sexta-feira, julho 26, 2013

temperança

o tempo é uma mentira. então eu não vou me importar quando você falar dele.
as coisas mais leves e bonitas são infaláveis, mas não infalíveis.
toda vez que eu tentei te dizer o simples
ficou complicado,
toda vez que as palavras gritaram comigo querendo sair
eu me calei.
afinal elas pesavam mais do que o que elas queriam dizer.
então vamos pegar juntas esses brotos, sementes, feijões, palavras, chavões,
separar o pesado,
do real.
sentir a saudades,
beber o vinho
e esperar que a vida seja essa mulher, esse homem, esse bicho,
languidamente forte,
presente.
areia.

do mal que te conheço,
invade um gostar.
maresia afetiva,
a marejar meu olfato do querer,
e do ficar.

se o tempo passar
ou não passar.

quinta-feira, julho 25, 2013

poemim

ando torto
corro e caio
grito e rezo
calo.

vou e peço

de manhã
acordo
amanhã
desperto.

terça-feira, julho 23, 2013

buruka

no meio da lagoa me ensinava
só olhando.
a flor quem me deu foi o coração,
quem me ensinou foi a tartaruga.

quarta-feira, julho 03, 2013

dançar

as vezes tudo se encaixa,
o sol bate pontual no mesmo lugar onde o gato dorme.
as vezes até a tristeza passa,
porque quando tudo se encaixa
o mundo dança.
as vezes a gente tem a ligeira certeza
a incoerente verdade
de que somos gigantes,
e algo
lépido como fogo
dentro arde.

mas as vezes não.
as vezes a gente é pequeno,
menos que passarinho,
e ainda sem voar.

as vezes a gente é pensamentos
que se repetem,
emoções que não levam
a nenhum lugar.

as vezes a gente é um bicho bem bobo,
e a vida para de dançar.

então tem todo um trabalho
de lembrar-se urso, lobo, lebre.
de lembrar como é elegante o grilo,
eloquente a cigarra,
e calma a coruja.

as vezes.
e então tudo volta.
girando infinitamente
no desenho complicado e muito simples que todas as coisas tem.

domingo, junho 30, 2013

toque de queda

você tocou nas minhas costas
e eu vi
que minha coluna estava torta.
você tocou minha barriga
e eu vi
que doia.
você tocou na minha cabeça
e ela ardeu.
você tocou no meu coração
e ele tava 
inflamado.

foi na lagoa azul que eu vi a dor.
a dor tinha virado eu de tanto hábito.
mas agora não.
a coragem podia me separar,
o leito do tejo.

e eu quero curar.
agora que eu vi a dor com os olhos bem abertos,
eu quero curar.

e aja chá de camomila.

terça-feira, junho 25, 2013

hoy

ultimamente as palavras parece que deram pra rir de mim.
(escuto bem baixinho quando as deixo a sós).
eu não sei bem se é por dor delas, se por saudades.
gosto de pensar que sim.
no fundo acho que nunca me respeitaram mesmo.

fico tentando junta-las em blocos,
colar em frases,
tecer em textos.
e elas se deslocam,
desencaixam,
tombam desajeitadas no chão frio da folha imaginária.

então eu pergunto para que que servem,
e aí então elas fazem o pior,
mais horrível ainda que as risadinhas bem baixas.
elas ficam em silêncio
como quem diz "para que serve você ô babaca".
então elas se emprestam para eu me dizer
e também me saio com o mesmo engenho.
começa a chover na cidade e tudo de repente se repousa
numa tristeza antiga.

uma ideia começa a se desenhar,
sem palavras,
só imagens.
é o silêncio que veio me buscar.
quer que eu parta.

partir.
o verbo quebra o cimento insólito das palavras.

sábado, junho 22, 2013

segredo

um dia eu descobri um segredo.
um segredo tão grande
que na hora achei que fosse o maior do mundo.
a vida é cheia de descobrir segredos e também esquecer.
agora mesmo tem uns seis que me aparecem e me fogem
entre os dedos frios
embaixo do cobertor.
tá bom, eu falo.
paro de te enrolar.
o segredo é que todo mundo tem medo.

eu sei que parece que não.
tem umas pessoas que atravessam as situações,
destemidas,
com os pés firmes,
a cara inerte.
esses, não conta pra ninguém,
são os que mais tem medo.

eu agora, nesse momento,
tô morrendo de medo.
acho que faz parte.
é preciso o medo
para que se tenha coragem.

segunda-feira, junho 03, 2013

caminho

existe um caminho feito de ferro de pedra de sal e de sono.
existe um desejo de separar da memória o bom
e deixar o resto para trás.
existe o fluir do rio que passa por debaixo da estrada,
mas também existe a vontade e a escolha de continuar indo.
existe a jornada
e isso é mais importante.


confusão

a pele é o exato ponto onde me disseram que eu acabo.
onde eu começo
nunca me disseram.

quarta-feira, maio 29, 2013

círculo

fazer não barulho com a cabeça teleco pingos subtraiem a atenção distraída que pode inundar meu banho.
se pode existir o tudo
mas o tudo não pode ser sempre
o medo de acabar me traz o algo
que é diferente de nada
e de tudo.
algo são como as vozes inadequadas que invadem e subinvadem o teto.

nesse aniversário bom
inauguro
o entre.
os afetos delicados e importantes
plantas espessas
corajosas e de morte lenta
que preenchem o que resta
e trazem o silêncio.

se o vazio me enlouquece,
inauguro olhar o que preenche.
cactus, orquídeas e outras heras.

terça-feira, maio 28, 2013

retorno solar

eu ouço agora a distancia o pulsar de um coração do futuro,
que teima,
em viver.
eu não sei por que.
mas o barulho continua.
eu tenho raiva.
tanta que não dá
para juntar num punhadinho.

essa noite é grande e dá medo.
tanto quanto ontem.
mas ontem foi um ensaio de antes de ontem.
e você olhou nos meus olhos,
só para parar de olhar.

só para encher minha segunda feira de imagens,
que não deixam tudo no lugar.

hoje a musica implodiu a dor,
e levou
e lavrou
e se foi.
hoje a musica,
e sempre a arte.
para me salvar da materialidade da burrice.

eu hoje até sinto saudades.
então silencio.
então vazio.

eu hoje me armo com mim mesma.
me olho no espelho.
e suporto.
hoje suportar é meu mérito,
e todo mérito tem sua recompensa.

eu hoje a dor e o prazer e eu mesma e se arde eu grito mais alto e é isso.
e você que vá morar em outro lugar.


sexta-feira, maio 24, 2013

flores do mal

eu tinha um desejo secreto de você me escrevesse uma carta e dissesse tudo. mas absolutamente tudo, do importante e bem escrito que se passa aí dentro.
é que me cansa esses seus sete mil véus.
para falar a verdade,
e agora faço o oposto do que peço,
foi por isso que eu desisti.
essa fumaça obliqua azul atrás dos seus olhos
me fascinou por um tempo,
e tenho que admitir que ainda fascina
quando me pego te olhando distraida.
isso quando não são os seios,
que andam tão lindos.
aqui me distraio de novo,
sou mesmo um passarinho,
gosto disso,
por que mente o urso e outros animais mais rudes que me habitam.
mas então eu desisti.
dentro do meu pulmão eu disse não,
e abri a mão,
assustada.
por que  eu nunca consegui chegar do outro lado dos seus olhos.
se é que se chega alguma vez.
muitas vez eu achei que tinha chego.
mas quando você está você acredita que nunca mais vai sair,
e quando você vê,
é dia,
e você está em algum lugar,
e esse lugar é um pouco triste sempre.
acho que agora é uma das poucas vezes que não quero me esconder atrás dos olhos de alguém.
quero descobrir o gosto do meu olhar.
sentir.
dói várias vezes.
por que é muito solitário,
e eu gosto de dividir.
mas o bom é bom demais,
só não conta pra ninguém.
sabe. você.
e agora nesse exato momento em que você lê e sabe quem é
é como se eu usasse o texto essa ferramenta louca para atravessar o tempo e o espaço.
sim, você. estou falando com você e olhando nos seus olhos.
por um lado eu queria saber mais. algo ainda me encanta,
e essa vontade de descobrir um pouco mais.
mas não. não será.
e também é bom.
então no mais denso do plágio de salinger te ofereço esse buque
de parentesis (((((())))))).
e o silêncio.
te ofereço esse silêncio enorme.
esse silêncio infinito.
esse silÊncio que quase canta.
para que nós possamos dividir algo.

domingo, maio 19, 2013

vata cafa pita

se eu fosse um lobo,
você me chamaria para dançar?
mas eu não sou,
sou um passarinho
que não para em nenhum lugar.

se eu fosse um gato
você fugiria ou iria na minha direção?
mas eu não sou
eu sou um urso
e fico parado acreditando.

se eu fosse um refrão
você chamaria meu nome?
chamaria,
mas eu não tenho melodia
sou um acorde orfão de escala.

os dias são criaturinhas minusculas
que escalam essa pedra infinita
chamada tempo.

é necessário respirar.
respirar é viajar sem sair do lugar.


velocidade 0''

ali no meio da multidão tantos rostos passando
rápido
demais.
a vida imensa demais 
para se pegar nas mãos.
infima demais
para se levar a sério.
os rostos passam zunindo
não discrimino caras.
velocidade 0''
só vejo traços.
nenhum afeto 
e tanta gente.
a lua atrás das nuvens
chama.
o cantor canta 
para mim.
olho para cima
e o céu é tão grande.
me sinto minha,
viva,
em pé,
cravada no instante,
cara capturada por um tempo que passa,
mas demora.



sábado, maio 18, 2013

como desfazer um nó. aula I

ali, olhando a corda se espalhando, e se constringindo.
ali, onde você puxa ela aperta, no meio do tudo.
você não pode ficar ali. simplesmente não pode.
você tem que sentir a dor absoluta de ficar ali.
no meio dos nós.
o desespero completo
de não conseguir fazer nada.
então você pede ajuda,
ou nem isso,
e sai dali.
de fora você consegue enxergar
por onde o fio vem
por onde o fio vai.
só de fora você consegue ver
onde amansar
onde apertar.
e doi cada toque na corda,
tudo bem.
uma hora você já desenrolou metade
e só a esperança de um dia desenrolar o resto
já é uma alegriazinha no meio da dor.
não vai ser nem mais fácil,
nem mais difícil que isso.

sexta-feira, maio 17, 2013

3 dias

falar e sentir e fazer
e esse vício um pouco estranho
um pouco burro
de querer ir pra frente.
tentar 
e de repente
encontrar-se sem pele
nua 
sangrando
em plena avenida europa.
foi ali
que me vi sem pele.
foi ali
que a dor doeu aguda
e o corpo todo tremeu
e tudo se encheu 
de um sangue invisivel
que acho que se chama dor.
a dor se apossou da cabeça,
se espalhou pelas veias,
destemperou a barriga,
anuviou a vista,
fez tremer
dos pés as cabeças.
dor aguda como essa
não via
há tempos.
e no entanto
alguém disse
tenta sobreviver três dias
e depois me conta.
fui eu quem disse.
e isso fez o tempo voltar a passar.

quarta-feira, maio 15, 2013

o tempo

o tempo mente pra mim.
ele diz que passa.
quando eu questiono ele me aponta no espelho.
olha.
ele toca nos meus músculos,
na minha pele.
ele toca na minha dor,
e pergunta,
reconhece?
ele diz que passa.
e eu olhando esse corpo agreste teimo em acreditar que não.
ele mente.
sei que mente.
se fosse verdade eu já não estaria mais nessa sala.
em pé nessa sala.
só eu, o tapete, os vasos, a luz. só isso.
a dor enorme.
só isso.
se o tempo passasse eu teria deixado essa sala.
se o tempo passasse eu estaria na rua.
na alegria da rua.
no sol da rua.
no leve da rua.
mas aonde quer que eu vá eu continuo nessa sala.

quarta-feira, maio 08, 2013

touro

a avenida 
passa ao largo
do corpo da cidade
que ri
estridente
do transito 
tolo.

os carros correm não se sabe para onde.
os ônibus atravessam as pontes
com raiva.

embaixo do viaduto tem um bar.
o corpo chacoalha papos.
o copo balança.

dentro desse mistério que se chama quadra,
escondido na luz baixa,
na poeira,
na queixa, no verso, no tédio e no estupor
existe o afeto.

o tempo é outro.
lá fora a vida zune,
aqui ela rumina.




segunda-feira, maio 06, 2013

partir

a lingua que o corpo fala eu sei pouco.
não é a lingua corrente,
usada nos países quentes,
para pedir uma média e um pão.
não.

a lingua do corpo não é a mesma que filósofos vãos
usam para tentar alcançar o mundo caolho.
a lingua do corpo só o corpo fala,
só o corpo entende.

hoje meu corpo aprendeu uma palavra nova.
hoje o corpo sentiu tudo agora.
hoje o corpo soltou pequenos rios
e sentiu epiderme pequenos terremotos.
hoje o corpo disse tanto e ouviu,
tanto que precisava entender e ser.

hoje o corpo sentiu e foi,
para poder dizer a palavra nova.
disse adeus no fim de tudo,
e foi.
foi assim que o corpo partiu.

no todo só se chega distraído

tudo correr como ter uma pá na mão, um remo,
e ir. como se o chão fosse rio. e é.
mas não assim.
como se andar e ordenar os pés,
para a frente,
e descobrir o lado errado,
e descobrir
que não há lado.
como ir, sempre firme,
irresoluta,
como acreditar em algo,
sem acreditar em tudo.

sábado, abril 27, 2013

lua cheia

noite bem alta, era a lua, pingando palavras no meu ouvido. o dentro aquecia o fora pele ébria passarinho. a rua infinita e nossa. as casas feitas de caquinho de pedra colorida. eu nunca tinha reparado, você disse. eu também não. pensei num silêncio que não era meu. algo gritava ao redor, uma nota só. bemol. e nós atravessando aquele momento como se. a lua só. e você me perguntou. escancarou a pergunta mais branca que a lua. eu quis te dizer que durmo com duas meias e acordo com uma só. eu quis te dizer que meus pés estalam no piso duro de madeira todas as manhãs. eu quis te dizer que gosto de dormir de manhã, o que me deixa com os olhos nublados. você olhava para mim, mas olhava para a rua. era estranho. os carros continuavam passando. não perceberam quando a gente começou a passar. o silêncio escancarava verdades. eu quis te dizer que gosto de cozinhar e comer junto. eu quis te fazer sentir o meu corpo mudando rápido o espaço de um ano, maré alertada por lua. eu quis que você olhasse nos meus olhos. e entendesse. o gosto complexo da tristeza e da inteireza. eu quis te dar minha palheta de cores conquistada no mais dentro da intimidade. pérola, ocre, selva. quando eu vi chegamos. e você não perguntou nada.  enquanto você agarrou minha mão sem intuir o peixe esquivo que nela morava eu percebi que no dentro do silêncio você entendeu algo. que eu nunca poderia ter te explicado.

quarta-feira, abril 24, 2013

plástica

AS flores brancas amassadas do lado da cama. Quem teria extraído até o último cheiro da flor. Estupro da flor. E de manhã acordar com o sol já quente. O corpo velho. Garganta seca. Palavra seca.

(miudezas. é no espaço do entre, das delicadezas, que se escondem as grandes tristezas.)

E quando as lágrimas não chegam. E quando as flores dão asco. E quando o viver apavora. E quando os copos acabam.
É nessa hora que ficamos com as pequenas alegrias.
As cores estridentes das flores de plástico.

segunda-feira, abril 22, 2013

veia aorta

embaixo de todas as coisas tem um mar.
as vezes a imensidão disfarça.
o lustre sozinho em cima da escrivaninha,
o gato,
a melancolia.
coisas que se parecem somente com elas mesmas.

mas então se dispor.
fechar os olhos,
ou abrir.
e ouvir aos poucos,
e cada vez mais forte,
o ir e vir da maré
pulsando
em tudo que há.

quinta-feira, abril 18, 2013

estilhaços de azul

. você dizia de um rosto... . um rosto me dizia. era úmido. o rosto me sorria. me olhava. entre. no vão no ar, olhava descaradamente, e ninguém sabia. seu rosto, você dizia. meu rosto também era úmido. gotejava. coisas como delírio, alegria ou desespero. e as mãos. as mãos se uniram em susto. susto era a primeira e única palavra. outra lingua. a gente falava na teimosia e no medo. a lingua, outra lingua, era o idílio, desejo. o desejo era o unico bom naquilo tudo. e muitas vezes era melhor não falar nada, para não ser mau. pra não ser mau de novo e novamente. ser louco é um jeito de ser mau. com u e não com l. não confunda. você confundia tudo. você também. você confundia mais. ninguém. era tudo estranho e equívoco. era tudo tão mau, tão sem salvação, e uma espécie estranha de amor arrastando tudo. vocês. não existia. nunca existiu. esse era o duro da dor. mas o idilio. o idilio era o mais mau. fingindo fingindo. sorrindo dentes e gozo. o tempo. cravou uma esfinge em cada testa. você dizia de um rosto. um rosto seco. um rosto sério. um rosto me dizia. um rosto parece triste. parece que não sabe mais alegria. alegria. não confunda. umidade com isso. alegria me dizia. é seca. um ano. faz um ano. e todos úmidos. não existem mais. ficciones. rostos umidos guardados onde. no tempo talvez. na memória do que não mais existe. que é ser, transmutar, e carregar as ausências do que já fomos, como coisas que não somos mais.

segunda-feira, abril 15, 2013

lago

suas mãos na minha direção.
energia sutil,
carne densa.
o corpo inteiro zunindo.
acordou,
e disse -
obrigada.
suas mãos nas minhas.
mais lago
que represa.

domingo, abril 14, 2013

ar

uma semana meia e o sol não sai nem que. o café ainda esquenta e tenta acordar. a flor enfeita embora ainda não tenha cheiro. o luar? luar nenhum, a noite chove. mas o ar entra. e o ar sai. toca por dentro com sua mão branca, o dentro das costelas. sopra no pulmão. alcança numa curva todo e todo corpo, imenso neuronio, rede de pensar. em dias como esse, o carnaval clama, chama baixinho do centro da cidade, e o corpo cede na maré. canoa de madeira eira eira.
vai.
mas não esquece de respirar.

sábado, abril 13, 2013

amoras

esse olho clínico que me deixa entrever sem muito esforço o cheiro de esgoto proliferando solto por debaixo dos tampos das mesas dos bares de sempre.
essa chuva rala
que não serve nem para molhar
nem para ficar seco.
essa falta de gosto,
essa gripe,
esse despero silencioso
corroendo na forma de sorrisos
os sonhos de uma idade inteira.
essa bebida
que não serve mais para ir além
senão para empapuçar
e deixar a vista nublada
e o sono inequívoco.
essa sede.
e nenhuma bebida.

é nesse quadro
que eu quis e quero te explicar na importância das pequenas alegrias.

alegrias quase nunca são grandes.
são pequeninas
como uma vela que se apaga ao sinal de menor vento,
como um gesto,
como uma lembrança.

alegrias são anãs e delicadas.
são como amoras.
de um azul bem vivo
que vai embora logo.

sábado, abril 06, 2013

luto

Quando as noites chegam mansas, acompanhando invisíveis o desenho das marés, e o vento leva embora um vivo, eles se preparam. Sete dias e sete noites passam com as mesmas roupas, todo o tempo dentro da casa daquele que partiu. O seu cheiro, o seu resquício, o ar pelo qual acabara de passar, são aspirados até a última gota pelo resto da tribo de Guruka. Por uma semana eles não se lavam. Eles comem juntos, na mesma casa, no mesmo cômodo, todas as refeições. E comungam do mau cheiro da tristeza imensa.
Passados sete dias eles entram no rio, e dizem o derradeiro adeus. 

na garrafa

sinto gotejando
ouço vindo
de onde não posso ver.
sinto o cheiro
grama em dia de chuva.
calor
areia.

sinto o encanto.
vindo lento.
de tão longe
de um certo tempo.

e gosto.
agora e aqui
simples gosto.
não sei para onde
nem de onde.

te olho na curva da estrada.
te espio.
guardo esse segredo na nuca do desejo.
e gosto.
simples gosto.

quinta-feira, abril 04, 2013

assim

andando pela lua vazia,
pedras soltas e outros percalços,
entre o boa noite e o bom dia,
há um riacho
que se chama nostalgia.

os olhos do gato são amarelos,
as flores da noite são invisíveis,
os caminhos nunca são retos.
entre o cheiro e a vertigem
o deserto ainda é mais quieto.

nada chama na voz do grilo,
o arredor em nada altera,
e no entanto tudo muda,
e nova e nua e nossa enfim,
raia a manhã,
mansa pantera.

segunda-feira, março 25, 2013

metá metá

andando pela superfície das coisas.
a piscina está vazia,
o azulejo branco puido,
uma janela
dá para o nada.

andando sem se sujar.
escuto aquela voz que chama ao longe.
vento vento.
corro.
corro.

é lá que a musica toca.
no meio do meio do meio
de tudo.

é lá
na estrada.
e meu coração toca
de novo
aquela canção.

sexta-feira, março 22, 2013

mão

minha mão sempre foi pequena e branquinha.
embora meus braços vestissem
blusas grandes
e pequenas
e rosas com listras coloridas
e brancas.
embora meus braços tocassem o comanche do videogame,
e a bola,
e o lápis,
e a mãe,
e o lanche,
e o filme,
e o livro,
e o menino,
e a menina.
embora minha mão tentasse alcançar a musica (e nunca tenha conseguido),
meus dedos sempre foram pequenos e brancos,
quase gordos,
quase infantis.
minha mão sempre se pareceu com a minha mão,
embora tantas fases tenham imprimido,
frases do nirvana nas minhas paredes,
e árvores,
e tinta branca,
e quadros alheios,
e de repente uma chave de uma casa
que não é essa que sempre foi minha.
a mesma mão que já esqueceu e já lembrou,
e já tocou tudo e tantos,
e já tocou, e já destocou.
a mesma mão,
pequena
e branquinha.
persiste.

segunda-feira, março 18, 2013

amor

não consigo prestar muita atenção. as imagens vão se sobrepondo. os cheiros. ando sentindo muito. e o alcool ainda. neblinando tudo. mas não deixa de ser bom. as imagens que passam e se recortam. em si, as vezes, não me dizem nada. mas as vezes são, e nem percebo, e me distraio, a vida em si. hoje quando procurávamos apartamento, será que eu sempre vou lembrar? será que lembrar é sinonimo de importante? ou será que não significará nada, e amanhã já esqueci. hoje chovendo, entre a alegria e a gripe, será que eu vou lembrar? eu você no centro? será que sexta o dia inteiro com ele. o dia inteiro. entre risadas e compreensões e um tanto de trabalho? entre linhas escritas, imagens e sonhos, sonhos ainda persistem. quando esquecerei? até quando? e já já me esqueço, e passa como um vento. passará no peito? passará nessa outra dimensão, estranha e proibida, onde tudo continua acontecendo, infinitamente? será que afeto acaba? acho que não. acho que continua. continua. continua. quando eu era pequena eu achava que a gente morria quando a gente amava demais. você vivia vivia vivia acumulando amor. e quando entrava a gota derradeira, você morria. é mentira. eu ainda acredito um pouco nisso. nesses últimos dias o amor recortado em imagens sobrepostas e ébrias. o amor. acho que é isso que eles chamam de viver. deve ser.

quinta-feira, março 14, 2013

nós 3 melhor em frances

a barba dele,
lembro.
e dos meus dedos o cheiro,
ainda fumava.
o gosto dela.

e os nossos dedos nos copos,
nas cordas, nos corpos.
tocavam.

em nós tudo era forte
e tímido.

para nós tudo era nítido.

o tempo que passou
hipótese
para afastar as saudades.

quinta-feira, março 07, 2013

muito estranho

psicopatas amam.
gordos amam.
vacas amam.


muito estranho.

tempo

naquela cidade em que o menino morava.
essa cidade dentro da cidade, como ele,
que olhava.
no centro do espelho,
no meio do buraco
que a traça havia roido
num livro.

ele olhava para mim,
mas não me via.
e eu sinto falta
da ausência sincera
que o seu olhar
tocava sobre a minha pele,
branca demais.

luz baixa,
e móveis antigos.
sensações de um ontem antigo,
e a dor de uma cidade
cinemascope.

as coisas passam
como num filme
alugado sem pretensões
numa quinta a noite.

a flor do meu quarto
não tem cheiro.
mas não precisa de amor.

o olhar no espelho espera.
aguarda.
enquanto isso o vento sai de uma janela
para entrar por outra.

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

after leminski

naquela noite indecente
em que você baixou o pano
e inventou na musica
o azul, no gim
a solidão
e na solidão
a ausência completa de mim.

naquela noite indedente,
longa noite,
você inventou a morte
no lampejo de carinho
aceso
mesmo nas noites sem lua.

tantas coisas que você inventou,
e eu continuei cantando a musica,
como um samba enredo
que inventa para si mesmo
que o carnaval não acaba.

tantas coisas que inventou, que inventei, que inventamos.
e no final sobrou quase nada,
esse ar que vem da janela,
esse pó, essa cinza,
melhores num poema,
do que numa raiva.


segunda-feira, fevereiro 25, 2013

cores

como explicar
a companhia que aquelas flores
esquecidas no carnaval
me fazem? são como as cores
que também ecoam
na música
que você esqueceu em mim.

terça-feira, fevereiro 19, 2013

janelas

toda vez a primeira cerveja do dia.
perfeita.
servida entre outras,
entreolhando
como a dizer,
eu não sou tão boa quanto pareço.

tem algo na pinta da menina que canta.
são clichês.
a pinta, a menina. que canta.
e no entanto,
encanta.

constante entre os homens e as mulheres,
portas para a alma entrever,
quer dizer,
no máximo janelas.

domingo, fevereiro 17, 2013

falésia infalível

sempre tão pouco real.
sempre esse gosto incessante,
esse cheiro de carniça,
esse sopro da mentira,
essa presença no canto da cômoda,
no canto do quarto.
sempre tão pouco real,
e eu tentando enxergar
com o fundo da minha cabeça
(intuição)
e o tudo nublado,
com um bafo seco e úmido
de lágrimas muito velhas.
sempre magnético,
e a loucura deliciosa e perigosa
de cair num poço muito escuro.
o prazer improvável do corpo resvalando no mofo,
das unhas tentando se ater ao barro
como se fosse chão duro e estável.
sempre tão duro,
sempre tão distante,
sempre auscultar um coração que pulsava em algum lugar
mas sempre em lugar nenhum.
jogar-se de cabeça na falésia
e sentir a secura, o degredo, o cheiro árido das carcaças.
sempre sentir e nunca saber.
sempre ir e nunca parar.
e agora desafogar
desse estágio primário de insensatez.
olhar essa falésia,
e tantas outras.
olhar minhas mãos teimosas cheias de cacos.
o meu olho viciado em perigo.
e olhar o prado.
e um dia ainda querer o prado.
e não se importar com nada
e seguir.
como quem tem mãos e olhos e boca e cabeça e sentir e pressentir.
seguir como quem ao sair do nevoeiro disperso se olha e se reconhece.

como quem ou o que

como fazer um café ficar pronto sem pensar no pó, no calor, sem saber.
um café se fazer, pronto.
viver assim ali
e aqui,
como quem
ou melhor
o que.
como algo entre o
tudo
e o nada,
que caminha,
com gosto de erva.
o sol que nasce me sussurra bem baixinho,
do extraordinário possível de todos os dias,
e a onda que me leva,
eu não posso me apegar.
agora faz sol e sinto minha pele quente,
sinto minha pele branca já antecipando,
sinto alegria imensa e até incômoda.
agora chove e quero correr na chuva.
agora gripe e fico em casa pensando.
agora é noite
e aquilo ou outro.
sem se apegar na onda
posso estar mais firme.
posso olha-la nos olhos
e desafiar,
vamos juntas passar?
e se esquecer, e ser, e se dissolver no mar
a que tudo volta sem nome e sem forma.

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

travessia

eu não sei se sou o rio
(turvo pela própria violência,
primeiro e último, silêncio e som),
ou se o barco que o atravessa
(tenta atravessar).

eu não sei se sou o homem
que não vejo no lombo do barco,
ou a mulher
que teimo não enxergar no lombo do homem.
(ou ainda o leão no ventre de tudo).

acho que sou a travessia.
o ser que surge no tornar-se(r).

ayer

"você é tão mulherão,
não sei por que insiste
em ser tão mulherzinha"

terça-feira, fevereiro 05, 2013

leão

acho que virei um leão.
sinto o peso da minha mão agora, o desajeito. é mais difícil escrever, segurar frutas, segurar pinças.
o meu cabelo assume os rugidos que não dou,
intimida.
no mais é tudo doçura de leão,
que passa manso pela cidade.
em noites como essa sou um leão-amoreira.
crescem galhos pelo corpo
e as frutinhas vermelhas ou roxas ou muito azuis se desprendem das suas pontas.
quando vem pegar as amoras eu as vezes finjo que não gosto,
mas gosto muito.
então fico lá parado,
com essa nuvem de pessoas a povoar meus galhos,
com cara de sério as vezes, até bravo,
mas muitos sorrisos grandes,
até enormes com esses dentes, essa boca.
e só é assim por que de repente tudo se encaixa
num momento própicio,
num espaço adequado.
só assim nascem as amoras,
no mais é tudo doçura de leão.

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

praça camões

nas escadas da praça camões
a energia parece se organizar melhor.
me sinto num ponto preciso.

na linha do bonde mil pombas palomas
juntas e separadas
como os tantos jovens que dividem a escada comigo.
eles conversam
ou escrevem como eu.

na minha frente o sol se põe entre os casarões maiores,
ofuscando as pessoas que lotam os cafés da calçada.

a minha esquerda o rio se recorta
numa ladeira circular de sobradinhos coloridos.

me sinto precisamente exata onde estou,
não poderia estar em nenhum outro lugar,
em nenhum outro tempo,
nem milímetro nem segundo.

o sol abaixa, se esconde atrás das casas, depois dos morros, depois da terra.
e tudo vai voltar ao normal,
vai voltar a mover-se,
sem parecer tão exato, preciso, propício.

tudo vai dançar mais uma vez,
aparentando improviso,
num desenho bem mais antigo.

quarta-feira, janeiro 30, 2013

sexta-feira, janeiro 18, 2013

rios

o cheio e o vazio
me enchem
e me esvaziam.

sinto os dois dançando dentro de mim,
e posso suportar.

as minhas costas, o meu peito,
carregam uma angustia que tento compreender.
é pelo que fiz?
é pelo que fizeram?
ou é pelo susto do amor,
de de repente se ver direcionado ao não amor.

de um dia pro outro,
ouvir a voz familiar dela,
e sentir uma distancia infinita.

comprei velas e ainda não acendi.
também pedirei por mim, por ela, e por todos.
é importante pedir.

nossos caminhos se despediram como dois rios,
no dia da maior tempestade do ano.
abruptamente, como dois rios, e uma pororoca.

é belo o dia descortinado por essa torrente.
o dia novo, mais calmo, cheio de vazio para preencher,
e de vazio para continuar.

estou aprendendo muito. e muito de uma vez.
quero aprender muito mais e continuar.
quero chegar mais perto da luz, do calor, do cheio e do certo.
também quero isso para você.

vai demorar um tempo para curar as feridas externas,
as internas talvez muito mais.
talvez um dia a gente possa se encontrar na rua sem dor.
como dois rios.
como dois rios que seguem o seu caminho.

quinta-feira, janeiro 10, 2013

manuel sá

Entre o som de britadeira do novo "millenium excellence" a ser construido na minha rua, sou devolvida ao meu tamanho original. É hora do almoço de um dia de semana dessa meia férias. A irmã entra no quarto e trovoa suas questões. A amiga no facebook reclama do ex namorado. Espero um compromisso se confirmar ou desconfirmar. Enrolo para começar a trabalhar. Os problemas da vida, como itens num excel imaginário, vão ficando menorzinhos. Pequenos e talvez deliciosos como amoras.
Do tudo ao nada, da vida a morte, da crise a ponte, fico em casa saboreando nos beiços o gosto do café depois do almoço. "nada de novo sobre o sol! o que existe é o mesmo ovo de sempre, chocando o mesmo novo".
Muito prazer.
Sem pensar em arrancar as tripas sinto a verdade de uma tarde nublada que se esconde entre sensações e pequenas verdades. Encontros fortuitos, páginas roubadas de um livro. Um filme que extingue a tristeza.
Volto ao gosto amargo, ao gosto salgado e ao gosto doce. Parto desse chão de estrelas inventadas no céu da boca. Se é para inventar, vamos inventar oasis, vamos inventar idílios! A dor é 82% ilusão. Vamos ilusionar alegria! Que a vida é mais terra do que céu.

domingo, dezembro 23, 2012

nena

nena,
te busco no meio da noite.
ouço distantes os rumores de luas e rios,
e sinto o seu dispersar de tristezas.

nena,
te busco
embora pouco.
meu calor desajeitado.
amorerrante.

nena,
me sinta.
agora é necessário.

deixa a dor vazar por todos os poros,
vire essa coisa
essa imensidão.

e depois me volte vazia.

nena,
conheço de cor sua cara de choro,
e não os outros.

te acalanto e te canto,
nessa madrugada coberta da solidão dos outros,
e da minha.


quinta-feira, dezembro 20, 2012

amor

no escuro, de olhos abertos como dois gatos. pensando em tanta coisa. e talvez em mim.
é assim que te imagino e me dá uma vontade trovadora de cantar-te, de narrar o nosso amor, de gritar possíveis alegrias escondidas.
e o silêncio estarrecedor de ultimamente enfim me cala.
não há clima para tanto. não há.
e o nosso silêncio como formigas que sobem nas costas sem picar.
o nosso silêncio cheio de palavras.
o nosso silêncio
se ver, e se gostar,
mas sem alcançar a morte,
sem chocar os pés entre abismos.
o seu rosto entre os meus dedos,
perdido nas minhas palmas.
doce o seu rosto.
bonito.
ele me olha e me atravessa,
e algo dói como um deus sem piedade.
eu te olho
e ontem via os verdes que imagino ver.
hoje não sei o que vejo.

talvez o vazio do presente.
será que o nosso afeto cresceu-se em apego e se desmanchou no ar.
será dentes de leão.
ou algo.
será algo.
terremotos insuspeitos das plantas dos pés até a altura dos olhos.
um gilete a estilhaçar em pedaços cabelos e peles.

será algo
como uma mão vacilante no meio da noite.
como um beijo que lembra.
recorda de outros beijos.

como chorar.
como tocar sem encontrar,
e por fim algo.
algo como a esperança.
a esperança do amor de continuar amando.

segunda-feira, dezembro 17, 2012

ainda hoje

você que se me cuspiu de ti.


e sua mão vacilante procura a minha no meio da noite. fraqueza contrastada com a violência daquela frase que explodiu na sua boca.
uma frase para mudar tudo.
tudo para mudar.

ou para nada
ou para outro lugar.

terça-feira, dezembro 04, 2012

besteiras

as vezes ardem besteiras,
esses serzinhos ignóbeis e laranjas que teimamos em apertar com as mãos.
sentimos o calor improvável dos seus pelos ensebados e mudos,
sentimos os seus olhos, pedindo, pedindo por mais mesquinharia.
e apertamos o corpinho até os olhos pularem das órbitas.
então sai um líquido quente e culpado
que queima as mãos sem que se possa ver.
é o líquido da idiotice.

quarta-feira, novembro 21, 2012

vinil

já estar com a boca cheirando à violência delicada do gin.

e não perceber o suor na nuca,
as palavras embaçadas.
não perceber seu cabelo cheirando a cigarro
bagunçado na cara.
as cidades vão desabrochar
com esse hálito feroz.
os lugares que sua mão vai tocar.
e depois eu vou lembrar.
como um disco que gira infinitamente
sem girar.

terça-feira, novembro 20, 2012

cazuza

caralho, ouvindo essa musica desse jeito e andando por essa calçada assim. essa calçada fodida, feia. essa noite de quarta, esse escasso. suas pernas quase gordas comprimidas na meia calça comprimida na saia bem pequena. anda por essas poças, por esses desperdícios. nada encanta a princípio. tudo se encanta num olho que demora.

coincidentes

cede as mãos, mas deixa as pernas. deixa elas respirarem, como a palavra que não sossega na minha boca. a palavra imperativa do agora. nenhuma outra.
o álcool aos poucos corroi os copos de vidro.
isso é o que dizem para acalma-la.
dizem sustentando novas toalhas de linho, úmidas, contra sua testa.
seu pai deve ter uma fábrica de toalhas.
o seu suor parece tingir a pele, mas é mentira.
o cheiro ocre se apruma no ar. esperto. vem direto a mim quando chego, quando a noite chega em mim.
é difícil reconhecer o rosto do prazer nesse parece rosto, nesse rosto que coincide em tantas coisas, menos no aspecto, menos na cor, menos no que provoca em mim. esse novo rosto coincidente usa minha mão para novas coisas. ela se esquece nesse momento do calor guardado em movimento. do espalhar do calor. minha mão, nesse momento, transformada, minha coincidente mão, sustenta toalhas úmidas no colo da sua face.
as suas coincidentes pernas apoiadas nas suas coxas. o meu desejo coincidente escapa entre os dedos. escapa em suor. escapa em loucura.
ao ver suas coincidentes coxas abertadas uma contra a outra.

domingo, outubro 28, 2012

tudo

foi assim. exatamente assim. a tarde derramada em cima da mesa enquanto não viamos, a noite se espalhando como leite, absorvida pelo poroso do tecido, discreta, cheia de estrelas nulas escondidas, mas ainda ali. foi exatamente assim. nós entramos no carro e nos olhamos. nós fomos para o cinema. nós compramos ingresso e nos olhamos. no meio do filme nós nos olhamos, denso, e o rosto revelou algo novo. foi exatamente assim. no seu rosto não existia nada. existia a luz trêmula da tela brincando na sua pele. existia um som distante falando de outros universos. e o seu olho me olhava em silêncio. e ali, exatamente assim, o seu rosto como era. um silêncio de rosto, a revelar todas as possíveis palavras.

terça-feira, outubro 16, 2012

behring

As duas pedras que prendem entre as pernas a imensidão do mar.
Te sinto como um estreito,
magnitude mineral a incendiar os olhos caso o pescoço insista em bascular para cima.
Ri de mim.
O vento desgasta a pedra, a leva em areia, ínfima.
O mar entra mar, sai mar, mas lá,
nem rio.
É um delicioso diminuir-se,
sentir as costelas cedendo
à pressão deliciosa das coxas.
Como duas pedras que prendem entre as pernas a imensidão do mar.

segunda-feira, outubro 08, 2012

matemática patética

a matemática dos bichos. o presente. a matemática dos espelhos. o presente. a matemática das flores. o presente. a matemática do som. o presente. a matemática da fome. o presente. a matemática das cores. o presente. a matemática do sentir. o presente.

ahora

Não quero a figura entregue, a frase inteira. Quero o retalho da tarde. O olho. Quero as imagens que só nós temos. Dedos que desaparecem, uma face exata, abrupta, um desenho redesenhado em pelo, o cansaço mudo, o motivo alto. Quero o gosto das coisas, saliva, palato. A sensação do desfalecer do corpo, uma coxa que cede, um olho que fecha. Quero a sombra do carinho - sua mão que continua na minha nuca, saudade.

poseidon

Ele vinha bater nos meus pés. Parecia uma criança insistindo por atenção. O que incomodava de gelo e areia entre os dedos, os olhos compensavam no fim da tarde.
Sempre tive um pouco de medo do mar. Justo. Antigo e enorme. O mar é como se a mitologia existisse. E não dá para ver o que há no fundo. Se as mãos enormes de Iemanjá, seus cabelos verdes de tanto mar. Tampinhas de cerveja, cacos de vidro, restos de animais.
Às vezes sinto que ele vem me buscar, com sua mão imensa. Melhor - me recolher.
E obedeço um pouco muda. Me embriago, embrenho, me implico. Me misturo profundamente a essas partes de água e sódio. Mistifico a água. Ela me aguarda, me carrega para o mesmo lugar.

terça-feira, setembro 11, 2012

Coleridge

As flores são como as ideias.
As flores duram pouco.
As ideias também.
As ideias falam de coisas eternas.
As flores também.

sexta-feira, setembro 07, 2012

valete

trancafiada do lado de fora dessa angustia, não me é permitido sentir o que já sinto, o que presinto.
sinto as oscilações como a mão pode sentir a resposta discreta da pele, o suor, o espasmo. E deixo de sentir como muitas vezes o fiz, mal entendendo a umidade.
tange-me nos lugares que a certeza não toca. a planta do pé. a clavícula tensa. os ombros tesos. todos aguardam algo. uma resposta quiçá, um movimento da lua, um toque aguardente.
de repente tudo se desmonta num sopro banal, e vejo entre os pés tristes cartas que já não significam nada.
podem se montar de novo. podem se ligar em significados intensos, construir castelos. mas a possibilidade inexata de que possam novamente se quedar em sopro me dá a súbita vontade de testar outros jogos. temo pelo efêmero estardalhar das cartas. pelo ruir sincero daquilo que se constrói as pressas, e com pouco cuidado.

quarta-feira, setembro 05, 2012

sobre paredes e flores

eu gostei do modo como você pendurou delicadamente o vestido no cabideiro atrás da porta (parecia que aquele era o único lugar que o seu vestido podia estar). eu gostei do jeito que você ficou com a minha chave e saiu com um corpo ressoando a volta (na verdade eu não ia precisar da chave, mas era lindo você sair podendo reentrar). eu gostei da maneira como a sua escova de dente ficou descansada no banheiro (como se essa casa fosse um pouco sua, e por isso mesmo, um pouco minha).
fazia tempo que eu não tinha casa.

ter esse gosto na boca dá vontade de:
ouvir o rumor distante de alguma avenida que não sei como é um mar que estronda qualquer espécie de paz.
pássaros notívagos cantando nas horas erradas.
me apegar as feiuras graciosas das coisas que se tem (ou te tem).
do sabor bem forte, real, do tomate escorrendo na boca, nas manchas que serão feitas, invariavelmente.

tudo vai se sujar e se limpar de novo enquanto comemos, enquanto vivemos, e o tempo passa com graça, e espero não cair nesse conto, e ter o gosto forte, e a certeza, das coisas que são minhas e podem ser divididas, como a alegria, o sexo, o manjericão.

(as ervas daninhas e outras ervas. senti nessa manhã o aroma abstrato dessas flores.)

segunda-feira, setembro 03, 2012

(vendo janela da alma)

assim como uma criança sonha reinos dentro de gravetos, o filme precisa dar espaço para que possamos nos sonhar dentro dele. "os filmes de hoje em dia são totalmente fechados, enclausurados..." - wim wenders
e dai eu fiquei pensando, nos gostos das coisas que  a gente guarda na nuca.

quarta-feira, agosto 29, 2012

sangria

ali eu te olhava de dentro. o mundo aquário me guardando da ferocidade do ar. era muito difícil viver. muito difícil sair desse cheiro de carne rubra que existe no lado de dentro das coisas. no entanto eu te via. e tremi quando vi suas coxas. elas se mexiam com delicadeza. a loucura zunindo no meu ouvido. todo esse lado de dentro chovia. os minutos escorriam pelo quarto, esguios, espertos. sua mão contornou minha dor. chegou no cerne. nos olhamos bruto, embora tudo parecesse tão pouco real.
fui embora e o sangue escorreu por esse caminho criado por nós. sua mão ainda estava lá. disse adeus atenta. o vazio agora é carne limpa, latente. pronta para ser carne novamente.

sexta-feira, agosto 24, 2012

liberdade

prensado entre o ar espessado do meio dia e os cheiros fortes dos outros que sou obrigado a sentir.
a solidão grita delícias. os onibus passam e é bom não ir para lugar algum. é bom ser aquele que olha. que deixa que tudo passe diante dos olhos. há algo de subversivo e necessário para a ordem de todas as coisas.

quinta-feira, agosto 23, 2012

como quem salta no ar como água





corre melhor ir para onde saberá o dia escancarado sobre meus dedos que percorrem as vértebras indecisas da praia estirada, da vida discreta e no entanto, tão explicita no seu silêncio. fuma por que o ar denso inspira. bebe por que baco põe a mão pesada na cabeça em prece. vive por que ele canta e tudo continua dançando. continua embriagada desse silêncio que eu vou junto.

terça-feira, agosto 21, 2012

lago



Depois do jantar, com o beiços engordurados, abriu o envelope. As fotos caíram escancaradas. Nada ali era óbvio. O recorte do ombro revelava antigos desenhos. A lembrança de uma nuvem que passou rápido demais. Uma pinta no nariz desdobrava todo um mapa complexo do seu corpo, constelações infinitas, estrelas sem brilho, estrelas sem nome. Nada ali era óbvio. Ali não havia o que da mulher sucita sua besta fera. Ali a maldade era maior. A beleza discreta e sincera do seu cabelo caindo a direita mexia nos torrilhões do dentro de dentro. A beleza dela movia sua escuridão mais bem guardada.
Toda mulher antes de morrer deve ter sido muito boa e muito má. É importante que tenha cruzado esses caminhos. Todo homem antes de morrer tem que homenagear precisamente uma dessas mulheres.
O plano se traçou rapidamente em sua cabeça. Riu pateticamente do piano encostado num canto escuro. Riu da sua ingenuidade, riu da falta de fibra, da falta de horror que havia naquele instrumento. O som do piano era muito claro. Imaginou cartas, textos, meramente desenhou frases. Elas pareciam poucas. As palavras se tornaram opacas.
Ele então passou as mãos nas coxas. Dos joelhos em direção a barriga. Lentamente. Uma, duas. Três vezes. Ouviu o som do tecido sibilando. Sentiu o calor aflito do atrito na palma. Trocou o teso das pernas, pelo duro dos dedos.
Pegou a chave num átimo e partiu.
No número 349 ela já esperava por ele. Esperava vestida, guardando segredos. Esperava sutil, mansa. Esperava com suas pintas e os mil nomes ainda a ser dados, conquistados, devorados. Esperava como uma mulher boa, como uma mulher má, como uma mulher antes de morrer pode e deve esperar alguém.
Ele olhou profundamente para ela. Ele lançou seu olhar escuridão obscena do desejo, febre. Ele lançou seu olhar calor fluido do amor, temperatura. Ela recebeu tudo aquilo inteira. Soube se deixar abater sem cair. Ele começou a beijar ela ali mesmo. Não havia mais nada a ser feito. Essa seria sua última homenagem. Ele beijou com calma, porém voracidade. Pegou seu corpo com todas as palmas de todas as mãos, sem machucar. Ele conheceu a luminosidade estranha do plexo, o labirinto das costelas. Conheceu a calma furiosa dos cabelos. A delicadeza despudorada dos lóbulos. Se embrenhou nos dedos da mão. Fez da curva da coxa com a bunda uma esfinge. Trocou olhares com os joelhos. Percorreu a língua pela coluna, praia imensa, mar infinito. Sentiu seus dedos, seu corpo, seu eu, agora já sem nome, batendo água na areia, ritmo, chamando, chamando. Sentiu ela respondendo, terra, pulsar denso. Imagens vinham de todos os lugares da casa secundar os gritos, a lua gemia baixinho, o ar pesava suores.
Em algum momento tudo aquilo passou. A mulher viu o homem. Tocou seus ombros fortes que logo antes a amparavam. Olhou seu órgão melancolicamente alegre. O seu suor na nuca. Ela olhou para aquele homem que pela primeira vez a transportara para esse antilugar em que estão ou estarão ou já estiveram, alguma vez, todas as mulheres do mundo. Ela olhou para ele e viu um menino. Ele já dormia. Imbuido de algum tipo de paz. Ela deu um beijo no seu entreolhos e fechou os seus próprios.    Enquanto dormia sonhou que era um lago. O menino e o homem inauguravam nela o milagre de ser um lago. A sabedoria de ser um lago. O silêncio de ser um lago. 

quinta-feira, agosto 16, 2012

menti pra você


Quantas bobagens tentei te dizer entre o soluço ébrio e a hora do sono. Quantas palavras errantes te acertaram mesmo assim, em silêncio? Nos vapores do sonho tenta segurar minhas costelas, não há apoio, não há maçaneta que abra essa porta do peito. E no entanto você abre. E no entanto você se esconde. Entre as jabuticabeiras da minha infância raiando um dia infinito. Seu vestido verde e suas coxas cor de mar. Minto verdades para te agradar. Você sorri. Acho que não fala português. Tem medo, tanto medo. Não. Agora você só tem alegria. A libidinosa alegria das crianças, levanta os vestidos, prepara os corpos sempre para as surpresas do cheiro e do sal. Foges. Por que foges ratinha? (Quem é que incutiu essa imensa ternura em ratinha? foi Cortázar). O dia tarda. O café da espera. Te espero. Fiz um relógio desse ócio: A cada novo café, a xícara marca um círculo de borra na mesa. Agora São cinco. Cinco olhos negros que me olham. Que me esperam te esperar. Você chegará sem previsão. 7 olhos negros. Ou 19. O café me acende e me escurece enquanto você. Rindo. Que riso tenebroso. Ecoa nos porões da minha mente.

quinta-feira, agosto 02, 2012

bali hai

se lembra quando a gente vinha na minha casa fumar bali hai e ouvir led zeppelin?
a gente ficava tonto na luz baixa. eu não me lembro como você ia embora. eu não lembro aonde era minha cama. eu só lembro da luz. da janela aberta. de nós dois tontos. vivendo numa velocidade altíssima, e lenta. vagarosos momentos.

segunda-feira, julho 30, 2012

alhambra


eu desenhei o seu nome.

o seu nome era um pássaro.

eu desenhei e ele saiu voando.

sexta-feira, julho 27, 2012

tempo

apoie a xícara de chá preto no mármore e espera a tintura difícil da erva invadir os veios da pedra.
todos os dias. espera. deixa o tempo em seu verbo - passar. olha o olho escuro e pálido que te encara da ponta da mesa. olha no fundo dessas olheiras cada vez mais densas. uma hora esse olho negro vai te olhar e você vai sentir algo. vai abrir os botões da blusa e com as mãos sem hesitar tirar o peixe vivo que brota de dentro das costelas.

olha para o olho mais uma vez.
ele ainda te resguarda. olha e tenta entender: a ternura insuspeita de um olho que ri.

terça-feira, julho 24, 2012

obatalá

então ban.
em cima das suas certezas.
e aquele laço luminoso e quente de todos os sentidos atribuídos
se desfazem sem esforço.
então ban.
e dá até raiva.

uma tristeza descansa calma
nem sei onde.
e de repente me vejo novamente
tentando atribuir sentidos.

pensando nos caminhos.
que eles talvez sejam maiores que só o que me toca as mãos.
e que daí talvez dê para compreender
uma loucura assim.

mas não dá para compreender nada.
prefiro me apegar a falta de sentido de todas as coisas
que me deixa ter raiva dessa e outras tragédias.

segunda-feira, julho 23, 2012

agora

se lembra daquela chuva? tinha até granizo, embora não fosse inverno. e parecia que ia quebrar os todos vidros. o vento batia nas molduras frágeis das janelas, a água escorrria para dentro de casa, invadindo silenciosamente, apodrecendo tudo de forma invulgar e vagarosa. se lembra dos trovões? iluminavam o seu rosto insuspeito na escuridão, lampejos de desconsolo. as suas mãos frias. tateando, tentando compreender a violência da chuva que invadia todos os passos. o eco do mar no fundo. brigando. a terra acabando, chacoalhando, reagindo. a terra tinha raiva de você, se lembra? te deixou no escuro, úmida, fria. você nem chorava mais. mesmo quando tudo acabou, sobrou só a umidade infinita do charco. você olhou e achou que aquela merda nunca ia secar.

agora é inverno. não tem o calor modorrento das tardes que tanto fizeram que secaram a água. agora é inverno e o sol toca sem queimar. acarinha leve sua pele. agora é inverno e tudo bem não lembrar da chuva e do sol. agora é inverno e você pode sentar aqui do meu lado e ficar nesse sol morno. fica. descobre o toque delicado desse calor inverso. a luz bonita descendo pela poeira. ouve o mar. ele tá rugindo. agora, e para você. não existe nada além de agora. e agora estamos nesse sol manso. e agora o mar bate. e agora nos olhamos. e agora não precisamos entender. e agora basta estar aqui, e agora.

sexta-feira, julho 20, 2012

braz

cava vorazmente com os dentes presos num pano. aprisiona entre os dedos, ou está aprisionado. entre a areia e a infinita função. desmama com raiva os grãos melancólicos de terra. transforma-os em areia. da sua barba braz nascem os fios delicados de água salgada densa. chuva, quiçá lágrima. cava há tanto tempo. sua unha manchada de ocre se mistura com o sabor ácido da terra. suas rugas recolhem as gotas de chuva, as organiza para que percorram a lateral do seu rosto. cava profundamente. e quando se esgota sente o tempo passando, inefável sob seus pés, como um vagão de metrô, que passa, passa, sempre vazio. talvez seja por amor que suas mãos penetrem eternamente na terra. talvez um eros ancestral. tão velho que é puro esquecimento, pura sabedoria. cava sem saber por que, sem saber por quem. cava como uma criança que insiste castelos de areia. cava sem duvidar do mar. da ferocidade do mar. da sinceridade do mar. sua devoção é patética. suas mãos estão sujas. todos riem. riem dele. ele já não se lembra. não sabe dizer não.não sabe duvidar. ele já não se lembra. ele recorda apenas. todos riem dele. ele chora. e nem sabe por que, por quem.

domingo, julho 08, 2012

eu quero te falar de antes. Antes as paredes tinham os papéis de parede em ordem e ela nao tinha do que reclamar. Eu nunca gostei dos padroes que estampavam aquela casa. Eu lembro da flor de liz bege. Eu lembro dos losangos laranjas se repetindo, se repetindo, se repetindo, extrapolando as paredes. Por dentro tudo estava mais ou menos roto. Colocando a orelha delicadamente podia-se ouvir as gotas passando incessantes, apodrecendo tudo que alcançava no caminho. Nao sei quem decidiu que a água deveria ser tomada como algo benigno. Ela talvez. Ela gostava muito de tomar banhos. No mínimo 3. Ainda nao descobri o que tanto ela queria limpar. Sei que sua pele ficava seca, e quando ela me procurava com as pontas dos dedos ásperos eu me dobrava com angústia.
e Agora. eu vejo o chao, mártir unico da nossa relacao. eu nao consigo enxergar mais nenhuma marca. o fogo comeu tudo. levou embora toda aquela água insalubre. Agora eu estou de pé aqui. E duvido. Duvido com os pés juntos de que qualquer daquelas coisas aconteceram nesse espaço imaginário em cima desse chao. Eu duvido. Nada no mundo secunda essa hipótese. E a memória, afinal, difere muito pouco da imagincao.

sábado, julho 07, 2012

bresson


as vezes as sombras
as curvas, as pessoas.
as vezes tudo parece já ser.


o sol as vezes se encaixa
entre a árvore ali e a outra
sobre o boné do velho que já passa.

as vezes a beleza súbita
configurada num instante
para quase ninguém ver.

sexta-feira, julho 06, 2012

terceira margem do rio

ali onde o vento faz a curva.

sente-se em todos os lugares.
ao mesmo tempo em todos os tempos.
ali
embrenhados cúmplices,
voando no meio do turbilhao,
tudo acontece sem fato.

ali,
todo momento morde,
tudo volta,
o amor rechaça os elementos duros da parede,
perdura,
na madeira, no veludo,
e na pele macia.

nao sei por que ali,
tudo.
mas nos seguramos com os olhos atentos e as maos próximas
encarinhando o instante completo.

domingo, julho 01, 2012

todas as coisas

salto da minha pegada ínfima.
vejo o rastro formado
areia ou neve
nao menosprezo.

abro a boca larga
os dedos se abrem em pleno voo
braços abertos surpreendidos.

tiro uma mordida da lua
sinto o gosto de todas as coisas.
o tempo mais presente é todos os tempos.
o lugar mais universal é aqui,
se esquecendo de mim.

tanto

hoje tanta coisa.
a retina chama outras imagens por cima das que já tem.
hoje tantos lugares
transparentes em cima dos que eu estava.
o deserto caminhando nas pedras secas do vale. as luzes amarelas chamando carnavais de prédios bem antigos. praças, vistas, sensaçoes teimosas agarradas nos cabelos da nuca.

hoje tanto.
e a noite queda-me uma sensaçao de nao estar em lugar algum. a chuva fina rala meus passos na calçada constante. caminho em algum sempre. chego. e entao envelheci. nao me lembro mais por que caminhava. o tempo presente nao se recorda de nada. as costelas estao cansadas, os pés se tocam com frio. a noite é absoluta. senhora. encobre-me e diz que é tarde. que durma. poe as maos grossas em cima dos meus cabelos e diz que ainda é cedo, que esqueça. a noite passa, brinca no meu colo. me lembro de um tempo ontem, de um tempo talvez amanha. ele se torna agora, e durmo mais tranquila. alegria agasalhando a velhice que por ventura apareça.

sexta-feira, junho 29, 2012

guantanamera

sinto falta do meu violao. do toque da minha propria mao.
delicada e austera, nas cordas sujas e familiares.
gosto do som azul do lá,
do vermelho sol
da escala amarela fá fá sustenido.
o meu violao se adequa na minha barriga, nos meus peitos, nos meus braços,
e as vezes no meu queixo,
apoiado estranho pensando, ou as vezes nem pensando.
converso com ele, nunca percebi.
tímido, moreno lindo.
esquentando o ar a volta.
eu nao tive porquinho da india nao,
tive violao.

domingo, junho 24, 2012

saco cheio

(as palavras ditas na cabeça se encaixam sem concretez, cal das coisas reais.)
a dor de garganta não passa. por mais que a cachaça passe pelas amidalas, massageando, expulsando os bichos mais fracos, trazendo alegria. chega à garganta também a palavra. infelizmente a canção a faz desbotar. eu vi a voz sumindo de excesso. embora cantar seja compactuar com algo do tão bom. se cachaça e canção não funcionam, o que funcionará? pensamento e tempo? doenças são sempre esfinges, se não desvender a amidala cai. estou com vontade de arrancá-las com meus próprios dedos. beber substancialmente. apertar um torniquete só para fazer charme (na garganta?). enfiar as mãos fundo, e arrancar com ira. filmando. vai ser a bruxa de blair nacional.

sexta-feira, junho 22, 2012

francisca

O lugar fora reformado para se tornar menos estreito, para que a mulher, rainha do mar, pudesse passar ilesa por entre as fileiras de poltronas antigas. Os corredores ainda eram cerrados, dentes afilados de peixes violentos. O ar amarelo e pesado, preenchido de poeira, velas e objetos de antiquário, parecia flutuar verde, vermelhoveludo e ligeiramente dourado sob as cabeças. A musica que viria inundaria os porões de dentro. Até os ouvidos começarem a pingar de gosto.

quinta-feira, junho 21, 2012

metá

na consistência do toque,
insistente em minhas coxas.
o beijo aflito
escuro.
a mordida sussurrada
entre tantos sons alcólicos.
algo ultrapassa a cordilheira das coisas vivas,
ou o gemido, ou movimento.
Ou ainda nada disso.

é o prazer.
água de dentro
chamando maré
por seus dedos como lua.

quarta-feira, junho 13, 2012

pasmo

foi bom passear. foi importante. enquanto as pessoas contavam números que nunca acabavam, eu passeei. quando chegou a hora de se esconder, eu passeei. quando o errado era claro, eu errei de propósito. quando me chamaram, eu continuei lá. em busca de algo impalpável ("amar é o elo entre o azul e o amarelo" L.). minha memória é pouca, e não armazenei tanto passeio. não na consciência pelo menos. mas é isso que resulto. desses passos sem esmos resultam meus espasmos. 

ancanã

sua solidão batendo como um mar nos meus joelhos aquele dia que você parou o bar para chorar sentada no chão apoiada no que eu podia te dar, tão pouco. a sua cabeça tem o mesmo cheiro de sempre, e não seria discreto dizer que o resto também. suas lágrimas tem um sabor estranho, um salgado contaminado. suas mãos sempre tóxicas, seus dedos compridos, tortos. você me ofusca, perambula minhas certezas sem ferir. você grita, tenta atingir. você segue, e eu sigo, retas paralelas.

terça-feira, junho 12, 2012

humor

   O chão agasalhava-se em um tapete alérgico, as paredes geladas em branco,  úteis. No corredor tudo seguia seta, as portas entreabertas, os convites, o chão longilíneo, a falta de carinho. Te encontrei flutuando inconveniente entre a porta. Você ria insanidades sempre, balançava o corpo, as ancas suaves, os peitos, ria fechando os olhos, abrindo a boca. Nada importava frente aquele barulho alto e bom que saia do seu corpo todo. Quase sempre era assim, impossível de imaginar profundidades, calamidades, algo mais noturno que o humor, a derreter  todas as coisas. 
   O seu pé cruzava a soleira, os seus olhos perdidos entre esquerdas e direitas, e ali, qualquer pessoa poderia passar. Se você risse o momento ruiria. Olhei para suas coxas com medo de que o rumor pudesse começar por ali, tentei pressentir no seu rosto qualquer nota desse carnaval, olhei os seus cabelos escondendo qualquer coisa, talvez a nuca, e lancei no espaço oco do corredor algo.
   Deveria ir, e não voltar. Deveria ir para longe do meu corpo encontrar o seu, qualquer parte que fosse. Entraria como um veneno, irradiando-se lento dos dedos até a parte detrás da cabeça, até o pulmão, até o peito. Deveria partir desraigado, até virar uma cor delicada e constante, que persistisse sutil para além da sua risada radioativa.

quinta-feira, junho 07, 2012

kotama bouabane

lambe nas mãos o resto do cheiro. os dedos parecem quentes, ainda que mal afeitos à palma do rosto. enfia a língua por entre as falanges, remove para dentro de si o gosto de peixes vivos. os cigarros guardados nas gavetas, anêmicos. as torradas de três dias atrás ainda esperam algo. a areia nos pés lembra que tudo já foi melhor. falta na garganta o calor difícil da cachaça, as mãos entre os cabelos, no macio fino da nuca. a mão a arrumar a gola, incorporar a postura. falta o encaixe perfeito da nuca com o ombro. faltam as plantas maciças, muito vivas. a completude avessa a estar inteiro. poesias escritas com gelo, esperando que você possa ler antes que se apaguem em água.

quarta-feira, junho 06, 2012

haikai

sempre que decido te tirar da minha vida
você estende as mãos vazias de flores,
e eu vejo as cores.

terça-feira, junho 05, 2012

escorpião

acenda um vinho na garganta,
garanta.

lambe o suor dos meus dedos,
demore.

dê mordidas nas costelas,
provoque
a carne súbita do tejo,
escorrendo desamparado
por entre as nossas pernas.

sábado, junho 02, 2012

minas

passavam na minha janela aqueles montes verdes, derradeiros, os últimos e os primeiros, a noite a nascer por trás das curvas, a revelar mulheres imensas, morenas, densas, misteriosas mulheres.

em algum lugar

em algum lugar a tarde cai derretida por cima dos bancos de madeira que suportam até as chuvas. a grama respira alto o silêncio. as vozes esquentam. a comida posta na mesa, pela primeira vez. o olho por trás de algo que brilha. e o sono, lento, manso. gato a descansar na almofada azul.

quarta-feira, maio 30, 2012

desabafo generalizado sem literatura

eu conheço alguns homens legais,
alguns homens que não precisam se sentir machos,
os comedores, os fortões, os inquebráveis.
alguns poucos,
a maioria muito amigo.
mas aí pelo mundo,
a gente vai passeando,
e vai vendo cada cara fraco, tosco.
acho que as mulheres tiveram que fazer uma puta revolução
e os homens ficaram para trás,
confortáveis,
recebendo sanduiche da mamãe.
e daí a gente continua passeando pelo mundo
e conhece umas mulheres tão legais
e que nunca sequer viveram um caso bacana,
respeitoso, profundo, humano.
sorte a minha por um lado,
por outro,
azar dessas mulheres, tantas, mas tantas,
sem sexo bom, sem afeto que se banque, 
sem esse toque humano tão bom tão bom.

domingo, maio 27, 2012

martelo

Pegou um punhado de sal misturado com areia molhada, sentiu na língua o calor modorrento, esfregou o monte na pele pele, se desfazendo aos poucos. A pele morena, curtida, ficando mais forte, mais fraca, mais linda, com esse bruto contato. Passou a língua na pedra redonda e lisa do lado da arrebentação. Deixou o sol arder os olhos com uma resistência cã. Sentiu os cheiros dos cozidos que mulheres faziam protegidas na sombra molhada. Era todo agressivas sensações. Mordia o sal de todas as coisas. E sorria, sorria.

domingo, maio 20, 2012

gin

eu queria ter esse seu cheiro de  fumaça
no lugar exato onde se sente
entre a nuca, pescoço, ombros,
no ouvido sussurrar silêncios.

quinta-feira, maio 17, 2012

asco

eu tenho nojo da respiração de algumas pessoas.
eu tenho nojo delas comendo,
com ânsia,
os olhos esbugalhados,
as narinas infladas.
nojo dos sons guturais.
nojo do animal sincero e grotesco que vive dentro delas.
acho vulgar,
tenho vontade de gritar.
eu tenho nojo do jeito que elas não conseguem não respirar forte
denunciando a besta que são.

quarta-feira, maio 16, 2012

tzu

no começo era por educação.
por um senso estético do convívio social que eu deslizava pelas palavras.
esse animal peludo e úmido, escorrendo pela minha garganta, se confundindo entre os meus dedos,
se escondendo nos cabelos finos da nuca.
eu não queria fazer isso. mas eu precisei. para fazer eles felizes.
eu lembro como você se encaixou suave no osso difícil da omoplata quando não soube que mais uma vez eu havia corroído nossas bordas.
foi para tentar te alcançar nessa simplicidade que eu me inventei castanha, com olhos de jabuticaba.
o bicho me encarinhava com seus calos plásticos.
passava as falanges nos meus lábios quando era para silenciar,
soprava indecências constantes nos meus ouvidos.
eu passei a levá-lo para todos os lados.
escondido nas cavernas do meu corpo e do meu pensamento.
agora que o afasto com os dedos você há de entender e perdoar,
a ternura castanha, peluda e úmida
de toda mentira.

segunda-feira, maio 14, 2012

re

Eu acordei, 
porque todo dia eu acordava.
Disse bom dia, 
e mais nada.

Voltei para casa, 
nunca fui eu mesma.
Fui dormir, 
esqueci a dor acesa.

domingo, maio 13, 2012

alcatéia

no meio do olho do lobo que sou
a fome carnívora,
cravando os dentes
nas réstias de madeira.

no meio do olho do lobo que sou
vivo.
adorando presas
que não prendem.

domingo, maio 06, 2012

areia

Eu esperei que chamassem os meninos, enquanto o tempo passava por entre as pedras difíceis. Eu esperei alinhando os copos. Eu esperei alimentando-a pelos tubos que saiam da garganta. Eu esperei nomeando os cachorros que latiam sem parar onde não podiam ser vistos. Eu esperei separando com o labor delicado do agricultor os timbres de cada latido súbito que invadia a casa. Eu esperei observando o movimento contínuo e determinado da hera por sob o cal. Eu esperei em cada fundo de garrafa alcançado, e a cada copo. Eu esperei esquecendo o que eram nomes, o que eram números, e chamando a ela de catorze (infinita). Eu esperei sentindo fome, esquecendo o que era a fome, por dias, jogados no quarto como as folhas em branco e as folhas escritas. Eu esperei como o céu tocando o rosto dela e fazendo cores inesperadas e vulgares. Eu esperei que chamassem, mesmo que não acreditasse mais que houvessem vozes para o fazer. Eu esperei, sem acreditar que os meninos viriam. Eu esperei, sabendo que eles já eram velhos, gastos e puídos. Os meninos. Eu esperei por muito tempo já sem esperar. E quando terminei, vi a casa pronta. Cada grão no seu lugar. Nesse instante deitado no próprio tempo, pude partir, como quem sabe de cor as listras de um tigre.

leopardo

Sentou-se apressado no lugar de sempre. Sua nuca doia, tinha dores na bacia. O homem trouxe os dois copos opacos e a ampola. Engoliu suave o gosto do vento comprimido entre as janelas. Esperou o vôo.
Algo entre as costelas ficara preso, sentia. Sabia. Que dentro instantes, se a situação não se revertesse, ele se ausentaria da cadeira, do veludo suave e bem vermelho, da tranquilidade do piso de taco. Sentiu o gosto nauseado de talco nas virilhas. Repetiu as palavras costumeiras. O homem tocou suave os seus ombros, com os dedos em pinça. Ele sabia o que estava acontecendo. Ele abriu os olhos do outro. Os olhos iam saltando em verde. Amolecendo com a umidade e quentura espontânea da língua que invadia, serena. Aos poucos iam saltando pequenos veios, pintas, tintas-pele. Aos poucos  os seus olhos profundamente verdes, e o seu corpo leitoso, denso, bruto. Seu corpo de leopardo.

terça-feira, maio 01, 2012

fogueira das vaidades

parecia uma ideia fazer uma fogueira numa praça. estava frio e dificilmente o fogo no meio dos corpos das garrafas das vontades pareceria poder aquecer. a escada. a luz distanteperto flutuando as sombras de todos nós no semiúmido da grama. a menina pensada vagamente estava na praia, e ligava intermitente, bobagens como drinks, amigos, quiçá estrelas.
como se desenrolam preguiçosos os intuitos, a noite seguiu. o frio se aglomerando perto do nosso calor. cachaças bastando, violão, um pouco de aparência, bem pouco de amor. 
eu te vi ali. fui sentar do seu lado, ou você do meu. de longe nos olhávamos bruto. você era a menina louca, ninfomaníaca, marciana, amparada por coxas fortes prestes a abrir. eu era do violão, falante, eloquente, experiente, reluzindo pelos olhos virados. quando você sentou do meu lado nós não falamos nada. acho que já sabíamos que éramos uma fraude.
eu fui embora falando falando besteiras. você ficou extirada sobre os braços de um menino meninez.
na outra noite você me infiltrava com o olhar denso. eu ria ria falava. tocava, bebia. aquele dia com uma aura neblina. dias assim. de confiar em tudo. sentei do seu lado e aí a menina louca encontrou a eloquente da malandragem. e então a sua mulher delicada delicada encontrou a minha mulher delicada delicada.
acho que eu nunca mais consegui fingir pra mim mesma. quiçá você também não.

segunda-feira, abril 30, 2012

A

a mão estica os músculos sutis alcançando
o que o estômago não pode mais suportar.
a mão contínua em cima da toalha cor de ocre.
o vinho se move abrupto dentro da taça
e os olhos riem em uma órbita impassível.

os olhos sabem da mentira,
e principalmente do desespero,
da mão
que não consegue ficar no lugar.

ao primeiro gole
a garganta desagradece
e o estômago recorda antigas mágoas.

as mãos se movem
deslimitadas
tingindo os dentes de púrpura
e a barriga de fome e sica.

os olhos já nem ligam
riem
riem envaidecidos
e ministram infinitas promessas.

trêmula,
a mão alcança o colo,
tenta o descanso,
descaso.

os olhos temem a fraude.
tentam te examinar
enquanto você também me olha.

os olhos
tentam substituir com brilho,
com o movimentar incessante das mãos
e das palavras,
a ausência sólida e abrupta
do olho,
e de outras taças.

sábado, abril 28, 2012

casa 12

a água me cobre os fios. nada me afoga, 
no território do dodecaedro eu sou peixe. respiro vacilantemente bem, esperando que os seres de outras naturezas possam me acompanhar. esse vidro riscado do lado de dentro da sombra brilha as luzes das frestas por onde podem sair para os olhos, onde digo coisas que aparentemente fazem sentido. 
carrego sem mantos um mar no peito, um ar na língua. 
sou, sem espanto, essa cachaça aguada, 
aprendendo a línguagem desses bichos estranhos e homens.

quarta-feira, abril 25, 2012

terra

a poesia lança a palavra
em potência tão extrema,
que quase podemos ouvir o seu silêncio.

domingo, abril 22, 2012

bobagem


e eu querendo rir,
rir imenso.

abrir um vinho que há de restar
na boa vontade
de fazer coisas outras.

vento

Eu lembro quando você olhava para mim com olhos famintos.
Sempre assim. Eu fingia que era essa outra pessoa que na verdade sou. Andava olhando fundo nos seus olhos, e mudava repentinamente de direção. Você era uma menina. Ou era assim que eu te imaginava. Para conseguir ser a mulher, ou o homem, que tudo entenderia. Você era pequena, e talvez achasse cachaça da minha loucura. Eu nunca realmente achei que era louca, embora, depois, quando você se tornou uma mulher,  tenha me dito tantas vezes, insistentemente.
Talvez você tenha achado isso por ser a menina que eu sempre suspeitei em você.
Ou Talvez eu seja a louca que você sempre imaginou de mim.

De longe bate o vento, te vejo entre dedos, longe longe,
tudo mudou,
eu a menina, você a louca.

terça-feira, abril 17, 2012

netuno

Volto às palavras um pouco,
para esse universo úmido e quente.
Volto como quem pede desculpas,
com as mãos embotadas de imagens,
de temperos e suores.
Volto como quem diz que daqui nunca saiu,
nunca deixou esse quarto escuro e acolhedor
uma certa melancolia.
Volto como quem vive
olhando o mundo da janela,
fotografias em movimento.
Volto para a água
como quem da água veio.
Submergindo no mar de netuno
como quem não tem medo,
como quem já não é homem ou mulher,
como já não ter mais desejo
só vontade.

noite

janela aberta
deixa o ar entrar
deixa a noite entrar
ronronando negra negra deitada no meu colo,
dengosa, porém indócil.


segunda-feira, abril 16, 2012

'

amor,
a mando,
mando,
uma resposta,
uma pergunta,
uma viagem,
de raspão.
no chão,
que arde e coça,
não pergunte,
só me ame,
amor,
não reclame,
deixa eu deixo,
passar a mão.