

você

me pergunta o porque do silêncio.
Eu te respondo
olhando para eles sentados no chão
se olhando

calando fundo alguma coisa
que talvez venha da música
profunda e suave

talvez da lua
baixa e delicada
talvez do vinho
tingindo o dente
e a alma.

nada digo
e em silêncio espero
que você tudo entenda.

'je pense a toi'


Ciclos de pedra e areia entrando à beira do mar.
Como faze-los?
O sol ressente os músculos
brancos de urbanidade e tédio.
A nudez brilha contra o sol
os pés ariscos na areia.
As extremidades e os meios desse corpo sem nome
constroem o labirinto de pedra como um mantra.
A solidão da beira da praia é como o metal,
e o mesmo gosto na boca.
Esse país não tem nome,
mas tem música.
Movimentos concêntricos
quem antes é o labirinto
pedra, dança
ou mulher.

terça-feira, setembro 07, 2010

cinco minutos

eu quis te dizer uma palavra.
era uma palavra simples
e eu pedi cinco minutos
pra você olhasse no meu olho e ouvisse.

você não me ouviu.
por falta de interesse
ou concentração.

a palavra engastalhou no meu dentro
e virou silêncio.

domingo, setembro 05, 2010

sou

tudo o que eu tenho.
as palavras contidas na língua
prontas.
o corpo quente
jovem.
a curiosidade,
o gosto.
o sorriso
e o choro.
tudo
que chega inteiro a boca.

sexta-feira, setembro 03, 2010

cozinha

o corpo dela suava em cima da cama. o corpo dela
mesmo inadimplente
incorrigivelmente
necessariamente
vivo.
pulsando e suando em cima da cama.

ou estávamos paralisadas diante daquele momento cirúrgico,
ou ela tinha se endurecido por alguma coisa que eu dissera.
eu não me lembrava de nada que poderia ter dito.
eu não lembrava de nada que tivesse dito.
eu não lembrava de nada.
tinha esse momento na mão
gelo derretendo lentamente em contato com a pele.
e mais nada.

ela olhava pro teto
e pensava.
pensava por querer evitar estar
ou por tédio.
se agarrou com as duas mãos na coberta.
esperava.
eu sai do quarto para beber um destilado na sala
e para ouvir música olhando a cidade.
como uma mulher
suada
nua
sozinha
no quarto.
esperando.

surplus

algum tipo de lugar possível.
o outro tem gosto de nada.
o mar.......
que me vem inteiro a boca
é salgado.

talvez
minha incapacidade de compreensão.
possível.
mas antes o sim e o não.

e como garantia o sangue,
como quem topa morrer
pra não viver em submissão.

terça-feira, agosto 31, 2010

sonho


Os homens todos estavam inquietos. olhavam apreensivos para os lados. Fundo, uns nos olhos dos seguintes. O escuro de seus olhos os fazia femininos, fortes do modo de quem conhece um segredo. Eram anciões em corpos jovens, o que agravava a sensação de que algo ia mal. Um deles segurou no meu braço firmemente, deixando marcas roxas no meu punho. Seu olhar era cinza. como a praia e o céu. Ele me explicou que participaria de um mito.
A tartaruga imensa desceria esse fim de tarde da montanha: sua barriga era de fogo e seu casco de fumaça. Eu deveria ir para o mar, não tão fundo que me afogasse, não tão raso que me queimasse em sua barriga.
Deitei-me no mar como devia e, como todos, olhei para a terra. O tempo seco estalava sem trovões. Repentinamente, a enorme tartaruga começou a descer a montanha. Seu corpo ocupava toda a terra, e seu passo era avassalador. Em segundos ela cobrira a distância de meses de caminhada, e nos lambia as cabeças. Ela sorria. Nós cuidadosamente amparávamos frágeis nas mãos duas crianças, a morte e a vida. Estavamos plácidos e úmidos. Silenciosos de viver um mistério.

segunda-feira, agosto 30, 2010

eros

É primavera viva entre seus dedos
Intactos
polvos sem tentáculos.
Flores densas
plantas carnívoras.

Sob a minha superfície
lisa,
lago plácido.
Eis jardim
descortinado por seu toque:
rosa-quente,
poema escancarado.

sábado, agosto 28, 2010

suave

enquanto do lado de lá é chuva
ali dói sem precisar.

quarta-feira, agosto 25, 2010

ar

unha suja.
calo no pé e na mão.
instrumento
e olho no olho.

funda a fome.
pouco medo no mato,
grande
na cidade.

esguia como capim,
lascívia.
sorrateira,
escorregadia.

fora daqui
tudo é momento.
delicado pássaro
machucado,
aninhado entre os dedos.

embora aqui
levanto da cadeira do medo,
estendo as mãos para você
e espero que o mesmo pássaro,
embora em segredo,
possa voar.

domingo, agosto 22, 2010

ciência

o sol ilude a noite que há em todo caminho.
intermitente é a luz.
a escuridão é sempre.

antes e depois do dia tem a noite,
antes e depois da vida a morte.

eu sinto a minha pele queimando no sol.
a ilusão é empírica,
vivo.

sábado, agosto 21, 2010

mim e eu, tributo egocêntrico a marilda, que tanto me desensinou na vida

quando eu era bem pequena
uma senhora desajeitada e feia
me ensinou porção de coisas.
disse que dentro de mim não cabia eu,
que enquanto um se ensimesmava
sujeito e submisso,
o outro sempre agia,
não dando tempo pra poesia.
era eu quem sentia
eu quem chutava
eu quem corria.
dentro de mim lentamente iam se acumulando
as coisas cheias de poeira,
já que era sempre em mim que tudo cabia.
era em mim que pensavam
para mim que olhavam
sentiam,
cantavam.
mim era esse objeto,
mulher dejeto
que se quisesse reclamar do quadro
tinha que pedir a eu,
que fizesse algo.

desabafo amidalite

hoje de manhã o frio e a garganta machucada me assaltaram. roubaram toda energia, o breu de dentro dos músculos. vim pra casa cedo e fiquei olhando a janela. as mil janelinhas claras. e quantas pessoas com o gosto do novo, um encantamento todo certo, de nunca ter pousado sobre essa bancada. estou triste. antecipo na boca o gosto do álcool que eu não bebi. o violão que não toquei. a coisa que não aprendi. o mundo tão grande rodando aí fora. numa velocidade estupenda. e parece tão parado.

quinta-feira, agosto 19, 2010

11 de outubro de 2008

castelo de cartas

Coloco gentilmente a terapia e a estrutura familiar próximas, para que num equilíbrio impossível possam sustentar a produtividade diária. Ao lado faço o mesmo com o acordar cedo e com o afeto dos outros, para que assim possa gostar mais de mim. Tomo cuidado para separar as cartas alcoolismo e loucura do baralho, deixando de sustentar uma certa liberdade da qual só ouvimos falar. Sem querer pego culpa de classe e com ela dever, que amparam o castelo todo. De resto, seguro todas as cartas com os braços, esperando cheia de angústia o dia em que um sopro prolongado o fará ruir.

quarta-feira, agosto 18, 2010

domingo, agosto 15, 2010

doses pequenas

Ela entrou na cozinha ansiosa. Mal disfarçando o crime que ansiosamente cometeria. Sentou na mesa que ele acabara de deixar vazia. Olhou atenta. Marcas de café. Passou os dedos pelos círculos e círculos de úlcera e responsabilidades desorganizadas. Um pouco de açuçar derramado. Prognosticou - Era um fraco, e precisava do subterfúgio do doce para se ver com o amargor. Nenhuma louça a lavar, só a mesa suja - Ele não ligava pro supérfluo, ilusão de dever. Não lhe valia nada ter uma mesa sem nódoas. Na geladeira resquícios arqueológicos de compras não habituais, e um cheiro estranho - Autonomia delicada. Desejo de se fundir ao vento.
Calculou os prós e os poréns
e constatou delicada
Nux vomica para os excessos do medo,
phosphori acidum para alimentos ou bebidas azedos,
para quando tivesse ciúmes demais hyoscianus
e arnica
para os esforços exagerados.

sábado, agosto 14, 2010

a toureira

A sala era enorme. E tudo inverso. Quase vazio todo o espaço
povoado, preenchido, saturado, transbordado de ausência.
O único som vinha do aparelho improvisado,
lá fora só a noite gritava o silêncio.
O flamenco fazia o corpo todo dela se encrispar,
se desfazer em volutas, enleios.
Os olhos cravados em mim,
desenhando labirintos.
Ela endureceu as costas
e eu me senti em perigo.
Ela se aproximou olhando no duro dos olhos
e falou
você sabe como o toureiro domina o touro?
Eu balbuciei a minha ignorância,
como homem e como mulher.
Então ela desfez a rigidez das costelas
em movimentos delicados,
com as mãos, os quadris,
os olhos, cabelos.
Algo naquilo era conhecido.
correspondia
àquilo que eu, incauta
pensava ser dança.
Dessa vez, entretanto,
a mulher não queria prender entre os dedos
o possível touro.
mas sim matar a besta,
para poder enfim
deitar com o homem.

quarta-feira, agosto 11, 2010

madona

imagens garfo e faca azul claro. na mesa a carne está crua. e nos braços. fígado de boi tem seu sono embalado. no seu parto difícil do plástico. é pela vaca que você chora. lágrimas de sangue plástico. nenhum fogo tirará essa dor. ou cozinhará esse desentendimento. na cozinha a luz de metileno ilumina suas desilusões e o feto morto que tem nos braços.

segunda-feira, agosto 09, 2010

metástase

Os dentes estão na boca. Brancos. Amarelos. Pretos. Estão para que mordam. Para que sintam o gosto acre da tinta vermelha abundante nos dedos e no rosto. Não é o mesmo gosto do sangue. A cabeça está aí para que isso se saiba. O gosto da tinta vermelha diz ao corpo da proximidade da morte, e envenena o corpo lentamente.
Se olhe no espelho do banheiro. E se alimente de tinta, vermelha ou preta. Aos poucos a pele vira plástico, e a emoção dizem que vira arte. Se aproxime assim, devagar, da morte. Como quem pede para dançar uma linda mulher, de nome desconhecido por todos.
O gosto é pior do que o do gin, mas o funcionamento é mais preciso.
Com um estilete escreva na própria pele seus melhores poemas.
Deixa brotar vasto o sangue, sempre menos seu que do mundo.
Deixa a tinta virar sangue,
para que o sangue também possa ser tinta.

domingo, agosto 08, 2010

azul

numa quinta feira eu a ensinei a escrever segredos com limão. ela ainda não sabia os nomes das coisas, dessa forma ela podia sentir as palavras com o corpo, entender o silêncio delas. esse dia ela aprendeu revelar, sincera, desvelar. e riu da mudança.
foi quando ela perguntou sobre o amor que decidiu também me ensinar. então era como o azul dentro do azulejo que era idéia?
e eu não pude mentir:
era.

sono

abre os olhos. deixa a luz inundar os olhos. como uma torrente que destrói e lava. abre os olhos. deixa a luz-líquido-branco te tirar dos maus sonhos. deixa ela percorrer o seu corpo. acordar lentamente as orelhas. sentir descendo pelo esôfago, atingindo em cheio a boca do estômago.
deixa ela acordar a úlcera. as pernas machucadas. a garganta.
estica o braço e alcança a água.
ela reacende os poros que a luz não pode.

o corpo mumificado em sonho acorda na luz e na água.

sábado, agosto 07, 2010

triste recôncavo

recompor os cacos dessa tristeza vítrea
e não conseguir a sentir
é como olhar para uma mulher feia.

quinta-feira, agosto 05, 2010

como não dar certo como um casal
















lição 1.
durepoxi.

O durepoxi é composto por duas massas distintas, que vem separadas na caixa. Distintas em cor, humor, natureza. Para que se produza o amálgama que poderá tomar diferentes formas é necessário que se abdique das personalidades de cada massa para as transformar, atráves do toque e do calor constante, em uma única massa cinza e modelável.
Entretanto, quando o interesse em a modelar cessa, e o toque e o calor a deixam, a massa endurece na forma em que estava, seja ela qual for.
Se tal "escultura" cair no chão, restarão pedaços dispersos nos quais não poderão ser reconhecidos traços das duas massas do ínicio, e nem tampouco da forma final.

quarta-feira, agosto 04, 2010

casa 8

reza a lenda. nada reza. se rezasse aqui nessa casa não entrava. esse relicário aí na entrada é só pra afastar o santo, que tem medo de imagem. essa luz amarela só ilumina o vazio da queda. quantos homens e quantas mulheres ajoelhados nesse chão que você pisa não quedaram. se você conseguisse enxergar na escuridão dessa luz amarela ia ver as marcas: vômito, náusea, sangue, gozo, pus. você ia ver e algo dentro dessa sua escuridão de luz amarela ia se pungir. de nojo ou tesão. ou os dois juntos. você com esses seus olhos de menina. olhos de mulher dentro dos olhos de menina dentro dos olhos de menino dentro dos olhos de ancião dentro dos olhos de menina. você não me engana. eu conheço o seu nojo e o seu tesão. sei de cor o seu pior. já vi na pele branquinha de tantas meninas como você. caídas nesse chão. não pedindo por mais nada. não pedindo por perdão. não pedindo por água. talvez por um pau. ou um dedo. uma língua. um corte rente no macio das pernas. eu vi homens velhos também. que vieram aprumados. desgostosos e descrentes. eles também caíram. e perderam o medo da minha cara alaranjada e eufórica. cara de cavalo da madrugada. eles todos sentiram o gosto acre dessa bebida. sentiram a dor e o prazer dessas mordidas de bicho da terra. se sentiram tão perto da morte, e do prazer lento e moroso e escuro da morte, se sentiram tão perto da cor da vida, marrom fezes, casca de ferida, coagulo, coisa vencida, que nunca voltaram. eu nunca mais chamei eles. eles abraçaram a própria escuridão e sairam lívidos e leves. eu vi nos seus olhos o fundo do desejo. eu ouvi a voz firme do avesso do amor. eu senti com meus pés quando você entrou o rumor da terra ordenando a sua presença. foi por isso que eu te chamei.

domingo, agosto 01, 2010

ébrio breu

A noite cai
densa e amarela.
Quente, se esparramando entre meus dedos.

Olho a noite no vão da mão.
Não a reconheço.
Semblante andrógino
de sono e desejo.

Plástica noite,
úmida.
A terra pulsa sobre os pés,
me suga.
Estranhos carnavais.

Com meus dedos faço desenhos.
É entre eles que te vejo.
Corpo pálido da noite.
Olhos fundos-escuros-furtivos,
da noite.

Dentro de mim assim ecoa.
É longe o som que faz.
Agarro-me a noção de ver,
e tudo escapa.

Resta no meio dessa escuridão,
retrato ébrio da retina.
Olhos entre os dedos.
Dois bichos escondidos no fundo do rosto.

Na noite a lua clara,
faz da luz escuridão.

sábado, julho 31, 2010

a mulher

ele abre as mãos cuidadosamente.
os nós dos dedos endurecidos pelo trabalho rude.
a pele morena endurecida pela presença constante do sol.
o marinheiro delicado,
abre a mão musculosa e se perde em pensamentos.
cada porto uma mulher.
ou então,
um perfume.

por trás dos cabelos,
segredos bem guardados pela pele macia da nuca,
braço de mar
entrando avassalador
na escuridão das cavernas ocultas pela distância.

é lá que se desprende.
mata, mar. salgado, canela, doce.
é ali que se torna delicada a mão brutal.
ali que ele ouve os segredos,
sussurrados em calor e cheiro,
de todas as mulheres do mundo.

quinta-feira, julho 29, 2010

teo

como se.
o gosto da proposição estala entre a língua e o céu da boca.
como se.
o dia estivesse bonito,
ou chovesse.
como se
houvesse porque
ou porques,
ao invés do desespero.
como se quinta fosse terça
e a terça sábado.
como se possível fosse a abundância do vinho
e da carne.
como se.

como
acreditar em uma fantasia.

domingo, julho 25, 2010

nhar

vai ser sempre fim de tarde.
o sol vai entrar oblíquo, gasto,
nos últimos esforços de trazer alegria e conforto.
a lua vai se anunciar
e a vela da terra
vai responder.

trago entre as mãos uma chavena de chá de jasmim.
em todas as salas cheiro de capim fresco.
tudo é pouco entre as vontades,
é esse quase adormecer
que traz a realidade do sonho.

velvet undergroung

eu gosto de pessoas peladas.
gosto de abraçar pessoas peladas lavando a louça e beijar e morder até elas desistirem da louça.

minas

recorta os olhos a vida antiga.

o barro ainda marca os dedos,
o mofo nos dutos.

velho é só o que contêm,
o tempo sem idade,
movimento.

sexta-feira, julho 23, 2010

tunika

deixo você deitada na cama cansada
e vejo o dia nascendo de fininho.
o manjericão na embalagem de leite,
daninho,
parece igual a ontem.

o sol nasce tingindo a igreja que dá pra ver da sua varanda,
cada dia é um dia.
laranja, rosa, azul, lilas,
são várias as cores que fazem pulsar a luz.

o dia nasce,
as plantinhas são iguais.
e seu gato.

dentro do meu coração implodem mil cores.
mas não é metáfora,
sinto as gotas de sentimento e saudade se conformando em coisas assim.

nessa madrugada ingenuamente silenciosa,
penso porque o corpo grita tanto.

quarta-feira, julho 21, 2010

cidade

dentro dessa casa tudo é tão pequeno.
e o lustre é do tamanho do mundo.
a água que escorre soma
equações impossíveis e permanentes.
a água do mar
e da torneira.

a terra ainda pulsa
e a cidade regurgita.

aqui quase nada cabe
só se adequa o corpo que sangra
para virar forma.

no escuro o grito fica mudo.

desassossego

odiar os poemas.
odiar as palavras.
odiar tudo aquilo que encontra barro
e dele faz os tijolos com que são feitos esses labirintos.

por trás dos olhos
esse enorme descampado.
terra seca,
mata esparsa.

as palavras daninhas insistem,
criando as paredes que no intuito de tudo dizer
escondem o silêncio infértil.

as palavras,
assim como as paredes,
são mudas.

zanzibar

é o último andar do edifício.
lá embaixo a cidade zune,
mantra infindável da pressa.

na sala ampla
luz baixa
e sombras alongadas,
ele está sentado no sofá com um cigarro entre os dentes.
olha com desconfiança o exemplar de um livro recente de um jovem escritor.

faz anos que ele resenha livros para sua coluna,
e a sensação de antecipar frustrações prováveis
lhe é muito familiar.
ele deve devorar as 212 páginas nessa noite,
mas não tem fome.

ele abre ligeiramente contrariado a primeira página
e começa a ler o prefácio,
alcoólico, de um colega de profissão e saco.

na rua um carro passa cantando os pneus,
o som característico da canalhice
sempre à espreita
sempre à espera.

ela aparece como quem vem do nada,
apesar de morarem juntos à 25 anos.
as escuridões sobriamente calculadas
revelam seu rosto aos poucos.
seu cabelo liso e bem escuro,
matriz árabe
de corpo e mistério.

ela se dirige ao som
e coloca um disco da Billy Holiday.
ela dança ligeiramente,
com o corpo quase parado.
olha para ele num convite mudo,
como se eles fossem muito jovens,
como se não estivessem casados a tanto tempo.
como se.

ela convida e ele se levanta.
menos porque o livro certamente seria uma frustração,
muito possivelmente porque às vezes,
contrariando todas as equações dos pessimistas,
a vida imita a si própria
e infla dentro do possível
o simples
e o lindo.


temperamento

silêncio na sala de espera.
à esquerda uma mulher de cabelo bem preso lixa as unhas e controla o movimento com o canto dos olhos.
à direita um senhor tem as mãos juntas em palma, as pernas bem separadas, apreensão nos vincos da testa: o semblante típico da espera.
ela usa um óculos de grau de lente levemente rosada, e aparentemente tem a mente leve, pois o prende a si com uma correntinha vulgar.
ele tem as solas gastas, a calça puída, o terno sem passar.
talvez falte tempo, dinheiro, ou apenas capricho.
ela é magra e tem uma cor amarelo-pálida.
de temperamento melancólico
não tem muito apreço ao prazer,
faz todos os dias o mesmo prato no almoço,
e não compreende a natureza do amor.
ele, por outro lado,
é um colérico nato.
forte, avermelhado,
de tez irritada e pulsante.
espera um filho
ou o resultado de uma empresa angustiante.
ao contrário dela,
tem apreço ao fogo
e a todas coisas que queimam.
enquanto ela prefere a carne de galinhas velhas
ele gosta que o bife lhe chegue sangrando à mesa.
ambos esperam,
entretanto.
ainda não sabemos o que.
cúmplices,
esperamos também.

segunda-feira, julho 19, 2010

segredo

o seu rosto de fecha,
ás de espadas,
em ternura e espera.

a boca antecede o riso
como lentamente se preparasse,
num movimento leve e preciso.

as pálpebras fechadas,
por concentração ou timidez,
perdem-me de vista me encontrando em cheio,
tato da escuridão.

a boca outonal
contração para nutrir
o nó para o galho
sorriso para o lábio.


xícara

esvaziou a xícara de chá e jogou-a contra a parede.
não havia nada no mundo que justificasse aquele grito.
o mundo de contenção servido em bandejas de prata
servia-lhe o prudente e o necessário.
a rotina se fazia em melodia,
harmonia repleta e hipócrita,
hino da justa-medida.
nada dela naquilo cabia.
dentro dela o que pouco a pouco
começava a apodrecer
era o nome que o grito chamava,
cacos de porcelana
onde antes era apenas barro.

jules e jim

ouve o vento cantando sobre a montanha,
é lá que ela queria estar
se fosse pó,
para que fosse levada em danças sem par.

quis alimentar-se da natureza do vento
para afastar o apego,
a hipocrisia, o conformismo e o medo.

o tempo, porém,
nunca parou.

e ela acabou como muitas outras.
não livre,
mas sim cruel,
como uma mulher.

domingo, julho 18, 2010

igby

ele se sentou no bar. tava muito frio, e apesar da facilidade da solidão de esperar lá fora, preferiu se sentar numa mesa. Melhor, lá fora poderia ter o azar de algum fumante corajoso achar que ele queria conversar. ele quis acender um cigarro, para ter algo para fazer com as mãos. para estar acompanhado de alguma forma enquanto esperava e não sentir as pessoas o olhando como um solitário por cima dos ombros. mas ele não fumava, sua garganta sempre inflamava quando ele esquecia disso. e fora isso, não era permitido fumar no quente de dentro do bar. Ele quis pedir uma bebida, num copo baixo e largo, uma bebida de cor levemente avermelhada. achou que combinaria com seu cachecol e que quando ela chegasse acharia interessantes as cores.
chamou o garçom que olhou com pouco caso, e pediu um guaraná, com bastante gelo e laranja. quando ela chegou ele bebia uns golinhos de resto de gelo com resto de laranja. ela sorriu pedindo desculpas pelo atraso, e colocou a bolsa em outra cadeira. ele sorriu pedindo desculpas por qualquer coisa e falou que não tinha problema, que tinha acabado de chegar. a mesa girou em falas que não diziam nada. no fundo de algum tipo de escuridão um olhava o outro em silêncio. ela achava terno o jeito como ele se desajeitava no mundo. ele sabia do erro, da conspiração dos fatos, para que os dois estivessem ali juntos. e isso, pelo menos, ele sabia aproveitar.

evoé

apesar do tempo marcando seu pulso,
sei que sua natureza é a desordem.

passar pelo reto
e torná-lo absurdo.

como entortar a matemática:
subtrair dois num colchão
e dobrar o espaço da cama.

sexta-feira, julho 16, 2010

tempo

o verbo do tempo é passar
tanto e tão rápido
que vai ver viver
é como se prender
às nuvens que nunca vão parar.

deux

o carinho que você faz na minha pele
e o olhar que acompanha
enquanto respondo em gesto e som
ainda não são
parte daquilo tudo que retorna
quando ouço uma música que toca.

também não são as palavras doces,
os gostos
na pele ou nos filmes.

não é nada disso.

os gestos e os estares
são as palavras
com que o seu silêncio
alcança o meu.

xxy

eram cheias de silêncio aquelas caminhadas,
noturnas ou com sol,
constantes e disciplinadas.

quando ela tinha 15 anos parecia ter 70.
isso se via pelos seus olhos.
escuros
e assustadoramente profundos.

se prestasse atenção
através dos olhos vislumbrava-se as curvas do mundo.
aprendidas em sabedoria e tempo,
em suas caminhadas nuas e solitárias.

sempre fora avessa ao contato humano,
áspero e indelicado.

aprendera tudo que sabia em lições de silêncio:
aprendeu a falar com o rio,
por isso sua voz rouca e lacônica.
aprendeu sobre o humor com o céu,
por isso às vezes nublava-se
ou, pelo contrário, fazia todos olharem para ela com espanto de luz.
aprendeu sobre a vida e a morte com o mar,
vendo que o doce vira salgado,
e que também pode afogar.

por fim aprendeu com a terra sobre o coração,
que é uma ordem pulsar
mesmo que o corpo todo diga não.