segunda-feira, maio 31, 2010

hepático

como se sentiria um fígado lesionado?

ele não tem olhos,
não sentiria medo da escuridão profunda em que vive.
e nada adiantaria te-los.

penso que não sente dor.
não sente.
nem tristeza nem nada.

a explicação é que nele não há consciência.

essa é, principalmente, uma péssima explicação.

eu tenho certeza que pedras sentem.

e se orgãos não sentissem, não piorariam mediante a tristeza, o frio, o medo.

acho que é a forma deles se solidarizarem com os seres estranhos nos quais habitam.

orgãos são cúmplices e gentis.

entretanto,
do fundo do meu corpo escuto a resposta certa.
aguda, coerente.

o fígado sou eu.

domingo, maio 30, 2010

moby dick

acordei daqueles sonhos
como quem
no meio do mar revolto
fechou os olhos.



(para lau)

sábado, maio 29, 2010

avacanoeira

ela tem os olhos fechados.
e eu sei que guardado por suas retinas
existe um mundo cheio de água
e fauna.

o mundo passa por seus braços,
e embora ela não chore,
eu só vejo umidade nos seus olhos.

os seus cabelos claros refletem a natureza
física dos raios que batem na superfície do rio,
e são em parte absorvidos, refletidos, difratados.

a sua boca também fechada.
dela sai a voz
tranqüila e contínua,
das palavras que se perdem em ar.

ela toda não se move,
ela toda não diz nada.

quem vê a cena muda
pensa que é mentira
ou invenção.
que ela fala no silêncio e enxerga no escuro
as cores e sons.

vinho

tá todo mundo um pouco fodido,
um pouco perdido,
um pouco cagado.

olhando na rua,
ou mesmo na sala,
fica expresso na cara
o quanto cada um tem de pesado,
errado, escuso.

essa lua quase pornográfica,
chama de dentro as coisas
que baco canta.
belas e sujas.

quinta-feira, maio 27, 2010

na sala da minha cabeça

a luz baixa marca muito bem as sombras na sala,
o aconchego desenhado em corpos que conversam.
embora as asperezas,
as rugas,
rimos como quando
não sabíamos ainda ser crianças lindas.

tantas décadas passaram, poderíamos pensar.
e nem nos conhecíamos.

onde estávamos?
será que nos cruzamos?
a cidade era a mesma,
os contornos, as alegrias e tristezas.

o tempo passou no copo do nosso uísque.
talvez a lua, talvez a música,
quiçá a rua vazia.

éramos velhos olhando a vida como um filme.
tudo ao mesmo tempo,
vivendo sempre presente,
no tempo do afeto.

quarta-feira, maio 26, 2010

sim

eu sinto o seu bafo quente me seguindo enquanto olho para frente.
a luz branca que emana dá um brilho estranho aos olhos.
se sinto esse calor que vem de você não sei...
se é por verdade que nessa cidade distante te sinto perto,
ou se quero
e acho que isso basta.

a verdade como sempre é crua:
não te vejo e do que te tenho é tudo pouco,
a imaginação nua
de um tempo que foi ou que virá.

pequena

as emoções não são gostos na boca.
por mais que insistam os medíocres poetas,
como eu,
a tristeza não é azul, nem amarga, nem bolor.

talvez seja,
na melhor das hipóteses,
um gosto salgado em baixo da língua.

hoje quando conversamos
nada foi poético,
marítimo, circular.

os olhos da música e da literatura
viram nas mãos só os dedos vazios,
se mexendo vãos.
não viram rios no nosso olhar,
mas lágrimas secas por culpa do calor.

nem o ritmo doce das palavras
achou motivo em nos ver brigando.
é inútil brigar
disse a voz segura daquele que ampara e escreve.
Entretanto o afeto não precisou das cores e nomes da literatura.
Te viu partir e te acompanhou com o olhar e com o peso.
Foi o abraço rente que eu não soube dar.

terça-feira, maio 25, 2010

onírico

eu ainda escrevia quando vi a tinta vermelha tingindo o alto das paredes. Saindo de lugar nenhum e entrando pelas frestas, caminhos abertos pelos cupins.
Lá fora a noite cantava o silêncio. eu ouvia sua voz, como um eco prolongado, caminho aberto pelos bichos que você plantou no lado de trás da minha cabeça.
politicamente no sim persisti escrevendo, fincando os dedos nas palavras que brotavam no papel, algo como feridas abertas, sulfurosas. Que ferviam dores antigas em remédios mais recentes.
As mulheres que nunca existiram, e que sempre me acompanham, com seus vestidos brancos de vento, dançavam a minha volta e sussurravam poemas para minha nuca cega.
a tinta, machucada pela cegueira das palavras, continuava a manchar as paredes. agora se acumulava em poça no chão no quarto. Enchendo tudo com a cor da retina quando o sol está do lado de lá.
Ouvir essa voz de mulher me faz ter saudades.
Mas saudades que não é de mulher,
não é de voz.
Vontade de pegar a água na mão e sorrir.
A inutilidade de uma sensação.
que faz a tinta desaguar em ralo,
e a dança dos ventos se transformar em sono,
e em sonho.


segunda-feira, maio 24, 2010

ressureição

Os corpos estrunchados.
Sangue na face não se sabe de que cortes.
Se foi o esposo violento,
o ladrão de ocasião,
o vingador de pouco escrúpulo.

Alguns corpos vem sem partes,
azuis, de olhos fechados,
ou abertos.

Faz pouca diferença.

Eles se reconhecem pela ausência
de força nos músculos
e na espinha.

O jeito que se abandonaram.
Ou foram abandonados.

domingo, maio 23, 2010

fusca sem freio

o coração é um fusca sem freios.
Cruza a estrada sem medo,
e quando viu passou o buraco sem parar.

Mas não se assustou:
pra se passar buracos é melhor ir devagar,
ou muito rápido.

Agora olho o retrovisor e miro os contornos perdidos.

Desconhecidos Sorrisos e bichos.
Um tigre de bengala se espreguiça em outras áfricas,
pessoas bebem e só ouço o som de suas inúteis conversas.
Nódoas tingem a tarde desse acontecimento:
são as coisas deixadas pelo caminho.

Um solavanco me traz a realidade presente e defunta.
Deixar esse lugar para sempre me deixa um pouco triste.
É olhar pelo retrovisor que revela essa tristeza.
Sentir falta dessa fauna antigamente nova.

Mas o fusca vira outra curva e não enxergo mais nada.
Olho para frente para não descarrilhar e um deserto vermelho se deita.

É o resto da vida,
que começa imediata.

sábado, maio 22, 2010

ser

eu pergunto daonde vem esse descompasso.
e escuto o silêncio.
o silêncio é o barulho de ser.

quinta-feira, maio 20, 2010

quando drummond decide dizer por nós


"Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim."

tempo

escuto,
atenta e silenciosamente,
o rumor do futuro que aguarda.

quarta-feira, maio 19, 2010

antes (que seja tarde)

A omoplata. Faz um desenho em curva no corpo. Se separa e prende os ombros. Fica ou vai, a pedidos dos músculos, da mão que segura, do sorriso que prevê.
Quando éramos jovens, na idade que o sol nascia para lá do começo das histórias, dançávamos para virar anjos, tentando perder os genitais pelo caminho.
Nunca pudemos virar outra coisa que não os jovens que dançavam e que se tinham olhos que brilhavam, era porque eles eram vazios. Do desejo de sermos anjos restou apenas a omoplata, guardando como vigia o lugar por onde sairá nossas asas, num dia nublado e sem desejo.

terça-feira, maio 18, 2010

estrela de seis pontas

Enquanto ele andava seus músculos se agitavam num rumor difícil entre o apertão e o relaxo. Ele não considerava essas metamorfoses, e seguia com os olhos retos, a pele acompanhando-o embaixo da camisa. Dina o seguia, recolhendo as gotas que ele deixava escapar da nuca. Enquanto ela queria virar-lhe a sombra, ele o percebia com um orgulho rarefeito, com pressa de ser outras coisas.
Enquanto ela andava o vestido é que lhe caia, e não os passos sob a pele. Ela sorria dócil para ninguém ver, regozijando frouxa e só sua do prazer oculto de servir a outrem.
Eles andavam em passos diferentes, mas no mesmo ritmo. Cada um orgulhoso de dominar o outro.

segunda-feira, maio 17, 2010

frene

As pontas dos dedos estão endurecidas. Se ele toca o vidro com elas sente uma espécie de dureza que não cairia bem na pele de uma mulher. A luz leitosa da manhã passava pelo vidro, pelos seus dedos, e deixava em seus olhos sem brilho. Ele agora experimenta os dedos na polpa macia dos palma. Ser-lhe áspero não era lisonjeiro. Embora viesse da delicadeza de tocar um instrumento.
A desordem do que pensa faz com as palavras também lhe cheguem ásperas. Mais do que isso - irritantes, agudas, dispersas.
Ele faz força com a têmpora para lembrar, embora entre em sonos antigos,
sonhados quiçá por outras pessoas, em tempos mais solutos.
Tudo lhe escapa, e quando enfim se lembra toma-lhe como um pesar a consciência súbita de um erro. Um erro que sabia que cometeria. O desejar sem poder, agir infantil, daquele que exclui o obstáculo pela ordem do não - não sei, não vi, não é.
Tudo lhe escapa nesse dia de curvas bruscas. Embora nada pareça ter forma, o contato com a pele é bruto, e arde com calor e frio.
A dor do corpo grita. Chama seu nome.
Os nomes da cidade lamuriam.
E se irritam, com o seu jeito frouxo.

É quase noite embora o sol seja lua alta.
Os nomes chamados não escutam,
se recusam - os pobres.

sexta-feira, maio 14, 2010

grito-luz

Quando meus olhos estavam fechados ela deu um grito de luz que me fez cair. Ela me deu a mão e eu pude cair no abismo profundo desses segredos, sem medo da escuridão, porque eu mergulhava nos seus olhos negros e ela me beijava se eu me sentia só.
Enquanto eu caia e o vento molhava minhas orelhas sem medo eu pensava que deveria deixar meu corpo seguir com o mesmo ímpeto, quando fosse hora de acordar e sair andando.
No fim da queda eu me vi só. E trôpega caminhei.
A sua garganta de luz mais uma vez se fechara.
Esperava outros brancos que cruzassem seu caminho,
imaginando ser cegueira o que era apenas medo.

klimt

Pálida a mulher que o abraça. Brilham ao seu redor as cores construídas. Sua mãe que o ampara, ou talvez seja a mulher que o espera. De qualquer forma são seus olhos que brilham, e quem o ampara é a tela.

quarta-feira, maio 12, 2010

calor

Algo dentro de mim morre lendo.
É morte por fogo,
mas fogo baixo,
derretendo algo por dentro,
de prazer e lentidão.

É como um carinho que consome.
Sorrir e se deixar levar.
Acabo o texto abandonada de mim,
contente e amarela.

Quente.

segunda-feira, maio 10, 2010

Maria Schneider

nessa segunda feira de noite o frio se agasalhava em cada dobra dos músculos.
enchi-amos-nos de camadas, como se o desenho das tramas saísse do nome e chegasse ao calor.
entrei no lugar levando um relógio na nuca.
tendo no alto da cabeça os minutos correndo
como se eu entrando naquele lugar e pondo-me a ser pudesse os controlar.

logo que cheguei vi.
ela parecia com a menina d'o último tango em paris.
tinha o cabelo negro cacheado.
o rosto oleoso e branco.

ela lia.
assim como eu,
sozinha,
estudando.
perdendo-se entre os minutos que pensava controlar
entre uma atividade e outra.

sentei-me como por engano na sua frente.
não ousaria o arbítrio contra ela.

no entanto, conforme passava o tempo
ela migrava lenta como mel
dos terrenos periféricos da atenção
para os olhos.

meu pescoço se cansou de levantar por ela
e, de repente,
minha boca se encheu de palavras.

as mãos levantaram-se involuntariamente do livro e escreveram:
exatamente o que acontecia.

perdi-me entre várias páginas da minha constrangida atenção por ela.
desenhei justificativas,
escondi-me atrás de palavras bonitas,
tramei com palavras o perfeito personagem,
para que quando eu a deixasse,
a deixasse com um sorriso.

dobrei as páginas sem muito jeito,
e quando fui embora
deixei em suas mãos,
sem muito jeito
e poucas palavras.







ela sorriu.

agora

vejo ela num retrato que não me diz respeito.
há algo que conheço,
algo que desconheço.

as pintas,
os cheiros.
as tatuagens com outros nomes.
tudo isso conheci.
na nossa cama,
no nosso lar.
foram coisas que decorei
no calor da hora e do afeto.

hoje ela diz palavras que eu não entendo,
também porque não quero.

ela vive uma vida outra,
cheia de cores e de coisas,
que não tenho vontade de ser e ter.

sinto falta porque dentro do peito ainda há algo dela,
algum cheiro que passa dentro de uma história.
um sonho que se repete todas as terças.

mas quando eu vejo o seu rosto,
há algo que eu conheço
e algo que eu desconheço.

há um rosto
que é o mesmo de um passado que conheço
e de um presente que desconheço.
mas que principalmente não me diz respeito.

oai-oude, oscar

fazer é mais fácil que ser.



fazer é ser sem bichisse.

quarta-feira, maio 05, 2010

sobre fevereiros e pássaros

ele me achou aos poucos com sua mão leve,
quando abriu
o pássaro se fez e voou longe.

eu a achei.
cuidei das suas asas,
da sua penugem bem feita.
quando se curou achou que as minhas mãos eram um lar.

nós nos encontramos em pleno vôo.
paramos lado a lado no mais alto dos penhascos
e ficamos vendo o mar.
no pacto suave daquele que está e vê.

quando ela foi embora
entendi que só o mar dura o sempre
para um pássaro.

toada

Tudo era cheio de uma direção sem direção.

Era um piso reto de madeira,

um trilho de trem bem comportado.


Isso era dentro.

Como uma toada.

Era uma música sem alegria nem dor que seguia.

Acho que chamava o inexorável de viver.


Por fora era um corpo de devaneios.

O peito ardia quando entupia as saídas da tristeza,

os olhos se enchiam de medo quando algo parecia estar errado.

As coisas muitas vezes pareciam dar errado.

Todo mundo falava:

uma mesa de jantar cheio de cotovelos,

todos bebiam vinho e tinham batom vermelho

e cabelos pretos.

E todo mundo sabia o que era melhor e dizia.

Então estragava toda música,

porque achar não tem harmonia,

entender não dá samba.

O corpo perdido cheio de baton no rosto e vinho no peito e cotovelo nos cabelos pretos olhou

para o chão, para o lado, para o reto, para o ralo. Olhou o fora.


E continuou toada mesma.

Sem achar, nem entender, nem melhor pior ou se.

Tudo cheio

de uma direção sem direção.

egípcia

A escuridão dos olhos era como as áreas fora de casa quando bem noite.
O mesmo medo de andar descalço nesse terreno do desconhecido,
e o mesmo fascínio.
Tinha traços estranhos a mim,
cheios do langor suave de outras terras.
Entretanto,
não eram nos nomes de seus antepassados que conhecia seu rosto,
mas sim,
na drummondiana viagem da carne.

Os seus olhos escuros puxados me levavam.
Olhos egípcios,
de origem desconhecida.

segunda-feira, maio 03, 2010

curva

voltava pra cozinha pra ouvir o café chiando.

Tinha um cheiro gostoso de cheirar mais do que as outras coisas.
E ia bem,
Com o ânimo de assuntos lagartixando pela mesa.

Olhares gastos com olhares.
o cheiro se perdendo na música
que por sua vez, se perdia no silêncio
de duas pessoas que conversam
ouvindo o olhar.

Era bom rir pra esconder qualquer verdade mais dura.
As quinas de ser
quando há algo que importa.
O pó não chegava a incomodar,
cinza sobrada do fogo.

Eram todas as coisas de amanhecer.

des conhecer

" Nos tempos primitivos sepultavam-se os mortos cobrindo-os com uma espessa camada de galhos secos e deixando-os ao ar livre, sobre a terra, sem túmulo e sem uma alameda de árvores.
Os homens santos de épocas posteriores introduziram o uso de caixões e sarcófagos. "

domingo, maio 02, 2010

conveniente

o sol esquenta o asfalto.
sentir o calor com a pele delicada dos pés
é parte de um esforço.
para algo.

há bons motivos para isso.
motivos são coisas diferentes de nada.
queimar os pés no asfalto não é exatamente conveniente.

tem gente que só faz aquilo que convém.
são pessoas detestáveis com os pés intactos.

astronauta

Ela desenhava mentiras no meu corpo.
sussurrava baixinho segredos,
e os empurrava para debaixo da pele,
onde pudessem se esconder.

ela abria meu corpo num desenrolar suave de tato.
caminhávamos juntas numa espiral,
de arcos concêntricos, inclinação mediana,
em direção ao buraco negro do tempo e do corpo.

ao mesmo tempo lutávamos,
em vão.
quando me sentia fraca,
ela me beijava.

quando as mãos se perdiam
em lições há muito aprendidas,
nos olhávamos no olho.
eu a amparava flutuando sobre o quarto,

ela sorria.

estávamos na lua,
além de nós a escuridão.
a terra era cinza e estranha à palma da mão.
Não conhecíamos ninguém.
quase não havia som.
No entanto,
alguém respirava.

sexta-feira, abril 30, 2010

óculos

entro no carro. a cidade me espia da janela. o vento que entra esparrama meus cabelos pelo ar. ligar o motor é como fazer a mesma história. e conhecer todos os personagens. as ruas se encaixam no que eu lembro delas. embora às vezes tenham mais trânsito.
às vezes eu esqueço o nome das ruas.
e os seus desenhos.
quando perco o medo de me perder.
alguém canta e o meu corpo se estica pela cidade.
levando o sol no corpo do gato.
fluxo de imagens,
cores desbotadas.
cidade girando nos meus olhos.

nascente

há um caminho que leva de uma nota a outra.
é um caminho de pedras.
nela caminho,
e o vento toca na pele do ritmo
e no aço.

os tambores clamam o coração distante da terra.
os pratos chamam os nomes do céu.
o pé que caminha é o tempo.

e o tempo é a essência.

quinta-feira, abril 29, 2010

meet me in montauk

entre cores fortes e neblina eu senti o vento me levando.
ouvi as músicas com atenção,
e me perdi nos cômodos inconclusos de outras memórias.

eu vi ele se perdendo enquanto procurava.
eu vi algo que ao se perder
se acha.

e eu quis.
eu desejei.
assim como ela.

o azul dos cabelos dela me fizeram sonhar.
o laranja e o vermelho.
as cenas sussurravam pra mim.
segredos.
que eu ouvi alegre.

quem no filme estava perdido era cheio dessa tristeza antiga.
mas havia uma nota de lembrança no ar.
era algo parecido com o amor.
e a chance de se reencontrar.

então minha alma se desvincilhou do meu corpo,
que protestava,
assim como o meu ego,
cansado das olheiras.
e disse bem baixinho,
quase pra ninguém escutar:

meet me in montauk.

monica e o desejo

monica.
o som da palavra na própria boca.

ela vivia entre gritos.
talvez isso justificasse.

eu prefiro pensar em termos de alma,
umidez dos olhos.

com os olhos duros
se tornar adulto talvez seja
se responsabilizar pelos próprios atos.
moralmente inclusive.

para os olhos úmidos
se tornar adulto talvez seja
anoitecer o impulso do desejo,
sempre o primeiro da manhã,
e aprender o amor.

o não tempo do amor.

monica olhando para as lentes do cinema.
monica na praia,
gritinhos de felicidade.
monica e o tédio.
monica inconstante.

monica e o desejo.

quarta-feira, abril 28, 2010

acender

era dia que amanhecia distráido por nossas cabeças.
quem primeiro viu foi a luz ainda acesa,
mostrando nosso estranhamento.

terça-feira, abril 27, 2010

felicidade

andava ciente de tudo isso. as certezas colocadas no bolso da camisa. ele apalpava o tecido.
não porque duvidasse, mas porque a neurose lhe caía melhor do que a histeria.
os palpites ele carregava no bolsa de trás da calça.
a loteria e os cavalos.
sempre achava que ia ganhar,
e pensava nas funestas conseqüências.
imerso como estava em dinheiro, status, cocaína e carnificinas ele pensava que era melhor ser pobre.
então ele perdia e ficava feliz.


domingo, abril 25, 2010

a banda

era assim que começava. o olhar dele interminável esperando... algo como o segundo ato. dentro dos olhos dele vagavam minúsculas, líquidas, brilhantes. saudosismos elegantes. ele abria e fechava a palma das mãos, fitando os veios escuros, os caminhos do hábito. pondo a palma sob a bochecha direita sentia calor e suor. se apertasse contra o olho começava a ouvir as batidas. no ínicio bem longínquas, e então se aproximando, como num tropel, como numa canção. fechava os olhos e no dia que fazia a terra seca, os homens da banda vestidos com ternos azuis de terceira linha, suados, morenos, perseverantes. na frente os metais. e no fundo, bem atrás, o bumbo. tocado por um homem gordo e desajeitado, que suava mais do que todos.

sábado, abril 24, 2010

antes do pôr do sol..

existe um sonho que passa como um trem que sempre retorna.
é um rosto doce
que a alma acha conhecer mais do que o corpo.

o corpo é marcado pelos instantes,
se molda,
responde.

o corpo tem memória curta.
a alma não tem memória,
não tem passado,
não tem futuro.
a alma só tem presente,
e o seu presente é o amor.

por isso ele sonha,
e é ela quem ele mais conhece.
passando num trem contínuo.
um rosto doce,
porém inerte.

a alma ainda vive,
mas tão longe do corpo
que ele acorda suado
e chorando.

antes do pôr do sol.

não há alegria
e não há tristeza.

existe uma casa sem riso,
um filho numa casa sem paixão.

existem saudades,
e existe a solidão.

inferno

todas as cores passam
cores de sentir com outros olhos
de pássaro que vêem mais cores.


não há foco que as prenda
- todas as cores passam.

quinta-feira, abril 22, 2010

amanhecer

a pele dela machucada,
como um céu
ou a chuva
de infinitos,
ínfimos pingos.

a testa
estandarte da cabeça.
as estrelas,
espinhas, suspiros.
sussurros.

a noite assoprava segredos para ela.
noite quente
e cheia de cores.
as mãos se tocavam
- delicadamente.

se pensava
tornava a sentir.
e tudo recomeçava.
sentia o peito se desprender do corpo
empreender um vôo leve,
e por isso mesmo
breve.

via fluída a alma passeando
em estágio de desacordo,
tranquilo extase.
no dia seguinte acordava
e tudo entrava em acordo.

de noite tudo é sombra e há mil luzes.
de dia o sol faz uma única sombra.

quarta-feira, abril 21, 2010

perdão

é sem duvida cheio de mistério,
como tantas coisas que vem junto do amor,
a intensidade do junto
ser a cica do separado.

o passado denso,
nada matará.
mas saber que você é
algo que eu não sei o que,
mata em mim algo.

Por isso é que me despedi assim,
fechei as portas e janelas.
da casa que te falo,
do corpo
e da memória.

Foi por isso que endureci
por não conseguir dividir um mundo
em que seu sorriso é anônimo.

Um dia quem sabe meu carinho volte,
doce e gentil como nos dias das intensidades.
agora tenho só esse sorriso duro,
esse olho solto,
cheio de um amor fechado.

amarelo

nutri escondendo do mundo
o mais profundo
dos meus desejos.

ele fez-se em casca
e em leito.

agora se rompeu.

dele vejo saindo
não o amarelo que alimenta,
mas o filho,

que sou eu.

gaveta

li palavras perdidas no tempo.
palavras que não souberam que tinham se perdido,
repentinamente encontradas
num ninho morno de tabaco e incenso.

soube ouvindo minha própria voz,
embora doce,
de mãos compridas e finas,
mãos claras
que desenhavam sem que se supusesse conhecer seus movimentos.
vi meninas eternizadas em mulheres
porque eram apenas suas,
num calor de autonomia e inocência.

vi meus olhos se perdendo continuamente nas órbitas,
repetindo erros em intensidades outras,
sem nunca se arrepender.

reconheci familiares nomes de amigos que ainda cercam.
homens, mulheres, um dia adultos,
sempre lúdicos, propensos.

vi desejos sucumbirem ao tempo.
sinceridades surpreendentes.
vi uma expectativa muda em gaveta,
uma idéia que se formava.

segunda-feira, abril 19, 2010

si

você me ensinou o silêncio.
e eu sempre disse que esse era o nosso cheio.
a ausência de palavras como desculpa
para nos encontrar em lugar.

quando tudo acabou meus olhos continuaram mudos,
mas os braços e bocas não pararam de perguntar.
que tola fui eu,
pensando que sua boca muda
ia me explicar.

acordo.
o corpo está ressentido comigo.
acorda para os sonhos reais,
não aqueles que dormindo menti.

os músculos estão secos,
a boca imóvel.
os olhos não fitam o espelho que o antecede:
ainda não há força no sangue para alcança-los.

por fim
completamente levanto.
chamo as vozes da minha casa,
nenhuma atende.
estou só
e penso que é como a vida.

sábado, abril 17, 2010

dormir acordado

Quem dói é o estômago.
A garganta se condensa proibindo os carnavais.
Os olhos não se cansam do seco e do molhado,
intermitência dos momentos.

Talvez fosse dar uma cambalhota no mesmo lugar,
encontrar água,
doce, salgada, salobra,
no limite dos pés.
E o céu nos olhos.

Talvez se tudo não fosse seco.
Não como a terra que vem até o nariz,
mas como piso frio que não se muta.

O sol queima e transforma minha pele.
O cansaço dá motivo pra se esquecer.
Sonhar moldado pelos limites do corpo.

quarta-feira, abril 14, 2010

pen-ser

não tenho dinheiro,
nem tenho asas,

mas tenho imaginação
pra me levar pra todos os lugares
que esses não podem.

doce

reconheço o doce quando vejo,
tato escuso
bem nos olhos,
sente o gosto dos humores.

paladar disfarçado de saber alma.

terça-feira, abril 13, 2010

sentir

Reli todas as palavras doces.
e me perdi
em círculos dentro de círculos.
Não reconheci as paredes,
eram de pedra,
geladas e agudas ao tom da pele.
Mas algo permanecia conhecido.
Talvez o riso, o gozo e o choro,
e a maneira como você escreve vasta.

Num tempo ausente experimentei ir,
jogar-me para dentro dessa terra morna.
Reconhecendo as palavras conhecidas
empreendi o que era conhecer,
rumo a utópica carne
do presente.

segunda-feira, abril 12, 2010

ilhada

A voz dela diz coisas secretas
no fundo da minha nuca.
No oco do meu segredo.
É lá que ela cochicha as poesias,
as melodias do seu dia-dia.

A cor que me toma a pele,
quando há de ter na vida
o mesmo cheio belo da música,
é a mesma de brincar
em terra que o sol se põe.

a última casa, ou a antes da primeira

o corpo tem cheiro de mata,
ou mangue.
vai indo em círculos a fala
que olha.
fundo que é
no jardim que ainda
mata.
pele morena
ou branca.
olhar água,
pulsação de tremor de terra.
as palavras para o menos
muito mais o gosto quente do ar
à sua volta.

sábado, abril 10, 2010

XIX

Eu estava dormindo.
Tinha frio na barriga e tentava apropriar o casaco à maneira eslava.
Abri os olhos ligeiramente,
a luz branca da manhã entrava no meu quarto,
mas não o calor da luz.
Tinha um sujeito sentado
com uma gravata estranha.
Ele tinha os dentes feios
e falava demais.

sexta-feira, abril 09, 2010

voyeur

Se ele conseguisse ouvir todas as vozes dessa cidade
se transformaria na medusa,
ou na própria loucura.
Entre copos de vinho pra enganar o frio,
cachaça com gosto de ressaca,
programas de tv barata,
coxinhas
e coxas se esquentando embaixo dos cobertores.
Nessa cidade de mil janelas.

O homem que vai pela rua tem muito frio
e anda com as mãos nos bolsos.
Seria mais feliz acompanhado de um conhaque,
mas não é,
e se esquenta roubando o calor da intimidade dos outros.
Os apartamentos,
suas plantas, lustres,
e com sorte
alguma pessoa passando,
dando comida pro gato,
vendo tv com alguém.
Aquela luz densa e baixa,
da matéria difícil do lar.

Ele está só,
na escuridão e no frio.
Seus músculos doem,
mas ele ainda sorri.
Não há janela na qual ele queira estar,
não há moldura que o conduza,
a um novo ato do encontro
e de entrega.
Ele prefere por hoje
somente olhar,
no máximo um café,

e obrigado-até-mais.

quinta-feira, abril 08, 2010

persisto

Acordar
o corpo queda sem forças.
Eu já não suplico mais por nada.

Das coisas que perdi no turbilhão
a que no chão mais derrama meu corpo
é não ter mais querer.

Só o estar morto, morno.
Mórbida mania de ser.
Sozinha e sem palavra
no meio de todas as salas do mundo.

manhã

A noite me engolia
em tenebrosos carnavais.
As imagens persistem
vozes entrelaçadas
na escuridão de nenhum pensamento.

Sobrar-se nessa manhã
quarta feira de cinzas.
As cores todas sem vida,
só o vermelho da lascívia,
nos lábios das mulheres,
no sangue que ainda quer errar de veia.

terça-feira, abril 06, 2010

sim pinguim

vamos dar a mão na rua,
e correr com medo dos pombos.

Minha cama de solteiro é ruim de dormir sozinho
e junto.

quero por fogo na tinta das minhas paredes.
que você desenhe calculando o resultado
incinerado
por cima do branco e do vermelho.

Acho que você saberia.
se estivesse bem distraída.

segunda-feira, abril 05, 2010

presente

era cheio de passado
o gosto de um corpo ausente
que não se identifica,
em nome, cor, sabor.

cheio de futuro
a sombra de uma palavra quebrada.
sob o sol que faz sombra em todas as coisas.

cheio de presente.
a secura da boca,
a mão que vai
e volta porque quer voltar.

a palavra transformada em ato.
a sombra da idéia
em um corpo sem cor.

sentir no corpo
o sol do outono,
cor e luz
e nenhum calor.

agradeço

sempre chovia quando eu ia ve-la.
Era sempre segunda e chovia.
Ela me oferecia um chá,
ou água,
ou café.
Dependendo do dia.
Me dava um desses beijos que você não deixa de olhar nos olhos.
E me conduzia pela mão por aquele corredor de mil portas.
As maçanetas eram passarinhos,
e eram tantas, tantas portas,
que eu nunca sabia quantas cabiam na imaginação,
e por trás de quantas delas cabiam contos,
coitos,
meninos torturados,
edgar allan poe.
A porta aberta,
um pequeno galho branco no vaso,
os cremes dispostos,
as cadeiras,
a cama.
A luz baixa,
o cheio de alóe.
Eu deixava a bolsa na mesinha,
a soltando num balanço para economizar gravidade.
Nos sentávamos e ela me olhava sorrindo.
A vida para ela parecia doce,
e as minhas convulsões engraçadas.

Quando eu saia com o cheiro nas minhas mãos gostava.
Levava um pouco daquele mundo perfeito comigo embora.
A janela às vezes fechada,
às vezes aberta.

quinta-feira, abril 01, 2010

dois

Como quem conhece o amanhã
ele chegava perto dela.
Era sempre noite
e ele cheirava bem.
Ela não sabia que era mais bonita que ele,
que seu charme era acreditar
na beleza dele.
Ele às vezes ia de branco,
ela muitas vezes de vermelho.
Tentava assim substituir sua timidez por outra coisa qualquer,
como os cabelos despenteados,
e os gestos impulsivos.
Ele ria quase sempre,
não sabia que seu charme
era acreditar na beleza dela.

segunda-feira, março 29, 2010

vez

as palavras são
como sempre saem,
traiçoeiras
vulgares,
a procura de algo
que eu não sei dizer.

das suas palavras
prefiro escutar,
não as cores
dessa cidade,
mas o barulho discreto
e insistente do mar.

das coisas que digo,
a maioria você ouve,
e responde,
sem erro e embaraço.

mas nessas noites,
possivelmente banais,
eu prefiro
quando você não consegue escutar,
e eu olhando nos seus olhos,
entendo com o brilho mudo
do espanto.
que talvez seja por cor,
que o olhar escolha
o que do mar em ti há.

quinta-feira, março 25, 2010

inha

Eu sinto ainda as vozes na minha nuca.
E no canto dos olhos vejo a luz barata,
levemente amarela,
refletida no tampo das mesas de plástico.

Não escuto o que elas falam.
Algo que não compreendo,
outras línguas,
outros tempos.
Algo que não me diz respeito.

Com as tintas da ebriedade
desenho um sorriso na minha própria boca.
As pessoas riem pra mim,
talvez achem graça do rosto sem forças,
e da tinta sem malícia.
Talvez acreditem.
(Ou talvez também tenham se desenhado alegrias).

Alguém na mesa me conhece.
Eu sei.
Mas ela está em outras paisagens.
O olhar, mesmo que tente se encontrar,
encontra quinas, miragens, curvas.
Nunca passagens.

No olhar de outra pressinto a doçura inevitável do mar.
Isso eu também sei.
Mas ela cita nomes, e músicas, e gostos,
e o mar se atrofia no seu rosto.

Há ainda mais uma.
Intermitente nos dias.
Energia que confunde,
protege.
Expande e introverte.
Ela tem olhos que fogem,
olhos de tristeza.

Por meio da palavra,
mistério do significado,
lançamos uma corda.
O seu olhar triste puxou por um lado,
por outro o meu.

Nos olhamos denso enfim,
na noite díficil da dança das máscaras,
nos comunicamos em sílaba e gesto.
E eu pude sorrir sem tinta.

terça-feira, março 23, 2010

palavras duras

o dia passa sutilmente,
como todos os dias.
manhãs de tempo ameno,
palavras uniformizadas em assentos,
um ou outro corpo, carro, voz,
penetrando na iluminada escuridão do pensamento corriqueiro.

chega com gosto acre,
e um amarelo de espanto,
a lembrança de um passado.

prevejo em sonho vivo
um riso dado,
um olhar compreendido em rima,
um entender difícil e denso do corpo que se aninha.

quando lembro da doçura
parece que tem algo dentro de mim que cai de alturas
inimagináveis.
isso porque das suas palavras as que tenho,
quase todas são só duras.

e se vejo que te perdi olhando para os braços nus,
pouco me importa.
é pior ver o efeito da rudeza,
no que de você sobra,
ou sobrava,
no dentro de mim, única casa.

segunda-feira, março 22, 2010

ímpar

a linha tênue entre dois pares.
o tempo dançou com o vento,
deram-se as mãos,
os segredos e desejos.

o espanto tatuou os nossos rostos,
o difícil da vida
- inesperado.


com dor e dificuldade as mãos se romperam,
deixaram o corpo ir,
flutuando leve com o ar.

os equilibristas dessa dança
todos trocaram de lugar,
agora levanto os olhos
e um outro olhar encontro.
é assim que começo a gostar do desprendimento
da linha e do vento.

domingo, março 21, 2010

familia

Estamos separados.
O tempo,
o hábito que nos constrói,
é que nos separa.
Lembramo-nos por poucas vezes,
uma palavra ou outra em casa,
algo doce
facilmente engolido pelo corriqueiro.

Entretanto,
tão logo nos reunimos,
reconhemos imediatamente
em todas as faces,
o sorriso escancarado do encontro.

O habitar que nos separa,
é logo desprezado,
porque a casa dessa familia que sempre aguarda,
é dentro,
e não fora.

terça-feira, março 16, 2010

nada

saio da mulher
e chego a pessoa.

viagem de vales indecisos.
neve, sol
e pouca precisão.

o vento escurdece.
a música
que ninguém sabe da onde veio.

olho seus olhos
tristes.
se distanciam da estrada.

as mãos cobrem alturas,
ináptas.
conduzem-me numa dança
comoque mímica.

segunda-feira, março 15, 2010

logo agora

alegria é só uma chance pra tristeza.

domingo, março 14, 2010

h

inspira
expira
o grito antecede o diafragma
convulsa
tenta as paredes.
respira.

sexta-feira, março 12, 2010

amoras mofadas

algumas coisas são tristes.
como procurar numa gaveta por uma lembrança
e encontrar tudo mofado.

quarta-feira, março 10, 2010

parabem

A imagem persiste:
nadar contra a corrente.

O corpo presente clama mãos na borda,
a violência do rio,
a violência maior do leito do rio.

Nem o sol persiste,
chamo nomes do passado,
mãos, entre véus e incensos.

Ouço,
é o som do afastar,
é o grito,
é a ofensa.

Em casa o tempo passa de outra forma,
longe desse ou daquele pensamento.
No rosto um riso sincero,
porém de desespero.
É o mal que vem para bem.


restos

Últimas semanas intensas,
de nado contra corrente.
Agora o corpo que acorda se extingue,
a garganta dói com secura e tristeza.
Os olhos olhados pelo espelho,
restos negros de sonhos interrompidos.
Os esforços são vãos.
Ninguém olha esse corpo eco que perambula pela cidade 
como força contra-gravidade.
Os óculos escuros deixam seguir,
tapando as lágrimas que soam como ofensas.

Nadar contra a corrente deve dar fome, dor e cansaço.
Agora desses
só sinto a morte.
Cansaço inverosímil 
de vidas mal dormidas.

terça-feira, março 09, 2010

olhar

A beleza dos olhos,
raízes,
matas inteiras.
Poços escuros,
almas insones.

Os olhos que veem.
Cria uma linha obscura entre o sujeito e o verbo,
o movimento ruidoso do mundo,
e o anteparo.

Olhos mudos, surdos,
talvez burros.
Tímidos olhos,
que fitam a paisagem e pouco dizem,
mesmo que às vezes chorem.

Olho obrigado,
nascido e feito para ver,
o tempo todo
e o que tiver.
Olhos que nos sonhos viram para dentro,
fitando os filmes da memória.
Olhos que só descansam quando morrem.

Olho mudamente obrigado a ser,
fita o mundo que fala,
e não se cala.

domingo, março 07, 2010

meu deus

O som da sala diminui,
o menino-homem que joga serpentinas
anulado pela música triste que leva todas as coisas pro mesmo lugar.
Meus cabelos prendem os pedaços,
minha tristeza adormecida...
Ela longe e meu pensamento que sonha distâncias,
o tempo que passando não se aproxima de mim.
O sono como chave pra todas as portas.

sexta-feira, março 05, 2010

clá

O barulho do silêncio tem sido insuportável.
E as cores
densas escuras.
E o peso.
E a dor.
Trocamos mensagens de silêncio,
mas eu lembro da sensação da primeira mensagem que te mandei.
Meu peito ficou desatento pro resto das coisas do mundo.
E depois de um tempo cantou baixinho.
Eu lembro de querer te ver e procurar.
E de ser um monstro.
e de ser incorreta com quem eu amava
(inclusive comigo mesma).

Eu lembro das coisas boas,
da sensação de liberdade de quando a gente começou,
das festas malucas e das pessoas legais,
lembro de não sentir cíumes.

Lembro também do abandono dos nossos amigos
e da tristeza.
Lembro de estar do seu lado no sofá,
duas agonias ainda pouco íntimas.

Lembro das descobertas dos nossos corpos,
a comunicação mais densa,
energia e telepatia,
o mar e a cor roxa.

Eu lembro menos de quando você não sentia mais nada me beijando,
ou quando ficavamos entediadas cada uma fazendo uma coisa.
Eu lembro mais de fazer qualquer coisa e não importar,
de passar um ano inteiro todos os dias do seu lado,
e pensar que você era a melhor companhia sempre.

Eu lembro de quando você ria e das bobagens que eu falava,
eu lembro de você bêbada,
eu lembro de você brava.

Eu lembro que pouco importava tudo porque a gente era junto.
Eu lembro de sentir o agora,
essa cor,
branca, leitosa,
que invadiu todos os poros da minha cabeça.
A existência solitária,
e um rufar intranquilo do peito que ainda bate,
o gosto estranho,
antigo e novo,
da palavra solidão.

quarta-feira, março 03, 2010

lembrar

eu sabia de cor a sua beleza.
a beleza das outras coisas é que agora ousava aprender,
uma outra forma de leveza,
na qual tudo que era belo nela ainda era,
embora envelhecido e encantado pelo olho sem matéria da memória.

sépia

Tudo entre nós é grande silêncio,
não como o mar que respira,
como dois olhares em direções opostas.

Nenhuma matéria entre nós,
apenas a carne difícil da distância.
A tensa calma entre duas polaridades.

debar

a matéria do tempo
não é o ar.
é o vento.

terça-feira, março 02, 2010

pavor

quando ela me chamou eu acordei assustada e olhei pelo quarto.
quando ela me chamou eu sai do quarto procurando o seu nome nas paredes.
quando ela me chamou eu cheguei na cozinha e comi algo para aguentar o dia.
quando ela me chamou eu atravessei a cidade fazendo desenhos.
quando ela me chamou eu ouvi música e sorri com os olhos mudos.
quando eu percebi ela não tinha me chamado.
quando eu percebi eu continuei acordando,
e eu ouvi música e até sorri,
e comi e fiz desenhos.
quando no meio da noite eu acordei com você me chamando
era um sonho.
eu acordei suada e chorei de pavor,
por ainda ter o nome que você não mais chamou.

sábado, fevereiro 27, 2010

di

Sol porque é redondo e trás com a cor amarela o assombro da alegria.
Lua porque é água branca, em crateras que são mares.
O dia e a noite que formam o dia.
Luz amarela e luz branca,
alegria e descontrole.
Com a sobriedade a roda mãe se movimenta
levando a cima e a baixo as águas do mundo.
Com a ebriedade nada é útil
a lei é a ética do peito
e sem acordo,
durmo com o peito pesado.

saudades

ela em chamava com outra voz. em outro cômodo da casa. a voz de sal da cozinha, a voz mole do corredor.
como uma sombra,
ventania submersa por esses quartos.
na sala pairando silenciosa.
a saudades.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

farelo

eu arranquei um beijo sem cor da boca dela.
como se pelo gesto impulsivo,
os braços desordenados e violentos,
os olhos brandos.
como se
eu pudesse sucitar algo igualmente virulento das sobras tristes de nós.
ela fitou-me sem olhos,
eu retribuí.
os corpos se afastaram espontâneamente
mostrando a verdadeira natureza daquilo que acontecia.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

mais sentido

ontem

você não bebeu o copo de água que pegou para mudar o assunto que de repente não mais te deixava em paz. há tantos anos essa água que você não bebeu, não virou cinza nem apagou, caiu do copo e marcou aquela mesinha pequena e escurecida. há tantos anos você deixou essa casa por tantas vezes que mudou o mesmo assunto e de repente não tinha mais lugar para algum de nós. foram tantos anos e tantos assuntos, tantos erros, tão insistentes, parecendo tão pouco enquanto eu olho essa marca antiga na mesinha.

ontem você nos deixou, e tantos anos passaram, que todas as memórias já deixaram essa casa, deixando só essa mesma mulher num retrato preto branco e cinza, olhando, guardando, a mesma antiga mesinha.

solidão

O dia amanheceu chuvoso e pesado,
também confuso,
entre os impulsos que disputavam a atenção da inércia.
O peito se levanta da cama,
os olhos ficam.
O corpo se antecede ao tempo,
disputa com os carros o caminho certo,
o rio cansado de escorrer em vão enche-se até seu limite.
É pela lei da burocracia que os corpos dessa cidade se movem,
os pactos sociais internalizados em leis,
não em processos psiquicos.
Super-ego frouxo e armas na mesa.
Atravesso a cidade,
assino nomes,
aprovo medidas.
Nada faço com a consciência do corpo.
Os olhos na cama ainda fitam o teto.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

é

ela viu a multidão de gente suando e sofrendo,
coro de alegria e morte,
paixão de carnaval.
Se embrenhou nessa solidão socializada
como quem quisesse só sentir o cheiro,
como quem dança um pouco antes de dormir.
Antes de ver quem era,
os olhos embaçados,
gritava as músicas
tentando expulsar qualquer outro tipo de fala.

temporal

os fárois constroem cordas até os meus olhos.
fios elásticos e de cor marrom,
para não refletir o sol.

as idéias saem para passear nesses dias bonitos,
enquanto há acalanto elas deixam suas pernas bem feitas as levarem
até as luzes vermelhas verdes amarelas.

a música harmoniza o ruído que é energia,
então eu levanto o meu pescoço e o céu se entrega
facilmente.

no tempo eu penso em outros.
a imagem das noites gravada na iris.

domingo, fevereiro 21, 2010

momento

alta noite indo aos trancos,
degrais galgados a saltos de barata,
sangue frio e pouco aptidão.
essa nossa noite torta,
bege nas paredes,
escura nas intenções.
ia saltar vôo, presentia,
você pediu abraço,
eu murmurei num presságio mal-vindo:
acabou.
o seu rosto então marcado pela luz filtrada da rede,
olhar que diz o que a boca não tem coragem.

a mesa estava cheia,
rostos conhecidos e calor,
como uma cidade pequena,
casa pequena e igreja.
diva mal compreendida ela ria,
ria para mim às vezes.
nos olhavamos com o carinho que sempre tivemos.
ela se foi,
abraço de deixar uns pedacinhos de afeto marcados na blusa,
o novo gosto do gesto.

fazia tanto tempo,
nem tentar sucitar no peito o mesmo movimento,
olhar o cabelo recém cortado,
como eu gosto, assim como ela.
nada, nem lembrança,
nem esse esperar denso dos amores que não são feitos para o encontro.

de longe eu podia inventar a música que quisesse para o seu riso,
então era belo.
então ela se movia e o ar se movia com ela.
então era jazz,
ciranda, frevo.
coisa de dança, música, desejo.
sentada a mesa ela falava,
existia,
desmanchava com os dedos feios o entrelaçar arrogante do platônico encantamento.

a noite de tão alta quedou-se em dia.
eu lembrei como as memórias que vem do nada
e só por um momento.
do nosso riso, gosto, vida.
lembrei da primeira festa,
da primeira vez.
da dor de repentinamente escolher,
não porque fosse possível,
mas porque as escolhas de amor já nascem feitas.

como ontem escolher agora,
estar inteira e densa,
pra além do mundo,
com você.

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

dentes

ela olhou o cigarro mumificado em cinzas no cinzeiro.
novamente havia se perdido em quandos, se-s e porques.
em ondas concêntricas o mundo começava a se organizar a partir do ponto exato,
mediano do cigarro apagado.
como comemorasse o aparecimento súbito da realidade latente,
acendeu outro cigarro,
e o fumou com a boca tesa de ódio.
queria beber, mas seu estômago envelhecera mais do que o documento de identidade.
queria ouvir jazz, mas o som incomodava seu ouvido neurótico para o banal.
queria fumar cigarros, mas sua garganta se fechava.
então ela se contentava em escrever textos,
tendo com eles como único parentesco os lábios tesos,
e os dentes.

tu

ela é bonita nas esquinas
que tanto conheço.

dança quieto em curva
o corpo
e seu desenho.

decorada as pintas,
as constelações antigas,
são mapas de se perder.

o cabelo rente
autônomo, ente,
entrevê delicado
os segredos do seu pescoço.

na frente do retrato mudo,
seu olhar
escuro, denso,
metamorfose e espelho,
traduz tudo.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

flores horizontais

me perco,
os cotovelos apoiados nesse vidro.
opaco.
lá fora eu ouço o rio chorar baixinho.
é noite e a escuridão é cheia de mistérios,
mas tudo quanto é de dia é igual de noite,
se há algo que os olhos reconhecem.

eu ando,
e seria equívoco se assim não o fizesse.

a opacidade do vidro,
por seu próprio lado,
não tem mistério algum,
se é verdade que vela,
desse modo nada revela.

por entre gritos abafados nesses corredores apertados,
tento um caminho que meu corpo desenha,
entre os desejos de meses,
espojos de um relacionamento.

há marcas na parede
e palavras que batem
e ecoam antigas canções,
de alegria e nostalgia,
canções que nos fazem chorar de pavor.

atrás de alguma porta devemos ter esquecido um dos nobres animais que caçamos,
jurando ser justificado,
ignorando o vício.
entretando o cheiro que sentimos é perverso,
e nada tem do vital que alimenta,
a mão e os olhos.

se caio me levanto,
pois o vidro é gelado
e potencializa a tristeza acumulada nos pulmões.
tento andar vacilante
porque sei que a única coisa que salvará
esse pântano que criamos sem perceber
é o movimento.

parto na esperança de que seja o único modo de permanecer.

ditaincisiva

a loucura do amor que cozinha essa carne,
os traços
de quem conhece a solidão.

querer-te extrair o grito,
quando já não me guardas nada
sinto.

meia taça de tinto
derramado sob nossas cabeças
um ritual que entenderia como fim.

no entanto você que da porta olha,
sem dizer estar lá nada entende.
a equação indecente que faz do ódio
medida justa e oposta ao amor.

você que nos olha
e guarda com inveja e rancor.
não entende,
e passa a por pra trás os pés que já iam a frente.

eu e ela aos gritos nessa sala do mundo,
como se todos os segundos ainda fossem os mesmos,
do sangue e da voz.

nós dormimos no ódio e acordamos no amor.
você se afasta.
os traços de quem conhece
de cor,
a solidão.

diá

na boca
a palavra que disse
era uma pedra.

a última,
a quimera,
a lápide de uma conversa.

sábado, fevereiro 13, 2010

papelão

em quantas eternidades são arquivados os amores que duram pra sempre?
aposto que são caixas pardas,
com cheiro de velho e guardado,
que nada tem das flores secas,
aromas sutis,
e outros intensos,
caprichos de sua matéria primeira.


pra sempre

eu fui na casa dela,
apesar-de
ela preferir ficar só.
fui,
a tempestade caiu
e eu vomitei uma bola de pelo.
ela fez cara de irritação e pouco caso,
e disse estar pior do que eu.
ela chorou um pouco hoje,
para que eu não fosse embora pra sempre,
só por hoje.
hoje tem carnaval e ela não pode perder.

sinuca

coquete,
vai que passa.
conselhos estúpidos embebidos de madrugada.

mamãe vem com uma pílula verde outra vermelha,
eu tomaria as duas ou nenhuma,
mamãe não me engana com os seus lexotans.

em algum lugar aqui perto joga-se sinuca.
o ambiente fede.
o pastel, cynar, suor,
fazem neblina espessa no ar.
os seres que a atravessam não me interessam.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

florisbela

a voz vazia e a lua cheia,
pintou os seus olhos de noite
para me deixar cantar sem ninguém ver.
deixou comigo seu cheiro,
que me seguiu.
meus olhos vermelhos,
os seus pretos.
tenho sonhos de acordar,
você bebe sonhos.
eu te chamei,
você me espera,
como outra que fui,
serei não sei,
dessa você larga a mão
e veste camisa amarela.

mediocre

o som mediado,
mesmo assim vem contente.
aquecer os meus ouvidos.

eu penso sentindo ser onde não estou,
parece bom e o tempo passa.

mal-entendidos

solidão é mágoa.
solidão é lava.
solidão palavra.

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

baseio

vou te contar uma história de mentira.
o menino se sentia sozinho.
ele gostava disso porque achava melhor se fazer companhia do que fazer companhia pros outros.
sua família era gorda gritava e pensava que era feliz.
seu pai tinha um olhar nada vesgo pra tudo quanto acontecia.
como um equilibrista que não fosse poeta.
bem dessa forma era o pai,
pois os outros sabiam o quanto frágil era o mundo dividido sob seus pés.

o menino não se importava muito de tomar banho.
era uma organização desnecessária para seu ego,
ele realmente era quase sempre aquela massa amarelada de ser,
um pouco suado deitado na cama lendo moby dick.
ele tinha paixão,
mas não saia de casa,
por isso achava que não fedia (e não fedia mesmo).

um dia chegou um primo.
o primo tomava banho todo dia.
o primo com suas pernas duras
sorriso intacto.

a noite chegava e ele guardava o primo no olhar,
e o primo se mexia na cama,
gemia baixinho,
dormia pra sempre (pareciam bons sonhos).

o menino guardou bem o segredo,
crescida a vontade sem direção
de desconhecidos costumes.
mas então achou melhor tomar banho,
seu corpo cheirava,
recendia, existia.

medo

bicho bicho,
passavam com os corpos pintados,
o olhar cabisbaixo,
algo vazio.

era longe o lá onde viviam.
era depois do sol,
mas antes da luz.

era do tempo que o espaço virou o horizontal do tempo,
caminhava nos minutos,
esperando os metros
pra hora de encontrar o amor.

hoje

aqui.

da história ou da verdade.
se eu conto é porque a verdade pode ser uma estória.

aqui venta muito.
talvez seja o desejo das janelas de cantar,
ou gritar.

é o assobio mais grave do mundo,
e desajeitado.
embora as janelas treinem sempre.

aqui não há relação que se invente,
a música do vento,
eu bebo vinho.
os dentes ficam roxos,
e o máximo que posso fazer é abrir as janelas e acabar com isso.

azul

desculpa pede pra tirar a culpa.
perdão assume as responsabilidades.

são palavras.
as palavras vre que quando refletem dentro.
verdade é afeto.

ser perdão,
empático a si.
não ser comovido,
o não simpático.

as situações como cores puras,
mudam a aparência,
mas não a natureza.

as mãos.
os olhos.
os braços.
os mil atos sem motivo de um corpo.

caráter mesmo,
o peito que sente água por todos os lados.

água é emoção.
não vence obstáculos com falicidade,
vai sempre pelo caminho mais fácil.

umidade faz mal ao pulmão,
tristeza demais da bronquite.

sagitário signo quente,
leão.
emoção demais é tristeza.

presentir

antes.
sentir antes.

os literais diriam dos fatos.
os de peixes veriam cores cintilantes,
talvez verde com um pouco de vermelho e rosa.

intuição é quando o ser sistematiza a cognição de sinais muito mais rapidamente que o intelecto.
presentir é sistematizar os acontecimentos ou os sentimentos?
talvez não lide com essa modalidade suspeita, a verdade.
não antecipe os fatos, o destino como assim escrito.
mas sim um sentir,
como um pulso, uma vontade,
matéria burra e sem direção.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

tumbum

o dia estava quente, talvez fosse noite embora. entretanto acho que não era, não estava bêbada, tampouco sóbria. as ruas tem um jeito engraçado de ser nesses dias, fluxos, como-que esquemas, algo do inconsciente, ou de fluído, algo de alquimia, de escrita como-chama mecânica dos surrealistas. automática.

então ela escolheu um cd bem bonito que fazia a trilha daquelas esquinas e ela sentia que fumava cigarros na sua janela a muito tempo atrás enquanto ouvia nina simone e era bom, sentindo que vivia.

tentava ignorar as gotas de suor que se formavam por seu corpo todo, tentava abrir a janela e sentir o vento na nuca, tentando não se preocupar com o hábito de velhos que recém adquiria de achar que brisas são a parte fácil da bronquite.

estava devaneando e sabia que devia se ater a direção. quando perdia o pensamento, digressões do pensamento, podia ser como um canário amarelo que voava distraidamente. um travelling.travelling que era o código da distração, da perda de objeto. travelling que era andar de carro. camera-car.

um palio preto quase raspou no seu retrovisor. às vezes pensava que no trânsito a lei da trave não respondia a porcentagens corretas. a fortuna roubava pra ela. e ela sempre batia na trave. ao menos que fosse gol, e ela tivesse de por os rabos entre as pernas para explicar para seu pai, dono do carro e do dinheiro e da autonomia, que o carro a atacou, que as máquinas a faziam refém. que imprudência, imperícia, não lhe eram palavras caras.

passou num cruzamento na base do quase. como todos os dias que assim difícil.

ouviu o barulho da batida. como uma sombra por sob seu ombro. como um sussurro no seu ouvido.

as casas nessa parte do bairro lhe pareciam tão agradáveis. pensava em por o seu plano em prática: apostando ser agradável bateria numa dessas portas coloridas se oferecendo uma xícara de chá. talvez a pessoa topasse, sendo de sagitário ou impulsiva. talvez fosse uma avó que lhe contaria histórias. um homem solitário e mala, que nunca mais se calaria. uma mulher linda e perversa.

fazia barulho de rodas apressadas, barulho longe de sirene. na rua tranqüila quase nada. nenhuma sirene, nenhum nada assim.

continuou andando, agora era mais fácil ser perdida. o caminho era uma reta para casa, poucos carros, cruzamentos, chances, horrores.

ouviu um barulho baixo, o coração batendo.

Imaginou. e então teve certeza. na esquina de sombra e distração batera o carro com tudo. a batida fez com que ficasse inconsciente. agora a caminho do hospital o único contato que tinha com a realidade era através do som. ruídos baixos e confusos penetrando sua mente, como nos sonhos. morreria sonhando essa realidade inventada. tranqüilidade inventada.

entrou na garagem quase raspando e pensou uma última vez antes de entrar no elevador: essas digressões não lhe faziam bem.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

lar

Eu vi a mudança,
entendi como aquela aparência frágil de lar se constituia.
Eu vi os homens passando,
e senti o cheio forte deles.

Eles eram pais, filhos, maridos, namorados.
Eles trocavam as lâmpadas,
consertavam, seguravam, trocavam.
Eram Homens.

Eu vi tudo isso acontecendo.

Sei do começo o que permaneceu.
Eu vi o seu rosto,
de alegria e orgulho,
por compor em um espaço em branco uma improvável melodia
de segurança aconchego afeto.

A casa é a mesma,
mas há suas faces.
Há os animais que ela abriga,
os personagens que por ela passam.

Os amigos,
as noites embebidas de álcool.
O gozo alto,
as brigas.

A tudo isso eu assisti.

Hoje, cansada, eu me guardo sob suas paredes,
ausculto suas paredes.
Escuto um barulho baixo,
um rumor,
um pulso.

sábado, janeiro 23, 2010

...

Adeus é mais definitivo e cafona.
Tchau parece jovem e um pouco vulgar.
Até mais é sempre mentiroso
(ou quase sempre, pelo menos).

Mas o mais doloroso é o silêncio.

é a compreensão sem trauma e com dor
da cisão de dois corpos,
de um nunca que se instaura.
das possibilidades que perecem, morrem, acabam.

o silêncio ausência de palavras,
antecipando todo tipo de ausência.

ble

a cor da cidade, essa, é sempre adjetivada com sujo(a).
verde sujo, amarelo sujo, cinza sujo.

quando se anda na praia o sol bate forte nas costas,
independente de suas cores,
a cabeça vai à larga medida,
guardando o horizonte e os passos sob as asas da espontaneidade.
na praia pode-se andar sem olhar para os lados,
se olha, todavia,
mas porque é bonito,
e normalmente vale a pena.

aqui se olha para o lado para não ser atropelado,
para os dois lados.

quando se anda na praia e o sol forte bate nas costas,
e anda-se decidido pelo mar.
e o mar anoitece os poréns.
esquece-se.

aqui na cidade ouvindo música de bolso,
picos de mp3,
trilhando todo tipo de cinza sujo,
também se esquece,
recomenda-se nessas ocasiões a faixa de pedestre.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Ele ou ela

Era abril.
Ela voltava
com suas sacolas
com suas vontades.

A casa revolvia
os três meses de sua ausência.
As plantas verbos
ignorantes dos seus afetos
proliferando com uma maldade daninha.
Tudo posto em seu lugar,
tudo em dúvida.

Ele parecia ter se organizado,
os copos,
até mesmo os jornais velhos.

A luz de fim de tarde escrevia desenhos estranhos pelo chão,
efêmeros como sua partida,
sua chegada,
sua vida.

O lugar não lhe devia nada,
poderia abrigar mil e uma mulheres no seu lugar,
tão inteiras,
tão perdidas,
todas mulheres nuas pela metade.

Talvez ele chegasse,
ou não.
Ele encontraria a mesma mulher vazia,
serena da boa vontade de o saber.
Ela que partira para nunca mais se esconder.

Ele que intuia,
que todo dia tateava,
a vida.

Por sua perna direita,
lisa e branca,
descia um fio carmim de sangue.

Ele chegava, olhava seus olhos,
limpava sua perna.
Ele sempre soube tatear suas feridas.
Ele sempre dizia
está tudo bem.

segunda-feira, janeiro 18, 2010

sensar

a primeira vez que eu provei juá eu conheci um gosto que me pertencia, e que eu nunca conhecera.
hoje enquanto eu tornava o supermercado uma experiência pouca sã,
de virtudes sinestésicas e fundos de enlatados eu senti um cheiro.
ontem quando a noite venho a mim,
embora tudo conspirasse,
e os anos e os mundos
e toda a história do homem explicasse,
eu senti com o corpo o que é a lua,
e ela que nasce.

sexta-feira, janeiro 15, 2010

saudades

Cantiga para não morrer


"Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento."


do ferreira gullar.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

no meio

caetano veloso ' minha mulher

terça-feira, janeiro 12, 2010

neo antigo

Eu andava com os pés firmes no terreno da sanidade,
calculando cada passo com desenvoltura,
em contraponto a sua ida macia e instável e descontrolada das noites azuis ou amarelas de mar.

Andando nesse asfalto quente de cidade senti meus pés sugados pela força do ventre,
engolida pelo solo, lugar dos demônios, e dos mortos.
Imaginava melhor assim a sua partida,
num bote vermelho e branco,
rindo, desassosegada, de outros tantos botes,
de outras tantas cores,
com pequenas luzes como guia,
no mar da loucura e da saudade.

Mas eu estava no deserto,
e tangia as missões que me deram,
matar 101 homens vestidos de cinza,
e encontrar a mocinha,
embora o cabelo dele fosse bem curto.

Não estava,
uma terapeuta apertava minha mão,
salutar ato,
ainda me dizia que no mundo só existia:
amor generoso.
E que calada e cheia de amargor eu não seria capaz dele.
Ela e a assistente se riam de mim,
você passava,
ria também,
envolta em tantos desenlaços que perdi a conta.
Homens, mulheres, de todas as cores e tamanhos.
Companhia barato para dançar ou beber,
ou ainda outras coisas que eu não ousava imaginar.

Você passava como a fumaça escapa da boca,
no instante fugaz de um desenho lindo,
que não ampara nem concede,
mas tem a beleza na perda.

Eu tentava te segurar entre os dedos,
olhos ensandecidos, boca dura,
a terapeuta me olhava com olhos doces
como se eu construísse castelos de areia.

Esse mundo de todas as cores perdia o sabor na minha língua,
preto e branco eu acordava.
Dores reais de um corpo dito real.
As mil voltas dentro da cabeça de um infeliz.

Nós nos ligávamos dentro da mesma lógica das cores,
retomava um pouco o sonho perdido.
O celular desligava, era acordar.
Só e com dor na mandíbula,
na realidade rasante do mundo sem mar.

domingo, janeiro 10, 2010

distração

carregar a pedra líquida com as duas mãos.
os poros, por pressão, a aguentam juntos.
a pele é branca, e seu interior se projeta infinito-negro por sob as raízes.
depois da chuva os armarinhos reconstroem seu repertório,
os insetos voltam a picar.

aqui
nessa terra sem montanhas
a chuva dura pouco
e o céu azul logo se torna face usual.

se houvesse vento
eu juntaria as mãos te mandando beijos.
não há,
então as junto em prece e canto oração.

fica nas costas a marca da terra.
os pés falam cansaço,
nunca canções.

mas a língua se multiplica pelas ruas,
os jotas e erres.
o sibilar e a garganta.

aqui os olhos que passam não fixam a matéria vida.
dessapegados, gêmeos,
geminianos.
deixam-se passar fácil pelas galerias.

a garganta cede,
o som ruptura do silêncio,
quebra gutural saliva.

a palavra se forma,
tende a rua.
passeia junto com os olhos.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

sim

sei exato aonde o pranto é guardado.

em mim o novo que no olho entrou
fixou o constipado.

o choro na garganta
e no olho,
colado.


o grito,
por outro lado.

saudades

me pediram, dessa vez,
um pouco mais de calma.

menos lágrimas,
menos desespero.

Me pediram essas vozes de dentro,
da pragma,
do ático.

ajeitei os pequenos pacotes de fardo nos braços e parti para esse tipo de guerra,
da contenção e da
justa medida.

nela,
e por ela,
embarco num ritmo típico e fácil,
de novidades e aromas.

entretanto é quando a brisa cessa na cabeça que não para de andar,
que escuto o som que persiste,
e que sempre esteve no mesmo lugar.

é o seu nome constante e grave.

quinta-feira, janeiro 07, 2010

tre

já respirar um novo ar.
O antigo ar de uma certa tradição,
uma língua estranha, embora familiar.
Um rosto de saudades se repetindo nos outros.

quarta-feira, janeiro 06, 2010

buenos

fecho as malas,
apronto o sorriso fácil.

tema corriqueiro dos dias.

a novidade abre as portas,
deixa o ar entrar nesses salões.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

don't feel justified

delicadeza nos seus braços,
suor no céu no qual eu cantei aquela música do caetano.
sete mil vezes.

os mesmos discos da paixão de tirar os cabelos,
um rumor no peito.
loucura e saudades.

A água passa e a areia fica no lugar

na casa dela rolam as cascatas que evitamos com os passos firmes.

os cismos da ilha branca,
do estômago revirado e mofo.

na casa dela tudo desaba,
ela diz.
diz que nada disso valeu,
esforço vão de chegar à pátria.


culpa-me e eu a culpo.
temos medo e nos recolhemos nas ostras daquela praia.

eu espero que ela durma bem e que não seja injusta.
que o cansaço maior que o medo.

eu espero que pan me deixe,
quero os olhos abertos só para os pés deitados descalços,
sem os sapatos da morte de andrade.

acima de tudo a quero.
e com as palavras erradas e os gestos contraditos embalo seu sono difícil.

pensar

a mesa disposta de carvalho antigo,
a carta a se fechar entre seus dedos.
na memória futura um recado que voa distâncias,
cruza países,
e faz o que ninguém dessa família tem a ambição de fazer:
te encontra.
a carta indelével ao sabor das índias,
temperaturas quentes do sul,
hábitos escassos e rosados dos suecos.
nela te escrevo dos nossos males,
doenças e dias e dias.
nela tem medo e perseverar.
há saudade,
desse ser morno e espectral que sempre se vai.

quinta-feira, dezembro 24, 2009

natal

faz tempo que não escrevo poesias,
por isso vez ou outra no mês me obrigo a dar uns minutos pra esse espaço.
não tem adiantado,
faço umas piadas cretinas,
me entristeço.

não é um problema de tradução,
acho que as próprias imagens enfraqueceram.
as duas mortes que existem são essencialmente iguais.
tenho medo mais da primeira que da segunda.
tenho medo de morar num bairro pop,
ler revista bravo,
e ser feliz com o meu destino.
tenho medo de ter amigos porque a calça deles é bonita.

tenho um medo de acordar um dia assim,
e me calar
num silêncio não de estar,
mas de poucas palavras.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

mapa mundi

quando veêm um contraditório
logo dizem:
nele não confio,
o azul que amanhã amarelo.
já eu não meço o confiar no estar por igual
e idêntico no sempre.
vantagem penso,
os relevos disformes e complexos
do eu que mente.

domingo, dezembro 13, 2009

oi

Eu não queria chegar em casa tão cedo. Estava com um gosto de amarelo na boca, de madeira antes de queimar. Não queria ter de ouvir os outros, fingir energia para concordar com suas besteiras. Ser natural ali cansava muito.
Então a primeira premissa: ser antinatural.
Cheguei em casa com um sorriso campeão no rosto,
quem me visse poderia vir a pensar que eu era a filha preferida de alguém, que era vice campeã brasileira de natação, e que estudava direito com mérito e prata.
Apliquei abundantemente a generosidade e a simpatia no terreno familiar, friccionando com os nós dos dedos para a matéria entrar mais profundamente.
Eles relaxaram e riram,
olharam para o meu rosto orgulhosos
e pediram pra eu passar o arroz.
Eu passei o arroz
e descansei numa poltrona vermelha despedaçada,
olhando atráves das retinas o filme de um família hipócrita.
Eles discorriam sobre diversos assuntos,
e a desconhecida da natação versava com eles:
arquitetura, viagens, temperaturas, ciência natural.
Ela ali atuava nos terrenos perigosos da maldade,
rimando o mau com o louco.
Eu via t.v. apenas.
Eu, uma sala infinita de pretura, a poltrona, uma mesinha com um peixe chamado Jacques, e um tapete que eu peguei emprestado com a minha vó.
Depois subi as escadas e me encontrei.
A água encheu o aquário e Jacques morreu afogado.
Ele era um peixe das idéias e não suportava água.

saci

a muralha se estirava preguiçosamente sobre a cidade.
seus pés cansados cinzas
seu corpo areia endurecida pela água da praia.
via a cidade crescer contida em seus muros,
o movimento fazia cocegas em sua barriga gorda.

se você andasse equilibrado em um só pé por toda sua extensão
ela lhe daria a mão no final
e o conduziria para sua casa.

ela lhe mostraria biscoitos de chocolate que nunca ficam bons,
e biscoitos de polvilho acertados.
lhe daria chá,
lhe mostraria seu cheiro.

as montanhas como primavera vista da janela
a luz alaranjada da alegria.
se você andasse equilibrado em um só pé por toda sua extensão.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

hoje

eu estou na ilha informática do senac.
aqui está cheio de gente terminando os trabalhos de último hora.
eles não ligam para quase nada disso.
talvez eu também não.
a gente tá aqui por pouca vontade,
porque as escolhas são escorredias.

eu queria viver de escrita e morar num lugar tranquilo,
bem bem longe de são paulo.
mas eu moro aqui e todos os dias não entendo porque não sei ser feliz.
alguns deles também.
por isso a gente vive procurando catarse,
purgação, polução.
a gente trepa para aliviar o corpo,
bebe pra aliviar a mente,
e vê t.v. pra aliviar a alma.

aí a gente acorda,
mesmo sendo tão improvável,
e sai de casa a procura do encontro.

mas como,
se a gente não tem calma,
se a gente não tem corpo,
alma, mente, presente.

a gente pega o passado e se masturba nele,
ou então chora e ri por um futuro ontologicamente impossível.

a gente vai deixando as coisas virarem florestas na cabeça,
por excesso de criatividade
e pouca paciência.
também não conseguimos mais esperar nada,
isso não.
as florestas mentais vão crescendo,
comem de tudo,
lixo, música.
são lindas elas,
nos distraem,
e vão dando voltas na cabeça até tapar os olhos.

aí você leva um chute na cara e acorda,
no presente.

assim não

claramente assim não.
esse garfo enfiado no peito,
como se o asfalto quente ou frio,
tivesse chegado a mil graus e então tivesse sido prensado.
como se nesse asfalto um sapo atropelado tivesse sido incrustrado.
como se o coração cansado de pulsar no asfalto,
morto, atropelado,
tivesse sido incrustrado.