quinta-feira, setembro 30, 2010

cheio de inferno e céu

Quando uma mulher sente a solidão
e é como adensar-se numa floresta de céu leitoso.
Quando uma mulher deitada na cama ouve o ruído da mata,
ou ainda mais denso, seu silêncio.
Quando uma mulher olha para o céu do seu quarto
e sorri sem motivo e sem temer.
Quando uma mulher ouve música e é como se fosse acariciada
pelas ondas maiores dos acordes menores.
Quando uma mulher sente a cidade do lado de fora da sua parede
batendo seu nome como o mar.
Quando uma mulher não pensa mais em ninguém.
Quando a mulher não é flor, perfeita intuição dos outros,
mas mata, esparsa, selvagem, melódica.
Quando uma mulher é toda escuridão,
e seu toque não é luz.
Quando uma mulher é você.
Quando uma mulher sou eu.

terça-feira, setembro 28, 2010

no ceiling

se aproximar,
não como a maré
enganadora com suas coxas de sal e água.
como a paz,
sobrevindo algo delicioso e delicado
dentro do olho, escuro do quarto.
entre motins
e gritos mudos
tem um estado em mim que não se cala
patético silêncio.
um sorriso quase estúpido,
passo ante passo
perseguindo.
mais perto.
mais perto.
escuto o seu eco naquilo que é sólido,
chão e paredes.
mais perto,
desconheço seu tempo,
forma, nome,
espaço.
pressinto,
e tola
sorrio.

domingo, setembro 26, 2010

exercício

O homem nu sonha na cama. Todos os homens que o precederam eram nus e sonharam inumeráveis sonhos. Ele sonha estático o improvável sonho que lhe coube, e não a todos os homens do passado, do futuro, ou, muito pior, do presente infinito de homens, mulheres, meninas, velhos, plantas todos nus sonhando os sonhos que lhes couberam. Esse homem, que não serei vulgar a ponto de nominar, sonhava que era outro homem. Ou então, ainda mais surpreendente, sonhava ser ele mesmo um homem que não era, talvez um menino reinando numa antiga fazenda de café - como dita o sonho, talvez um homem que sonhasse o mesmo sonho exato que lhe cabia naquele momento.
Dentro de um, ou infinitos, círculos de sonhos, algum homem sonhava que era um menino. Que andava na fazenda. Que a fazenda era de café. E que haviam negros dançando e cantando em volta de uma fogueira de luz vermelha. Os negros bradavam: olhe nos olhos do demônio e veja se ele te devora. O menino, ou o homem, olhava então para a máscara do demônio, e via apenas a máscara, para além das órbitas vazias apenas a máscara - materialização de quem sabe que a máscara não vela, mas sim revela; como um sonho que não tivesse por quem ser sonhado.
Aquele que olha a máscara, que já não ousarei saber se era menino, homem, se era aquele que me contou esse conto, se era você ou se era eu, se assustou perante a ausência do rosto, a ausência dos olhos, e subitamente pensou "talvez o demônio seja eu". Aquele que olha encarou profundamente a máscara, e com ela desenhou em passos círculos em volta da fogueira. A fogueira vermelha chilintava a umidade das madeiras, denunciando a imensa improbabilidade daquele momento. Não havia carne a se emprestar para esse instante, tudo ocorria no plano disperso onde ocorrem os sonhos, as memórias e os textos, não havia unidade a se retornar, senão o homem nu distante - em outra cidade, em outros tempos.
O menino do sonho, entretanto, continuava a dançar com a máscara, como o medo, o outro e o espelho. A máscara sem rosto, e o menino sem nome. Ele então começou a se distanciar, dando passos mais espassados - queria alcançar a porta. Antes de deixar para sempre o sonho, porém, alguma espécie de intuição mobilizou o menino, que deu um último olhar de soslaio para a máscara. Ele não viu o vazio recheando sem pudores os buracos dos olhos. Ele não viu. Por trás da máscara dois olhos reais o observavam.

sexta-feira, setembro 24, 2010

ótica

tartaruga de fogo é barriga.
umbigo da humanidade,
uísque com muito gelo, ou gim.
entre a cruz e a espada está o ar,
h do homem barulho na garganta
que jorra e seca da água.
música ordenação possível - caos ou dialética
ordinário na beleza, sem julgamento possível.
a melhor interpretação é a alegria
fico com essa
mentira pode ser verdade
só por hoje
ficção é fazer
outro em mim
fim.



texto semi ébrio da alegria da ana e lau

quinta-feira, setembro 23, 2010

vênus

falta o feminino
de saber que o vazio
sou eu.

autor

quando algo lindo assim embrenha forte no cheiro da gente,
vê que o que não tem autor
é a vida.

Fazedor

Faz tempo que não escrevo. Todos os meus textos tem sido silenciosos. Uma palavra ou frase puxa a encadeação vã. É na minha mente que projeto sua continuação. É na minha mente que dela me desfaço.
Se sou real ou não faz depender ser uma história ou uma estória.
Nas minhas ficções (caminhos) acabo chamando de acaso deus, de materialidade importância.
Nem deus, nem importância.
Antes percebo, a realidade das coisas que dão certo ou errado,
a inexistência de mérito ou ordem,
nem forças maiores ou menores.
Não há karma, destino,
muito menos materialismo-histórico.
Antes percebo,
dança de acasos, Loteria da Babilônia.

segunda-feira, setembro 20, 2010

carne

é na carne que cresce.
como flores carnudas cheias de cheiro
a vontade; com o gosto acre da cerveja
a poesia; com as palavras tortas
as cartas nunca enviadas;
e o gosto torpe da língua.
é na mansidão da carne que prospera.
o movimento como música
talvez sexo; o gesto sutil ou escancarado projeto
ou política; o amor como idéia ou como tempo,
subjeto.
é no corpo e na carne.
olhar, resto do passado
ou memória; vislumbre do futuro,
ou destino;
é na carne.
que o tempo cessa,
que tudo se encontra,
acaba e recomeça.
é na carne, corpo, olhar.
que o presente acontece,
vida imensa:

sábado, setembro 18, 2010

si

ela não me diz nada,
e dança.
olha como-que para um futuro
que não me cabe entrever.
às vezes lança o quadril em minha direção
ou um dos olhos
cubismo próprio do charme.

quando nos beijamos
a minha boca permanece na dela,
mas meus olhos se afastam.
se assustam.
sentem a altura inverossímel desse silêncio.

sal

areia da noite!
jogada para cima
com sorriso e gosto áspero na língua.
éramos nós as crianças
brincando com facas
os jogos dos adultos.
se sentávamos era nas cadeiras
flutuantes dos mares
bares, céus estrelados e ovos.
esbaldados de cachaça e amor
dormir como anjos
e acordar domingos.

quinta-feira, setembro 16, 2010

marinheiro das horas inteiras

antes não sabia se vinha a sensação - madeira escorrendo cheia de sulcos, cheiro de amora e fumaça. marrom e listrado azul e branco, ou se a emoção nostalgia como chá morno melancolia leve de dois cigarros alegria estúpida. por excesso de constrangimento dos outros decidira deixar o seu na porta de casa, usava azul listrado com branco na blusa e na calça, marinheiro das vagas, as horas, não as ondas. tinha uma estrela em cada olho e nas mãos um universo. tecia destinos com lã vermelha e previa as estações em copo d'gua.
era assim que sentia saudades, derradeiro e estúpido sentado na cozinha. abria e fechava os dedos e pensava, principalmente na estupidez que era pensar no sentir e ser. em volta dele tudo se modificava aos poucos, os olhos piscavam era dia ou era noite, os móveis dançavam como a provocar a exatidão da ciência.
ele não dava pelota para esse mundo outro. não era rei, mas também na barriga tinha mundo. e sabia que existiam os homens, as estrelas, a terra e o quarto último amigo, o acaso.
por isso ele usava listrado. por isso cada mar era uma surpresa, cada dia uma baleia.

segunda-feira, setembro 13, 2010

médio ex

foi quase. foi por um fio.
mas aí a noite veio e me trouxe de volta
bicho imenso
serpente dos olhos opacos
em fluxo debaixo dos pés.
o ônibus entrou no túnel
e as luzes laranjas batiam ritmadas
no olho do olho de tudo.
a lua não sorria nem chorava.
era nada imenso tudo aquilo.
sem vontade nem pensamento
nenhum espaço para babaquices:
tudo que fosse pequeno por favor que esperasse
a noite e a vida imensas
sorrindo em disparada.

domingo, setembro 12, 2010

sorriso maroto

Bate o sol delicado
ou é luz de dentro
baixa,
feminina.
Que esconde sua pele e mostra
ao mesmo tempo
o que eu achei que só meus olhos podiam achar no seu rosto.
Nas minhas mãos talvez carregue algum tipo de máquina,
metal frio, cor de cobre,
nesse tempo que invento
é com ela que te retrato.
Ao ve-la você sorri
escancarando por todas as vezes necessárias
a beleza intensa de um instante
que embora não exista
pudemos todos ver.

sábado, setembro 11, 2010

você

me pergunta o porque do silêncio.
Eu te respondo
olhando para eles sentados no chão
se olhando

calando fundo alguma coisa
que talvez venha da música
profunda e suave

talvez da lua
baixa e delicada
talvez do vinho
tingindo o dente
e a alma.

nada digo
e em silêncio espero
que você tudo entenda.

'je pense a toi'


Ciclos de pedra e areia entrando à beira do mar.
Como faze-los?
O sol ressente os músculos
brancos de urbanidade e tédio.
A nudez brilha contra o sol
os pés ariscos na areia.
As extremidades e os meios desse corpo sem nome
constroem o labirinto de pedra como um mantra.
A solidão da beira da praia é como o metal,
e o mesmo gosto na boca.
Esse país não tem nome,
mas tem música.
Movimentos concêntricos
quem antes é o labirinto
pedra, dança
ou mulher.

terça-feira, setembro 07, 2010

cinco minutos

eu quis te dizer uma palavra.
era uma palavra simples
e eu pedi cinco minutos
pra você olhasse no meu olho e ouvisse.

você não me ouviu.
por falta de interesse
ou concentração.

a palavra engastalhou no meu dentro
e virou silêncio.

domingo, setembro 05, 2010

sou

tudo o que eu tenho.
as palavras contidas na língua
prontas.
o corpo quente
jovem.
a curiosidade,
o gosto.
o sorriso
e o choro.
tudo
que chega inteiro a boca.

sexta-feira, setembro 03, 2010

cozinha

o corpo dela suava em cima da cama. o corpo dela
mesmo inadimplente
incorrigivelmente
necessariamente
vivo.
pulsando e suando em cima da cama.

ou estávamos paralisadas diante daquele momento cirúrgico,
ou ela tinha se endurecido por alguma coisa que eu dissera.
eu não me lembrava de nada que poderia ter dito.
eu não lembrava de nada que tivesse dito.
eu não lembrava de nada.
tinha esse momento na mão
gelo derretendo lentamente em contato com a pele.
e mais nada.

ela olhava pro teto
e pensava.
pensava por querer evitar estar
ou por tédio.
se agarrou com as duas mãos na coberta.
esperava.
eu sai do quarto para beber um destilado na sala
e para ouvir música olhando a cidade.
como uma mulher
suada
nua
sozinha
no quarto.
esperando.

surplus

algum tipo de lugar possível.
o outro tem gosto de nada.
o mar.......
que me vem inteiro a boca
é salgado.

talvez
minha incapacidade de compreensão.
possível.
mas antes o sim e o não.

e como garantia o sangue,
como quem topa morrer
pra não viver em submissão.

terça-feira, agosto 31, 2010

sonho


Os homens todos estavam inquietos. olhavam apreensivos para os lados. Fundo, uns nos olhos dos seguintes. O escuro de seus olhos os fazia femininos, fortes do modo de quem conhece um segredo. Eram anciões em corpos jovens, o que agravava a sensação de que algo ia mal. Um deles segurou no meu braço firmemente, deixando marcas roxas no meu punho. Seu olhar era cinza. como a praia e o céu. Ele me explicou que participaria de um mito.
A tartaruga imensa desceria esse fim de tarde da montanha: sua barriga era de fogo e seu casco de fumaça. Eu deveria ir para o mar, não tão fundo que me afogasse, não tão raso que me queimasse em sua barriga.
Deitei-me no mar como devia e, como todos, olhei para a terra. O tempo seco estalava sem trovões. Repentinamente, a enorme tartaruga começou a descer a montanha. Seu corpo ocupava toda a terra, e seu passo era avassalador. Em segundos ela cobrira a distância de meses de caminhada, e nos lambia as cabeças. Ela sorria. Nós cuidadosamente amparávamos frágeis nas mãos duas crianças, a morte e a vida. Estavamos plácidos e úmidos. Silenciosos de viver um mistério.

segunda-feira, agosto 30, 2010

eros

É primavera viva entre seus dedos
Intactos
polvos sem tentáculos.
Flores densas
plantas carnívoras.

Sob a minha superfície
lisa,
lago plácido.
Eis jardim
descortinado por seu toque:
rosa-quente,
poema escancarado.

sábado, agosto 28, 2010

suave

enquanto do lado de lá é chuva
ali dói sem precisar.

quarta-feira, agosto 25, 2010

ar

unha suja.
calo no pé e na mão.
instrumento
e olho no olho.

funda a fome.
pouco medo no mato,
grande
na cidade.

esguia como capim,
lascívia.
sorrateira,
escorregadia.

fora daqui
tudo é momento.
delicado pássaro
machucado,
aninhado entre os dedos.

embora aqui
levanto da cadeira do medo,
estendo as mãos para você
e espero que o mesmo pássaro,
embora em segredo,
possa voar.

domingo, agosto 22, 2010

ciência

o sol ilude a noite que há em todo caminho.
intermitente é a luz.
a escuridão é sempre.

antes e depois do dia tem a noite,
antes e depois da vida a morte.

eu sinto a minha pele queimando no sol.
a ilusão é empírica,
vivo.

sábado, agosto 21, 2010

mim e eu, tributo egocêntrico a marilda, que tanto me desensinou na vida

quando eu era bem pequena
uma senhora desajeitada e feia
me ensinou porção de coisas.
disse que dentro de mim não cabia eu,
que enquanto um se ensimesmava
sujeito e submisso,
o outro sempre agia,
não dando tempo pra poesia.
era eu quem sentia
eu quem chutava
eu quem corria.
dentro de mim lentamente iam se acumulando
as coisas cheias de poeira,
já que era sempre em mim que tudo cabia.
era em mim que pensavam
para mim que olhavam
sentiam,
cantavam.
mim era esse objeto,
mulher dejeto
que se quisesse reclamar do quadro
tinha que pedir a eu,
que fizesse algo.

desabafo amidalite

hoje de manhã o frio e a garganta machucada me assaltaram. roubaram toda energia, o breu de dentro dos músculos. vim pra casa cedo e fiquei olhando a janela. as mil janelinhas claras. e quantas pessoas com o gosto do novo, um encantamento todo certo, de nunca ter pousado sobre essa bancada. estou triste. antecipo na boca o gosto do álcool que eu não bebi. o violão que não toquei. a coisa que não aprendi. o mundo tão grande rodando aí fora. numa velocidade estupenda. e parece tão parado.

quinta-feira, agosto 19, 2010

11 de outubro de 2008

castelo de cartas

Coloco gentilmente a terapia e a estrutura familiar próximas, para que num equilíbrio impossível possam sustentar a produtividade diária. Ao lado faço o mesmo com o acordar cedo e com o afeto dos outros, para que assim possa gostar mais de mim. Tomo cuidado para separar as cartas alcoolismo e loucura do baralho, deixando de sustentar uma certa liberdade da qual só ouvimos falar. Sem querer pego culpa de classe e com ela dever, que amparam o castelo todo. De resto, seguro todas as cartas com os braços, esperando cheia de angústia o dia em que um sopro prolongado o fará ruir.

quarta-feira, agosto 18, 2010

domingo, agosto 15, 2010

doses pequenas

Ela entrou na cozinha ansiosa. Mal disfarçando o crime que ansiosamente cometeria. Sentou na mesa que ele acabara de deixar vazia. Olhou atenta. Marcas de café. Passou os dedos pelos círculos e círculos de úlcera e responsabilidades desorganizadas. Um pouco de açuçar derramado. Prognosticou - Era um fraco, e precisava do subterfúgio do doce para se ver com o amargor. Nenhuma louça a lavar, só a mesa suja - Ele não ligava pro supérfluo, ilusão de dever. Não lhe valia nada ter uma mesa sem nódoas. Na geladeira resquícios arqueológicos de compras não habituais, e um cheiro estranho - Autonomia delicada. Desejo de se fundir ao vento.
Calculou os prós e os poréns
e constatou delicada
Nux vomica para os excessos do medo,
phosphori acidum para alimentos ou bebidas azedos,
para quando tivesse ciúmes demais hyoscianus
e arnica
para os esforços exagerados.

sábado, agosto 14, 2010

a toureira

A sala era enorme. E tudo inverso. Quase vazio todo o espaço
povoado, preenchido, saturado, transbordado de ausência.
O único som vinha do aparelho improvisado,
lá fora só a noite gritava o silêncio.
O flamenco fazia o corpo todo dela se encrispar,
se desfazer em volutas, enleios.
Os olhos cravados em mim,
desenhando labirintos.
Ela endureceu as costas
e eu me senti em perigo.
Ela se aproximou olhando no duro dos olhos
e falou
você sabe como o toureiro domina o touro?
Eu balbuciei a minha ignorância,
como homem e como mulher.
Então ela desfez a rigidez das costelas
em movimentos delicados,
com as mãos, os quadris,
os olhos, cabelos.
Algo naquilo era conhecido.
correspondia
àquilo que eu, incauta
pensava ser dança.
Dessa vez, entretanto,
a mulher não queria prender entre os dedos
o possível touro.
mas sim matar a besta,
para poder enfim
deitar com o homem.

quarta-feira, agosto 11, 2010

madona

imagens garfo e faca azul claro. na mesa a carne está crua. e nos braços. fígado de boi tem seu sono embalado. no seu parto difícil do plástico. é pela vaca que você chora. lágrimas de sangue plástico. nenhum fogo tirará essa dor. ou cozinhará esse desentendimento. na cozinha a luz de metileno ilumina suas desilusões e o feto morto que tem nos braços.

segunda-feira, agosto 09, 2010

metástase

Os dentes estão na boca. Brancos. Amarelos. Pretos. Estão para que mordam. Para que sintam o gosto acre da tinta vermelha abundante nos dedos e no rosto. Não é o mesmo gosto do sangue. A cabeça está aí para que isso se saiba. O gosto da tinta vermelha diz ao corpo da proximidade da morte, e envenena o corpo lentamente.
Se olhe no espelho do banheiro. E se alimente de tinta, vermelha ou preta. Aos poucos a pele vira plástico, e a emoção dizem que vira arte. Se aproxime assim, devagar, da morte. Como quem pede para dançar uma linda mulher, de nome desconhecido por todos.
O gosto é pior do que o do gin, mas o funcionamento é mais preciso.
Com um estilete escreva na própria pele seus melhores poemas.
Deixa brotar vasto o sangue, sempre menos seu que do mundo.
Deixa a tinta virar sangue,
para que o sangue também possa ser tinta.

domingo, agosto 08, 2010

azul

numa quinta feira eu a ensinei a escrever segredos com limão. ela ainda não sabia os nomes das coisas, dessa forma ela podia sentir as palavras com o corpo, entender o silêncio delas. esse dia ela aprendeu revelar, sincera, desvelar. e riu da mudança.
foi quando ela perguntou sobre o amor que decidiu também me ensinar. então era como o azul dentro do azulejo que era idéia?
e eu não pude mentir:
era.

sono

abre os olhos. deixa a luz inundar os olhos. como uma torrente que destrói e lava. abre os olhos. deixa a luz-líquido-branco te tirar dos maus sonhos. deixa ela percorrer o seu corpo. acordar lentamente as orelhas. sentir descendo pelo esôfago, atingindo em cheio a boca do estômago.
deixa ela acordar a úlcera. as pernas machucadas. a garganta.
estica o braço e alcança a água.
ela reacende os poros que a luz não pode.

o corpo mumificado em sonho acorda na luz e na água.

sábado, agosto 07, 2010

triste recôncavo

recompor os cacos dessa tristeza vítrea
e não conseguir a sentir
é como olhar para uma mulher feia.

quinta-feira, agosto 05, 2010

como não dar certo como um casal
















lição 1.
durepoxi.

O durepoxi é composto por duas massas distintas, que vem separadas na caixa. Distintas em cor, humor, natureza. Para que se produza o amálgama que poderá tomar diferentes formas é necessário que se abdique das personalidades de cada massa para as transformar, atráves do toque e do calor constante, em uma única massa cinza e modelável.
Entretanto, quando o interesse em a modelar cessa, e o toque e o calor a deixam, a massa endurece na forma em que estava, seja ela qual for.
Se tal "escultura" cair no chão, restarão pedaços dispersos nos quais não poderão ser reconhecidos traços das duas massas do ínicio, e nem tampouco da forma final.

quarta-feira, agosto 04, 2010

casa 8

reza a lenda. nada reza. se rezasse aqui nessa casa não entrava. esse relicário aí na entrada é só pra afastar o santo, que tem medo de imagem. essa luz amarela só ilumina o vazio da queda. quantos homens e quantas mulheres ajoelhados nesse chão que você pisa não quedaram. se você conseguisse enxergar na escuridão dessa luz amarela ia ver as marcas: vômito, náusea, sangue, gozo, pus. você ia ver e algo dentro dessa sua escuridão de luz amarela ia se pungir. de nojo ou tesão. ou os dois juntos. você com esses seus olhos de menina. olhos de mulher dentro dos olhos de menina dentro dos olhos de menino dentro dos olhos de ancião dentro dos olhos de menina. você não me engana. eu conheço o seu nojo e o seu tesão. sei de cor o seu pior. já vi na pele branquinha de tantas meninas como você. caídas nesse chão. não pedindo por mais nada. não pedindo por perdão. não pedindo por água. talvez por um pau. ou um dedo. uma língua. um corte rente no macio das pernas. eu vi homens velhos também. que vieram aprumados. desgostosos e descrentes. eles também caíram. e perderam o medo da minha cara alaranjada e eufórica. cara de cavalo da madrugada. eles todos sentiram o gosto acre dessa bebida. sentiram a dor e o prazer dessas mordidas de bicho da terra. se sentiram tão perto da morte, e do prazer lento e moroso e escuro da morte, se sentiram tão perto da cor da vida, marrom fezes, casca de ferida, coagulo, coisa vencida, que nunca voltaram. eu nunca mais chamei eles. eles abraçaram a própria escuridão e sairam lívidos e leves. eu vi nos seus olhos o fundo do desejo. eu ouvi a voz firme do avesso do amor. eu senti com meus pés quando você entrou o rumor da terra ordenando a sua presença. foi por isso que eu te chamei.

domingo, agosto 01, 2010

ébrio breu

A noite cai
densa e amarela.
Quente, se esparramando entre meus dedos.

Olho a noite no vão da mão.
Não a reconheço.
Semblante andrógino
de sono e desejo.

Plástica noite,
úmida.
A terra pulsa sobre os pés,
me suga.
Estranhos carnavais.

Com meus dedos faço desenhos.
É entre eles que te vejo.
Corpo pálido da noite.
Olhos fundos-escuros-furtivos,
da noite.

Dentro de mim assim ecoa.
É longe o som que faz.
Agarro-me a noção de ver,
e tudo escapa.

Resta no meio dessa escuridão,
retrato ébrio da retina.
Olhos entre os dedos.
Dois bichos escondidos no fundo do rosto.

Na noite a lua clara,
faz da luz escuridão.

sábado, julho 31, 2010

a mulher

ele abre as mãos cuidadosamente.
os nós dos dedos endurecidos pelo trabalho rude.
a pele morena endurecida pela presença constante do sol.
o marinheiro delicado,
abre a mão musculosa e se perde em pensamentos.
cada porto uma mulher.
ou então,
um perfume.

por trás dos cabelos,
segredos bem guardados pela pele macia da nuca,
braço de mar
entrando avassalador
na escuridão das cavernas ocultas pela distância.

é lá que se desprende.
mata, mar. salgado, canela, doce.
é ali que se torna delicada a mão brutal.
ali que ele ouve os segredos,
sussurrados em calor e cheiro,
de todas as mulheres do mundo.

quinta-feira, julho 29, 2010

teo

como se.
o gosto da proposição estala entre a língua e o céu da boca.
como se.
o dia estivesse bonito,
ou chovesse.
como se
houvesse porque
ou porques,
ao invés do desespero.
como se quinta fosse terça
e a terça sábado.
como se possível fosse a abundância do vinho
e da carne.
como se.

como
acreditar em uma fantasia.

domingo, julho 25, 2010

nhar

vai ser sempre fim de tarde.
o sol vai entrar oblíquo, gasto,
nos últimos esforços de trazer alegria e conforto.
a lua vai se anunciar
e a vela da terra
vai responder.

trago entre as mãos uma chavena de chá de jasmim.
em todas as salas cheiro de capim fresco.
tudo é pouco entre as vontades,
é esse quase adormecer
que traz a realidade do sonho.

velvet undergroung

eu gosto de pessoas peladas.
gosto de abraçar pessoas peladas lavando a louça e beijar e morder até elas desistirem da louça.

minas

recorta os olhos a vida antiga.

o barro ainda marca os dedos,
o mofo nos dutos.

velho é só o que contêm,
o tempo sem idade,
movimento.

sexta-feira, julho 23, 2010

tunika

deixo você deitada na cama cansada
e vejo o dia nascendo de fininho.
o manjericão na embalagem de leite,
daninho,
parece igual a ontem.

o sol nasce tingindo a igreja que dá pra ver da sua varanda,
cada dia é um dia.
laranja, rosa, azul, lilas,
são várias as cores que fazem pulsar a luz.

o dia nasce,
as plantinhas são iguais.
e seu gato.

dentro do meu coração implodem mil cores.
mas não é metáfora,
sinto as gotas de sentimento e saudade se conformando em coisas assim.

nessa madrugada ingenuamente silenciosa,
penso porque o corpo grita tanto.

quarta-feira, julho 21, 2010

cidade

dentro dessa casa tudo é tão pequeno.
e o lustre é do tamanho do mundo.
a água que escorre soma
equações impossíveis e permanentes.
a água do mar
e da torneira.

a terra ainda pulsa
e a cidade regurgita.

aqui quase nada cabe
só se adequa o corpo que sangra
para virar forma.

no escuro o grito fica mudo.

desassossego

odiar os poemas.
odiar as palavras.
odiar tudo aquilo que encontra barro
e dele faz os tijolos com que são feitos esses labirintos.

por trás dos olhos
esse enorme descampado.
terra seca,
mata esparsa.

as palavras daninhas insistem,
criando as paredes que no intuito de tudo dizer
escondem o silêncio infértil.

as palavras,
assim como as paredes,
são mudas.

zanzibar

é o último andar do edifício.
lá embaixo a cidade zune,
mantra infindável da pressa.

na sala ampla
luz baixa
e sombras alongadas,
ele está sentado no sofá com um cigarro entre os dentes.
olha com desconfiança o exemplar de um livro recente de um jovem escritor.

faz anos que ele resenha livros para sua coluna,
e a sensação de antecipar frustrações prováveis
lhe é muito familiar.
ele deve devorar as 212 páginas nessa noite,
mas não tem fome.

ele abre ligeiramente contrariado a primeira página
e começa a ler o prefácio,
alcoólico, de um colega de profissão e saco.

na rua um carro passa cantando os pneus,
o som característico da canalhice
sempre à espreita
sempre à espera.

ela aparece como quem vem do nada,
apesar de morarem juntos à 25 anos.
as escuridões sobriamente calculadas
revelam seu rosto aos poucos.
seu cabelo liso e bem escuro,
matriz árabe
de corpo e mistério.

ela se dirige ao som
e coloca um disco da Billy Holiday.
ela dança ligeiramente,
com o corpo quase parado.
olha para ele num convite mudo,
como se eles fossem muito jovens,
como se não estivessem casados a tanto tempo.
como se.

ela convida e ele se levanta.
menos porque o livro certamente seria uma frustração,
muito possivelmente porque às vezes,
contrariando todas as equações dos pessimistas,
a vida imita a si própria
e infla dentro do possível
o simples
e o lindo.


temperamento

silêncio na sala de espera.
à esquerda uma mulher de cabelo bem preso lixa as unhas e controla o movimento com o canto dos olhos.
à direita um senhor tem as mãos juntas em palma, as pernas bem separadas, apreensão nos vincos da testa: o semblante típico da espera.
ela usa um óculos de grau de lente levemente rosada, e aparentemente tem a mente leve, pois o prende a si com uma correntinha vulgar.
ele tem as solas gastas, a calça puída, o terno sem passar.
talvez falte tempo, dinheiro, ou apenas capricho.
ela é magra e tem uma cor amarelo-pálida.
de temperamento melancólico
não tem muito apreço ao prazer,
faz todos os dias o mesmo prato no almoço,
e não compreende a natureza do amor.
ele, por outro lado,
é um colérico nato.
forte, avermelhado,
de tez irritada e pulsante.
espera um filho
ou o resultado de uma empresa angustiante.
ao contrário dela,
tem apreço ao fogo
e a todas coisas que queimam.
enquanto ela prefere a carne de galinhas velhas
ele gosta que o bife lhe chegue sangrando à mesa.
ambos esperam,
entretanto.
ainda não sabemos o que.
cúmplices,
esperamos também.

segunda-feira, julho 19, 2010

segredo

o seu rosto de fecha,
ás de espadas,
em ternura e espera.

a boca antecede o riso
como lentamente se preparasse,
num movimento leve e preciso.

as pálpebras fechadas,
por concentração ou timidez,
perdem-me de vista me encontrando em cheio,
tato da escuridão.

a boca outonal
contração para nutrir
o nó para o galho
sorriso para o lábio.


xícara

esvaziou a xícara de chá e jogou-a contra a parede.
não havia nada no mundo que justificasse aquele grito.
o mundo de contenção servido em bandejas de prata
servia-lhe o prudente e o necessário.
a rotina se fazia em melodia,
harmonia repleta e hipócrita,
hino da justa-medida.
nada dela naquilo cabia.
dentro dela o que pouco a pouco
começava a apodrecer
era o nome que o grito chamava,
cacos de porcelana
onde antes era apenas barro.

jules e jim

ouve o vento cantando sobre a montanha,
é lá que ela queria estar
se fosse pó,
para que fosse levada em danças sem par.

quis alimentar-se da natureza do vento
para afastar o apego,
a hipocrisia, o conformismo e o medo.

o tempo, porém,
nunca parou.

e ela acabou como muitas outras.
não livre,
mas sim cruel,
como uma mulher.

domingo, julho 18, 2010

igby

ele se sentou no bar. tava muito frio, e apesar da facilidade da solidão de esperar lá fora, preferiu se sentar numa mesa. Melhor, lá fora poderia ter o azar de algum fumante corajoso achar que ele queria conversar. ele quis acender um cigarro, para ter algo para fazer com as mãos. para estar acompanhado de alguma forma enquanto esperava e não sentir as pessoas o olhando como um solitário por cima dos ombros. mas ele não fumava, sua garganta sempre inflamava quando ele esquecia disso. e fora isso, não era permitido fumar no quente de dentro do bar. Ele quis pedir uma bebida, num copo baixo e largo, uma bebida de cor levemente avermelhada. achou que combinaria com seu cachecol e que quando ela chegasse acharia interessantes as cores.
chamou o garçom que olhou com pouco caso, e pediu um guaraná, com bastante gelo e laranja. quando ela chegou ele bebia uns golinhos de resto de gelo com resto de laranja. ela sorriu pedindo desculpas pelo atraso, e colocou a bolsa em outra cadeira. ele sorriu pedindo desculpas por qualquer coisa e falou que não tinha problema, que tinha acabado de chegar. a mesa girou em falas que não diziam nada. no fundo de algum tipo de escuridão um olhava o outro em silêncio. ela achava terno o jeito como ele se desajeitava no mundo. ele sabia do erro, da conspiração dos fatos, para que os dois estivessem ali juntos. e isso, pelo menos, ele sabia aproveitar.

evoé

apesar do tempo marcando seu pulso,
sei que sua natureza é a desordem.

passar pelo reto
e torná-lo absurdo.

como entortar a matemática:
subtrair dois num colchão
e dobrar o espaço da cama.

sexta-feira, julho 16, 2010

tempo

o verbo do tempo é passar
tanto e tão rápido
que vai ver viver
é como se prender
às nuvens que nunca vão parar.

deux

o carinho que você faz na minha pele
e o olhar que acompanha
enquanto respondo em gesto e som
ainda não são
parte daquilo tudo que retorna
quando ouço uma música que toca.

também não são as palavras doces,
os gostos
na pele ou nos filmes.

não é nada disso.

os gestos e os estares
são as palavras
com que o seu silêncio
alcança o meu.

xxy

eram cheias de silêncio aquelas caminhadas,
noturnas ou com sol,
constantes e disciplinadas.

quando ela tinha 15 anos parecia ter 70.
isso se via pelos seus olhos.
escuros
e assustadoramente profundos.

se prestasse atenção
através dos olhos vislumbrava-se as curvas do mundo.
aprendidas em sabedoria e tempo,
em suas caminhadas nuas e solitárias.

sempre fora avessa ao contato humano,
áspero e indelicado.

aprendera tudo que sabia em lições de silêncio:
aprendeu a falar com o rio,
por isso sua voz rouca e lacônica.
aprendeu sobre o humor com o céu,
por isso às vezes nublava-se
ou, pelo contrário, fazia todos olharem para ela com espanto de luz.
aprendeu sobre a vida e a morte com o mar,
vendo que o doce vira salgado,
e que também pode afogar.

por fim aprendeu com a terra sobre o coração,
que é uma ordem pulsar
mesmo que o corpo todo diga não.

quinta-feira, julho 15, 2010

conhaque

entrou pelas portas que rodavam infinitamente,
empurrado pelo frio e vento cortante
de um lá fora que se cristalizava em passado
conforme ele passava a participar da dinâmica morna e uterina
do bar transformado
pelos cheiros quentes, vozes esparsas e cores sóbrias.

os olhos distraídos por todas e tantas coisas
demoraram a notar algo previamente conhecido.
em repetição as direções que se perdiam em busca do garçom,
e de alguma bebida que preenchesse,
ultrapassou duas mesas como se estivesse diante de uma folha em branco,
e parou no rosto dela,
como quem vê um pássaro vermelho.

ela não olhou para ele.
tudo ao redor, cores, cheiros, homens e cachorros,
eram ainda folhas em branco para ela.

ele quis que o mundo parasse.
quis que o tempo parasse.
para que ele pudesse aprender piano e tocar para ela algo doce.

ele entraria em seus olhos,
e delicadamente a puxaria pelas mãos.
ela sairia do universo cuidadosamente construído nos enleios de sua cabeça,
apoiaria seu copo na mesa,
e dançaria com ele uma valsa antiga.


quando o garçom trouxe o cálice do conhaque tudo voltou a si.
ele olhou para ela
procurando-a dentro e fora de um pensamento.
ela olhou para ele
como se realmente enxergasse
as cores e nomes prometidas em sonho.
eles se olharam
profundo do fundo do olho.

em algum lugar
alguém tocava a valsa deles.

terça-feira, julho 13, 2010

eledá

eu não devia te dizer,
e nessa cidade duvido que entenda.
apesar do sol nascer ele não esquenta.

segunda-feira, julho 12, 2010

anoitecer

Os nativos de Guruka deixavam espalhados pelas trilhas caules de uma planta que só eles conheciam, causando pequenos cortes, imperceptíveis, porém eficientes. Aqueles que tentavam desbravar seu território voltavam para as camas-leito enfermos, exaustos, como se a força vital que impulsionava sua vontade tivesse se extinguido completamente.
Para os nativos a tática funcionava diplomaticamente, atacava funcionalmente e com sutileza o âmago daqueles que vinham com más intenções. Para os desbravadores que desconheciam os poderes daquele conhecer, o estado lânguido de seus feridos era cheio de um apelo mítico e escuro.
Ao anoitecer, ambos se respeitavam, e deitados nos acampamentos, casas, cabanas, ou mesmo ao relento, ouviam o pulso da terra bater. Embora a costa fosse distante em muitos quilômetros, o ir e vir do mar os acalentava, e eles dormiam gratos, com o brilho vivo de quem se integra à própria pequenez.

campo contra campo

ela acendeu o cigarro e foi espiar ele
através da porta.
uma dessas portas cheias de frestinhas.
ele dividido em mil horizontais,
caleidoscópio estático.

com um sorriso bobo no rosto,
indo e voltando de quadro
fazendo a massa de pão.

domingo, julho 11, 2010

afogar

a bebida me encaminha.
traz caminhos antes dispersos,
reprimidos,
pelo estático do momento.

por exemplo,
é só agora que sei
o tanto pouco
das coisas que desconheço.

como
olhar para ela e não dar pé.

se afogar nessa água linda
de morrer de beleza
azul.

indeciso

ou era ela
o mar.

sábado, julho 10, 2010

anotações de caderno IV

Aquele que esquece o próprio nome passa a viver apenas das suas relações imediatas. O homem social, sem sociedade, cinde o corpo que sobrevive das matas densas de suas fantasias.

7 de março

anotações de caderno III

O mito do pânico:
adentrar tão fundo na mata que perde
toda e qualquer referência espaço/temporal.
O homem dele mesmo se perde,
e o espírito de pan o domina.

10 de abril

anotações de caderno II

Desejo.
Quero falar dele.
Ver se falando ele me habita.

Tenho me achado bonita.
Como uma paisagem que não se integra a nada.

14 de maio

anotações do caderno I

eu desenho melhor com as palavras,
mas se digo isso,
é como se desenhasse o meu próprio desenho.

14 de maio

furgão

Foi numa madrugada exatamente como essa. A cumplicidade calma e inocente dos móveis do quarto. O lustre aquecendo sutilmente os livros dispostos na escrivaninha, sussurrando em seu ouvido palavras desconexas, pequenas histórias, teias indecisas para compor seus sonhos.
Quando eles vieram tudo estava exatamente assim. Todas as coisas do quarto olhavam para ela, carinhosamente, criando no ar parado que a ligava à luz, aos livros, aos objetos aleatórios, uma quentura leve de ninho.
O primeiro que chegou foi a dor. A pegou pelos rins e pediu seus segredos. Ela ficou de joelhos e disse que não. Que nunca se renderia aquele regime de palavras duras. O homem mal-vestido e suado continuou a amparando pelos quadris. A elevou no quarto, girando, absurda. Ela resistiu.
Então entrou no quarto disperso o enjôo. Ele deu um soco na boca do seu estômago e ela lançou seus despojos no lixo, que paralisado enchia-se de compaixão.
Ela continuou dizendo que não. Aliando-se à uma tradição antiga de mulheres que sempre suportaram a dor em silêncio.
Quando por fim amanheceu ela se rendeu. Os títeres a colocaram no pequeno furgão azul e a levaram para interrogatório.
Dessa vez, entretanto, a dor se tornou mais fácil de suportar. O ódio que tinha alimentava uma coragem ancestral, tornando-a insensível e perseverante.
A nocautearam e ela acordou semi-nua sem reconhecer o próprio corpo.
Voltou para casa depois de uns dias, rindo de suas marcas por mera gratidão.
Duas semanas se passaram e não há sinal algum dos homens.
Agora quem a atormenta é uma mulher.
Insônia,
acordando em seu corpo as marcas,
na retina antigas visões.

rain dogs

ele chegou cheio de rua em casa.
as olheiras graves sob os olhos,
mostrando como enganou o corpo a noite toda
nesse duelo ácido
entre o leão e o touro.

ele não queria tirar os sapatos, escovar os dentes.
não queria beber o chá que eu fiz.
não quis sequer lavar o rosto.

tentando se livrar da insistência das manhãs seguintes
decidiu não romper com o pacto da rua,
de odores e ebriedades distraídas.

dormindo do seu lado,
tive que mais uma vez escolher o amor à higiene.
tive que aceitar os devaneios alcoólicos
sem ter sequer o consolo da bebida.
aceitar democraticamente a sujeira.

quando ele me agarrou no meio da noite
tentando me levar para os mesmos lugares onde fora,
eu aceitei.

e aguentei seus gemidos femininos de olhos abertos.

sexta-feira, julho 09, 2010

toda travessia

enche os pés de cacos de vidro,
mesmo que areia.
suja os pés, as pernas, os braços,
mesmo que mar.

transforma o corpo em outro.
molda os olhos,
e a capacidade de estar só.

toda travessia.

quarta-feira, julho 07, 2010

regasu

no salão bem escuro
uma voz de mulher,
grave, profunda,
faz carinho no chão de madeira,
brinca com o vento que afasta as cortinas.

todos os homens e as mulheres são só olhos
para música,
que ninguém sabe de onde vem.

na falta de cor
enchem de melodia
pelo espelho da retina
a silhueta da única mulher que dança.

ela acompanha com os dedos
e o corpo,
a delicadeza da voz sem dono.

ela deixa seu corpo ser tocado
pelas ondas do som.
o ar
e a poesia da canção.

amnésia alcoólica

eu vejo ela tocando violão com um sorriso no rosto.
vejo eles sorrindo de volta.
vejo algo em volta.
circulando,
dourado pálido
mudo.
encantamento suave esse.
espécie de veludo do afeto.

acho que é o bom da vida,
e me custa mais esquecer.

terça-feira, julho 06, 2010

mambembe

ele colocou os dedos sob os lábios dela e pediu:
vem aqui comigo,
vamos ouvir junto.
...
ouve esse rumor?
esse é o barulho das coisas boas guardadas para nós dois.

ela sorriu daquele teatro infantil,
por baixo dos dedos dele.

sorriu,
insistentemente e cheia de ternura,
de como ele a protegia do frio que fazia na cozinha
inventando afeto onde antes só havia silêncio.

domingo, julho 04, 2010

preguiça

o gato deitado no quintal
espreguiça o corpo todo.

é que o sol do inverno
aquece sem queimar.

sábado, julho 03, 2010

sorriso.

pisei sem muita confiança naquele começo de mar.
a areia coçava um pouco as pernas,
a tarde descia sem estardalhaço.
não tinha ninguém na praia e era preciso fazer esse esforço quieto para alcançar o barco.

era uma canoa vermelha e branca que balançava na marola.
quem visse assim,
sem prestar muita atenção,
pensaria nas ondas se destruindo em pedras.
na pedra virando areia.
na areia da praia.
pra não dizer as palavras que doem na boca,
explodindo com a mesma força que o barco contra as pedras.

mas ali ninguém pensava nada,
e eu ia coberta de alguma espécie de segurança
inventada na simplicidade daquela embarcação.

quando eu me sentei tremi um pouco,
a canoa quase virou.
mas fui seguindo num remo de confiança.

quando eu vi era mar aberto.

o sol ponteando,
vento suave.
o vermelho da canoa sorria.
e eu pude seguir sem receio.

apesar de todos os medos
seguíamos seguras,
eu e a canoinha.

ser ínfimo fazia rimar,
as ondas vinham e iam embora.
sabíamos nosso real tamanho
em relação ao céu e o mar.

quinta-feira, julho 01, 2010

viúvo

O dia amanhecia café-com-pão,
e aquela casa grande não se espreguiçava.
Todos os passos dele pela casa ecoavam
repetidos os anos,
assombração de si mesmo cravado em virgem.
No cerne do tédio ele via tv e fazia nós nos fios do cobertor.

Atirava nos gatos,
mas apenas por amor desmedido aos passarinhos.

Por não ter mais nada a que se ater
virou um balbuciar constante
de presentes confundidos.

Ela chegava quando ele já dormia.
Ia na sala, se sentava brevemente.
Tirava todos os nós dos fios do cobertor,
e ia embora sem sombras.

terça-feira, junho 29, 2010

rito

vejo por trás dos seus olhos algo que não posso alcançar.
zanzibar, zion,
terras perdidas entre crateras de mistério.

tudo aquilo que a escuridão aguarda.

embora meus braços não alcancem,
tudo o que me arrebata
em pedra, rio e fogo,
eu ainda posso deixar me tocar.

e assim você vem a mim.
tudo que em você é fera me toca.
o olho pra ver
o mistério está.

véu

gosto da noite
me envolver
com esses braços quentes
e esse bafo de bebida.

gosto dessa escuridão,
desses óculos sem lente.

gosto de pensar nas mulheres que me lêem,
todas elas.
embebidas em tudo aquilo que as torna delas,
devastadoramente.

delicadeza porque canto.

sábado, junho 26, 2010

tom zé

vem de dentro
o som que me organiza
em melodia.

rodopio nos braços da solidão,
e a encontro
amarela e nua.

a pele macia,
no entanto,
cria em mim o descompasso.

as curvas do seu rosto
ou do corpo,
acendem em mim outros tempos.

microtonal,
desafinada,
laranja, vermelha, errada.

tudo em você desconcerta
o que em mim calmamente
meditava.

domingo, junho 20, 2010

fatos

tão inexplicável como só entender depois de tudo.

gaveta

ela me guarda como uma flor seca entre seu lenço favorito.

sábado, junho 19, 2010

feminino

a força da terra,
pulso imperceptível sob todas as coisas.

assim é a mulher,
reunida em corpo
para fazer agir no mundo
a delicadeza.

quarta-feira, junho 16, 2010

ps

Metonímia do efêmero,
acho que é olhar pra cima
e não saber a cor do teto.

segunda-feira, junho 14, 2010

neovelho

tem algo muito bom,
e simples,
entre nós.

algo de ouvir e tudo ser-tornar
doce.

as palavras escorregarem.

erva

uma hora eu ia entender tudo.
então eu entendi e algo dentro de mim escapuliu.

foi o seu rosto cheio de hera que vivia nos meus confins.


sábado, junho 12, 2010

telegrama

quando você volta ?
aqui tá muito frio.
aí deve estar também (vocês dividem os cobertores?)
ontem eu te vi na minha cabeça e te mandei muita água.
sinto sua falta.
me liga quando estiver nesse planeta daqui.

meditação

naquele que está e vê
ciência é ter uma linha tecida
de idéias uma ladainha.

por trás há o ser
silêncio transformado em carne.

quinta-feira, junho 10, 2010

o que sobrou

Ainda tem algo que aperta.
É o bonito dela,
que me obriga a desviar o olhar.

A vida se põe óbvia na mesa:
é claro que é bonita
e que basta ser vivida.

O bom da vida,
o cheio,
vem de fechar os olhos,
e o corpo ir manso
nas correntes do estar.

Mas ela ainda é bela,
e há sempre algo que se perde.
Todos os dias na ausência,
algo que não viu o olhar.

Possibilidades que se perderam e se perdem.
Gotas de chuva escondidas nas gavetas ocultas,
do que não foi e não virá.

terça-feira, junho 08, 2010

Alice

Anos passaram sem que eu soubesse a cor do seu sorriso.
Os seus olhos opacos
não guardavam espaço para universos.
Os livros e as viagens pareciam esquecidos.

Ela não sabia mais meu nome, penso.
Essa foi a primeira grande dor.
A segunda foi outro tipo de esquecimento,
quando o coração se torna um pouco míope,
para amores menos desenvolvidos.

A última vez que ela me viu,
embora eu já não tivesse nome,
ela sorrindo me enxergou.
Foi quando eu toquei violão na sala.

Nos encontramos no macio do instante.
E eu me tornei por mais uma vez sua neta,
afeto sem nome,
só calor.

Hoje quando a família uniu-se em ombros para ver seu rosto,
foi sob uma tristeza branca,
compreendendo a natureza da partida,
de morrer e viver,
- e que não há nada para compreender.

Seus olhos eram os mesmos,
sem vida.

Porém,
naquele objeto rarefeito que a nos se apresentava
havia algum tipo de luz
incomum nos mortos.

Era o nosso afeto.
De uma família inteira reunida
tecendo as memórias
para que se transformem em despedida.

segunda-feira, junho 07, 2010

um sopro

efêmero.
a única palavra arrancada da boca.


diante da vida e da morte.

domingo, junho 06, 2010

miserável

Tem vezes que é tudo tão miserável que era possível acreditar em deus só pra não beber sozinho.

quinta-feira, junho 03, 2010

amor

os marinheiros de primeira viagem embarcam com um sorriso no rosto e os dentes ainda brancos. Não sabem que estão condenados ao café de quem passou a noite fazendo amor, e ao cigarro ansioso de perder o bote. O fígado deles ainda está intacto. Bebem ainda com ingenuidade, o peito aberto para os interíns, digerindo regularmente os vai-e-vens da vida.
Desconhecem a eficácia das ressacas marítmas, os gritos dados a noite na calada da solidão.
Os marinheiros de primeira viagem sorriem pela última vez. Estão condenados, homens e mulheres, a partir em viagem sem retorno, esperança de abandono. Quando entram na embarcação os olhos se enchem da maravilha do mundo, tomando todo o espaço da memória para lembrar como voltar.
Nunca voltam, os marinheiros de primeira viagem. Eles conhecem o segredo do mundo, e deles se tornam escravos e senhores.

índio

quem não bebeu disse que perdeu
o homem de tromba de algodão,
muita sorte no bolso,
mas nenhum tostão.

as meninas acharam bonito,
sombra no olho que diz de mistério,
máscara indiana de dança e de sexo.

os meninos quiseram virar homens,
e pediram uma dose a mais
de cachaça
e coragem.

o dono do bar não gostou,
falou que atrapalha a paisagem,
que violão não podia,
atrapalhava a freguesia da rua vazia.

segunda-feira, maio 31, 2010

hepático

como se sentiria um fígado lesionado?

ele não tem olhos,
não sentiria medo da escuridão profunda em que vive.
e nada adiantaria te-los.

penso que não sente dor.
não sente.
nem tristeza nem nada.

a explicação é que nele não há consciência.

essa é, principalmente, uma péssima explicação.

eu tenho certeza que pedras sentem.

e se orgãos não sentissem, não piorariam mediante a tristeza, o frio, o medo.

acho que é a forma deles se solidarizarem com os seres estranhos nos quais habitam.

orgãos são cúmplices e gentis.

entretanto,
do fundo do meu corpo escuto a resposta certa.
aguda, coerente.

o fígado sou eu.

domingo, maio 30, 2010

moby dick

acordei daqueles sonhos
como quem
no meio do mar revolto
fechou os olhos.



(para lau)

sábado, maio 29, 2010

avacanoeira

ela tem os olhos fechados.
e eu sei que guardado por suas retinas
existe um mundo cheio de água
e fauna.

o mundo passa por seus braços,
e embora ela não chore,
eu só vejo umidade nos seus olhos.

os seus cabelos claros refletem a natureza
física dos raios que batem na superfície do rio,
e são em parte absorvidos, refletidos, difratados.

a sua boca também fechada.
dela sai a voz
tranqüila e contínua,
das palavras que se perdem em ar.

ela toda não se move,
ela toda não diz nada.

quem vê a cena muda
pensa que é mentira
ou invenção.
que ela fala no silêncio e enxerga no escuro
as cores e sons.

vinho

tá todo mundo um pouco fodido,
um pouco perdido,
um pouco cagado.

olhando na rua,
ou mesmo na sala,
fica expresso na cara
o quanto cada um tem de pesado,
errado, escuso.

essa lua quase pornográfica,
chama de dentro as coisas
que baco canta.
belas e sujas.

quinta-feira, maio 27, 2010

na sala da minha cabeça

a luz baixa marca muito bem as sombras na sala,
o aconchego desenhado em corpos que conversam.
embora as asperezas,
as rugas,
rimos como quando
não sabíamos ainda ser crianças lindas.

tantas décadas passaram, poderíamos pensar.
e nem nos conhecíamos.

onde estávamos?
será que nos cruzamos?
a cidade era a mesma,
os contornos, as alegrias e tristezas.

o tempo passou no copo do nosso uísque.
talvez a lua, talvez a música,
quiçá a rua vazia.

éramos velhos olhando a vida como um filme.
tudo ao mesmo tempo,
vivendo sempre presente,
no tempo do afeto.

quarta-feira, maio 26, 2010

sim

eu sinto o seu bafo quente me seguindo enquanto olho para frente.
a luz branca que emana dá um brilho estranho aos olhos.
se sinto esse calor que vem de você não sei...
se é por verdade que nessa cidade distante te sinto perto,
ou se quero
e acho que isso basta.

a verdade como sempre é crua:
não te vejo e do que te tenho é tudo pouco,
a imaginação nua
de um tempo que foi ou que virá.

pequena

as emoções não são gostos na boca.
por mais que insistam os medíocres poetas,
como eu,
a tristeza não é azul, nem amarga, nem bolor.

talvez seja,
na melhor das hipóteses,
um gosto salgado em baixo da língua.

hoje quando conversamos
nada foi poético,
marítimo, circular.

os olhos da música e da literatura
viram nas mãos só os dedos vazios,
se mexendo vãos.
não viram rios no nosso olhar,
mas lágrimas secas por culpa do calor.

nem o ritmo doce das palavras
achou motivo em nos ver brigando.
é inútil brigar
disse a voz segura daquele que ampara e escreve.
Entretanto o afeto não precisou das cores e nomes da literatura.
Te viu partir e te acompanhou com o olhar e com o peso.
Foi o abraço rente que eu não soube dar.

terça-feira, maio 25, 2010

onírico

eu ainda escrevia quando vi a tinta vermelha tingindo o alto das paredes. Saindo de lugar nenhum e entrando pelas frestas, caminhos abertos pelos cupins.
Lá fora a noite cantava o silêncio. eu ouvia sua voz, como um eco prolongado, caminho aberto pelos bichos que você plantou no lado de trás da minha cabeça.
politicamente no sim persisti escrevendo, fincando os dedos nas palavras que brotavam no papel, algo como feridas abertas, sulfurosas. Que ferviam dores antigas em remédios mais recentes.
As mulheres que nunca existiram, e que sempre me acompanham, com seus vestidos brancos de vento, dançavam a minha volta e sussurravam poemas para minha nuca cega.
a tinta, machucada pela cegueira das palavras, continuava a manchar as paredes. agora se acumulava em poça no chão no quarto. Enchendo tudo com a cor da retina quando o sol está do lado de lá.
Ouvir essa voz de mulher me faz ter saudades.
Mas saudades que não é de mulher,
não é de voz.
Vontade de pegar a água na mão e sorrir.
A inutilidade de uma sensação.
que faz a tinta desaguar em ralo,
e a dança dos ventos se transformar em sono,
e em sonho.


segunda-feira, maio 24, 2010

ressureição

Os corpos estrunchados.
Sangue na face não se sabe de que cortes.
Se foi o esposo violento,
o ladrão de ocasião,
o vingador de pouco escrúpulo.

Alguns corpos vem sem partes,
azuis, de olhos fechados,
ou abertos.

Faz pouca diferença.

Eles se reconhecem pela ausência
de força nos músculos
e na espinha.

O jeito que se abandonaram.
Ou foram abandonados.

domingo, maio 23, 2010

fusca sem freio

o coração é um fusca sem freios.
Cruza a estrada sem medo,
e quando viu passou o buraco sem parar.

Mas não se assustou:
pra se passar buracos é melhor ir devagar,
ou muito rápido.

Agora olho o retrovisor e miro os contornos perdidos.

Desconhecidos Sorrisos e bichos.
Um tigre de bengala se espreguiça em outras áfricas,
pessoas bebem e só ouço o som de suas inúteis conversas.
Nódoas tingem a tarde desse acontecimento:
são as coisas deixadas pelo caminho.

Um solavanco me traz a realidade presente e defunta.
Deixar esse lugar para sempre me deixa um pouco triste.
É olhar pelo retrovisor que revela essa tristeza.
Sentir falta dessa fauna antigamente nova.

Mas o fusca vira outra curva e não enxergo mais nada.
Olho para frente para não descarrilhar e um deserto vermelho se deita.

É o resto da vida,
que começa imediata.

sábado, maio 22, 2010

ser

eu pergunto daonde vem esse descompasso.
e escuto o silêncio.
o silêncio é o barulho de ser.

quinta-feira, maio 20, 2010

quando drummond decide dizer por nós


"Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim."

tempo

escuto,
atenta e silenciosamente,
o rumor do futuro que aguarda.

quarta-feira, maio 19, 2010

antes (que seja tarde)

A omoplata. Faz um desenho em curva no corpo. Se separa e prende os ombros. Fica ou vai, a pedidos dos músculos, da mão que segura, do sorriso que prevê.
Quando éramos jovens, na idade que o sol nascia para lá do começo das histórias, dançávamos para virar anjos, tentando perder os genitais pelo caminho.
Nunca pudemos virar outra coisa que não os jovens que dançavam e que se tinham olhos que brilhavam, era porque eles eram vazios. Do desejo de sermos anjos restou apenas a omoplata, guardando como vigia o lugar por onde sairá nossas asas, num dia nublado e sem desejo.

terça-feira, maio 18, 2010

estrela de seis pontas

Enquanto ele andava seus músculos se agitavam num rumor difícil entre o apertão e o relaxo. Ele não considerava essas metamorfoses, e seguia com os olhos retos, a pele acompanhando-o embaixo da camisa. Dina o seguia, recolhendo as gotas que ele deixava escapar da nuca. Enquanto ela queria virar-lhe a sombra, ele o percebia com um orgulho rarefeito, com pressa de ser outras coisas.
Enquanto ela andava o vestido é que lhe caia, e não os passos sob a pele. Ela sorria dócil para ninguém ver, regozijando frouxa e só sua do prazer oculto de servir a outrem.
Eles andavam em passos diferentes, mas no mesmo ritmo. Cada um orgulhoso de dominar o outro.

segunda-feira, maio 17, 2010

frene

As pontas dos dedos estão endurecidas. Se ele toca o vidro com elas sente uma espécie de dureza que não cairia bem na pele de uma mulher. A luz leitosa da manhã passava pelo vidro, pelos seus dedos, e deixava em seus olhos sem brilho. Ele agora experimenta os dedos na polpa macia dos palma. Ser-lhe áspero não era lisonjeiro. Embora viesse da delicadeza de tocar um instrumento.
A desordem do que pensa faz com as palavras também lhe cheguem ásperas. Mais do que isso - irritantes, agudas, dispersas.
Ele faz força com a têmpora para lembrar, embora entre em sonos antigos,
sonhados quiçá por outras pessoas, em tempos mais solutos.
Tudo lhe escapa, e quando enfim se lembra toma-lhe como um pesar a consciência súbita de um erro. Um erro que sabia que cometeria. O desejar sem poder, agir infantil, daquele que exclui o obstáculo pela ordem do não - não sei, não vi, não é.
Tudo lhe escapa nesse dia de curvas bruscas. Embora nada pareça ter forma, o contato com a pele é bruto, e arde com calor e frio.
A dor do corpo grita. Chama seu nome.
Os nomes da cidade lamuriam.
E se irritam, com o seu jeito frouxo.

É quase noite embora o sol seja lua alta.
Os nomes chamados não escutam,
se recusam - os pobres.

sexta-feira, maio 14, 2010

grito-luz

Quando meus olhos estavam fechados ela deu um grito de luz que me fez cair. Ela me deu a mão e eu pude cair no abismo profundo desses segredos, sem medo da escuridão, porque eu mergulhava nos seus olhos negros e ela me beijava se eu me sentia só.
Enquanto eu caia e o vento molhava minhas orelhas sem medo eu pensava que deveria deixar meu corpo seguir com o mesmo ímpeto, quando fosse hora de acordar e sair andando.
No fim da queda eu me vi só. E trôpega caminhei.
A sua garganta de luz mais uma vez se fechara.
Esperava outros brancos que cruzassem seu caminho,
imaginando ser cegueira o que era apenas medo.

klimt

Pálida a mulher que o abraça. Brilham ao seu redor as cores construídas. Sua mãe que o ampara, ou talvez seja a mulher que o espera. De qualquer forma são seus olhos que brilham, e quem o ampara é a tela.

quarta-feira, maio 12, 2010

calor

Algo dentro de mim morre lendo.
É morte por fogo,
mas fogo baixo,
derretendo algo por dentro,
de prazer e lentidão.

É como um carinho que consome.
Sorrir e se deixar levar.
Acabo o texto abandonada de mim,
contente e amarela.

Quente.

segunda-feira, maio 10, 2010

Maria Schneider

nessa segunda feira de noite o frio se agasalhava em cada dobra dos músculos.
enchi-amos-nos de camadas, como se o desenho das tramas saísse do nome e chegasse ao calor.
entrei no lugar levando um relógio na nuca.
tendo no alto da cabeça os minutos correndo
como se eu entrando naquele lugar e pondo-me a ser pudesse os controlar.

logo que cheguei vi.
ela parecia com a menina d'o último tango em paris.
tinha o cabelo negro cacheado.
o rosto oleoso e branco.

ela lia.
assim como eu,
sozinha,
estudando.
perdendo-se entre os minutos que pensava controlar
entre uma atividade e outra.

sentei-me como por engano na sua frente.
não ousaria o arbítrio contra ela.

no entanto, conforme passava o tempo
ela migrava lenta como mel
dos terrenos periféricos da atenção
para os olhos.

meu pescoço se cansou de levantar por ela
e, de repente,
minha boca se encheu de palavras.

as mãos levantaram-se involuntariamente do livro e escreveram:
exatamente o que acontecia.

perdi-me entre várias páginas da minha constrangida atenção por ela.
desenhei justificativas,
escondi-me atrás de palavras bonitas,
tramei com palavras o perfeito personagem,
para que quando eu a deixasse,
a deixasse com um sorriso.

dobrei as páginas sem muito jeito,
e quando fui embora
deixei em suas mãos,
sem muito jeito
e poucas palavras.







ela sorriu.

agora

vejo ela num retrato que não me diz respeito.
há algo que conheço,
algo que desconheço.

as pintas,
os cheiros.
as tatuagens com outros nomes.
tudo isso conheci.
na nossa cama,
no nosso lar.
foram coisas que decorei
no calor da hora e do afeto.

hoje ela diz palavras que eu não entendo,
também porque não quero.

ela vive uma vida outra,
cheia de cores e de coisas,
que não tenho vontade de ser e ter.

sinto falta porque dentro do peito ainda há algo dela,
algum cheiro que passa dentro de uma história.
um sonho que se repete todas as terças.

mas quando eu vejo o seu rosto,
há algo que eu conheço
e algo que eu desconheço.

há um rosto
que é o mesmo de um passado que conheço
e de um presente que desconheço.
mas que principalmente não me diz respeito.

oai-oude, oscar

fazer é mais fácil que ser.



fazer é ser sem bichisse.

quarta-feira, maio 05, 2010

sobre fevereiros e pássaros

ele me achou aos poucos com sua mão leve,
quando abriu
o pássaro se fez e voou longe.

eu a achei.
cuidei das suas asas,
da sua penugem bem feita.
quando se curou achou que as minhas mãos eram um lar.

nós nos encontramos em pleno vôo.
paramos lado a lado no mais alto dos penhascos
e ficamos vendo o mar.
no pacto suave daquele que está e vê.

quando ela foi embora
entendi que só o mar dura o sempre
para um pássaro.

toada

Tudo era cheio de uma direção sem direção.

Era um piso reto de madeira,

um trilho de trem bem comportado.


Isso era dentro.

Como uma toada.

Era uma música sem alegria nem dor que seguia.

Acho que chamava o inexorável de viver.


Por fora era um corpo de devaneios.

O peito ardia quando entupia as saídas da tristeza,

os olhos se enchiam de medo quando algo parecia estar errado.

As coisas muitas vezes pareciam dar errado.

Todo mundo falava:

uma mesa de jantar cheio de cotovelos,

todos bebiam vinho e tinham batom vermelho

e cabelos pretos.

E todo mundo sabia o que era melhor e dizia.

Então estragava toda música,

porque achar não tem harmonia,

entender não dá samba.

O corpo perdido cheio de baton no rosto e vinho no peito e cotovelo nos cabelos pretos olhou

para o chão, para o lado, para o reto, para o ralo. Olhou o fora.


E continuou toada mesma.

Sem achar, nem entender, nem melhor pior ou se.

Tudo cheio

de uma direção sem direção.