segunda-feira, junho 29, 2009

fic

Ela abriria os olhos nessa segunda feira como se o ano fosse outro, o país, e o sexo. Acordasse francesa nem saberia que horas eram e deixaria a fome para o vento, o café na janela. Porém, abriria os olhos, deixaria o corpo se levar pelas pernas e talvez fizesse outros amigos.
Era segunda feira e acordou com os braços doendo, e um vontade frouxa de não se ser não se vendo.
Era pouco e acordou, como se os dentes ainda não tivessem nascido e no lugar dos olhos tivesse apenas filmes mudos, amores brutos.
Acordou sem dentes, embora mordesse. E ainda dormisse.
Viveu, porém por breves momentos
e apenas nua e bem viva
no centro de uma mentira.

quarta-feira, junho 24, 2009

morte rápida

fecha meus olhos antes que o sangue comece a escorrer pelas orelhas, pelos olhos, os miolos esquentem e tudo vá pelos ares.

a ilha das quatro da tarde

O tempo é que faz a terra levantada pelas rodas do carro baixar ao chão novamente. O tempo de secar a lama da chuva. o tempo de lembrar, e o de esquecer.
giraram em falso um pouco as rodas desse carro que logo chegaria. trouxe consigo novidades do passado, alegrias passageiras.
os animais pressentiram a milhas. agitaram-se. entraram no lago como forma de anoitecer as emoções.
o instante do chegar era um instante perdido.
o sol lambia a encosta numa constante inclinação de fim de dia. os pés nos charcos de outros meses. outros animais perenes sutilmente nos dando a conhecer.
pouco se disse, e mesmo, pouco se fez.
entretanto aquele cheiro lento - aquele jeito de ser - embrenhou-se como marca cardíaca,
que dará ou em saudades,
ou em poesia.

quinta-feira, junho 18, 2009

flores horizontais

flores brancas que vejo na murada de um sonho.
por cima de visgos e trepadeiras. sempre por cima do sonho.
acordada pois tudo lógico, na verdade dormia da certeza de que tudo poderia ser outro. nós como músicas rodando mundos em lp's antigos. nós em capaz envelhecidas de antigos cartazes. nós velocidade razante de outros automóveis. nós enfim. até isso acreditei ser possível.
acreditei ser possível a vida na morte. pois a música tocava nessa realidade densa de que te falo e eu em um minuto parei-me os momentos, e lembrei de ti. lembrei de ti e te ouvi cantando.
quando acabou a música nada mais dispos. voltei a aqueles momentos.
momentos envelhecidos pela passagem de uma memória. os mesmos rostos.

terça-feira, junho 16, 2009

raw

a emoção era enorme.
por isso tanta inconsciencia com esse tal de tempo presente.

segunda-feira, junho 08, 2009

à

Cara,
quando eu sonhei com você estávamos envoltas em sonho. Você me olhava eu te olhando e não tínhamos medo dessa felicidade. Você segurava uma prancheta branca, toda simples da verdade de estar num dia a dia. Estávamos num dia a dia, como há um tempo atrás. Acordei e era outra. Mal lembrei. Acordei com uma certa tristeza nos olhos, podia ser frio, ou ainda a sua imagem colada nessa superfície de ver, mas na escuridão de um pensamento.
Demorou pra eu te lembrar. Para eu te trazer dessa memória ainda distante. Foi aos poucos, como uma água inundando. Foi assim que abri os olhos e te tinha. Você vinha com o nome saudades e eu alcançando o braço te levava comigo. Fazia tempo. Andamos juntas na rua, rindo porque era de se rir. Chegamos, você se despediu. Ficamos sós.
Meus olhos se encheram novamente de escuro. Virou tristeza.
Eu lembrei de você e pensei, até um outro dia.

limão

hoje eu era um mar revolto um vento forte um dia cinza um peito em brasa.
hoje, em alguma hora.
deram-me limão forte e o gosto que senti foi o mesmo.
o gosto das frutas que tem o gosto dos dias que tem o gosto das dores
que nunca é o mesmo.
porque hoje eu senti um gosto novo de limão azedo.
minha cara pensou em deformidades
começou a fazer uma careta
e parou.
parou para respeitar o gosto novo de uma fruta nunca antes vista
que descia por uma nova garganta sem ajuda, sem respirar.

hoje eu senti o gosto de uma nova tristeza.
nesse novo dia respeitei a tristeza que descia sem ajuda,
sem respirar.

marmota

num vazio de não encontro me esgueiro.
até saio dessa toca, ponho a cabeça para fora,
e vejo como lá fora faz frio.
ouço o barulho das pessoas que conversam para além da minha janela,
por vezes ouço a chuva
e quando estou num bom dia posso até ouvir o sol.
com esse lá fora não tenho nada,
dele desisti, dele não existo.
dentro dessa casa é escuro e é frio.
nela eu resisto.

quarta-feira, junho 03, 2009

jejum

o corpo que anda, o corpo que sabe, o corpo que bebe.
é o mesmo corpo que nada, o corpo que beija, o corpo que pede.
um corpo em silencio
é um corpo no eixo.
um corpo sem fome, um corpo sem dentes, um corpo sem nada,
só corpo, respira.

sexta-feira, maio 29, 2009

escrevendo

eu poderia
e eu posso
todo dia dizer
que nunca mais vou te ver.
eu posso
e assim faria
porque quando amanheço nem bem o dia
logo te vejo
tão logo no espelho me reconheço.
e também te vendo
vivendo
enxergo dentro de cada grão
de música dor e poesia,
e perpetuando em são
a matéria desse amor doente e fraco.
pois é nesse fim que tem o embate,
e sem nos achar é que te encontro
e te amo e te levo,
até o longinqcuo fim de isso que chamamos,
temporário desencontro.

nós

pegou na minha mão de modo desajeitado. deixei-a tesa, quis essa frieza. desistiu dessa pouca hipocrisia e pegou meu rosto, já com as mãos molhadas. aqueles olhos, aquela pele marcada. a realidade de um corpo presente. ela ali, e eu lá. éramos uma soma que não se concretizava. agora eu tinha suas mãos nas minhas, agora eu olhava o seu rosto que também me olhava. nosso olhar se encontrava apenas longe, e fugia. tinha um som das matas esse nosso encontro, e um silêncio denso. era cheio de escuridão aquele tempo, aquele minuto de adensamento entre dois corpos que existem. meu desejo de ver essa realidade se transformando em presente não bastava, eu era esse um que a olhava. e ela calada também me guardava. esperávamos nesse silêncio mútuo o instante em que nos revelaríamos, que talvez uma matéria bruta - alma - inflasse essa pele de um encontro, direcionando a tudo sentido. esperávamos. em vão éramos essa foto. esse retrato de uma mesma solidão.

la jetée

para ela o presente era o entre corte de uma sequóia,
para ele era partir da sua morte,
como se o nascimento fosse infinito.

gamos

essa farpa que vejo se formando nos seus olhos como um oco que sinto por dentro como essa ventania densa de um mar que se abre e que é um abismo.

ontem

você não bebeu o copo de água que pegou para mudar o assunto que de repente não mais te deixava em paz. há tantos anos essa água que você não bebeu, não virou cinza nem apagou, caiu do copo e marcou aquela mesinha pequena e escurecida. há tantos anos você deixou essa casa por tantas vezes que mudou o mesmo assunto e de repente não tinha mais lugar para algum de nós. foram tantos anos e tantos assuntos, tantos erros, tão insistentes, parecendo tão pouco enquanto eu olho essa marca antiga na mesinha. ontem você nos deixou, e tantos anos passaram, que todas as memórias já deixaram essa casa, deixando só essa mesma mulher num retrato preto branco e cinza, olhando, guardando, a mesma antiga mesinha.

segunda-feira, maio 25, 2009

sobre

essas pessoas queridas
de um passado querido
de quando eu era doce.

quarta-feira, maio 20, 2009

literatura

ela escreveu.

pegou uma nuvem que flanava no ar.
e d-escreveu.

quarta-feira, maio 06, 2009

quartzo polido

entro em vagões lotados de serviços mal utilizados de transporte público.
sendo uma multidão que se dispersa,
perco um nome e esqueço seus rostos.
esse olhar leviatã, dentro de tantas faces,
se envolve, se perde.
fotogramas de uma mesma solidão,
apreensão instantânea e fugídia de uma memória coletiva.

terça-feira, maio 05, 2009

galhos

na hora de juntar os talheres em prece o mundo começava seu fim.
chuva sem lágrimas
como um acesso de raiva,
o vento seco que levava o resto
de todas as coisas aos nossos olhos.

deixaram-nos numa rua conhecida,
tão pequena agora, quase beco.
uma rua de segredos,
uma rua de passados.

descemos com coragem
e encontramos a escuridão
enfrentada de cabeça alta
em todos lances de escada.

uma porta que se abre
e revela
um mundo escondido enquanto dormiamos.

centelhas de passado
presos num graveto.

entramos no quarto
e nos perdemos.

segunda-feira, maio 04, 2009

bode

quando a conheci ela achava que sabia de tudo.
andava com os olhos para dentro,
fitando o horizonte.

quando a conheci ela usava coletes
e não bebia cerveja.

apaixonei-me como sempre errando,
como sempre errei,
como quando acertei foi porque nisso não tive exito.

hoje ela diz que bebe gim
diz que bebe rum.
hoje ela diz,
e acha que sabe de tudo.

quarta-feira, abril 29, 2009

brisa

tenho dor na vértebra esquerda
e no coração direito.
tenho lágrimas contidas em forma de vento.
preferindo as nuvens a tv,
preferindo numa vida vazia te ver.

era pouco e o bastante.
não passavam de vagos momentos,
lembranças futuras a que chamam planos.
era a nina simone que poderia tocar no rádio,
era a vontade de mais um passado.

chegou e foi-se como a brisa,
mas não podia ficar comigo mais um pouco.

segunda-feira, abril 27, 2009

dante

na escuridão da selva,
de outro homem,
me encontrei.

às portas do inferno
não soube me decidir
para que lado ia.

acabei pela covardia
de não subir morro algum
e perder toda a vista.

no limbo entre passado
e futuro permaneço
estática e sem tempo.

só medo sem desejo
temo o som do vento
passando pelas folhas.

tratado sobre as saudades

saudades presente é abraçar um corpo em seu absoluto esplendor material e sentir sua essencialidade se esvair pelos dedos como areia.
saudades passada é sorrir vendo o retrato de quem te abraça.
saudades futura é felicidade que não se conta a ninguém.

poço

Depois de dias de busca,
quase encontraram o meu corpo,
úmido e esquecido num poço escuro.

Senti a corda que amarra marcando esse corpo,
único elo entre uma mente em devaneios e a claridade de uma manhã sem fim,
ser arrancada dessa realidade pulsante.

Meus olhos em chamas testemunharam o movimento do sol,
a dança sincronizada de lanternas a procurar por mim.

Perderam-me,
meu corpo afundou-se mais alguns metros.

entre a umidade e a escuridão,
percebo que meus olhos acostumaram-se ao breu.

quarta-feira, abril 22, 2009

borbulha

planos com a mesma aflição de um carinho bem dado,
mas não tão bem recebido.
os dias passam areia entre os dedos
e vejo seus rostos enquanto me esqueço.

bebo e enfio os dedos na tomada,
tenho mamilos de som e desejo,
uma cor descorada da cor dos pelos.

fome da vida
e uma vida de medo.

besouro

ele desceu do trem com as mãos nos bolsos, para segurar a calça que caia.
atravessou caminhos dispersos, rios escorregadios, sorrisos perversos.

quando quis sentar que viu,
chifres de boi num inseto com patas.
não sentiu medo,
sentiu-se atração,

pois o bicho sem olhos o guardava com o olhar.

o mundo se fez manso e sólido
e esqueceu-se como sempre de matéria-poesia.
acordou com a vizinha lhe avisando que o inseto lhe subira as calças.

sexta-feira, abril 17, 2009

ternura

vejo o rosto de uma ela e um grito prendido na garganta se descontrola,
silêncio amplo de pra esse ela não ter mais lugar.
a outro ela não prendo o choro, procuro com os braços,
não penso nada, e encontro paz.
encontro paz. a esse ela por não ter pensar
há ternura dessa feitura delicada das teias aranhas,
sem medo de romper o traço encosto-me no seu tecido,
e encontro paz.

terça-feira, abril 14, 2009

dois

claramente gosto
como quem re-nasce.

cline

me sento como sempre sento.
olho a tela branca como sempre olho.
fecho os olhos e abro os mãos,
sabendo que é sempre pelo gesto que acho minhas emoções.

quinta-feira, abril 09, 2009

cinza

um espectro ronda a europa..
lembro da frase enquanto entro na garagem.
bons tempos aqueles em que eu, bucha de canhão, acreditava que acreditava em acreditar.
hoje vou viajar,
minhas costas doem,
vontade de ficar só.
os outros quando vejo esperam algo de mim,
esperam sem esperar.
me polarizam nesse ser que inventei pra lidar melhor com tudo.
meu intestino anda meio desandado,
minhas costas doem
vontade de ficar só.

acordei com os olhos embotados
de lágrima e de cansaço.
acordei com o dia cinza martelando na minha tristeza.
acordei fraca e frouxa de se maltratar por um dia feio.
e com dor nas costas.

hoje acordei como todo dia acordo,
solitária como admito ser.

terça-feira, abril 07, 2009

namorinho de portão

"leve leve releve que pouse a pele".

o seu olhar

Que olhos tímidos ela tem
quando olha para os lados
sabendo que eu olho para ela.

Ao contrário dos seus olhos
quando nos perdemos nos nossos olhares
e ela olhando me tem.

segunda-feira, abril 06, 2009

a menina

a menina entrou pela sebe do jardim com os passos bem leves.
combinava com os tons claros criados pelo sol excessivo e seus olhos sensíveis.
olhava para o outro lado de tudo atráves dos buracos da cerca.
prendia seus dedos e se deixava cair para trás.
fechava os olhos e esquecia de respirar.
o sol a trazia mais pra perto da chuva,
seu vestido molhado de grama.
ela caia no chão e não pensava.
ela existia em silêncio,
e em silêncio via o mundo passar.

negro líquido

ou derreter.

domingo, abril 05, 2009

frieza

quando fecho os olhos escuto a tempestade dentro da minha carne,
a aspereza da tormenta pálida, o zunir constante do sangue.

quando abro os olhos paro de sentir.

pairo nesse equilíbrio impossível
de deixar o mundo para além do corpo,
e deixar o corpo para além do mundo.
flutuando silenciosamente no limite exato da pele.

sexta-feira, abril 03, 2009

litoral

na escuridão da noite passada,
fomos
pro sul de algum país distante.

o teto como água,
refletindo o sol das praias que inventamos
quando o mundo deixa de bastar.

hoje amanheci sabendo seu nome e seu gosto.
trouxe o seu corpo para perto do meu
e senti como resposta um gotejar distante.

como um eco,
uma lembrança,
de ouvir conchas do mar.

quinta-feira, abril 02, 2009

cinza

você é moreno, tem olhos fundos, e neles verdade. você tem cabelos que se mexem com o vento. você está numa construção abandonada e engole cacos de vidro. você mexe os dedos por não poder mexer as pernas. você está trancafiado na sua liberdade. você tem fome, mas não tem estômago. você gosta de filmes alemães. você se desfaz de tudo. perde a casa, o dinheiro, o cabelo. você tem todas as idades do mundo. mas tem medo. você tem medo e não pode mais beber. você é cinza, e quer ser branco e preto. você tem medo, e logo vai morrer.

rua laboriosa

idéias fixas vagam enquanto peço um copo d'água.
o balcão do bar é sujo,
a luz do sol filtrada.
o velho dono tem a barba rala,
sentado numa cadeira velha,
parecendo um pirata.

não fumo cigarros da morte,
vontade de lavar a mão,
enxugo-a dessa água rala na barra da calça,
e espero dias melhores.

uma mulher bonita e só dela me olha de esguelha,
mas não me nota.
lá fora o mundo todo inexiste numa vida corriqueira.
pombos ecoam seus vôos cor de cinza,
o vento me prega peças.

segunda-feira, março 30, 2009

labirinto

faço um corte fundo na minha barriga e extraio a dor que restou.
grito nas músicas que canto sucitando o que dentro de mim permanece mudo.
escuto um rosto que não conheço e imagino a delicadeza da sua pele que me faz chorar.
sorrio mansamente de desespero por me envolver com medo de envolver.
lembro e vivo tudo com gosto novo.

sem medo e sem razão.

la jetée

Rostos passam na escuridão dos meus pensamentos.
Rostos conhecidos.
Faces sem expressão.

No fundo da minha cabeça rodopia
um rosto que eu nunca vi.

Sem imaginar eu vejo,
memória perdida de um futuro neutro,
um rosto que desconheço.

domingo, março 29, 2009

ficções

abrir os olhos,
e ver seu sorriso por me ver quase saindo
pela boca.

fechar os olhos,
me perder do próprio corpo.

abrir os olhos,
te dar um beijo e entrar dentro de você.

fechar os olhos,
confundir as mãos que se dão
num labirinto sem começo.

abrir os olhos,
o quarto está escuro.

fechar os olhos,
dentro de mim está claro.

andaluz

hoje ela dorme com suas cortinas azuis de cetim,
com toda chuva dentro do quarto.
hoje ela abre a boca sem pesar e solta bolhas de sabão.
hoje ela pos fogo na casa.

morreram os peixes
perdeu-se o violão.
ficou a música e a solidão.

hoje ela abriu e fechou bem as mãos,
sem muito pensar respirou bem fundo,
abriu-as bem devagar,

no fundo da palma lisa e morna
duas formigas dormiam.

caos

meu corpo não se move.
eu respiro a poeira de um mundo que se desfaz pelos meus dedos.
meus olhos ardem
por esse sol cheio de cancer.
bolhas na pele não afetam uma mente cansada.

calos nos dedos
idéias mortas
abortos imediatos.

não há ar,
não há grito.
não há calor
não há terra.
nem agua
nem medo.

tudo começa no fim
e assim termina.

quinta-feira, março 26, 2009

i want you

os véus do outono me deixaram para trás.
agora violento os mesmos ares,
arrastando o vento com os dentes.

procurando os seus olhos,
pedindo pelo seu corpo.
pecando em silêncio.

quarta-feira, março 25, 2009

no escuro

nasço no escuro todo dia.
nesse difícil parto da manhã
perco dentes
perco braços.

desprendo-me desse corpo usado
como quem acorda todas manhãs.

ando nu pela cidade
meus dedos estão enrugados
dos banhos tomados a noite.

mãos agarram meus calcanhares solitários.
não os conheço
e eles chamam meu nome.

não chamam meu nome.
chamam o nome.

o chamam e por se dirigirem a mim tomo-o como meu.

não tenho nome.
todas as manhãs nasço no escuro.

ando pela cidade com o vento.
meu corpo todo se inflama.
há dores e há perdas.
não há nome.

chamam-no
conclamam-no
durante o dia.

eu
sem a minha companhia
me desfaço.

domingo, março 22, 2009

cinza tu

os dias passam,
inevitavelmente.

os dias passam por mim.
sinto meu corpo e ele está quente
e está frio,
como o dia que me trás o sol sem calor do outono.

as sombras cinzas desses dias.
o que vejo e o que imagino ver,
imaginando imaginar.
mãos que se tocam,
chuva fina no asfalto.

toco o violão e deixo de ser,
transformo-me em vento pela voz,
e esqueço essa tristeza opaca.

o outono chegou,
as folhas que caem tem o cheiro acre da morte.

sábado, março 14, 2009

nessa rodada

se você entendesse de foto talvez você pudesse me entender melhor. se você entendesse de poesia. se eu entendesse de você.
é como um filtro escuro nos meus olhos e de repente só vejo as árvores cinzas que tenho na memória.
é pouco, mas estico o braço tentando te alcançar.
chamo seu nome e é ridículo.
minha voz gesticula em ação e você ri,
ri de luxúria e prazer do outro lado da cidade.

nessa rodada você teve sorte, tirou o ás. bateu, vingou.
nessa rodada você riu, se esgotou.
comentou os dois lados daquela outra coisa,
disse e ouviu tantas bobagens.
nessa rodada.

eu não dormi.
eu não sorri.
eu me lembrei, me sentei.
mas também não cheguei a chorar.

eu me distrai. na tv passavam outras bobagens.
você não me chamou.
a madrugada chegou.

no meu peito um botão de pranto.
pouco ar e pouca esperança.

você ria, você esbaldada.
nessa rodada.

sexta-feira, março 13, 2009

cinza ou negro

ela me tirava pra dançar e cantando sem jeito instaurava bailes imaginários.
ela tremia e tirava fotografias com a pretensão de quem só os olhos dizem.
hoje o tempo passado não desbota,
se renova a cada ligação perdida.
uma música, uma lembrança,
algo perdido no tempo.
a morte então perde seu peso,
se torna só saudades,
absoluta, inexata.
a morte desabraço,
a morte silêncio.
esquecer um nome e gritar pro vento.
a morte.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

in vino veritas

silêncio:
nenhum som a não ser o do infinito.
escuro:
nenhuma voz a palpitar o pensamento.
solidão:
o calor embriagado da sua mão.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Ritinha

garganta pálida.
vinte e três graus de saúde.
poucos dias pra isso tudo.

punha o cal embaixo da língua e esperava a temperatura baixar:
mãe, vem que a sopa tá pronta!
gritavam da cozinha.

o contato da pele com os azulejos era frio,
no seu tempo não tinham automóveis nas ruas,
e o carvão era mais barato.

ritinha! vem ver o sol se pondo!
chamava a garotada toda da varanda.
sempre tivera medo de lagartixa.

agora tirava com zelo os nós dos cabelos,
passava os dedos pelas dobras da cama
inventando calma.

tinha uma aparência grave,
a palidez lhe caira bem,
assim como os cabelos brancos.

si

era quem mais cavava naquela terra escura e densa. as unhas sujadas até o grão de breu e cinza. a lua cravava os dedos também na noite, mexendo-se sob esses degrais.
se escondia embaixo das palmeiras tentando não ver a luz:
era poesia e embriagava.
sentia o corpo manso indo de encontro à arvore,
os pés sem ligar de estar sujos na areia,
os olhos embotados um pouco de tudo.

na verdade não fugia completamente,
via ainda a luz que refletia no mar,
e pouco a pouco,
instante a instante,
acabava se indo no ir e vir daquele som e luz.

aquela ligeira sensação de desconcerto consigo mesmo o impedia de qualquer coisa, e ele começara a enfiar os dedos o mais fundo que podia na areia.
nada chegava e o tempo passando nada se fazia.
ali, naquele lugar, naquela hora,
eram muitas coisas que ele podia sentir.

ele não sentia nada,
desconcentrado que estava o movimento das coisas.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

som

mão tédio pasto.
pega sua mão engordurada e imanta o meu peito.
suga todo defeito de querer agir sem medo.
deixo de ser
viro.
um litro de coisa seca e sussurro seu nome
em vão.
esqueço das cordas das pontes das dores.
machuco-me na amplidão
sequer a toco.
o branco entra dentro dos meus olhos e me tira
o ar que é água
suspiro.
rochas imensas afundam na praia.
deito-me as costas ardem da aspereza das pedras.
deito-me no sol com os olhos cerrados.
deito-me da solidão invertida de um corpo quase nu.

acaricio sem tocar essas belezas.
sem ver pouco imaginar.
só ser.

ouço o mar
o mar que me vem dar beijos
nas pontas dos dedos.

tenho medo do tamanho do mundo me engulir.
sou pequena e sou mundo.
sou energia suspensa em pausa no centro do mundo.

dessa vontade de chorar não durmo nem falo.
tento alcançar sua mão num silêncio
não basta.
não te digo nada.
pois não digo.
sou mundo.

aos cacos é esse exercício de se juntar.
separar-se juntando-se a paz que reina num caos reinante.
procuro tua mão.
tua mão sincera.

ela me dirá.
nada mais dirá.
eu não direi.
não sairá da minha boca som que não seja esse o da lua.

abraço o silêncio na fome de me encontrar.
e te perco.

foda-se

Vinha andando desde a arcada direita, sendo secundado pelos berros da platéia animada, (urra, urra). Tinha os passos firmes e o sorriso fácil de quem consegue agir sem pensar.
Enquanto acompanhava as arcadas da ala sul repassava mentalmente os prisioneiros presos no mês passado.
Os três etíopes já haviam sido devorados por leopardos sem fome, dois godos e um jônio perderam a cabeça num jogo de cartas e os israelenses fugiram com a comida.

rubens

passava os dedos sob a máquina de xerox e via saindo pela prancheta mundos inventados num toque.
para ele era tão importante decidir se queria lasanha congelada verde ou branca, quanto era para mulher do caixa fugir da angústia de não ter trocado.
para ele, de colarinho rente ao pescoço e cabelo alinhado, nada importava mais do que as fomes médias, o desejo de aceitação, as tribos primatas.
entrou no elevador e apertou o seu andar sem pensar em ser.
uma mulher que talvez chamasse roberta entrou no próximo andar.
ele se contorcia sem se mexer
e percebeu que queria trepar.
uma dessas tantas fomes baixas, a atrapalhar sua mediocridade.
saiu em seu andar e não era mais.
comeu debruçado sobre a cidade.
sobre a solidão de uma cidade iluminada.

a comida não descia direito e ele tinha vontade de querer chorar.
não chorava a anos.
não chorava a tempos.
não se lembrava de existir.
ele acabou seu prato e se resfolou na certeza de uma atividade.
terminou de lavar a louça,
preparou-se para dormir demoradamente,
habitualmente.
deitou no quarto escuro e não tinha culpa.

batia três horas da manhã e a leve subversão de ainda estar acordado o mantinha acordado.
eram três da manhã.

esquizo

respirar fundo.
fechar bem os olhos.
afastar-se, lançando mão do ódio,
dessa terra árida.

há uma voz que escuto baixo.
baixo, bem baixinho.
ela me desconcentra e me acalma.
gritos e sussurros.

tento a alcançar.
mas não consigo.
nunca acho uma sala silenciosa o bastante.

a essa voz preciso procurar,
pois se não mais a escutar,
não é ela que perco,
sou eu.

noite adentro

tristeza de apertar o peito e coçar os olhos.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

quero ver irene dar sua risada

acordei porque o vento canta pra mim
conta pra mim da chuva que vem
me manda uma notícia molhada
me dizendo pra não fugir
melhor ficar
melhor na água.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

V

logo ela viria busca-lo, e tudo deveria estar na mais perfeita ordem.

Sônia

ajeitou os óculos já acostumados a ponta do nariz, e virou a segunda a direita.
Hoje o dia estava excepcionalmente quente, e seria adorável gritar Beatles enquanto seguia pro trabalho.
Fechou alguns carros desacostumados com seu jeito brusco de levar a vida, e pensou em beber uísque.
Queria dirigir com os olhos fechados de quem mergulha,
mas de repente se lembrou que era de olhos abertos que se ignoravam as coisas.

Tantas coisas existindo ali diante de seus braços. Tantas coisas.
Coisas que excluíra por distração.
Quem sabe amanhã prestaria atenção naquele mesmo homem, baixo, feio, vendendo produtos escusos sempre no mesmo lugar da mesma estrada.
Quem sabe não te dirá, e na verdade nada disso importa.
não importa o que ignoramos, o que não vimos, o que não digo.
importa o que digo, verdadeiramente,
embora aqui minta.
uma vez que não digo nada.

tiro o cinto de segurança e abro os olhos.

Paulo

no mais triste do dia dele chegava ansiosamente a caixa de correios com sede de notícias. era uma forma de neurose que agia paralelamente ao mundo, fato que se comprovava pela ausência total de cartas nos últimos meses.
Paulo era o nome do sujeito. uns bem vividos 23 anos. uma barba mentirosa sendo cultivada nos maxilares.
tinha mania de dobrar as páginas dos livros que já tinha lido, e de usar a mesma faca para tudo, contrariava os hábitos que vinham da razão, e sobrevivia a seu tédio inventando obstáculos.
por exemplo,
toda manhã tinha que fazer uma xícara e meia exatas de café.
queimar as bordas do pão na torradeira,
e ler os horóscopos do jornal.
Quase nunca tinha bom humor o suficiente pra queimar alguma dessas etapas, economizando tempo e tédio.
Se eu tivesse que reduzir Paulo a uma frase, eu diria que ele é um daqueles sujeitos cuja maior diversão é se irritar com cada dobra mal passada desse mundo.

domingo, fevereiro 15, 2009

IV

deixando o olhar perder-se nas esquinas do quarto, lembrava-se de tudo sem dor.

cantar cantou

dançarás nessa escuridão este teu corpo escasso,
com febre,
e com dor?

tuas dobras tão leves,
macias,
dançarão por amor?

da brisa pouca,
anônima, sem cor,
achará a quem te leve?

me chames, me rogues,
irei sem defeitos,
serei só deleites,
serei teu amor.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

III

olhava o relógio pontualmente. em um paradoxo entre a necessidade e o hábito.

tudo perdido

vestidos sorrisos amarelos.
um corte desonesto,
um palpite.

madrugada

afastando-me do sono,
tudo vai inexistindo no exato momento.

tudo o que me prende a esse corpo surrado,
os latidos dos cachorros noite a fora,
os tantos e tantos insones assistindo inssossos programas de tv.
as luzes que se combinam formando a noite,
os ruídos do silêncio,
as vozes do passado.

lembranças maturadas que enchem a cara de tédio,
agitam as mãos em movimentos involuntários.

noite a fora, essa noite.
não direi palavra alguma.
corpo nenhum ouvira o meu nome.

presa a esse corpo por tais idéias,
perco o sono,
e para o dom,
a palavra.

sábado, fevereiro 07, 2009

II

com a mão esquerda lembrava-se de sua mãe, desenhando estranhos desenhos.

podia ser sábado

alisava com os dedos as dobras incômodas que se formavam quando o tecido enrrugava. um tecido grosso, espesso, rude. passava os dedos e o contato não era muito agradável.

em instantes assim, afundado no mofo do tédio, podia ouvir o latejar discreto da cidade. por trás de cada latido ou cada grunido motorizado. um breve e continuo pulsar, silêncio preenchido da cidade:

as pedras conversavam entre si
incólumes às nossas bobagens.
as plantas crescendo faziam estardalhaço, jurava.
a mãe talvez fosse alcoolatra, não nascesse tão quadrada,
e o pai tinha dor nas costas por causa do peso, além de roncar.
queria um dia conhecer os irmãos romenos que tivera nos seus sonhos infantis,
e falar para a tia o quanto era feia.

talvez só quisesse virar o lado do vinil e começar tudo de novo,
mas agora, deitado no tapete grosso e branco, tinha apenas preguiça.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

dia

as razões me fogem a quisa de justificação.
as coisas acontecem e não há perdão.
há desculpa,
mas não há perdão.
eu peço desculpas.
é tudo o que possa fazer.

peregrinos

eram de todos os lados que vinham aquelas vozes.
chamavam para danças dispersas,
acordavam de sonos antigos.

abriste o meu pulso aquela manhã.
nas horas inaugurais.
as gotas me esvaziam
e não cessam.

naquela manhã me mataste.
pelo resto da vida.

domingo, fevereiro 01, 2009

de chirico

ele vinha com os passos medidos, ecoando os sons fundados na amplitude. as sombras se acumpridando pelo chão, aumentando distantes saudades.
Talvez sentissem falta dele, e escrevessem absurdas cartas aos chefes das sessões. Talvez ainda fingissem lembra-lo, entre os intervalos das cólicas.

À princípio nada.
Ele continuava quieto.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

I

vestia seu colete azul com zelo. com a mão direita tirava o pó depositado por uma noite sem sonhos.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

o vampiro de curitiba

no mundo todo há cegos.
cegos cheios da luxúria do não ver.
mexem-se de prazer,
os vampiros,
pois estão perdidos
e nunca encontrarão
algo para encontrar.

tateiam essas esquinas a procura de seus iguais,
companheiros,
vampiros como eles.

em vão,
acreditando que tem na ausência do olho
dádivas e méritos,
perdem-se uns dos outros.

e mexem-se de prazer..
pois estão perdidos
e nunca encontrarão
algo para encontrar

segunda-feira, janeiro 05, 2009

fazenda

Naquela noite sem começo nem fim.
as únicas luzes que preenchiam a cidade vinham daquela casa de mil portas. E, embora ninguém nunca fosse visto nas sacadas, também a ela pertenciam os passos e sussurros escutados noite a fora.

Adentrando cautelosamente tais umbrais, as coisas do chamado "mundo real" perdem os contornos, como um primordial caos, como um silêncio de suspiros.
Se entrares neste vasto reino das causas perdidas, tu, como coisa real por fora, também perderás o sentido e a forma, e por mais batidas que dês nas portas, por mais vezes rezadas sob a virgem, não serás notado.

As salas desta casa nunca estão vazias.
Os corpos esgueiram-se nus, a procura de algo. Sãos, e de boa índole, por vezes conversam entre si. Perguntam o resultado do jogo, e, inclusive, comentam o tempo, com a nostalgia de outras estações.

Comem o que lhes aprouver, e bebem chás rejuvenescedores.


Há um Porém.

Ouço gritos. Gritos e pancadas intromentendo-se nessa solidão.
Ouço, e entro sem medo por esses corredores.
Duas vezes à direita está o quarto de onde gritam.
Lá, molhadas, duas rasgam-se na malha de um mesmo contratempo. Principalmente por amor juntam as mãos em preces e acertam os móveis mais próximos.
Devaneios de uma casa sem espírito.

cólera

as formigas, incorruptíveis, subiam lentamente a encosta de pedras. em lugar nenhum ouviam-se os silvos de pássaros que lá não estavam. ao redor de tudo o mato crescia fazendo um zum zum zum.
era nesse entremeio que com as pernas cruzadas ela deixara de esperar.
o vento batia na sua garganta, o dia estava nublado.
em vão tudo existia.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

ébria

dentro de mim metade vivia na completa escuridão
metade no resplandecente e luminoso caos.

gaia com suas tetas enormes no começo de tudo me pegava no colo e enquanto eu sugava a cerveja espumosa que saia de seus mamilos me contava:
caos era a escuridão indeterminada.
o par perfeito da desilusão e do breu,
nenhum traço conhecido.
e então gaia nasceu,
pois já vivia, latente, dentro da escuridão,
dentro do seu pai caos.

assim como ambos vivem dentro de mim,
assim como a única condição para que esses mitos fossem criados é o de que eles existissem dentro de cada um, dentro de todos, dentro de um só.

a morte e o desejo,
a petulância e a sabedoria.
deuses intrinsecos,
arquétipos em estado puro.

e era assim que eu voltava pra casa ébria e não sabia as contramãos do pensamento.
eu vislumbrava seu rosto,
luzes intermitentes a escuridão
pois minha retórica pode ser muito justa,
e até mesmo dialética,
mas o meu ciúmes, meu rancor,
minha animalidade...
não encontrarás exemplo maior de maniqueísmo.

então eu olhava pra cima, procurando os estandartes desses deuses,
procurando sequer uma resposta única.
e minha retórica esvaziava-se de rotina,
olhando a si própria com desdém.

você era tudo isso,
uma mistura inexata de baratos e afins,
e eu amando te odiava,
querendo por nisso tudo um fim.

teus desejos que te faziam puta,
a meu ver também eram o carinho,
que te consolavam no amor-meu-bem.

não sabia como te via,
nem sabia sentir saudades.
tinha medo, era isso,
o resto todo deixava pra mais tarde.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

sim

a,b,c,d,e;
1,2,3,4,5;
combinações fatoriais dum mesmo ser.
as mais óbvias
e as menos evidentes.
dou-te um buquê de flores pra te comer.
não te como,
tal pouco te desejo.
tenho o amor puro dos mais sinceros.
amor de ser perder pelas ruas de minas gerais,
em tantos balcões, sacadas,
em que marílias se perdiam.
meu amor é pouco.
meu amor é ralo.
meu texto é livre,
mas não meu amor.
nem minha vida.
taopouco o meu ódio.

a vida vai amarrando suas mãos grossas sob mim e eu ainda não peço pinico,
pois cócegas tem dentro delas prazer.

terça-feira, dezembro 16, 2008

sem título

"Te vi na esquina outro dia...você me pareceu uma pessoa que vale a pena. Queria saber se você não queria vir comigo. Quem sabe tomar alguma coisa naquele boteco ali, ou mesmo sair por aí nessa chuva. Você se importa em se molhar? Bom, eu ainda não sei seu nome e acho que isso não vai ser necessário. Vem comigo. Ando precisando de alguem como você. Só alguem que não tenha rosto e para quem eu possa criar um. Espero que você não ligue pra essa sinceridade. Você gosta de coca-cola. Coca cola é sempre um bom começo. Se quiser sair correndo pode. Aviso que é melhor sair agora e bem rápido. Prometo não te seguir, mas não sei se aguento te ver fugir. Aqui por perto estão meus amigos e não quero que eles lembrem de mim. Talvez até queira, mas quero estar bem longe quando isso acontecer. Vou aprender a gostar de café se você me ensinar. Pra enganar o cansaço. A uma certa altura não tem como não se estar cansado, né? Você está arregalando os olhos. Por que será? Arregale mais e vou conseguir ver o que você anda pensando. Só não me olhe como se eu fosse incompreensivel. Não quero que as pessoas notem isso. Tem muita gente por aí que também é. Olhe um pouco para elas. Não! Olhe para mim. Gosto quando olham para mim. Se eu desviar o olhar não ligue. Eu não quero ver. Você bem que podia pensar assim um pouco como eu. Não gosto de ser tocada. É sempre tão agressivo. Você não me parece uma pessoa agressiva. Deve ser louco ou passivo demais, pois ainda está aqui e não abriu a boca. Continue assim. É como eu queria. Você parece tão perfeito. Até me assusta. Sabe que eu sonhei demais. Com pessoas que eu nem conhecia. Meu corpo tá formigando. Eu inventei isso. Consigo ouvir uma música. Não deve ser a mesma que você está ouvindo. Sua cara está diferente. O que será que está acontecendo lá? Tenho medo de descobrir. Fique aqui para me distrair. Não me deixe pensar naquilo que eu não consigo parar de pensar. Estou um pouco nervosa. Daqui alguns minutos acho que vou te pedir um abraço. Daqui a dois dias já poderia te pedir um beijo. Bonitos esses olhos no seu rosto. Me empresta algum dia? Os meus já estão meio usados. Não. Não se afaste tão lentamente. Eu vou me virar. Corra o mais rápido que você puder. Vá para bem longe. Não venha mais para cá. Quando me voltar para esse lado não quero saber o que houve. Vou esquecer isso."


n.a.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

sandman

filhos,
os conjuro.
os chamo do final da curva do mundo.
de onde a terra é seca
e a fome é tanta,
os conjuro.

venham andando meus filhos,
os mais rápidos,
uns mais devagar.
a mulher que deixou tudo para trás,
e o bom homem para quem tanto faz.

as rãs pesticidas do egito,
os chineses e seus murais,
os conjuro,
para vir de onde vier,
do final da curva do mundo.

que venham as criaturas vis,
perdidas em tantos mausoléis,
os pasteleiros de assis,
e o pastoteiro com não sei quantos rés.

espero pacientemente amordaçados de magritte,
com a cabeça nunca por descobrir,
as virgens reconstruídas da áfrica,
e as que defloradas foram
em outros tantos lugares.

com a cabeça baixa vou esperando,
brotarem da curva como água da terra,
as mais doces tenebrosas criaturas,
imagino paisagens pastéis,
e as espero,
enquanto o mundo desaba aos meus pés.

incontida

não sei porque toda a fiação estava a mostra,
o importante é que fazia sentido.
as pessoas estavam esquecidas por trás daquele muro,
uma ligavam, outras não,
a maioria não.

mas alguna choravam bem baixinho a noite,
quando nenhum feitor olhava.
a fiação estava a mostra e tocava no rádio uma música que poderia ser mexicana.

a luz branca da garagem criava espectros absurdos em todos os ângulos:
passageiros esquecidos em cada carro.

a solidão era aguda,
e nada mais fazia sentido de ser.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

os outros

fecha os olhos meu bem.
o ar que entra agora demora anos pra sair.

abre os olhos
não há luz.
há somente constelações imaginadas,
de quando perto da sua nuca.

tem sua mão e tem a minha,
solidão de não estar mais sozinha.
tem os outros,
é o que dizem.

mas somente constelações imaginadas,
de quando perto da sua nuca.

terça-feira, dezembro 09, 2008

anaugh

todos os dias se deitava no quintal e sabia que seu corpo ia coçar.
ela odiava se coçar todos os dias
e constantemente dizia a si mesma que nunca mais deitaria ali.

no entanto, no prenúncio da noite,
afogada pelos tons cruéis do crepúsculo,
suas costas voltavam-se para o leito da grama.
ela se deixava esvaziar das geadas de pensamento acumuladas pelo dia,
e as vezes sorria.

quando deixava seu corpo inerte,
ela perdia de vista as constelações,
e via escondida pela sebe do jardim,
uma menina pálida,
deitada na grama,
olhando as estrelas.

e as vezes sorria.

trem

era uma espécie de werther,
com os cabelos espesos negros,
olhando o mundo por sob os ombros.
angústia de lágrimas lavadas,
não conseguia levar o mundo no braço.
sentia o corpo dela próximo
e não sentia mais nada além.

se jogava no abismo de ama-la,
e esperava ser atropelado.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

beijo

um ela comia abertamente, como falando.
com as mandíbulas bem dispostas dilacerava os cereais emulsificados pela saliva. em movimentos redundantes desgastava a fera que dessa vez não a exterminara. o rebanho, por uma vez, era seu.
um ela que tinha no rosto semblante de vida e morte, a alma.
pois sentia nos olhos concentrada toda a atenção que tinha ao mundo.
sentia, por sua vez, os cheiros das esquinas. e sentia-se dor.
ouvia o corriqueiro,
esperava os fárois.
e as vezes falava demais.

e bem naquele buraco bem fundo dessa cara que um outro ela decidira se entregar,
quisera ela dizer o quanto precária a vida sem os buracos da cara.
quisera ela.
e bem gostada decidiu no buraco lancinado por o seu.

se mexiam.
por vezes mais,
por vezes menos.

ali naquele buraco da cara.

os anéis do imperador

entre os dedos os anéis do imperador,
passavam pelo castelo como segredos.
ninguém bem sabia onde estavam,
os anéis do imperador,
quando o dia começou a tardar.

a mulher que lavava o chão a panos quentes demorava,
caminhava seus passos sãos e seus embrenhada na escuridão.
o guardador de gansos dormia a sono forte,
embora não sonhasse.
no castelo nada acontecia,
como deveria de não o acontecer com toda história.
na câmera real o imperador tinha os olhos abertos,
fitava os horizontes escondidos nas paredes.
não pensava, pois nada era mais pensável do que se estar ali.
ele tinha as mãos dispostas ao lado do corpo,
nuas.

e nua também sua mulher,
e o encarregado das palhoças.

enquanto a noite eterna tomava o castelo,
passavam anéis no escuro,
os súditos do imperador.

mentira é um troço que inventaram

como você quer seu ovo?
eu adoro ovo mexido, mas não gosto quando fica borrachudo,
e eu amo ovo cozido, só que eu gosto só da clara, eu não gosto da gema do ovo cozido. da gema eu gosto no ovo frito.
pássaro, uma baleia, ou um macaco?
difícil.
pássaro, baleia, macaco.
queria ser um macaco,
que pudesse querer ser pássaro ou baleia.
então era você que você queria ser.
então canta pra mim.
foi uma ordem.
imperativos não concedem interrogações.
eu te amo imperativamente.

tnt

a menina loira estava na cidade,
e a morena do outro lado de tudo.
a outra ligou pra uma e disse,
voz azeda dos fios do telefone,
trovão, manga.
você gosta?
tenho medo e gosto,
quando sem fiapo.
achei tudo muito válido,
válido mesmo.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

aborto

era sábado.
o sétimo, e último dia.
levantando-se assim com pressa, com frio,
com as pernas moídas,
as juntas formigando,
os olhos cansados do sol.

era sábado,
embora fosse domingo e o apartamento cheirasse a mofo,
as coisas espalhadas pela sala,
jogadas no chão.
o sol que caminhava pela sala,
cada vez mais azul o domingo.

chorando dessa forma com as marcas de dedo presas a garganta,
sem forças nem coragem para chorar.
calado assim,
olhando os carros passando sombras pela sala.

era sábado a noite,
talvez fosse,
embora fosse um dia ensolarado.
e ele enrolasse as mãos nos pápeis higiênicos.
quando via o espelho sorria,
quando chegava carta tinha medo.

era sábado,
embora fosse um deserto.
e a sala vazia,
e o sol ausente.
e o seu corpo quase morto.

era tarde.

sem dor

se eu tivesse alguma coisa pra dizer, talvez eu dissese.
simplesmente assim,
como quem espontaneamente abre a boca e dela sai um sapo.

ou talvez eu risse,
porque teria em mim essa parte tão importante de você,
peça de um quebra cabeça maltrapilho,
coisas que nem se pensa.

tem eu.
e tem você.
em ordem nenhuma, eu e você.

te conheceria você?
e tu, o quanto de nós é teu?
pergunto-te sendo tua porque o amor é fácil,
e escorre dos meus lábios.

o amor meu bem,
está chamuscado.
fui abrir a porta e o sol pegou,
tomou pra si,
como um hélio contente.

o amor de carlos,
o amor.
sem lágrimas amargas,
nem beijos fel's.
o beijo minha cara,
chamuscou o amor.

e então você me beijou.

quinta-feira, novembro 27, 2008

odor

a noite com seus ombros lilás,
cai sob mim.
as janelas tão pouco me dizem,
e escuto o seu telefone tocando do outro lado da cidade.
- sou eu quem te liga.
os seus sonhos escorregam da cama com gentileza.
alcançam o chão, massa porosa,
abandonam-te no meio do breu.
os meus sonhos te enxergam,
és de outros,
e não me pertence,
como nunca pertenceu.
chamo teu nome, grito teu nome,
essas vozes não deixam meu corpo,
no entanto percorrem cada nervo, cada pelo.
enquanto você se perde na sua noite,
eu te procuro na minha.
nesta guerra de trincheiras ninguém ganha,
ninguém sente o teu cheiro.

domingo, novembro 23, 2008

filosofia

não.

ela dizia não como se a noite não estivesse fria e os pingos de uma chuva imaginária não nos alcançasse nas vértebras.
ela sempre se declarava baseada em inverdades, e
conforme os dias passavam, ele começava a duvidar.

então será que não era realmente ruiva
e talvez não gostasse da hora da noite em que apareciam os morcegos?
ou talvez mãe não tivesse,
nem medo de barata.

enquanto olhava fundo nos olhos dela se sentia bem ausente.
tinha seus peitos sob o queixo,
as mãos nas mãos nas mãos:
ausente.

sentia-se como um pedaço de carne mal carpida,
aninhado nos braços de uma desconhecida.

sentia como ela o via,
como uma porção qualquer de cabelo em que pudesse exercer seu cafuné.

contava segredos e sabia que não seria ouvido,
ouvia tudo o que dizia e não sabia se acreditava.

ia dormir intranquilo e enquanto sonhava a via de fato:
ela sorria e era verão.

sexta-feira, novembro 21, 2008

ilusão

quando ouço sua voz queria desligar a luz dentro de mim,
e ouvir-te plena e nua.
sem interferência.

saberás

uma coisa atrás da outra.
o método do que aconteceu.
perguntaram quem eu era.
e eu respondi.

eu era o que fora de mim me repetia.
os discos os livros, os conhecidos.
e que fora de mim não me era,
isso era o desconhecido.

e de repente o que de mim o que mais eu gostava.

um ano vazio se passou.
livros lidos,
logo apagados pela velha amnésia.
o que será feito nesse antigo ano?
coisas feitas por alguém que não jurei lembrar.

eu escuto sua voz e quantas barreiras ela vence na noite.
é frio e a paisagem mais verdadeira do que nunca consegue chegar a esses olhos caducos.
a vida é bonita e sempre é.
basta os olhos bonitos.

não quero me restringer a fazer algo bonito,
até porque quanto mais o penso mais me afasto,
da sinceridade dura, seca, dentro de mim.

seus lábios estão úmidos, seus seios permanecem distantes.
todos seus traços confundo com melodias,
infames, infames.
morro na praia da sede de te enxergar.

um dia me olharás de um porta retrato.
e esse olhar obliquo,
agudo.
é o que restará de um amor morno como uma quentinha esquecida frente a porta.
e meu amor viajará com o mesmo vento do filho pródigo.

não sei te explicar minha independência.
mal sei te amar.

quinta-feira, novembro 13, 2008

pictórico

os braços nus recortados sob o fundo absolutamente negro
paralisados em pleno movimento
terminavam os pulsos em bocas
abertas e falantes
"carmim, carnudas, vermelhas".
os dentes amarelos de tanto fumar
tanto falar com as mãos.
os olhos feito pedra
de tanto observarem de seu loginquo desespero.

ela tinha a habilidade de deixar-se falar por horas sem ser,
postava-se no alto daqueles fárois boquiabertos e observava o mundo em silêncio.
o mundo em movimento.

terça-feira, novembro 11, 2008

manga rosa

as luzes avermelhadas que atravessam nossos corpos.
é eternamente manhã e suspiro,
porque não sei seu nome.
tenho embaixo da língua guardado um segredo.
mas ao contrário,
não tenho medo.
as luzes vermelhas que atravessam nossos corpos.
não existe tempo.

pois liberdade

no começo era o nada.

então surgiu uma caneta bic e dividiu a folha branca ao meio.

nesse dia Ele tinha Raiva,
e com Ela criou um sulco fundo na folha sulfite.

sulco fundo,

fundo e azul como o mar,
filho d'Ele com Raiva.


e então,
fez-se a luz.

e todo um mundo enorme e vasto fez-se para além dos limites do sulfite.



esse mundo tinha montanhas e cabras,

insetos e alcoolatras,

sodomitas e unhas encravadas.

tinha também coisas mais estranhas ainda.


e além disso tudo, nesse mundo também vivia Ele.

e Ele,
caro leitor,
estava bravo como se a semana tivesse terminado,
rabugento como se nada tivesse sobrado,
triste como se todos os seus filhos fossem macacos,
e acabado como quem acabou de ser chifrado.

segunda-feira, novembro 10, 2008

meta tédio

que merda
não é nada disso que eu queria falar
eu queria falar desse tédio imenso que ocupa tudo,
dessa coisa de não pertencer a nada.
dias e dias e o mesmo saco cheio.
as mesmas pessoas chatas.
os mesmos livros
os mesmos discos.
a mesma falta de paixão.
eu não queria dizer de nada disso,
porque escrever disso tudo daria um texto tão mediocre quanto essa vida.

quarta-feira, novembro 05, 2008

esmiuçar

não sei bem dizer porque quando sinto não é imaginando.
talvez um pouco,
mas é tão fora de mim que tudo se passa,
que talvez não esteja no direito.

talvez seja como uma praia amanhecendo,
amanhecendo sempre, sem nunca aparecer o sol,
só aquela luz atrás do morro,
tão forte que deixa tudo branco.

e o mar vem mansinho,
como que domesticado,
lamber os meus pés com sal.
aqueles sons do mar,
inclusive o silêncio,
indo e vindo e me dizendo da vida,
desse ritmo indeciso de termos de ir cumprindo.

nessa praia meio claro meio escura não tenho rosto.
nem rosto nem eu,
ainda só aquele antigo hábito de continuar existindo.
nem forma
nem conteúdo.

acho que em todos os lugares onde eu to,
eu to muito mais vezes nessa praia.
têm o silêncio e tem a solidão,
e tem tudo muito bem explicado sem palavras,
só amplidão.
essas coisas nos dizem tão bem.

então eu mergulho numa escuridão profunda,
e isso é abrir os olhos e ver que continua ali,
esse dejeto que sabe muito pouco,
com tantas pessoas acostumadas a calar a vontade,
e de aceitar como natural a convenção,
e como excessão a natureza.

novamente eu acordo,
me sinto mais triste e mais só.
me sinto mais cega e mais sã.
em mim quase tudo me repete.
minha alegria é ter um corpo.

terça-feira, novembro 04, 2008

breu como carvão

apague essa luz fora de nós.
expulse das nossas mãos todo o ruído,
todo suspiro.
porque sempre úmida a sua boca.

apagar a luz e ouvir a sua voz,
perto longe de mim.
era outra pessoa,
você era
e eu passava a ser.
vontade de ver,
chá de tarde,
vinho de madrugada.
eu ouvia eu ouvia,
repetidas vezes até me embriagar.
eu escrevia e escrevia,
nunca escrevi tão mal.
queria ter pra mim esse abismo que você inventou pra você.

platão

sábado de manhã e eu passo na sua rua de carro.
ainda não tenho a coragem de usar os meus pés.
vou de carro,
passo rápido,
dói meu pescoço de tanto dobrar.
não encontro ninguém
e não vejo nada.
só uma janela, um lustre, uma luz esmaecida.
livros que nunca lerei.

terça feira às 7:00 passo de bicicleta,
mudo meu caminho,
procuro uma resposta.
uma janela fechada.
persiana azul.

outras tardes da mesma infância persisto.
quantas janelas encontro
fechadas.
quantos segredos guardados
por trás de quantas portas.
todo o mistério melhor desconhecido.
e tudo o que melhora com o tempo.

a mesma infância no peito,
fios brancos no cabelo.
paredes,
ângulos principalmente retos,
alegrias, dissabores,
jantares e folias.
dentro das casas ainda segredos,
que agora também a mim guardar.

passam os anos.
às vezes ainda volto à mesma janela.
você às vezes tá em casa,
abre a janela para acenar uma saudade.
prefiro que não,
corro enquanto é tempo.
durmo e não deixo de pensar,
persiana azul..
durmo bem.
sou pura à tarde e à noite.
amo em segredo,
e só para mim.

segunda-feira, novembro 03, 2008

cinema

Tudo no cinema a repetia em seus hábitos.
Preferia a vida assim,
vendo-a passar pelos olhos,
sem nenhum esforço para que as emoções a tomassem por inteiro.

Vendo agora com as luzes ainda acessas
podia ver o mau estado das paredes,
descascadas,
ou enegrecidas.
Também sabe na vida as porções rotas,
e esperaria da escuridão nada menos que o total encobrimento.

Pronto.
Apagaram as luzes.
Agora nos aprumamos nos assentos,
paramos de olhar para os lados.

Pronto.
Agora começa a vida.

domingo, novembro 02, 2008

azular

disseram certa vez que o azul era derivado do preto.
o preto tão sem cor preto.
tão só preto de ser bom fazer um par,
só com o branco.
esse preto.
era dele que o azul derivava.
tão color azul,
tão explícito cor.
direito da grama vida: verde
direito do céu do mar: azul.
então abria meus braços e segurava o ar dentro dos pulmões,
mergulhar nesse azul era eu,
da cor do ar.
azul não se focava,
azul amplo mistério da coisa.
azul todo mistério.
azul que é a cor exata
do mistério.

quarta-feira, outubro 29, 2008

verdade

eu já tentei te falar,
várias vezes.
mas todas essas vezes, quando eu abria a boca,
eu via o mundo como se fosse você,
e os planetas e seus aneis todos se reorganizavam nessa ordem maluca
que você inventou para a vida.
eu queria te dizer do silêncio,
do silêncio que de certa forma é o que mais fala em mim.
não importando o tempo e o lugar,
eu sempre me sinto sozinha,
porque no fundo no fundo,
eu fico com o silêncio.
e você até tenta me escutar,
mas quando começa a existir,
já é barulho demais para mim entender.
então eu me esvaio pelas suas mãos,
tão logo você começa a sentir.

terça-feira, outubro 28, 2008

tanta bobagem, e mesmo amor

também nu o teu corpo,
sem umidade,
mamilos rijos.
frio nu,
seiva bruta.
extraindo suor,
crava suas unhas sob a minha pele,

mesmo quando verão.

de cor

o coração palpita.
esse é o seu verbo.
(podia preferir ser o seu óbvio).
a cada ritmo inscrustrado no pulso,
(no pulsar do segundo).

penso em.
penso você.
mal penso,
palpito.

prazer

a única coisa que eu queria naquele instante era poder me diluir o suficiente, para com o meu atrito, fazer coisa tão certa quanto o que eu senti só de te ver. era pegar essa sensação sem nome no ar, e saber te-la pra mim. mas não, acho que o único jeito de pertencer a solidão (dessa sensação) era te ter. te ter - nas mãos.

costas da áfrica

sim, era constrangedor existir
ali,
defrente de todos.
existir era certamente um ato público,
uma imposição.
e nós que nos conheciamos muito bem,
nos amávamos mais uns aos outros,
e cada vez menos a si.
porque era constrangedor demais amar a si.
e então você via o brilho nos meus olhos,
e acreditava nas minhas mentiras.
a noite caia,
mas não todo o resto.
restos de corpos abandonados na praia,
mas não.
eu ia e dormia sozinha.

domingo, outubro 26, 2008

noite

acho que não conseguia mais me ver.
espelhos? não me revelavam nada.
então por mais ridículo que fosse o parecer
eu te perdia.
travava as papas na língua,
e sonhava.
era te vendo
que eu me encontrava.

terça-feira, outubro 21, 2008

polução

os dois andavam juntos apressadamente, sem nenhuma razão para isso, já que era férias e o dia nascia sonolento. não sabiam que com os passos marcavam a areia, e a praia, que era plana e enorme, os agasalhava entre a serra e o mar. desde horas involuntárias conversavam verdades, e era isso o que mais os impressionava: tudo o que se diziam parecia estar cheio de uma verdade nunca antes assumida, por ninguém, e nunca.
um contava de tempos imemoriáveis, quando o sexo ainda era o vício de roçar, e do que mais nem se lembrava lembrar, e o outro ria, cada segundo mais amanhecido, se perdendo num caminho já trilhado, mesmo que por outros passos.
divisava a luz que vinha bem devagarzinho sob o mar que batia nas pedras. minúsculos pontos claros, como um cardume de pequenos peixes destemidos, batendo impetuosamente contra as pedras.
o um pegou na mão do outro, sabendo que errava. e o mesmo sorriu, porque já estavam longe demais da casa, e o dia já nascia. o outro sentiu algo dentro dele como pequenos pontos claros que batiam contra uma imensidão de pedra. e algo no ar se desfez.
e assim, bem num de repente, não podiam mais se dizer bobagens. sentiam novamente aquela incômoda pressão nos peitos, vai ver de descer a serra, ou muito mais ainda do constrangimento de existir um perante o outro. e repensavam, e arrependiam, e antes pensavam, do que faziam.
o outro olhou para o mar, e percebeu que algo mesmo tinha mudado. isso era quando deixou de ver os pontos branquinhos entre a pedra e o mar. e assim não teve a coragem de olhar para o um, de checar nos outros olhos se algo mesmo se perdera, em algum momento entre a escuridão e a claridade.
então estava em tudo ao redor deles, não precendia palavras, porque era, todo, o silêncio. não voltavam para casa, e não voltariam.
estavam com pressa, e iam tateando o horizonte, como os adultos que eram, que logo menos tornaram a ser. silenciosamente apressados.

polução

os dois andavam juntos apressadamente, sem nenhuma razão para isso. era férias, o dia nascia sonolento, embora soberano. nem sabiam que com os passos marcavam a areia, a praia era plana e enorme, e os agasalhava entre a serra e o mar. desde de horas involuntárias conversavam verdades, e era isso o que mais os impressionava: tudo o que se diziam parecia estar cheio de uma verdade nunca antes assumida, por ninguém, e nunca.
um contava de tempos imemoriáveis, quando o sexo ainda era o vício de roçar, e o outro ria, cada segundo mais amanhecido, se perdendo num caminho já trilhado, embora por outros passos.
divisava a luz que vinha bem devagarzinho sob o mar que batia nas pedras. minúsculos pontos claros, como um cardume de pequenos peixes destemidos, batendo impetuosamente contra as pedras.
o um pegou na mão do outro, sabendo que errava. e o mesmo sorriu, porque já estavam longe demais da casa, e o dia já nascia. o outro sentiu algo dentro dele como pequenos pontos claros que batiam contra um muro de pedra. e algo no ar se desfez.
cada passo dado deixava mais longe a noite, até que todos os seus rastros ficaram com os traços de cinza e de azul, junto à escuridão.
e de repente não podiam mais se dizer bobagens, de repente sentiam novamente aquela incômoda pressão nos peitos, vai ver de descer a serra, ou muito mais ainda do constrangimento de existir um perante o outro. e repensavam, e arrependiam, e antes pensavam, que faziam.
o outro olhou para o mar, e percebeu que algo tinha mudado, quando deixou de ver os pontos esbranquiçados. não teve mais coragem de olhar para o um, de checar nos outros olhos se algo mesmo se perdera, em algum momento entre a escuridão e a claridade.
já não era tempo de conversas, seguiam com a mesma pressa de sempre, e os olhares paralelos. não voltavam para casa, e não voltariam. estavam com pressa, e iam tateando o horizonte, como os adultos que eram, que logo menos tornaram a ser. silenciosamente apressados.

serpente

uma mão respirando o seu ar por debaixo da blusa,
fazer verão ou transpirar.
uma voz que arranha a pele,
um nome proibido,
a loucura.
essa noite bem oculta,
e a lua escondida de mim.
o que não pertencia e seus olhos,
por alguma razão desconhecida,
me enchia de dúvida
e de outras coisas.
até se transformar em vício,
e sermos um mesmo corpo a vontade sem medo do vento.

natureza morta

sei que morno e escuridão,
o alcance daquela melodia.

aquela porra me tocava num fundo tão fundo
que era bom. não tinha controle,
e dava vontade de morrer.
era um fundo tão escuro que nada mais na vida vadia.
fundo tão morno que na cama,
bem a noitinha, eu chorava muito.
ressucitar a vida num corpo oco,
é com a força do pensamento desorganizar todos os ponteiros.

segunda-feira, outubro 20, 2008

artrópode

entrou dentro dos meus olhos sem esforço.
e dentro do meu calor
pôs a mão.
sem cantar
cantou
e sem querer
quis.
quis
e para mim cantou.

vício

o que faltava,
para também entrar nessa sua escuridão.
(com que trajes)
(com que idéias)
em que esquina encontrar a coragem,
e em que rua perder.
com os olhos abertos,
embrenhar-se
na gota úmida da solidão.

impessoal

eu só vi a noite.
as ruas cheias desse escuro tão denso,
intermitentes luzes laranjas.
eu podia ser aqueles pés pelados andando pelo asfalto.
eu podia pisar em tantas e tantas poças sem ligar.
eu podia,
toda essa poeira do mundo.
era não te ter ali,
densa, afundada no para sempre daquele segundo,
que eu ficava sem ar dentro da madrugada.
caras e bocas ausentes em mim,
e único rastro o vento
(pelo menos pra mim).
mas era sem razão,
toda equação ia desmontar,
esperar te ver,
e por fim encontrar.
era mentira,
e enquanto fosse era com o vento.
amanhã era segunda,
e todas as mentiras eu já escolhi.

domingo, outubro 19, 2008

esperança

Sentir a tua mão como as formigas que vão em direção ao meu colchão.
Perceba que os mortos perdem o calor, mas não a umidade.

segunda-feira, outubro 13, 2008

primeira pessoa

em mim não mora eu.

sábado, outubro 11, 2008

ansia

eu tinha medo e tinha ódio. tinha vontades e frustrações.
agora, a essa hora da noite,
eu só tenho enjôo.

castelo de cartas

Coloco gentilmente a terapia e a estrutura familiar próximas, para que num equilíbrio impossível possam sustentar a produtividade diária. Ao lado faço o mesmo com o acordar cedo e com o afeto dos outros, para que assim possa gostar mais de mim. Tomo cuidado para separar as cartas alcoolismo e loucura do baralho, deixando de sustentar uma certa liberdade da qual só ouvimos falar. Sem querer pego culpa de classe e com ela dever, que amparam o castelo todo. De resto, seguro todas as cartas com os braços, esperando cheia de angústia o dia em que um sopro prolongado o fará ruir.

quinta-feira, outubro 09, 2008

versão 2

Eu acordei, porque todo dia eu acordava.
Disse bom dia para minha mãe, e mais nada.
Passei motorizada pela guarita,
zunindo pela marginal.
Na minha classe era só um número,
saí fui a terapia,
acesso de histeria.
Voltei para casa, e nunca fui eu mesma.
Fui dormir, esqueci a dor acessa.

quarta-feira, outubro 08, 2008

cotidiano

Eu acordei, porque todo dia eu acordava.
Eu disse bom dia a minha mãe, e então eu era filho.
Passei motorizada pela guarita, virei um inquilino.
Zunindo pela marginal, parte do fluxo matinal.
Cheguei na minha classe, era apenas um número.
Quando saí, fui a terapia,
tive um comum acesso de histeria.
Voltei para casa, e nunca fui eu mesma.
Fui dormir, esqueci a dor acessa.

domingo, outubro 05, 2008

sanduiche de queijo

você com os pés tocava, as linhas imaginárias do meu corpo.
não bem sentia o que parecia óbvio, e os movimentos regulares mudavam de plano,
subia as pernas rodando, acareciava um além-joelhos.
então sua boca voltava a minha, e mais uma vez lânguida e confusa eu imagina sua boca úmida ser vulva, assim como a minha.
eu, ainda corpo distante do seu, o pressionava contra seus joelhos, e lá de cima você olhava, contente, como quem vê uma corrida de cavalos no jockey.
eu também sorria nesse outro mundo meu. o mundo todo estava a frente dos meus olhos, e em volta de mim. era noite e os vidros embassados. tinha um pouco de medo, mas medo é bom, não faz tudo ser sem preço, e assim indevidamente e total - real.
íamos uma em direção a outra, porque agora os vidros embassados eram olhos, os nossos, e o mundo ficava mais longe, virava fundo. sua mão debaixo da minha blusa tentava alcançar um silêncio (o silêncio de depois). nossas pernas convulsas eram nossas. uma a uma, outra a outra, acho que a gente se amava.

De Novo

tem vezes em que é preciso dizer quase tudo com uma imensa prontidão.
eu trago às palavras a pressa, enquanto a boca fica seca.

tem então as outras vezes, olhares que passeiam nus,
vezes que me perco de todas fomes.
pra essas ainda não inventaram as palavras certas.

antigo

eu to com medo.
com tanto medo.
eu olho pro espelho e tem uma pessoa lá me olhando.
eu gosto dela,
acho uma pessoa meio doce,
adoraria beber uma cerveja com ela.
mas daí eu olho pro outro lado e me esqueço,
e volto a ser eu.
e ser eu tem sido:
cadeiras se arrastando na varanda.
estou com medo.
me dá um abraço?
me protege da loucura?
eu não quero estar aqui pra ver ela chegar.

quarta-feira, outubro 01, 2008

tristeza

amanha vai ser um dia triste.
não por nada, mas sei que é dia da tristeza chegar de mansinho e dar um abraço apertado.
e não que ela tenha nada de mal. é só você pensar o que é a tristeza,
e ela vai embora. escapa das mãos.
ela não gosta de ser objeto de pesquisa.
mas a merda mesmo é que ela tem sempre alguma coisa pra incomodar você.
ela é como aquela pessoa que quer sempre te abraçar e por você tudo bem e coisa e tal,
mas aí você percebe alguma coisa muito chata. percebe o quanto é agressivo aquilo tudo.
ou o quanto o cheiro de sono daquela pessoa te desagrada. e dá vontade de fugir, e não estar ali, e não conhecer ninguém.

como fosse madrugada

gosto tanto de uma dessas músicas de bossa nova (acho que era vinicius) que o rapazinho lá diz que então amanheceu chutando pedras pelo chão.
quando tenho vontade de escrever acho que é quase isso o que quer sair de dentro de mim. é muita solidão e muito silêncio. e tanto que chega a ser patético o paradoxo de isso ser escrever. expressão é interferência. né coisa de um só não.
bom, mas é como isso. nesse fôlego antes de escrever, quando o batimento vai aumentando até o um segundo antes do gozo dá vontade de vomitar uma coisa que é como amanhacer chutando pedras. o dia tá nascendo. e isso quer dizer que tem o lirismo implícito. mas também te mostra o quanto pouco você é de você mesmo. você era seu ontem, sabe? na madrugada. achando que a escolha de beber e perder tempo esperando o improvável era sua. e daí o solzão chega e você é aquele ser meio sujo, meio empoerado. meio coisa de ontem. você precisa ir pra casa porque independente do que você fizer já é dia. e não tem mais manhã pra perdoar os seus erros de juízo.
mas você não olha pro sol. você olha pro seu pé como um fetiche. você gosta do fato de que é uma manhã e que tá todo mundo de saco cheio pegando ônibus lotado pra ouvir conversa de boi. e que talvez eles olhem pra você e não gostem. mas você sabe que eles não te enxergam, que eles não estão vendo nada, que eles passam como os dias, e que você não faz parte de nada daquilo. você vai dormir. mas antes disso pode ter raiva. enquanto ainda não fizer parte desse tempo biológico você pode cultivar sua úlcera. você chuta as pedras de manhã e não pensa se adianta alguma coisa. não relativiza sua ira para depois se desconcertar com todas as picuinhas "sociais".
não.
eles são eles.
e você é do tipo de pessoa que amanhece chutando pedras pelo chão.

brisa

você me pega assim bem de mansinho.
quando vem com esse vestidinho preto recortando as pernas como tesouras sei bem o quao úmida é essa mulher que vive em você. acho bonito e temo. te dou um beijo recatado exatamente por isso. você põe as mãos na minha nuca, sussurra segredos como silêncios no meu ouvido, e eu me sinto uma criança. e me sinto triste. e me torno um pouco menos sua.
então, tão cedo da noite, sinto uma onda passar pelo meu corpo todo. começa pelos dedos da mão, passa pelos pelos do braço, mas logo me toca, tão cedo me toma - por inteiro. e tenho vontade de espernear e de gemer e de gritar e de apanhar.
sou tão fácil. e me irrita. nem sempre me acompanha dessa facilidade física um outro se dar, metódico, esse difícil.
ainda bem que mesmo assim você vai me ganhando. bem devagar. quando me encontra nessa dureza da infelicidade, quando eu me escondo como um bicho na parte mais escura desse mim. ouvindo o barulho invisível de poças dágua. gotejar silencioso da solidão.
nesse estado sinto sua boca tão macia cheia de umidade (e duas bocas assim úmidas me lembram tanto vaginas), e sinto sua ternurna, e sinto seu sorriso e seu olhar me olhando. e não tenho vergonha de mais nada, dos ângulos mais sórdidos, dos cheiros mais recônditos. nesse instante eu confio em você. e me entrego como quem não sabe da morte implícita no vento. eu abro meus braços bem pra essa escuridão me invadir.
e assim, num bem assim, te desconheço. embora o possa, sentindo suas mãos me levando para a escuridão.

quinta-feira, setembro 25, 2008

quário

então era assim que eu te via dentro de mim.
no escuro de uma noite qualquer via-te andando de braços dados com o abismo, abrindo bem a boca, ver se dava pra beber água da chuva.
era assim, você decidia se entregar pra qualquer abismo, e eu bem não sei o quanto disso valia, o quanto disso era válido naquela equação esquizofrênica que eu desenhei pra vida.
sei que nela você não cabia.
não cabia mais.
um dia coube, mas então era eu quem não cabia.
aí eu parti pro mundo e você escapuliu.
saiu, era outra, nunca foi, nunca reconheci.
mas daí os abismos.
agora vem me explicar porque.
sabe o que (e grito com ódio bem em cima da sua cara,
com a raiva contida que você conhece, como mais uma das coisas que você conhece e que eu finjo que não, só pra te maltratar, pôr seu pé pra fora desse círculo que desenhei com giz, escorpião e fogo, alegria).
é que nessas horas eu posso ser você e você pode ser eu,
de tanto diferentes parecidas que somos.
de tanto que não nos pertencemos mesmo.
você perdeu o coração na guerra,
e eu perdi a guerra.
escuta, você me inspira,
muitas vezes na vida.
e eu gosto muito de você,
e talvez um dia, inclusive, admita.

quarta-feira, setembro 24, 2008

vírgula

abriu a porta pra deixar o mundo inteiro na porta.
sentiu nojo e como de costume cuspiu em cima de tudo aquilo.
vontade de comer pra matar o tempo,
nada de fome.
ou seria do tipo vampiro cheirado,
ou gordinha carinhosa.
ou um ou não.
carinhos pontapés.
queria alguém que a equivalesse.
difícil, ou cheiram mal ou pensam mal.
isso quando não é você fazendo os dois.

boa noite boa sorte,

terça-feira, setembro 23, 2008

bonobo

lá em casa todos temos carro. gostamos bastante de o ter, pois um dos nossos passatempos favoritos consiste em atropelar pássaros. quando andamos preocupados com qualquer coisa pela cidade, nos alegramos bastante quando os avistamos no asfalto. então com um sorriso no rosto e os olhos concentrados aceleramos o carro e esperamos ter sorte. se o acertamos a alegria é garantida pelo resto do dia, e ao voltar para casa contamos para toda família reunida em volta da mesa. porém, se erramos ficamos sérios, e esperamos consertar o erro antes de chegar nas redondezas da nossa casa. quando estou junto de mamãe nessa exata circustância, às vezes imagino que ela poderia dizer algo parecido com "como será que pássaros, tão verdadeiramente animais, conseguem viver em uma cidade como essa?", e que então eu poderia tristemente pensar "não são eles os únicos animais a viverem esse absurdo". porém, ela nada diz, e eu, portanto, nada penso. acostumadas que estamos em, tendo carros, atropelar pássaros.

sábado, setembro 20, 2008

úmido inverno dos trópicos

Abriu os olhos,
na boca palavra alguma,
nada palpitava.

No frio que não fazia
seus ossos estalavam úmidos.

O sol (leitosa matéria)
era tudo o que eles não eram.
Preenchia por completo,
solidez que ninguém anteviu.

Posta em liberdade por outro tempo,
assim,
a tristeza voltou.

úmido inverno dos trópicos.

2° tempo

um caos desordenado com vagas morais planando. então me coloco no mundo com toda a ambiguidade que me é justa. meu quinhão de bondade, meu quinhão de maldade, e toda sacanagem.

o mundo

Quando fico nesses estados uma porção de coisas acontecem.
Normalmente vejo as luzes da noite em tons de verde,
mas imagino que isso não interesse a ninguém.
O que talvez interesse mais sejam esses fatos banais,
de o viver com raiva, ou comiseração.
Imagino que culpando-os de qualquer forma.

Mas dessa vez não (não).
Dessa vez parece que com os mesmos olhos embotados
de mundo,
possa os ver como qualquer coisa como justa.

elizabeth

elizabeth pedia para nascer dentro de mim.
o dia inteiro
(ou o mês, a semana, não me lembro bem)
ignorava esses impulsos que julgava tolos.

porque, afinal, para mim escrever sempre foi o abrir de uma torneira sob pressão.
(inútil torneira,
consolando uma represa inteira).

então eu sentia elizabeth chamando seu próprio nome,
num fundo, bem fundo, de mim.

talvez durante o banho,
ou no trânsito,
em qualquer momento em que,
julgo,
elizabeth gostaria de estar.
(em qualquer banalidade própria da poesia).

a ignorei,
a ignorava,
pois sentia essa nova tristeza
(densa úmida e branca),
abraçando-me os músculos,
apertando-me os braços,
tesa - me chamando para dançar.

confundia elizabeth com essa outra de quem falava.
e para outra não achava lugar em vida tão vaga.
mal sabendo eu, que apenas comprava-lhe tempo
para nutrir-se do meu fígado,
espalhando-se como coisa contraída.

então um dia eu ouvi algo.
não tão longinquo quanto elizabeth.
fato certo,
me tomava imóvel,
puro ato.

era o silêncio.

no coração de uma cidade eu tinha os olhos abertos
e ouvia o silêncio.
era tudo o que escutava
e tão denso
que abria os olhos para o tudo mais.
ventava nessa ausência
e o frio apertava.

decidi-me por um pouco de solidão.
tirei minhas roupas
e talvez tenha cantado
(não me lembro bem, eram meados de setembro).

e assim,
nua, fria,
conheci elizabeth.
ela veio sem nada dizer
e olhava para um invés de mim,
resto roto
(ficou com o que a chuva não levou).

tinha-me segura entre as mãos transformadas em colcha,
absorta,
chamando um nome de eu.
elizabeth me cercava com seu calor,
embora não me aquecesse,
e dessa forma fui aprendendo seu nome.

assim a conheci.
tão doce quanto o pode a chuva.
assim que conheci eliza.

terça-feira, setembro 16, 2008

poesia

E foi-se o tempo em que, para ser bom poeta, era necessário cuspir sangue. Para ser bom médico, bastava a poesia de cortar a pele acessa, e dela ver brotar o mesmo sangue. Bom era o tempo em que vivia-se a lama grossa, e dela não se falava. Agora a lama do poeta maldito é não ter pro aluguel, agora a lama é levar corno (e quase achar bom).
Muito mais poetas as crianças viciadas em crack, equlibrando a boca entre a chupeta e o cigarro, náusea aguda, mas agora sem flor. Muito mais poetas.
Agora mal se escreve, surgem no horizonte apenas esses esquemas todos (tolos) da palavra. Ou de engenheiros, ou de desertores. Porque poetas não, apenas mal poetas.
E mesmo sabendo da hipocrisia de um cigarro acesso, mesmo sabendo da possível alegria de um poeta melancólico. Sabe-se que agora não há poesia, apenas má poesia.
Dos poetas de hoje, os sóbrios se entopem de história (ler escrever para se esquecer de ser), e os ébrios... ah, os ébrios.. contam o tempo em miligramas de prozac.

aforismo

não há resquício que se salve
sem que haja no olhar alguma perda.

que na água do balde eu vou-me embora

somos mais que sonho
sei percevejo o teu alcance
frango deslavado de uma dor
fino aceso desordenada mente
ruido deslavado
lavanderia
ladrilhos
luz lavada
na máquina de lavar
conexões rudes
concessões
porque eu, logo, sou rude.
primata
idade neo medieval
qual o seu nome
levar para a cama
e acordar com outra outra outra mulher.
três vezes mulher e outra.
acordar vendo a mulher da máquina de lavar
da lavanderia de ladrilhos lavados
do sol branco.
essa é a mulher.
foi dormir com o gosto de vinho azedo e o vestido.
foi dormir com o decote recortando o mar dos seios.
acordou com o sol lavando as ilusões.
acordou com vontade de coçar o cu.

samba sobre o infinito

cores sem cor
violinos.
ladrilhos furta-cor.
te espero abraço.
te quero leitoso fruto desenganado
ladainhas no compasso de uma mentira
(dançar essa mentira a dois).
quero-te quero-te
natural como um suspiro.
a imensidão do breu
em comparação aos seus olhos
nadademais.
o mistério das coisas que não sei o nome,
deixo de lado pra te procurar.
escuto o som do mundo.
deixo ele, massa impermeável, entrar em mim.
úmida da agua que escorre de outros olhos.
o céu está completamente cinza.
mas a praia abarca mil segredos
- ainda.
ando nesse espaço
entre o mar e o vento.
desenho nessa linha mil desejos,
de fundir-me mais e mais a esses contornos.
afogar-me na paisagem
e morrer para se igualar,
ao por do sol
nascer da lua.

sim

Sobre o que procuro
talvez encontre
talvez não.

Enquanto isso espero dizer muito sim.

quinta-feira, setembro 11, 2008

deus

eu não consigo mais escrever.
vai ver é porque parei de acreditar em deus.
não em deus-deus, esse velho barbudo que aparece a cada esquina.
outro deus...
o meu deus.

e na verdade ainda acredito nele,
acredito piamente.
o problema é que não acredito mais nele dentro de mim.
não imagino a mão dele no meu ombro como eu costumava.

mas deixa eu te falar um pouco do meu deus.
o meu deus é o silêncio.
o meu deus é a intuição,
o pressentimento.
o meu deus é o abismo entre a vida,
e a vida vazia.
o meu deus é a música,
é o amor que não sabe que é o amor.
ninguém pode (consegue, ou quer) falar do meu deus.
(nem eu).
o meu deus é a surpreendente alegria,
de quando tudo está suspenso,
funcionando bem, e sem peso,
na mais completa harmonia.
esse deus também é a escuridão,
(pois logo que se vê que é um deus sem culpa).
ele não pensa, porque não precisa pensar.
ele não tem metafísica, porque é metafísica.
e se esse deus tivesse forma,
então ele seria uma pedra.
não teria compaixão, taopouco piedade,
(com essa raça tão gasta que é a raça dos homens).
seria apenas uma pedra.

e se ele fosse uma palavra,
ele seria é.
seria é.
seria.

mas é.

mentira

o barulho da escada rolante do metro enchia de alguma coisa o que dentro mim eu chamava de peito. você, linda como sempre, relance do vento que levou minhas coisas embora, amarrava o tenis sem nenhuma alegria.
foi então que a mulher mais bonita do mundo venho na minha direção. ela deixava a escuridão da rua, com tanta certeza, e sorrindo pra mim, que eu implorava com o olhar para que ela parasse, ao invés do mundo.
ela atravessou-me. com a mesma pressa que olhara-me, mais preciso furara-me, antes. cuspida da escuridão, engulida pelo mundo mecânico do metro.
foi aí que você levantou. e não soube, não sabia, de tudo aquilo que era então o meu segredo. (não houvessem as câmeras de vigilância).
talvez então tenha procurado algo estranho dentro, fundo, dos meus olhos. e talvez tenha encontrado o rabo do vestido vermelho, saindo tão tarde de quadro.
ou talvez não, pois você mesma disse que ocupava-se a mais, olhando a si própria refletida no meu olhar. tentando se ver como eu te via, e falhando vez após vez.
vem e me dá sua mão, vamo embora desse saguão frio do metro, se você não tiver frio podemos virar naquelas esquinas. vem, e me dá sua mão. o mundo inteiro parou pra podermos ir embora, e eu ainda escuto o ruído da escada rolante.

segunda-feira, agosto 18, 2008

onírico

um lenço preso em uma árvore seria bom o suficiente para uma torrada com géleia,
e quem sabe uma limonada.
um lenço preso de dia,
visto a noite é o mesmo lenço,
assim como todas as coisas.

Entretanto é a noite que te perco,
entre o sono sem hora (só contra-tempo).
Agarro-me ao seu corpo,
finco as unhas nos teus sonhos que se vão,
areia pouca para minhas mãos afoitas.

Acordo.
O sol entra pela clarabóia.
Explicitamente nua,
te vejo em cima da cama.

domingo, agosto 17, 2008

rito

fárois marcam o nosso tempo essa noite.
verdes, vermelhos, proibições alternadas.
eu não respeito fárois quando a noite me toma pelos braços,
os fárois nunca me respeitaram,
apenas fitam-me irônicos.

verde, vermelho.
olho-te de esguelha,
não tenho medo nem de mim.

verde,
triste que a coragem seja da bebida.
sinto-me a marca do suor da semana a marcar-me a camisa.

verdes, vermelhos.
rés liberta do dia,
do pasto, da vida.
vingo-me de mim mesma,
de uma outra,
perversa,
que mantem-me sob custódia,
chantageando-me com minha própria cabeça entre os braços.
ri alto. luxúria entre os dentes.
é a neurose das mulheres,
um pouco histérica, ansiosa,
tem de tudo um pouco,
de toda essa massa homogênea do pior que há em ser mulher.

verdes, vermelhos,
rio dela,
com os dentes cheios,
se vermelho, é sangue.
a desafio,
sei que do de mim que a pertence sou eu
- alma e corpo.

passo rente aos abismos dessa cidade,
passo em todos os fárois errados.
verdes.. vermelhos...
querendo acordar com a cabeça na calçada.
que ciclo que quebro,
e em que ciclo que me afogo,
afagando vagos dionísios.
verdes e vermelhos.

sexta-feira, agosto 15, 2008

olhos de vidro

de repente saudades
daquela fragilidade escancarada na janela.
do medo daquele cabelo escuro,
(que pra mim eram como o seu ser mulher).
e da sua pele bem branquinha,
(como a menina, bem menina).

andávamos, iamos, nunca pra um onde.
e ela nunca deixava a janela.
olhava o sol, o vento batia nos cabelos,
viagens, noites, conversas,
sempre pra ser olhada da janela.

e de repente saudades.
não exatamente daquela figura distante,
distante do meu carinho,
mas de um olhar perdido no tempo.
olhar terno,
num paradoxo destemido
(pois tinha medo dos outros, mas não de si mesmo)
olhar terno,
perdido pelo caminho.

retrato da mediocridade enquanto estupenda

cheira forte. fundo. a voz na noite, um telefone no gancho.
entre o medo das pernas, cheira forte.
a vida, essa desconhecida.
(carência afetiva).
escovar os dentes pensando no futuro.
chá de ginseng, ebreus,
helenos, japoneses,
ébrios..
se tiver mãos, só cortadas.
flores desirrigadas
- rosas .

quinta-feira, agosto 14, 2008

liberdade

sobe as sobrancelhas. as mãos abraçadas no cerne da mesa. o olhar defendido, embora prometa entregas completas. - agora é a hora da verdade -. então se existisse tal coisa como o tarô das neuroses, angustias, perversões e traições, o abriria frente aqueles olhos malvados.
e menos que o tarô, existe a verdade. coisa pouca, coisa rala. verdadeiro arranjo arbitrário do momento. mais existe a mentira. a mentira de inventar a verdade. e esperar do momento algo para além de si mesmo.
além,
aquém,
adeus.

terapêutica

uma mão que fecha meus olhos.
uma mão que pousa a mão sobre meus olhos.
é escuro e mágoa.
lágrimas se misturam aos corregos das antigas nações.
tons subtons
tantos tons de cinza,
esquinas viradas de preto.
não bem choro,
mão dos olhos sobre o peito.
o coração cinza como as esquinas.
aperta-me sem pulso,
a dor é tirar o compasso da dor,
de viver que é o compasso da dor.

sábado, agosto 09, 2008

voyeur

dois ovos mexidos, não fritos.
uma xícara de leite quente.
então a liberdade de para a direita ou para a esquerda:
a solidão.
como esse espaço de escrever.
como a liberdade entre os parentesis.

entretanto,
tantas fechaduras a estragar o dia.

quinta-feira, agosto 07, 2008

na terra da chuva

tudo que mais me equivalia ausente no meu corpo.
como inventar um deus e um diabo
e os colocar diariamente na mesa de cabeçeira.
eu não sabia, exatamente, se era noite ou se era dia.
isso porque tudo reverberava como informação,
tudo.
o passado e o futuro.
enchendo-me aquele presente de matéria.

sei que chovia,
o céu vinha do azul e ia pro cinza
num fundo branco.
as árvores inutilmente cobriam minha cabeça,
tudo chovia
dentro e fora.

as pedras.
a lama, a terra.
o vento a chuva.
e o medo da incerteza.

e se então tudo alagasse
e se o mundo mesmo acabasse
nada mudaria,
exceto que esse grande vazio que nos faz andar,
ganharia plena vida
e viraria pânico.

domingo, julho 27, 2008

self

não sairei lá fora.
certamente a noite me engolira com sua boca inchada
- entumecida
além de provavelmente invisível.
fico aqui
com a luz.
os traços bem definidos de um rosto em decomposição.

1.
hoje a luz principal do banheiro estava apagada,
mas eu via os olhos e seus contornos com a luz que sobrava da sala.
escuras olheiras - eu lhe diria.
no entanto não lhe digo nada.

guardo segredo.

2.
o dia passou como uma mentira,
como um sonho que não se sabe exatamente se foi sonhado ou...
(o som do ar entrando nas costelas)
pressentido.
assim como lembro-me do passado
- e não do futuro.

3.
querida,
eu hoje te inventaria.
alguém que talvez merecesse essa carta,
engavetada no lúgubre sotão das minhas memórias.
(curvas alongadas, um soluço ausente, granito, estátuas de corujas)

não te invento.
pois tenho a você e a mim distantes dessa tão rala (e não esparsa) realidade.
realidade de rotos, cheia de detalhes, embora (apenas) vital quanto a poeira.

4.
escuta.
escuta bem.
mergulha no silêncio escondido por trás dessas palavras.

esse silêncio somos nós.

sábado, julho 19, 2008

substitui

pulsa a lua.
vem maré,
dá-me a mão.
o vento viaja sobre nossas cabeças.
tudo aquilo que nos liga sem nosso conhecimento.

a luz negra do breu,
a iluminar a disformidade,
ausência de limites,
internos excessos.

pulsa a lua,
pela janela aberta
converso com o mar.
lampejam ondas no vidro do meu olhar,
sei pois sinto o sal nas têmporas
e a escuridão de uma bem sucedida noite.

a terra se converte em espasmos,
viva, mulher, sob meus pés.
tua umidade explode dispare
por todos territórios.
a terra nos é,
quando, já,
não podemos nós ser.

quinta-feira, julho 17, 2008

peter

pra existir,
prescindo afirmar:
Sou.
Sei.

E então posso ter uma dor.

Embora saiba
- e sei
que dor tão calada,
tão sem nome,
tão sem dor,
só possa ser saudades.

odores frios

olhares perdidos no horizonte da mesa.
como a memória destituída de forma
- mas não de cor.
suspensos no ar,
em nenhum lugar,
odores frios.

unhas com cal,
dentes com terra.
o cheiro alcóolico do seu perfume sem odor.
rastros meus para apagar.

ser poeta

ser poeta
é saber as palavras exatas para cada coisa
- e não dize-las.

silêncio

tem tantos silêncios que ocupam minha alma.
silêncios densos,
úmidos.
são os poros de um dentro,
se dilatam conforme vem o vento,
me dizem,
todos os dias,
que útil mesmo é ver as coisas bonitas.

quinta-feira, julho 03, 2008

o frio de uma noite sem porquê.

como dois cãozinhos tristes,
seus olhos se sentaram ao meu lado.
a água que tinha certamente

(planificando as emoções em sede),

tentava possuir-me nesse enxame de abelhas.

e sua mão procurava a minha no escuro dessa indiferença,
e sua umidade muita ameaçava o meu calor derradeiro.

fostes embora num corcel dourado,
era eu que te mandava de volta para um passado,
noite fria, sem amor, sem ninguém a ser amado,
seus olhos ainda me olhando no escuro,
no fundo da noite,
com a ligeira imcompreensão de quem já entendeu,
- me dava medo.

nós pequenas, sombras apenas,
esmagadas contra um tempo suspenso.

peço perdão. verdadeiramente.
pois, tanta bobagem, e mesmo amor.
o frio de uma noite sem porquê.

saudades

como um corpo desfigurado
que a morte levou nos braços,
assim era o seu quarto vazio.

vagos traços familiares,
linhas - as mesmas
contornos - sem vida.

a calma de uma poeira antiga,
essa sim com vida própria,
a reclamar o quarto.

luzes passageiras,
brilhos sem lusco-fusco.
seu quarto também era como o passado.

pois de todas as vezes que estive lá,
dessa, lembrei a primeira.
lembrança como coisa viva,

mais viva que a vida,
mais viva que o dia,
mais viva que o quarto.

domingo, junho 29, 2008

difusa como as profundezas do mar.

eu quero aprender a língua do vento.
escuta, e se eu te cantasse,
e se eu te levasse?
não sabes cantar.
pois sei.
pois não.
não
sabes.
e elas cantaram as músicas dos passarinhos,
longe longe do vento.
eu passava os dedos pelos seus cabelos
e me perdia em labirintos inventados.
e então voava pra fugir disso tudo,
encantada,
que nem o outro moço lá,
pra ficar tanto perto do sol quanto do mar.
eis que encantadoras vidas me levaram as asas,
náufrago merecido.
eis-me num mito perfeito,
do herói naufrágio.
com todos os dedos da mão
e do pé,
e um a menos coração.

sábado, junho 28, 2008

esquizofrenia não

ah, como eu espero....
todos os dias,
estar perto de você pra me sentir mais sincera.

quinta-feira, junho 26, 2008

acordar

acordou.
o mundo inteiro e o seu corpo,
um bando de sensações difusas.
começou aos poucos:
percebia, talvez tarde demais, ou cedo,
que o mundo era um
e ele era outro.
sentia os pés,
tão longe....
envoltos no segredo cruel do frio.
e as mãos metidas dentro das calças,
a procura de algum calor miserável.
então o mundo talvez se repartia entre coisas,
a mulher ao lado acabava no limite de sua pele,
(imaginava),
a luz já era tarefa mais difícil,
assim como a chuva,
embora uma vez ele tivesse escutado que a umidade das mulheres
se assemelha a chuva.
olhou para o espelho do banheiro
entrevisto pela porta aberta,
sorrateiramente,
e aquilo o localizara novamente,
num tempo e espaço bem preciso,
(espantava os sonhos como cachorros vadios).
ele sentia fome e dor na coxa esquerda,
existia,
existia,
tudo não parava de lhe dizer.
e no entanto,
assim também lhe eram os sonhos,
que tinham algo da morte.
e algo o afastava
(ligeiramente)
daquilo tudo.
algo como um protótipo magnético
que ocupasse o seu lugar,
e que na hora de voltar,
ele ficara como está:
flutuando em órbitas inseguras,
em volta do próprio umbigo.

saudades de mim

rita, devolve o meu sossego, cansei de ser a única luz acesa da cidade, quando já é alta madrugada. rita mãe, se lembra de levar o lixo pra fora, amanhã me acorde com ternurna, que eu já não estou acostumada. dê um beijo nas minhas costas, e quando eu blasfemar e gritar e chorar, saiba que ainda não é hora de ir embora, é só meu desespero que a manhã trás. a vida meu amor, é esse eterno emudecer, percebe que é feita de dias, dias e dias? todas as horas contadas de uma vida.
escuta, me abraça forte mais uma vez, que eu não aguento mais saber o que é viver. porque todos os corpos são iguais, e todos nós temos nariz, e nariz é uma coisa pra lá de esquisita. somos todos tão esquisitos. e às vezes eu realmente penso que lido com pessoas de aço, ou que se não, ao contrário, são como pequenas nuvens tenazes, me acertando com sua umidade. esses são os piores. esses só sopro. porque nem revidar eu posso. tento lhes acertar um soco, e as nuvens desenham novos desenhos.
rita, me trás mais uma dose, ou quem sabe vamos jogar um jogo. você me conta uma história, eu te conto outra, a gente se reveza nisso de se olhar, e vai tecendo uma história fabulosa que só termina quando acabar.
querida, me dá suas mãos, vamos combinar de ser macias, eu só quero me distrair, a gente se abraça de um jeito novo, e daí não vai ser se abraçar.
minha flor, eu não me reconheço, estou cansada dessa pessoa aqui jogando minhas palavras fora, vem pra perto de mim, você que também taopouco existe, suga minhas entranhas quando for a hora. e não se esquece, meu amor, de depois levar o lixo lá fora.

medo

a umidade da pedra agarrava-se aos seus lábios,
florestas inteiras dentro dela,
escurecendo.
sons sem donos,
difusos,
seus dêmonios, o mundo dentro e fora dela,
a mesma massa orgânica.
em algum ponto ela pediu perdão.
abaixou-se de joelhos rente à água,
e fechou os olhos.
há tempos não ouvia as palavras,
mas fez com as mãos uma concha,
e preenchendo-as de matéria sua,
as levantou em libação,
fazendo ranger as rodas do tempo.

quarta-feira, junho 25, 2008

pineu

ela acordava todos os dias às 5 e 40.
achava justo ver o sol,
já que todos os dias ele voltava a nascer.
ela acordava e vestia sua pele que deixara secando na noite passada,
punha os olhos cuidadosamente,
os cabelos,
os dentes,
tudo menos os buracos,
uma vez que durmira com eles.
então ela lembrava do mundo,
(e isso era o sol quem o fazia),
e ela lembrava de vestir as saudades,
com cuidado para as alegrias e as lágrimas não se misturarem,
vestia os ódios, cuidadosamente separados das ideologias,
punha o ócio e a vaidade,
a gula, o êxtase absoluto, e também aquela velha sensação cheia de mofo,
o nada.
o mundo continuava então a nascer,
os orvalhos invariavelmente evaporavam,
os passos continuavam,
e os sons eram pressentidos.
para ela, isso pouco importava,
fazia tanto tempo que tudo isso acontecia,
que já nem era mais tempo,
era retorno,
em espiral o infinito.
entretanto, um dia, desatenta,
ela vislumbrara o tempo,
pois ao vestir sua desusada sensação de nada
notara que o mofo quase a havia destruido por completo.
e, apesar dela nunca lançar mão de tal sensação,
isso a preucupara, e a aflingira.
e assim foi, pelos próximos meses,
logo antes do sol nascer, ela aproximava-se do nada,
e lá estava, um pouco mais daquela rara penugem
meio esverdeada.
então um dia,
não se sabe exatamente se se passaram anos, meses, ou vidas,
a sensação de nada desaparecera,
não transformara-se em pó,
mas transformara-se em nada.
e ela, que vivia bem ali,
pois acreditava na imersão do tempo,
de que tudo era o mesmo ontem,
e de que de tanto tudo, ela não precisaria de mais nada,
caiu por terra de joelhos.
sentiu então gotas de saudades descerem-lhe pelo pescoço
(e também lembrou de recolhe-lhas, para as vestir no dia seguinte),
lembrou através da memória,
e sentiu raiva e vaidade,
por ter o seu nada perdido,
e riu de êxtase absoluto,
pois perdida em desespero.
e quando desvestida,
em pleno dia,
de todos os seus caprichos, peles, e meios dias,
inflou-se de uma antiga sensação,
que se chamava vazio real que é viver,
e então ela a apelidou de nada,
esqueceu-se,
e viva, adormeceu,
infinitamente.

terça-feira, junho 24, 2008

a noite

escuto o teu nome na noite,
como o frio que de repente toma meus braços,
e de repente se torna incerteza.
escuto seu nome em vão,
tento te alcançar com meus braços,
chamo seu nome,
te chamo querida,
nunca, jamais, te alcanço.
a noite é infinita,
a escuridão da noite,
o silêncio da noite.
escuto seu nome,
e percebo que ele vem de mim.
não me escutarás,
não verás o meu calor chegar,
a noite é imensa
a noite é vulgar.

que raios

quando ela vier que eu esteja encantada,
que ela feche meus olhos com um sopro
que eu possa não pensar em nada.
quando ela vier
que venha de preto.
quando ela vier
que só eu a veja,
e que ela toque minhas mãos.
que ela me leve,
quando tudo for só trevas.
que pela minha boca saia minha alma,
para que igual a ela eu me torne.
negra, a morte.

segunda-feira, junho 23, 2008

ritmo

Eu
Ando
Nu

E o vento que me leve.

Tenho
Sim
Pois Não

Diabo que carregue.

De
Um
Fio Terra

Sequer uma vontade.

Sou
Muito
Pura

E cheia de idéias.

domingo, junho 22, 2008

oração

cortar os cabelos como quem decora nomes
insistir nos mesmos erros
se lembrar de se esquecer
perder o prumo - e as passagens
roubar o frio de uma flor
desfazer-se dos deuses
coisas dessa quarta-feira
amar entre os pés de laranjeira
atear fogo na terra
apresentar o vento à mágoa
desconhecer.

algueres mulheres

ser
ter e temer
tremer
de prazer
esperar
algo da vida
algo belo
algo em cheio
algum incenso
sem senso um cheiro
eu e você
momento acesso.

um segredo

suspenso no ar
- aquele momento.

como se escuro,
as mãos tatiando o caminho,
para desaprender as carícias que nos farão tanta falta.

os olhos mais bonitos que sempre,
já guardam outras imagens,
sonhos de outros sonhos.

meios sorrisos
verdades inteiras

palavras erradas
apostas fechadas

as coisas bonitas
explodiam na sua boca
(bolhas de sabão)
e me dava vontade de chorar.

um pedaço de presente
com os braços agarrando o passado.

um último olhar antes de continuar andando,
como quem sabe guardar um segredo.

quinta-feira, junho 19, 2008

as armas e os barões assinalados

ouvir como conchas do mar,
andar com soluços secos,
se ver e não se olhar.

a sala está vazia.
a cidade convulsiona pela janela aberta.
o corpo que lê o jornal,
não fede nem cheira,
vira as páginas mecanicamente,
e tem o mundo nas mãos,
(embora não tenha conhecido, ainda, os vizinhos).

enquanto isso
seu coração descontrolado,
dúbio, ébrio,
canta vidas outras,
dentro de suas esquinas,
um sim, ou não - talvez.

num dos quartos de sua alma um leão,
com as jubas vastas, os olhos calmos,
com a sapiedade de vidas passadas.
o leão espera afoitamente que o mágico,
que mora no quarto ao lado,
traga-lhe a carne moída do almoço.
(na falta de fêmeas, mágicos).

num andar acima mora a cantora de jazz,
e sua coleção de vestidos.
toda noite ela canta para uma platéia vazia
(todos preferem o show de horrores do quarto andar),
embora escute em seu peito a explosão da salva de palmas.

há muitos quartos,
há muitas pessoas.
gordos, carecas, sereias,
e até um anão,
apaixonado pelo frigobar.

mas entre tantos quartos e gêneros,
há uma porta que a menina dos olhos puxados não ousa abrir.
o quarto tem seu próprio pulso,
suas próprias idéias,
suas próprias paixões.
nele o vinho vira água,
os filhos mais velhos,
das moscas e das rãs,
morrem com feridas na pele.
há frio e escuridão,
e a vontade determinada de que um dia
(talvez tarde, talvez nunca)
as portas se abram,
e numa linha contínua e infinita,
saiam todos
resíduos emprestados de uma vida,
cigarras e gafanhotos.