terça-feira, setembro 23, 2008

bonobo

lá em casa todos temos carro. gostamos bastante de o ter, pois um dos nossos passatempos favoritos consiste em atropelar pássaros. quando andamos preocupados com qualquer coisa pela cidade, nos alegramos bastante quando os avistamos no asfalto. então com um sorriso no rosto e os olhos concentrados aceleramos o carro e esperamos ter sorte. se o acertamos a alegria é garantida pelo resto do dia, e ao voltar para casa contamos para toda família reunida em volta da mesa. porém, se erramos ficamos sérios, e esperamos consertar o erro antes de chegar nas redondezas da nossa casa. quando estou junto de mamãe nessa exata circustância, às vezes imagino que ela poderia dizer algo parecido com "como será que pássaros, tão verdadeiramente animais, conseguem viver em uma cidade como essa?", e que então eu poderia tristemente pensar "não são eles os únicos animais a viverem esse absurdo". porém, ela nada diz, e eu, portanto, nada penso. acostumadas que estamos em, tendo carros, atropelar pássaros.

sábado, setembro 20, 2008

úmido inverno dos trópicos

Abriu os olhos,
na boca palavra alguma,
nada palpitava.

No frio que não fazia
seus ossos estalavam úmidos.

O sol (leitosa matéria)
era tudo o que eles não eram.
Preenchia por completo,
solidez que ninguém anteviu.

Posta em liberdade por outro tempo,
assim,
a tristeza voltou.

úmido inverno dos trópicos.

2° tempo

um caos desordenado com vagas morais planando. então me coloco no mundo com toda a ambiguidade que me é justa. meu quinhão de bondade, meu quinhão de maldade, e toda sacanagem.

o mundo

Quando fico nesses estados uma porção de coisas acontecem.
Normalmente vejo as luzes da noite em tons de verde,
mas imagino que isso não interesse a ninguém.
O que talvez interesse mais sejam esses fatos banais,
de o viver com raiva, ou comiseração.
Imagino que culpando-os de qualquer forma.

Mas dessa vez não (não).
Dessa vez parece que com os mesmos olhos embotados
de mundo,
possa os ver como qualquer coisa como justa.

elizabeth

elizabeth pedia para nascer dentro de mim.
o dia inteiro
(ou o mês, a semana, não me lembro bem)
ignorava esses impulsos que julgava tolos.

porque, afinal, para mim escrever sempre foi o abrir de uma torneira sob pressão.
(inútil torneira,
consolando uma represa inteira).

então eu sentia elizabeth chamando seu próprio nome,
num fundo, bem fundo, de mim.

talvez durante o banho,
ou no trânsito,
em qualquer momento em que,
julgo,
elizabeth gostaria de estar.
(em qualquer banalidade própria da poesia).

a ignorei,
a ignorava,
pois sentia essa nova tristeza
(densa úmida e branca),
abraçando-me os músculos,
apertando-me os braços,
tesa - me chamando para dançar.

confundia elizabeth com essa outra de quem falava.
e para outra não achava lugar em vida tão vaga.
mal sabendo eu, que apenas comprava-lhe tempo
para nutrir-se do meu fígado,
espalhando-se como coisa contraída.

então um dia eu ouvi algo.
não tão longinquo quanto elizabeth.
fato certo,
me tomava imóvel,
puro ato.

era o silêncio.

no coração de uma cidade eu tinha os olhos abertos
e ouvia o silêncio.
era tudo o que escutava
e tão denso
que abria os olhos para o tudo mais.
ventava nessa ausência
e o frio apertava.

decidi-me por um pouco de solidão.
tirei minhas roupas
e talvez tenha cantado
(não me lembro bem, eram meados de setembro).

e assim,
nua, fria,
conheci elizabeth.
ela veio sem nada dizer
e olhava para um invés de mim,
resto roto
(ficou com o que a chuva não levou).

tinha-me segura entre as mãos transformadas em colcha,
absorta,
chamando um nome de eu.
elizabeth me cercava com seu calor,
embora não me aquecesse,
e dessa forma fui aprendendo seu nome.

assim a conheci.
tão doce quanto o pode a chuva.
assim que conheci eliza.

terça-feira, setembro 16, 2008

poesia

E foi-se o tempo em que, para ser bom poeta, era necessário cuspir sangue. Para ser bom médico, bastava a poesia de cortar a pele acessa, e dela ver brotar o mesmo sangue. Bom era o tempo em que vivia-se a lama grossa, e dela não se falava. Agora a lama do poeta maldito é não ter pro aluguel, agora a lama é levar corno (e quase achar bom).
Muito mais poetas as crianças viciadas em crack, equlibrando a boca entre a chupeta e o cigarro, náusea aguda, mas agora sem flor. Muito mais poetas.
Agora mal se escreve, surgem no horizonte apenas esses esquemas todos (tolos) da palavra. Ou de engenheiros, ou de desertores. Porque poetas não, apenas mal poetas.
E mesmo sabendo da hipocrisia de um cigarro acesso, mesmo sabendo da possível alegria de um poeta melancólico. Sabe-se que agora não há poesia, apenas má poesia.
Dos poetas de hoje, os sóbrios se entopem de história (ler escrever para se esquecer de ser), e os ébrios... ah, os ébrios.. contam o tempo em miligramas de prozac.

aforismo

não há resquício que se salve
sem que haja no olhar alguma perda.

que na água do balde eu vou-me embora

somos mais que sonho
sei percevejo o teu alcance
frango deslavado de uma dor
fino aceso desordenada mente
ruido deslavado
lavanderia
ladrilhos
luz lavada
na máquina de lavar
conexões rudes
concessões
porque eu, logo, sou rude.
primata
idade neo medieval
qual o seu nome
levar para a cama
e acordar com outra outra outra mulher.
três vezes mulher e outra.
acordar vendo a mulher da máquina de lavar
da lavanderia de ladrilhos lavados
do sol branco.
essa é a mulher.
foi dormir com o gosto de vinho azedo e o vestido.
foi dormir com o decote recortando o mar dos seios.
acordou com o sol lavando as ilusões.
acordou com vontade de coçar o cu.

samba sobre o infinito

cores sem cor
violinos.
ladrilhos furta-cor.
te espero abraço.
te quero leitoso fruto desenganado
ladainhas no compasso de uma mentira
(dançar essa mentira a dois).
quero-te quero-te
natural como um suspiro.
a imensidão do breu
em comparação aos seus olhos
nadademais.
o mistério das coisas que não sei o nome,
deixo de lado pra te procurar.
escuto o som do mundo.
deixo ele, massa impermeável, entrar em mim.
úmida da agua que escorre de outros olhos.
o céu está completamente cinza.
mas a praia abarca mil segredos
- ainda.
ando nesse espaço
entre o mar e o vento.
desenho nessa linha mil desejos,
de fundir-me mais e mais a esses contornos.
afogar-me na paisagem
e morrer para se igualar,
ao por do sol
nascer da lua.

sim

Sobre o que procuro
talvez encontre
talvez não.

Enquanto isso espero dizer muito sim.

quinta-feira, setembro 11, 2008

deus

eu não consigo mais escrever.
vai ver é porque parei de acreditar em deus.
não em deus-deus, esse velho barbudo que aparece a cada esquina.
outro deus...
o meu deus.

e na verdade ainda acredito nele,
acredito piamente.
o problema é que não acredito mais nele dentro de mim.
não imagino a mão dele no meu ombro como eu costumava.

mas deixa eu te falar um pouco do meu deus.
o meu deus é o silêncio.
o meu deus é a intuição,
o pressentimento.
o meu deus é o abismo entre a vida,
e a vida vazia.
o meu deus é a música,
é o amor que não sabe que é o amor.
ninguém pode (consegue, ou quer) falar do meu deus.
(nem eu).
o meu deus é a surpreendente alegria,
de quando tudo está suspenso,
funcionando bem, e sem peso,
na mais completa harmonia.
esse deus também é a escuridão,
(pois logo que se vê que é um deus sem culpa).
ele não pensa, porque não precisa pensar.
ele não tem metafísica, porque é metafísica.
e se esse deus tivesse forma,
então ele seria uma pedra.
não teria compaixão, taopouco piedade,
(com essa raça tão gasta que é a raça dos homens).
seria apenas uma pedra.

e se ele fosse uma palavra,
ele seria é.
seria é.
seria.

mas é.

mentira

o barulho da escada rolante do metro enchia de alguma coisa o que dentro mim eu chamava de peito. você, linda como sempre, relance do vento que levou minhas coisas embora, amarrava o tenis sem nenhuma alegria.
foi então que a mulher mais bonita do mundo venho na minha direção. ela deixava a escuridão da rua, com tanta certeza, e sorrindo pra mim, que eu implorava com o olhar para que ela parasse, ao invés do mundo.
ela atravessou-me. com a mesma pressa que olhara-me, mais preciso furara-me, antes. cuspida da escuridão, engulida pelo mundo mecânico do metro.
foi aí que você levantou. e não soube, não sabia, de tudo aquilo que era então o meu segredo. (não houvessem as câmeras de vigilância).
talvez então tenha procurado algo estranho dentro, fundo, dos meus olhos. e talvez tenha encontrado o rabo do vestido vermelho, saindo tão tarde de quadro.
ou talvez não, pois você mesma disse que ocupava-se a mais, olhando a si própria refletida no meu olhar. tentando se ver como eu te via, e falhando vez após vez.
vem e me dá sua mão, vamo embora desse saguão frio do metro, se você não tiver frio podemos virar naquelas esquinas. vem, e me dá sua mão. o mundo inteiro parou pra podermos ir embora, e eu ainda escuto o ruído da escada rolante.

segunda-feira, agosto 18, 2008

onírico

um lenço preso em uma árvore seria bom o suficiente para uma torrada com géleia,
e quem sabe uma limonada.
um lenço preso de dia,
visto a noite é o mesmo lenço,
assim como todas as coisas.

Entretanto é a noite que te perco,
entre o sono sem hora (só contra-tempo).
Agarro-me ao seu corpo,
finco as unhas nos teus sonhos que se vão,
areia pouca para minhas mãos afoitas.

Acordo.
O sol entra pela clarabóia.
Explicitamente nua,
te vejo em cima da cama.

domingo, agosto 17, 2008

rito

fárois marcam o nosso tempo essa noite.
verdes, vermelhos, proibições alternadas.
eu não respeito fárois quando a noite me toma pelos braços,
os fárois nunca me respeitaram,
apenas fitam-me irônicos.

verde, vermelho.
olho-te de esguelha,
não tenho medo nem de mim.

verde,
triste que a coragem seja da bebida.
sinto-me a marca do suor da semana a marcar-me a camisa.

verdes, vermelhos.
rés liberta do dia,
do pasto, da vida.
vingo-me de mim mesma,
de uma outra,
perversa,
que mantem-me sob custódia,
chantageando-me com minha própria cabeça entre os braços.
ri alto. luxúria entre os dentes.
é a neurose das mulheres,
um pouco histérica, ansiosa,
tem de tudo um pouco,
de toda essa massa homogênea do pior que há em ser mulher.

verdes, vermelhos,
rio dela,
com os dentes cheios,
se vermelho, é sangue.
a desafio,
sei que do de mim que a pertence sou eu
- alma e corpo.

passo rente aos abismos dessa cidade,
passo em todos os fárois errados.
verdes.. vermelhos...
querendo acordar com a cabeça na calçada.
que ciclo que quebro,
e em que ciclo que me afogo,
afagando vagos dionísios.
verdes e vermelhos.

sexta-feira, agosto 15, 2008

olhos de vidro

de repente saudades
daquela fragilidade escancarada na janela.
do medo daquele cabelo escuro,
(que pra mim eram como o seu ser mulher).
e da sua pele bem branquinha,
(como a menina, bem menina).

andávamos, iamos, nunca pra um onde.
e ela nunca deixava a janela.
olhava o sol, o vento batia nos cabelos,
viagens, noites, conversas,
sempre pra ser olhada da janela.

e de repente saudades.
não exatamente daquela figura distante,
distante do meu carinho,
mas de um olhar perdido no tempo.
olhar terno,
num paradoxo destemido
(pois tinha medo dos outros, mas não de si mesmo)
olhar terno,
perdido pelo caminho.

retrato da mediocridade enquanto estupenda

cheira forte. fundo. a voz na noite, um telefone no gancho.
entre o medo das pernas, cheira forte.
a vida, essa desconhecida.
(carência afetiva).
escovar os dentes pensando no futuro.
chá de ginseng, ebreus,
helenos, japoneses,
ébrios..
se tiver mãos, só cortadas.
flores desirrigadas
- rosas .

quinta-feira, agosto 14, 2008

liberdade

sobe as sobrancelhas. as mãos abraçadas no cerne da mesa. o olhar defendido, embora prometa entregas completas. - agora é a hora da verdade -. então se existisse tal coisa como o tarô das neuroses, angustias, perversões e traições, o abriria frente aqueles olhos malvados.
e menos que o tarô, existe a verdade. coisa pouca, coisa rala. verdadeiro arranjo arbitrário do momento. mais existe a mentira. a mentira de inventar a verdade. e esperar do momento algo para além de si mesmo.
além,
aquém,
adeus.

terapêutica

uma mão que fecha meus olhos.
uma mão que pousa a mão sobre meus olhos.
é escuro e mágoa.
lágrimas se misturam aos corregos das antigas nações.
tons subtons
tantos tons de cinza,
esquinas viradas de preto.
não bem choro,
mão dos olhos sobre o peito.
o coração cinza como as esquinas.
aperta-me sem pulso,
a dor é tirar o compasso da dor,
de viver que é o compasso da dor.

sábado, agosto 09, 2008

voyeur

dois ovos mexidos, não fritos.
uma xícara de leite quente.
então a liberdade de para a direita ou para a esquerda:
a solidão.
como esse espaço de escrever.
como a liberdade entre os parentesis.

entretanto,
tantas fechaduras a estragar o dia.

quinta-feira, agosto 07, 2008

na terra da chuva

tudo que mais me equivalia ausente no meu corpo.
como inventar um deus e um diabo
e os colocar diariamente na mesa de cabeçeira.
eu não sabia, exatamente, se era noite ou se era dia.
isso porque tudo reverberava como informação,
tudo.
o passado e o futuro.
enchendo-me aquele presente de matéria.

sei que chovia,
o céu vinha do azul e ia pro cinza
num fundo branco.
as árvores inutilmente cobriam minha cabeça,
tudo chovia
dentro e fora.

as pedras.
a lama, a terra.
o vento a chuva.
e o medo da incerteza.

e se então tudo alagasse
e se o mundo mesmo acabasse
nada mudaria,
exceto que esse grande vazio que nos faz andar,
ganharia plena vida
e viraria pânico.

domingo, julho 27, 2008

self

não sairei lá fora.
certamente a noite me engolira com sua boca inchada
- entumecida
além de provavelmente invisível.
fico aqui
com a luz.
os traços bem definidos de um rosto em decomposição.

1.
hoje a luz principal do banheiro estava apagada,
mas eu via os olhos e seus contornos com a luz que sobrava da sala.
escuras olheiras - eu lhe diria.
no entanto não lhe digo nada.

guardo segredo.

2.
o dia passou como uma mentira,
como um sonho que não se sabe exatamente se foi sonhado ou...
(o som do ar entrando nas costelas)
pressentido.
assim como lembro-me do passado
- e não do futuro.

3.
querida,
eu hoje te inventaria.
alguém que talvez merecesse essa carta,
engavetada no lúgubre sotão das minhas memórias.
(curvas alongadas, um soluço ausente, granito, estátuas de corujas)

não te invento.
pois tenho a você e a mim distantes dessa tão rala (e não esparsa) realidade.
realidade de rotos, cheia de detalhes, embora (apenas) vital quanto a poeira.

4.
escuta.
escuta bem.
mergulha no silêncio escondido por trás dessas palavras.

esse silêncio somos nós.

sábado, julho 19, 2008

substitui

pulsa a lua.
vem maré,
dá-me a mão.
o vento viaja sobre nossas cabeças.
tudo aquilo que nos liga sem nosso conhecimento.

a luz negra do breu,
a iluminar a disformidade,
ausência de limites,
internos excessos.

pulsa a lua,
pela janela aberta
converso com o mar.
lampejam ondas no vidro do meu olhar,
sei pois sinto o sal nas têmporas
e a escuridão de uma bem sucedida noite.

a terra se converte em espasmos,
viva, mulher, sob meus pés.
tua umidade explode dispare
por todos territórios.
a terra nos é,
quando, já,
não podemos nós ser.

quinta-feira, julho 17, 2008

peter

pra existir,
prescindo afirmar:
Sou.
Sei.

E então posso ter uma dor.

Embora saiba
- e sei
que dor tão calada,
tão sem nome,
tão sem dor,
só possa ser saudades.

odores frios

olhares perdidos no horizonte da mesa.
como a memória destituída de forma
- mas não de cor.
suspensos no ar,
em nenhum lugar,
odores frios.

unhas com cal,
dentes com terra.
o cheiro alcóolico do seu perfume sem odor.
rastros meus para apagar.

ser poeta

ser poeta
é saber as palavras exatas para cada coisa
- e não dize-las.

silêncio

tem tantos silêncios que ocupam minha alma.
silêncios densos,
úmidos.
são os poros de um dentro,
se dilatam conforme vem o vento,
me dizem,
todos os dias,
que útil mesmo é ver as coisas bonitas.

quinta-feira, julho 03, 2008

o frio de uma noite sem porquê.

como dois cãozinhos tristes,
seus olhos se sentaram ao meu lado.
a água que tinha certamente

(planificando as emoções em sede),

tentava possuir-me nesse enxame de abelhas.

e sua mão procurava a minha no escuro dessa indiferença,
e sua umidade muita ameaçava o meu calor derradeiro.

fostes embora num corcel dourado,
era eu que te mandava de volta para um passado,
noite fria, sem amor, sem ninguém a ser amado,
seus olhos ainda me olhando no escuro,
no fundo da noite,
com a ligeira imcompreensão de quem já entendeu,
- me dava medo.

nós pequenas, sombras apenas,
esmagadas contra um tempo suspenso.

peço perdão. verdadeiramente.
pois, tanta bobagem, e mesmo amor.
o frio de uma noite sem porquê.

saudades

como um corpo desfigurado
que a morte levou nos braços,
assim era o seu quarto vazio.

vagos traços familiares,
linhas - as mesmas
contornos - sem vida.

a calma de uma poeira antiga,
essa sim com vida própria,
a reclamar o quarto.

luzes passageiras,
brilhos sem lusco-fusco.
seu quarto também era como o passado.

pois de todas as vezes que estive lá,
dessa, lembrei a primeira.
lembrança como coisa viva,

mais viva que a vida,
mais viva que o dia,
mais viva que o quarto.

domingo, junho 29, 2008

difusa como as profundezas do mar.

eu quero aprender a língua do vento.
escuta, e se eu te cantasse,
e se eu te levasse?
não sabes cantar.
pois sei.
pois não.
não
sabes.
e elas cantaram as músicas dos passarinhos,
longe longe do vento.
eu passava os dedos pelos seus cabelos
e me perdia em labirintos inventados.
e então voava pra fugir disso tudo,
encantada,
que nem o outro moço lá,
pra ficar tanto perto do sol quanto do mar.
eis que encantadoras vidas me levaram as asas,
náufrago merecido.
eis-me num mito perfeito,
do herói naufrágio.
com todos os dedos da mão
e do pé,
e um a menos coração.

sábado, junho 28, 2008

esquizofrenia não

ah, como eu espero....
todos os dias,
estar perto de você pra me sentir mais sincera.

quinta-feira, junho 26, 2008

acordar

acordou.
o mundo inteiro e o seu corpo,
um bando de sensações difusas.
começou aos poucos:
percebia, talvez tarde demais, ou cedo,
que o mundo era um
e ele era outro.
sentia os pés,
tão longe....
envoltos no segredo cruel do frio.
e as mãos metidas dentro das calças,
a procura de algum calor miserável.
então o mundo talvez se repartia entre coisas,
a mulher ao lado acabava no limite de sua pele,
(imaginava),
a luz já era tarefa mais difícil,
assim como a chuva,
embora uma vez ele tivesse escutado que a umidade das mulheres
se assemelha a chuva.
olhou para o espelho do banheiro
entrevisto pela porta aberta,
sorrateiramente,
e aquilo o localizara novamente,
num tempo e espaço bem preciso,
(espantava os sonhos como cachorros vadios).
ele sentia fome e dor na coxa esquerda,
existia,
existia,
tudo não parava de lhe dizer.
e no entanto,
assim também lhe eram os sonhos,
que tinham algo da morte.
e algo o afastava
(ligeiramente)
daquilo tudo.
algo como um protótipo magnético
que ocupasse o seu lugar,
e que na hora de voltar,
ele ficara como está:
flutuando em órbitas inseguras,
em volta do próprio umbigo.

saudades de mim

rita, devolve o meu sossego, cansei de ser a única luz acesa da cidade, quando já é alta madrugada. rita mãe, se lembra de levar o lixo pra fora, amanhã me acorde com ternurna, que eu já não estou acostumada. dê um beijo nas minhas costas, e quando eu blasfemar e gritar e chorar, saiba que ainda não é hora de ir embora, é só meu desespero que a manhã trás. a vida meu amor, é esse eterno emudecer, percebe que é feita de dias, dias e dias? todas as horas contadas de uma vida.
escuta, me abraça forte mais uma vez, que eu não aguento mais saber o que é viver. porque todos os corpos são iguais, e todos nós temos nariz, e nariz é uma coisa pra lá de esquisita. somos todos tão esquisitos. e às vezes eu realmente penso que lido com pessoas de aço, ou que se não, ao contrário, são como pequenas nuvens tenazes, me acertando com sua umidade. esses são os piores. esses só sopro. porque nem revidar eu posso. tento lhes acertar um soco, e as nuvens desenham novos desenhos.
rita, me trás mais uma dose, ou quem sabe vamos jogar um jogo. você me conta uma história, eu te conto outra, a gente se reveza nisso de se olhar, e vai tecendo uma história fabulosa que só termina quando acabar.
querida, me dá suas mãos, vamos combinar de ser macias, eu só quero me distrair, a gente se abraça de um jeito novo, e daí não vai ser se abraçar.
minha flor, eu não me reconheço, estou cansada dessa pessoa aqui jogando minhas palavras fora, vem pra perto de mim, você que também taopouco existe, suga minhas entranhas quando for a hora. e não se esquece, meu amor, de depois levar o lixo lá fora.

medo

a umidade da pedra agarrava-se aos seus lábios,
florestas inteiras dentro dela,
escurecendo.
sons sem donos,
difusos,
seus dêmonios, o mundo dentro e fora dela,
a mesma massa orgânica.
em algum ponto ela pediu perdão.
abaixou-se de joelhos rente à água,
e fechou os olhos.
há tempos não ouvia as palavras,
mas fez com as mãos uma concha,
e preenchendo-as de matéria sua,
as levantou em libação,
fazendo ranger as rodas do tempo.

quarta-feira, junho 25, 2008

pineu

ela acordava todos os dias às 5 e 40.
achava justo ver o sol,
já que todos os dias ele voltava a nascer.
ela acordava e vestia sua pele que deixara secando na noite passada,
punha os olhos cuidadosamente,
os cabelos,
os dentes,
tudo menos os buracos,
uma vez que durmira com eles.
então ela lembrava do mundo,
(e isso era o sol quem o fazia),
e ela lembrava de vestir as saudades,
com cuidado para as alegrias e as lágrimas não se misturarem,
vestia os ódios, cuidadosamente separados das ideologias,
punha o ócio e a vaidade,
a gula, o êxtase absoluto, e também aquela velha sensação cheia de mofo,
o nada.
o mundo continuava então a nascer,
os orvalhos invariavelmente evaporavam,
os passos continuavam,
e os sons eram pressentidos.
para ela, isso pouco importava,
fazia tanto tempo que tudo isso acontecia,
que já nem era mais tempo,
era retorno,
em espiral o infinito.
entretanto, um dia, desatenta,
ela vislumbrara o tempo,
pois ao vestir sua desusada sensação de nada
notara que o mofo quase a havia destruido por completo.
e, apesar dela nunca lançar mão de tal sensação,
isso a preucupara, e a aflingira.
e assim foi, pelos próximos meses,
logo antes do sol nascer, ela aproximava-se do nada,
e lá estava, um pouco mais daquela rara penugem
meio esverdeada.
então um dia,
não se sabe exatamente se se passaram anos, meses, ou vidas,
a sensação de nada desaparecera,
não transformara-se em pó,
mas transformara-se em nada.
e ela, que vivia bem ali,
pois acreditava na imersão do tempo,
de que tudo era o mesmo ontem,
e de que de tanto tudo, ela não precisaria de mais nada,
caiu por terra de joelhos.
sentiu então gotas de saudades descerem-lhe pelo pescoço
(e também lembrou de recolhe-lhas, para as vestir no dia seguinte),
lembrou através da memória,
e sentiu raiva e vaidade,
por ter o seu nada perdido,
e riu de êxtase absoluto,
pois perdida em desespero.
e quando desvestida,
em pleno dia,
de todos os seus caprichos, peles, e meios dias,
inflou-se de uma antiga sensação,
que se chamava vazio real que é viver,
e então ela a apelidou de nada,
esqueceu-se,
e viva, adormeceu,
infinitamente.

terça-feira, junho 24, 2008

a noite

escuto o teu nome na noite,
como o frio que de repente toma meus braços,
e de repente se torna incerteza.
escuto seu nome em vão,
tento te alcançar com meus braços,
chamo seu nome,
te chamo querida,
nunca, jamais, te alcanço.
a noite é infinita,
a escuridão da noite,
o silêncio da noite.
escuto seu nome,
e percebo que ele vem de mim.
não me escutarás,
não verás o meu calor chegar,
a noite é imensa
a noite é vulgar.

que raios

quando ela vier que eu esteja encantada,
que ela feche meus olhos com um sopro
que eu possa não pensar em nada.
quando ela vier
que venha de preto.
quando ela vier
que só eu a veja,
e que ela toque minhas mãos.
que ela me leve,
quando tudo for só trevas.
que pela minha boca saia minha alma,
para que igual a ela eu me torne.
negra, a morte.

segunda-feira, junho 23, 2008

ritmo

Eu
Ando
Nu

E o vento que me leve.

Tenho
Sim
Pois Não

Diabo que carregue.

De
Um
Fio Terra

Sequer uma vontade.

Sou
Muito
Pura

E cheia de idéias.

domingo, junho 22, 2008

oração

cortar os cabelos como quem decora nomes
insistir nos mesmos erros
se lembrar de se esquecer
perder o prumo - e as passagens
roubar o frio de uma flor
desfazer-se dos deuses
coisas dessa quarta-feira
amar entre os pés de laranjeira
atear fogo na terra
apresentar o vento à mágoa
desconhecer.

algueres mulheres

ser
ter e temer
tremer
de prazer
esperar
algo da vida
algo belo
algo em cheio
algum incenso
sem senso um cheiro
eu e você
momento acesso.

um segredo

suspenso no ar
- aquele momento.

como se escuro,
as mãos tatiando o caminho,
para desaprender as carícias que nos farão tanta falta.

os olhos mais bonitos que sempre,
já guardam outras imagens,
sonhos de outros sonhos.

meios sorrisos
verdades inteiras

palavras erradas
apostas fechadas

as coisas bonitas
explodiam na sua boca
(bolhas de sabão)
e me dava vontade de chorar.

um pedaço de presente
com os braços agarrando o passado.

um último olhar antes de continuar andando,
como quem sabe guardar um segredo.

quinta-feira, junho 19, 2008

as armas e os barões assinalados

ouvir como conchas do mar,
andar com soluços secos,
se ver e não se olhar.

a sala está vazia.
a cidade convulsiona pela janela aberta.
o corpo que lê o jornal,
não fede nem cheira,
vira as páginas mecanicamente,
e tem o mundo nas mãos,
(embora não tenha conhecido, ainda, os vizinhos).

enquanto isso
seu coração descontrolado,
dúbio, ébrio,
canta vidas outras,
dentro de suas esquinas,
um sim, ou não - talvez.

num dos quartos de sua alma um leão,
com as jubas vastas, os olhos calmos,
com a sapiedade de vidas passadas.
o leão espera afoitamente que o mágico,
que mora no quarto ao lado,
traga-lhe a carne moída do almoço.
(na falta de fêmeas, mágicos).

num andar acima mora a cantora de jazz,
e sua coleção de vestidos.
toda noite ela canta para uma platéia vazia
(todos preferem o show de horrores do quarto andar),
embora escute em seu peito a explosão da salva de palmas.

há muitos quartos,
há muitas pessoas.
gordos, carecas, sereias,
e até um anão,
apaixonado pelo frigobar.

mas entre tantos quartos e gêneros,
há uma porta que a menina dos olhos puxados não ousa abrir.
o quarto tem seu próprio pulso,
suas próprias idéias,
suas próprias paixões.
nele o vinho vira água,
os filhos mais velhos,
das moscas e das rãs,
morrem com feridas na pele.
há frio e escuridão,
e a vontade determinada de que um dia
(talvez tarde, talvez nunca)
as portas se abram,
e numa linha contínua e infinita,
saiam todos
resíduos emprestados de uma vida,
cigarras e gafanhotos.

segunda-feira, junho 09, 2008

semente

respira, pulsa, entre as mãos
pequena matéria,
cria latente.

para a arvore, uma semente.
no tempo presente,
paciente o futuro.

cindir

uma voz chama meu nome.

antes calma, bem distante.

uma voz chama meu nome.
vira um fiabo de luz
se despedaça.

há carne
e nao há mais nada.

sexta-feira, junho 06, 2008

opaco reflexo

opaco reflexo,
que me adianta a vida.
a noite agarro-me ao escuro,
de tarde a ausência me arde,
me encontro apenas no banho.

opaco reflexo,
grita minha perda,
dos fazeres sem vontade,
atos tolos sem presente.

sexta-feira, maio 30, 2008

punho

o corpo não é corpo,
porque oco,
não guarda no eco,
lembrança.

no entanto o punho,
persistente signo do contrário,
quando encosta no vidro frio,
causa abafo.

terça-feira, maio 27, 2008

quem te ensinou a nadar

pois tens as mãos descalças.
o mês olha a lua,
e a mulher.
o dia olha o sol,
e antes de dormir,
as estrelas.
a música,
olha a vida,
o ritmo,
o tempo,
a melodia,
o olhar.

e antes de dormir,
as estrelas.

chover

o que dentro de mim chora.
o que dentro de mim ri.
pelo mesmo motivo que chove lá fora,
o que dentro de mim chora.

domingo, maio 25, 2008

gingas

Pessoa,
esse é o teu nome sem rosto.

Vestido Rodado,
essa é a tua pele.

Sorriso, Cheiro de Flor, Piso de Madeira.

- quer dançar comigo?

incomunicantes

olhos fechados.
pedras,
rostos,
lagos,
nada se move.

obscurecidas pálpebras,
espelhos,
de não ser carne nem éter,
ser noite,
indeterminada e difusa.

fecho os olhos
nada distingue.

para dentro:
Infinita.
(caos/origem)

para fora:
Terra esparsa.
(mansa/cru
determinada).

segunda-feira, maio 12, 2008

porosidade

essa manhã morta de escuro,
olha-se com os braços cruzados.

em cima do muro, manhã,
é daí que se vê,

suas cores pálidas.

essa luz que te toma ao largo,
enche meus olhos de horror,
breu luminoso
de atos sem voltas,

e palavras vazias.

é sem querer encarar-te os olhos que me entrego,
pois és absoluta manhã.
toma-me o tempo
toma-me o espaço,
invadindo-me em cada poro.

manhã, nasce
enquanto te olho.

sábado, maio 10, 2008

terra estrangeira - cinco minutos na vida de alguém.

as mãos andam tão frias, atrás das roupas bem escuras, anunciando o outono. não tem segredo que se abra para essa manhã, eu te olho, e sem energias para dizer as palavras que não importariam. você, por outro lado, sequer me olha. tem euforia nos dentes e quer achar algum raio de sol que te contamine. lateja vazio dentro, sequer chama dor, vira liberdade.
o dia está acabado, o mês, talvez a vida. eu canto acompanhada do silêncio, e não existe nem passado nem futuro. existe minha voz. e o silêncio dentro e fora dela.

quarta-feira, maio 07, 2008

com os olhos bem abertos

E repentinamente
eis-me com os olhos bem abertos
no meio de um contra-tempo.
os braços querem encontrar os limites dos dedos,
o cenho, franzido, sério,
diz de um tempo em que as coisas eram aceitadas dessa forma:
sem muitas perguntas.
o vento quer levar meu cabelo embora,
mas não leva,
pois resisto a tudo,
a todas as intempéries que de certa forma mereço,
com os mesmos olhos bem abertos.
Porém, não há matéria que minha mão resguarde,
todos os segundos me atravessam como o vento,
sinto-os por entre meus dedos,
como rarefeita areia,
e logo os esqueço.
como única lembrança uma ordem,
vinda não sei de onde,
sabe-se lá de quem,
de resistir inerte,
perante o vento e o tempo,
com os olhos bem abertos,
enquanto você não vem.

segunda-feira, abril 28, 2008

o sentido da luz vermelha

reconheço o instante denso,
lento, o encanto quanto
atravessa-me o mesmo peito.

da superfície
o momento imenso,
olha-me a luz como quem mergulha,
as profundezas escuras,
do céu do espírito ou mar.


de ser alegre, ou de ser triste,
Tocamo-nos com o coração fechado,
E é do mesmo abismo,
O que Deixamos para depois.

domingo, abril 27, 2008

paz nenhuma

Saber tudo isso não me garante paz alguma. O
pensamento põe suas mãos sob meus olhos, e com os
pés,
na minha úlcera se apoia.

terça-feira, abril 22, 2008

palavras

dar-se como quem não tem medo.
sem receio, viver é temer o tempo.
ébrio erro, a morte do desejo, o seio.

quinta-feira, abril 17, 2008

nostalgia ''

o tempo, esse pobre coitado,
deixa o vinho amargo.
o alcool sagrado,
não é doce nem é santo,
porque senão vinagre é casto.

não sei se é sono ou sobriedade,
se insônia ou se saudade,
o instante é o que se soma,
o que eu sei é o seu nome,
maria-mariana.

nostalgia '

foi quando na pele senti uma ponta de qualquer calor,
no corpo espontâneo, um estalo,
e tive medo quando percebi que deitando no meu ombro,
você podia escutar os meus segredos.

nostalgia

olha ao longe a figura
é seu filho e carrega
carrega o mundo nos ombros.
olha ao longe, observa
seus olhos perderam o brilho,
suas mãos perderem a maciez.
meu deus, olha e chora.
não há volta.
não será hoje nem amanhã.
olha seu filho,
fina flor da manhã,
perdeu as esperanças.
se tornou mais um de nós.
cegos e surdos,
olhando para o horizonte,
à procura de nossos filhos.



de quando eu era menor

se encontrar

olha nos meus olhos, quem sabe a gente possa se encontrar.

?

você sorri pra mim e assim como chegou, vai.
para sempre só o que deixará para mim.
e a outra, estirada no sofá, contando os dedos,
ignorando os beijos
do rapaz com os pés descalços.
é porque a música invade a sala
e inflama nosso peito caótico já
de fumaça.
através dela que ainda te vejo,
suas costas quietas,
quase sem desejo.
é noite e me basta,
o seu silêncio.

quarta-feira, abril 16, 2008

desvolução

o homem.
o homem é a falta.
o homem, é homem.
- existe para fora.

a pedra, pedra.
a pedra que não precisa saber.
a pedra é.
a pedra.

quinta-feira, abril 03, 2008

o sono

o preço de um beijo,
o fim das palavras,
(nem mesmo o silêncio).
sem poesia,
sem beijos,
sem fim:

marte

se você ainda tivesse a umidade de toda mulher.
se ainda me aquecesse ou me esfriassse.
se ainda,
umidade da chuva,
calor do trem,
medo do escuro.
o mundo me acolhe
e também me cospe,
como é e há de ser.
e você é só parte do mundo.

terça-feira, abril 01, 2008

contramão

marcha das formigas pra de baixo da minha cama
minha alma fica pros cupins
pra sobremesa dos besouros, ficam os olhos.

segunda feira cansada,
a mesma ensimesmada loucura
de balançar os sonos no trem.
meu braço alcança a parede,
mas quer encontrar o mundo.

é tarde,
a lua é o sol,
é tarde demais.

os olhos vermelhos da idéia
que viver não é motivo pra chorar,
as vontades enconstadas num canto,
recolhidas pelo lixeiro.

as flores são mortas e fartas,
e as sombras dos homens.

terça-feira, março 25, 2008

calças

você existe e eu existo. juro.
o que não juro é nos conhecermos.
sei que nos pressintimos,
a cada palavra errada,
e cada passo dado,
na direção contrária.

bem dentro da carne
(sem carne alguma
e sangue algum).
no fundo do pensamento
(sem conceitos
e sem devaneios).

pra lá da matéria,
mais longe que o tempo,
eu sou, você é.

nunca nos encontramos,
talvez sequer nos encontremos.
no entanto, ainda a vida é possível,
pois apesar de tudo,
(do certo e do absurdo),
ainda nos pressentimos.

segunda-feira, março 24, 2008

mão

uma das mãos está acesa. guarda ideias perdidas de tempos imemoriáveis. uma mão, arma branca do tempo, suspensa no espaço. a outra esconde-se no bolso. não fala, sequer pensa. os calos de uma reviravolta. uma nos ombros da vida, nas curvas do mundo.
e outra, cálida, na pele do bolso. pálida.
como as ideias nunca postas em prática. (pois isso significaria perda-las).

ser

é através dos meus olhos
o mundo.
através da linguagem
o que me é.
com as nossas palavras
as coisas
nunca absolutas.
com as mesmas palavras
o murmúrio
o som
o sim.
mas nunca o silêncio do silêncio.
falar para alcançar o pleno
do só no silêncio.
perder-se na transitoriedade das palavras,
perder-se em ser.
pois no início era o caos
e no fim era o silêncio.

domingo, março 23, 2008

desabar sobre os homens

era isso de te ter acordando e bocejando os quês da noite olhando prum sol mal posto no nosso teto. sonhava. acordava. não era. não sabia bem aonde começavam as vontades e as mentiras. tinha ainda o que pensava e o que sentia, e quase nada passava das marcas zonzas do sono. sei que as pálpebas se abriam (lentamente, como sem vontade) e eu tinha ali, explicitamente ali. era o corpo bonito estendido na solidão do colchão. e eu me via pelos olhos de quem não era, e sorria, das vontades mais puras que surgiriam em todas as horas do dia. era aquele o segundo da honestidade mais densa. quando eu te via abrir num suspiro e um sorriso enchia-me o dentro. eu te abraçava, e então voltava a dormir.

terça-feira, março 18, 2008

rua-tempo

quando ando na rua e vejo os postes vielas sintomas
sou de um invariável existir para fora.
provavelmente os passos tomam a largura da calçada
meus olhos se perdem por suas curvas
e nada mais ultrapassa.
mas assim como o vento bate no rosto,
e desmancha os pensamentos,
outras vezes me preencho.
e não por desejos
condições
ou medos,
mas de fundo ainda resto,
resto fundo de mim,
o que eu sou
que é sem fim.

quinta-feira, março 13, 2008

anda

quando fui embora
eu sequer pensava em você.
outra vez,
porque era apenas o sangue que pulsava
tantas e tantas vezes (você)
que não eram nem palavras.

não, eu não pensava em você
eu andava e as vozes que queriam te alcançar
formavam um coro em unissono
que eu decidi, a tempo, chamar de silêncio.

eu te tinha e eu te era
no fundo do espaço e do tempo
porque nada mais importava,
como agora nada importa.

sábado, março 08, 2008

abstinência

a noite ia longe
bêbados em vão tentavam voltar pra casa
as luzes iluminavam os quarteirões alaranjados
e a lucidez falava
gritava e aplaudia
por dentro dos copos vazios.

quarta-feira, março 05, 2008

malfeja

(é como se fechasse os olhos e as pálpebras em si não significassem nada)

como se viver de olhos fechados.

seus pés vacilam no solo,
o sangue quer fugir das veias,
das mãos que te tomam o corpo imberbe
mal sabe-se a procedência.
então o ralo desgosto do ser,
ignorando tudo aquilo que há de importar.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

pusilame

o dia passa por cima da minha cabeça:
não há escolha.
entretanto ela pulsa,
e continua pulsando.
instantes outros:
quando penso lembro e sou
e a rua com seus rostos anônimos e sóbrios.
quando decido para que lado vou,
e me perco faço e acho.
ligeiro prazer do vento,
sorriso de dentes claros,
para quando tudo está no seu tempo.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

espelho

passa a fome
passam as paisagens pela janela do carro
passam os conflitos os medos os pelos
passa a angústia do não ter
os inimigos
e até os amigos.
passa a vontade de beber.
só não passa você
de frente de um espelho
duelando consigo mesmo.

domingo, fevereiro 24, 2008

the big swallow

quando lhe toco a pele espero letras acordes poemas,
músicas inteiras,
com suas melodias.
és mulher
também as páginas em branco
que deixei em casa
e o violão que tanto te maltrata.
e quando perguntas se vamos bem as duas,
é que para todo o povo da rua,
e abre bem os olhos para nos ver passar,
pois dos poemas que li,
e das músicas que escutei,
és certamente a mais bem feita dessa matéria outra,
dos feitios da poesia
das promessas da ternura.

the big swallow

quando lhe toco a pele espero letras acordes poemas,
músicas inteiras,
com suas melodias.
és mulher
também as páginas em branco
que deixei em casa
e o violão que tanto te maltrata.
e é por isso que quando me perco por suas veredas,
reconhecendo,
uma por uma,
as suas ternuras,
para todo o povo da rua,
e abre os olhos para nos ver passar.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

fato I

começava a sentir dor aos poucos.
sempre aos poucos.
mamãe punha sua mão no ventre que se mexia convulsivamente. e a outra secava o suor que grudava os cabelos na testa.
o tempo se dividia nos compassos da dor,
e a sala pela proximidade das paredes.
era melhor viver assim,
com o problema já dado,
pois então não seria necessário gastar a rala criatividade com outro.
a sede era infinita, e já perdera a muito a característica primeira de tal quimera
(o vulto do saciar).

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

américa metáfora fácil

Perdoe-me deus, pois eu peco.
Faço-me prenda fácil de quem consola o âmago.
E de quem, com uma vista bonita,
engorda os bolsos (e o rebanho).
Cedo, todos os dias, à brancura fácil de falsas paredes,
e à presença morna da trilha sonora,
apenas pra poder, segurar o mundo lá fora.

domingo, fevereiro 03, 2008

gêmeos

quando eu a toco não estremeço por dentro, só por fora.
não anoiteço da vontade, e não me perco de desejo.
o meu toque, com ou sem consentimento,
é leve como os passos de quem dança e sabe,
pois de a ver não arrefeço.
beijos de boca fechada,
olhares fixos no nada,
carinhos de solidão.

a frieza de quem menos esperava,
e um eu que desconheço.

esquizo

eu, sempre enganado, pensava estar colecionando mentiras que decorariam o relicário do nosso sexo. pensava estar cortando uma por uma as predileções rituais do nosso sexo. a verdade é que independente da ordem dos fatores ou das palavras, eu pensava em sexo. porque, afinal, nessa época eu ainda pensava nisso.
Então eu ouvia um pouco mais de seus discos, e reincindia na constância suicida do alcool. o fim último da bebida para fortalecer as mentiras, expelir as verdades que inflamariam o ar de sua sala, repleta do nosso bafo roto de más vivências.
Bebemos, e fumamos. fizemos brindes, e principalmente mentimos. ela, quando inventava suas histórias. eu, quando fingia acreditar.
porque éramos novamente adão e eva, e éramos também criatura e criador, homem e mulher; Acima de tudo, éramos reús reincidentes, e por isso, é que deveríamos nos compulgir.
os discos continuavam a rodar na vitrola, como nossas cabeças em palmas de prata, como a sala, muito embora, continuasse parada.
duas músicas depois de seus primeiros passos bêbados, constrangido a acompanhar sua dança, a agarrei pelos cabelos, e como nos primeiros tempos, a levei para o quarto. - como no tempo em que as mulheres compreendiam seus pápeis, e a proximidade da vida com a vida de fato tornava tudo muito justo.
meus dedos duros tocavam seus mamilos excitados. meus dentes afiados os procuravam. eu a amava com meu ódio de ser fraco demais para nosso amor, e ela me odiando me amava, com seus mamilos duros e sua boca seca. ela era vítima da violência de desejar um homem misógino, e por sua vez retribuia-me evitando friamente o seu próprio desejo.
juntos, regurgitavamos a solidão à dois incrustrada em nossos despojos. nossos corpos nus emergindo na violenta febre da morte. nos odiando sem nos amar, do mesmo amor sem ódio que é o um ser dois que nunca se falam.
enfim, antes derrubados pela exaustão física da impossibilidade, do que pela desistencia em si, nos engalfinhamos como dois mafagotos. E dormimos enfim, o sono pesado dos justos.

esquizofrenia

"não é possível que essa cidade que se diz metrópole não tenha sequer cigarros...!". não. não era possível. simplesmente porque nada seria possível a tal altura do campeonato, nem o acidente de carro que poderia parecer provável a alguém de fora, nem a relação dos seus cigarros com a organização geopolítica das cidades. porque, afinal, não poderia ser qualquer cigarro, deveria ser o seu, só ele nos serviria (apesar da hora adiantada e da chuva). atravessaríamos desertos por um minister.
eu, com o sorriso calmo fingindo uma segurança inexistente, a seguia por todos os cantos, com a paciência grave de quem morre de fome. eu a desejava de uma fome inventada desde que pussera os pés pela primeira vez na soleira de sua porta. os vincos marcados do rosto, as histórias guardadas na memória ou perdidas no esquecimento de uma vida não mais jovem, e principalmente o alto teor de mentira que impria em tudo. e em todos.
a desejava com minha fome jovem e folgazã, como quem sabe a única chance repousada no acidente.
compramos seu cigarro. que nos custou 6 visitas rudes a botecos tétricos, uma leve batida no parachoques, alguma gasolina, e muitas mentiras. eu, sempre enganado, pensava estar colecionando mentiras que decorariam o relicário do nosso sexo. pensava estar cortando uma por uma as predileções rituais do nosso sexo. a verdade é que independente da ordem dos fatores ou das palavras, eu pensava em sexo. porque, afinal, nessa época eu ainda pensava nisso.
próximo item: ouvir um pouco mais de seus discos, reincidir na constância suicida do alcool, fortalecer a mentira, inflando o ar de sua sala com nosso bafo roto de más vivências.
pois bebemo-nos, e fumamos. fizemos tantos brindes, e principalmente mentimos. ela, quando eu inventava suas histórias. eu, quando fingia acreditar.
éramos novamente adão e eva, éramos também criatura e criador, homem e mulher; acima de tudo, éramos reús reincidentes, e por isso, soube depois, é que deveríamos pagar.
foi duas músicas depois de seus primeiros passos bêbados, que constrangido a acompanhar a dança a agarrei pelos cabelos, e como nos primeiros tempos, a levei para o quarto. como no tempo em que as mulheres compreendiam seus pápeis, e a proximidade da vida com a vida de fato tornava tudo muito justo.
meus dedos duros tocavam seus mamilos excitados. meus dentes afiados os procuravam. eu a amava com meu ódio de ser fraco demais para nosso amor, e ela me odiava me amando, com seus mamilos duros e sua boca seca. ela era vítima da violência de desejar um homem misógino, e por sua vez retribuia-me evitando friamente o seu próprio desejo.
juntos, regurgitavamos a solidão a dois incrustrada em nossos despojos. nossos corpos nus emergindo na violenta febre da morte. nos odiando sem nos amar, do mesmo amor sem ódio que é ser dois que nunca se falam.
enfim, antes derrubados pela exaustão física da impossibilidade, do que pela desistencia em si, engalfinharam-se como mafagotos e dormiram o sono dos justos.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

o mundo

como o gosto acre do corpo, a poeira seca da terra, rasteira sensação que segue o couro das cobras. abro teus olhos com meus dedos e te anoiteço por inteiro. o lado de fora chove, e o lado de dentro treme. já não há meios, sequer medos. da mesma matéria-mentira que é sua mão na minha, são as vozes que deixamos de ouvir. nessa ladainha de muitas curvas quem se perde sou eu.

rubens

os ventos que vem do mar, de mim não tomam conhecimento. perdendo quem quer das odisséias voltar, levando embora quem nunca partiu. com poucos escrúpulos, adentram nossas cidades, mudando os fluxos do dia, fazendo-nos ao abrir das janelas nos defrontarmos com as manhãs cinzas, brancas, e mesmo azuis, conforme os seus caprichos.

os ventos não favorecem ninguém, não se importam se já amanheci triste. pois se postam cinzas como memórias, e então chovem quando não há mais nada a fazer. há , porém, em dias como esses - arrogantes, malditos - outros meios pelos quais o sol, de mim, se aproxima - contrariando a vontade daquele que desconheçe meu nome. então, apesar da chuva, posso tocar o limiar virulento da vida. dias esses em que posso, além de todos os pré-nomes dados sem perdão, apenas sentar-me dentro de outros olhos e me reconhecer viva. lado a lado com um raro sujeito, sem grau algum de miopía na alma vasta.

meninas

a princípio é uma barreira impenetrável, quando sento ao seu lado e você não sabe meu nome. mas eu sei que é um caminho possível, é tentar ir com calma e pés cuidadosos. o mais importante é manter um fluxo caudaloso de atenção, você precisa saber que está segura, e te amparo como se te desse o braço. conduzo uma intermitência sutil entre meus olhos querendo comer sua alma, e meus olhos rondando o bar - pois eu sei que gosta de um tom blasê -. eventualmente cito cineastas, ou demonstro minha sensibilidade destrinchando os comportamentos ao redor. sei que ao final de duas ou três cervejas não serás minha, não serás minha nunca, e me alegro então.

quero sambar meu bem

Você que tem as mãos claras, as mãos limpas.
Pousa tua mão, na minha cara.
Deixa eu por os braços na sua volta.
Esquece todas as palavras do mundo,
por um instante,
esquece tudo.
Deixa eu te dar mais um beijo, pequena.
Esquece seus dramas, suas dores, seus discos.
Deixa eu te fazer um samba,
Na minha alma eu tenho tanto samba pra você.

espelho

osilêncio da multidão

por todas pequenas de milhares insignificantes janelas
- não interessa a ninguém.
pois ontem foi pessoa
entre as quadro paredes de um claustro inventado.
e hoje era eu

por quem a falta chamava o nome
e os rios e os mares não sufocavam a ausência.

terça-feira, janeiro 29, 2008

apenas

segurava a xícara com ambas as mãos, amparando a dureza dos olhos no etêreo vapor do chá. chá preto com jasmim. ouvia milton e queria fumar um cigarro. qualquer coisa para se esquecer de como o dia estava feio pra fora daquelas janelas. os dedos inquietos procuravam algum abrigo para a farta ausência de pensamentos. os dedos tamborilando procuravam nóticias nos jornais, maneiras de matar o tédio. nada. teria que mais uma vez esperar pelo livre arbítrio daquele fenômeno diário, esvanescer. teria que sentir antes os músculos relaxados e o pensamento longe. então os minutos passarão com fome e só se perceberá mais tarde. por enquanto deveria terminar o chá e ouvir o disco. por enquanto.

sábado, janeiro 26, 2008

solidão

então foi um não mais que de repente
e a mais densa paixão amansara-se em tristeza.
fraca, sem dedos,
uma tristeza calma, de já não machucar mais ninguém.
a vontade de fazer-se espuma
transformou-se em olhar o mar.
o mar que indo e vindo num não mais parar,
acalmava os ímpetos.
a alma estendeu-se na praia,
os dedos se incrustaram na areia,
os olhos se fizeram de pedra.
era um só por inteiro.
e por inteiro só
era.

tristeza'

eu tinha uma dor.
eu acordei, eu dormi,
e dentro de mim uma dor que me acompanhava.
como uma cantiga antiga,
como o abraço da saudade.
às vezes parecia querer me abandonar,
mas eu lhe implorava que não,
pois me acostumara com o latejar discreto e constante das dores difíceis.
se tudo passasse
então voltaria a me conformar com a exatidão das coisas,
e a vida fecharia suas asas de morte.
os amigos e as lembranças,
todos os dias seriam o bastante,
se eu tivesse uma dor.
se eu tivesse uma dor...

quinta-feira, janeiro 24, 2008

tristeza

é a tristeza que me toma pelos braços
é ela que diz-me do eterno emudecer diante das contrariedades.
com que direito?
e com que braços velados, por trás de quais véus?
passará carmim nos lábios, quando já bem perto,
chamar meu nome?

óculos escuros

olhe para a direita,
e por trás de seus ombros
as estrelas hão de cair no chão.
olhe para cima,
e a ferocidade da terra se abrirá sob seus pés
olhe para o chão,
e alguém repousará a mão entre seus olhos.
saiba entender o mesmo
(imenso) mistério
encravado na carne.
denso respeito calado,
latente morte entre nossos pés,
o mar,
a vida,
quando nos olhamos nos olhos.

poeira leve

de todas as palavras sussurradas em uma noite de ebriedade,
corpos fusos,
intenções outras,
nem tudo é da mesma límpida matéria do que só se pensa,
e sequer se sente.
tínhamos-nos da mesma maneira do não ter
que sempre fomos
quando ausentes em nós.
tua mão no meu rosto
repetindo a palavra de ordem,
não nos permitia ser mais do que:
eu, o meu medo
você, o seu.
conhecia de cor os amanhãs que nos separariam,
e que tornavam a noite uma malfeita miragem.
por entre minhas mãos que te procuravam atenciosamente
já teu corpo sumia
por entre meus braços que te apertavam violentamente
gritavas sua ausência de mim nesse mesmo corpo.
sempre tomadas por dois opostos que num distraído impasse
se juntam.
os mesmos que juntos não podem estar.
no fim não existíamos,
não podíamos,
não éramos.
no fim dormimos nosso sono pesado.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

tristeza

andava pela rua escura com a cabeça baixa embora assim se perdesse em sua promessa, a de olhar para as estrelas. logo as árvores, dejetos arqueológicos, como mulheres assustadas pelas mãos hábeis do vento. andava cada passo como o primeiro e procurava em sua imensidão algo exato. então fazia noite, e não era ao certo dentro ou fora dela, chovia mas não era água, eram as escatologias soltas durante o dia. tinha um medo grave repousado sobre os olhos, as pernas fracas pela vontade de chorar, os olhos azedos pela fome. as mãos tentavam desenhar futuros projetos no ar. continuava o caminho, vinha o céu, vinha o mar. chegara em casa.

sábado, janeiro 19, 2008

uma aprendizagem ou o livro dos prazeres

"acima de todas as coisas. não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. temos amontoado coisas e seguranças por não termos um ao outro. não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. temos disfarçado com falso amor nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. falar no que realmente importa é considerado uma gafe. não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. não temos sidos puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelos menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. temos chamado de fraqueza a nossa candura. temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. e a tudo isso consideramos a vitória de cada dia."

clarice.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

outro

do não saber nunca o nada
(pois não se sabe)
inventam-se mil minutos desperdiçados.
a mim basta-me não saber nada,
quando vejo
que não saber já basta.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

comunicação

sonharam.
o vento entrou pela janela
eu soube.

sucinto

página a página.
eu te esperava em cada esquina
sem saber,
era sem esperar
que eu estava lá.
entendi os olhos mais velhos que o corpo.
seus olhos perfuravam-me até o medo.
ele chegara até o oco,
e me olhava com a pedra.
sorria-me e além disso a barba no pescoço
atraia o meu foco,
se eu ainda estivesse distraída.
distraia-me com suas palavras
e me olhava.
perfurou-me
inundou-me.
era sem esperar,
que eu estava lá.

sábado, janeiro 05, 2008

preparação para um haikai

não tinha café,
não podia fumar.
decidiu estar com saudades,
por hábito,
ou ainda,
por tédio.
olhou sem muita pressa os retratos de um passado recente.
a dor de estômago pedia atenção
(as fotos não).
passava uma por uma,
como quem olha os pássaros na rua,
e não os nomeia:
de tutu, jeremias ou eleonora.

a chamavam do outro lado da rua,
até iria,
depois a solidão seria mais macia,
e mais pura.
voltaria pro seu quarto,
sentiria cada músculo,
o corpo de um adulto.
as roupas estiradas no chão
teriam algum conforto guardado.
o vento traria alguma doença,
e na pouca morte um corpo que treme,
vivo,
certamente.

saberia traçar planos rudes,
e guardar segredos covardes.

porém, tudo ruiria,
bastasse um aroma
suspenso no ar.

sábado, dezembro 29, 2007

tejo

quando existia no começo, existia mal e mal. voltava da escola sem nunca pensar estar pensando e dispunha toda a areia dos pés no lixo da entrada. olhava para as outras crianças com os velhos olhos arregalados esperando qualquer coisa possível. olhava-as esperando alguma coisa como sempre haveria de esperar. se alguém lhe tocasse o ombro e lhe contasse uma história teria a liberdade de torna-se um pouco daquilo e nunca mais lembrar de nada. se alguém a enredasse em sua atormentada ingenuidade choraria de pavor e juraria a vingança de quando fosse forte e entendesse o mundo.
passaram-se os anos e ainda lhe tocavam o ombro e a enganavam. ninguém a tinha muito em conta, nem olhava fundo nos olhos assustados. todos os dias voltava para casa, e já sabendo andar sem encher os pés de areia, tirava as tardes para pensar.
pensava em mundos outros, tomava posse de seus sonhos, e quando menos esperava, no décimo segundo andar de um prédio qualquer, tornava-se fielmente a menina dos olhos.
agora quando as mãos tentavam marcar-lhe os membros, esquivava-se como se nunca se acostumasse. era apenas sua, pois era de todos os mundos noturnos inventados desde a infância, que eram, na verdade, as mil e uma formas que ela inventara de ser.
os dias acabavam e as manhãs nunca cansavam de nascer. quando se cansava podia sempre deitar-se na pequena parte de chão que lhe cabia e olhar as poucas estrelas da cidade. olhava a imensidão do céu e algo lhe dizia que valhia a pena. a solidão dos olhares assustados, perpetuada pelos anos todos, e olhava o céu e se sentia olhada. e o vento batia e lhe contava as histórias que os homens esqueceram de contar. e pensava no mar para quando se sentisse muito nua, e ele pudesse a vestir.
pisava nas folhas porque elas estavam secas e estalavam do gozo de não estarem mais vivas. dos homens só esperava alguma coisa dos olhos, que sentia vivos, enquanto calados. então a noite chegava de mansinho, e ela dormia.

apesar-de

o som acabou,
para que alguém decida cantar.
choveu,
porque alguém quis se molhar.
o elevador parou,
mas você precisava mesmo pensar.
o dinheiro acabou,
e você parou de fumar.
viver é viver,
sempre apesar-de.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

mentira

quando você diz o meu nome em vão eu procuro desvencilhar-me dos véus do discurso para encontrar o seu rosto fujo das palavras que não dizem nada acho tudo um desperdício e procuro no seu rosto os seus olhos que não sabem mentir quando olho no seu olho eu sei que a vida é isso e não outra coisa e que as palavras são inúteis perante a água e o fogo mas você não diz o meu nome e é melhor que seja assim eu não procuraria os seus olhos nem os encontraria no seu rosto porque hoje eles aprenderam a mentir.

laticínio

suores odores calafrios
dedos frios,
esvai-se o sangue.
no espelho os lábios pálidos,
no corpo oco,
esvai-se a fome.
sentir-se mais uma
outra vez
como a morte.
não sentir saudades,
não querer,
e perder,
esvai-se o nome.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

bêbado e tarado

Charles Bukowski

"sim sim

quando deus criou amor ele não ajudou muito
quando deus criou cachorros ele não ajudou cachorros
quando deus criou plantas ele não fez nada de mais
quando deus criou ódio nós ganhamos uma utilidade
quando deus criou a mim ele me criou
quando deus criou o macaco ele estava dormindo
quando deus criou a girafa ele tinha bebido
quando deus criou narcóticos ele estava louco
e quando ele criou o suicídio ele estava miserável

quando ele criou você deitada na cama ele sabia o que ele estava fazendo
ele estava bêbado e louco e ele criou montanhas e o mar e o fogo ao mesmo tempo

ele fez alguns erros mas quando ele criou você deitada na cama
ele gozou em todo seu abençoado universo."

bom humor

dormir pouco virando os olhos inconstante corpo profuso em doença física; caminhar passos de sempre ruas conhecidas vazias sem sol; passar algum tempo com a família encher o ouvido de confusão irmão primo pai de novo irmão. não esperar mais nada se é filme ou enche de melodia. pois seguir o dia como seguem todos no rosto só sorriso.

corpo amanhecido,
pôr do sol urbano,
anoitecendo de bar em bar.

sábado, dezembro 22, 2007

formol

a sala está escura,
o prédio está vazio.
nenhum som,
a não ser as folhas secas a tilintar o vento.
nenhuma vontade,
a não ser a de evitar o medo.

companhia dos passos ocos
no chão de cimento.
invado o estar sincero
das coisas desta sala.
vivas longe destes olhos,
imóveis diante da porta aberta.

são orgãos e vísceras,
de matéria carcomida,
embaladas noite adentro
pelo formol e sua sombra.
esperam a morte,
suspensas,
em um tempo úmido,
e sem valor.

tocam-me o bumbo
insurdecedor,
do rufar dentro do peito.
pois já não há espera que crie acalanto,
e nem poro que resista a outro beijo.

sem vida alguma,
jaz o coração suspenso.
e não é formol, nem espera,
o líquido que o congela.
é apenas o que resta,
de anos e anos de quimera.
escorrendo pelas beiradas,
a aguardente solidão.

equívoco

e no início a noite não passava do constante esforço de manter-se em pé, com os olhos lúcidos, e um sorriso no rosto. pediam-me como oculta vontade o humor, e eu despejava sob suas cabeças uma porção de histórias absurdas, embora factuais, para que pudessem transferir o diário desgosto da vida para episódios pouco eloquentes (já que ainda não lhes contara o segredo da insone amargura do café amargo).
nenhuma bebida, nenhum cigarro, nenhum carinho oculto por trás das esquinas. então entendia que a noite deveria ser encarada de frente, sem medo. para tanto, deram-me o riso como única defesa, e para quando não aguentasse mais, o ombro dos mais amigos para que pudesse enconder o rosto. porém, deveria acima de tudo persistir nos impulsos, e acreditar que dormir é sempre a última saída.

eis que a vida transborda das beiradas mal comedidas da vida, e que em ambiente tão infecundo, nasce um sentimento sem nome, travestido nos últimos dias pelo nome da saudade. enche-me o peito vazio desse denso emudecer, e mesmo que o saiba o nome de erro, é impossível esvazia-lo pelo tempo.
na noite proclamada, procuro as saudades, que recusa-me os olhos. e então é a primeira vez que me toca o peito algo que não via a tempos. toca-me e repousa as mãos, os dedos delicados, como o tecido da morte, por cima das veias saltadas e mal contidas. é a primeira vez na noite, e cansa-me tanto o sorriso, que nem sequer previno o ato.
pois o tempo segue sem medo, e sem medo também o inesperado ocorre. continuo a falar como se por trás do laconismo viesse a morte. sinto-me nua perante o bar que gira em voltas absortas dentro de um pensamento, e volto a me vestir, desesperadamente, com as palavras que não cesso de vomitar sobre outros ouvidos. os pressinto com o fundo de mim, e sinto infinito o negro gotejar percorrendo o meu corpo.
passam instantes. sempre instantes e as máscaras caiem. o cansaço invade a têmpora, caio de joelhos perante todo e qualquer esforço. o sorriso transforma-se em mudez, e a dor em consolo.
a mão, que antes delicada, amparava o músculo cardíaco no escuro do dentro, passa a asperamente o contorcer, como se o sangue fosse suco possível de infeliz resignação. o coração freme a cada aperto de mãos fortes, e sem resistência, cede à tristeza e seu estandarte.
o nada, antes previsto, devolve à palavra o poder do dizer mal, ou bem. maldição consumida em verbo, a lua amarela postada no ar que dizia aos incautos - mais cuidado. e bem a lua que da dor sabe, repetindo o não adiantar do cuidado, da precaução, ou dos pés calmos. pois quando o passo é largo, olha-se para o céu, e eis-se deslocado, novamente, na solidão de um erro.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

no próximo instante

cada vez menos.

no dia depois de hoje

nada.

reprise

o oco dos seus passos,
o eco da sua voz,
a sombra da saudade.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

so nice

espere pedir uma xicara desse chá que tonifica a memória,
faz bem pros olhos, e para a alma.
chega com esse cigarro mais pra lá,
para de sorrir pra parede,
olha fundo nos meus olhos.

eu te engasgo com o meu olhar,
mas sei que você só quer se perder.
a cada esquina sem encontrar as palavras certas
- não encontrarás.

try

abriu
os olhos
esperando
um mundo
que se moveria
a cada vez
que as pálpebras
se fechassem.

ao contrário,
para além
do tempo
restava
apenas
o
sono.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

gibraltar

o mundo criado é o mundo mentido quando ainda se é muito jovem.
enquanto por aqui chove quase todos os dias, e as plantas vão vencendo a dureza da pedra com a umidade da vida, penso em um tu que certamente não é outro que o próprio.
quando o vento bate nesses altos muros e ainda se vê o mar, a solidão sibila os caminhos tortos que levam às cidades, e os pássaros negros voam em outras direções. então, és tu que me faz companhia, presença opaca por trás do vapor do chá, pressinto os teus olhos enquanto leio os livros que me trouxeram até aqui.
e no entanto estou aqui e te escrevo. pois diz que não estás. que não és. esse tu inventando quando erámos jovens. diz que há outro lugar, em que os carros passam com fome de esquecimento. e que os mortos são sempre mortos por inteiro.
diz em tuas cartas que sente a mesma falta, mas não vês, a falta como os buracos negros criados por presenças que não podem ser substituídas por coisa alguma, sequer ar. não vê os meus olhos por trás das janelas, à espreita. nem os meus vícios nos personagens dos romances.
não sabe-me, nem sequer pressente. inventa outros ares, e com eles engana minha ausência.

domingo, dezembro 16, 2007

waltz

era um como quando, uma vez que a vontade já coçava o corpo todo em se mexer. a rua era muito mais suja e muito boa ainda pra ser. o sol iluminava a podridão daquilo tudo que no escuro nos acolhia. por medo. todos por medo. nós, os leitões acolhidos da chuva, nos abraçando em suor alheio e charfundando em toda espécie de água-benta-nossa-santa-cachaça-benzida. sentiámos tristeza e dançavamos solitários. tocava uma valsa e dançavamos. os olhos secos virados para o lado de dentro, sem espera ou deleite algum. as mãos como uvas passas tocando umas às outras. os ternos bem passados e as mulheres frígidas. copos e copos de alguma bebida desconhecida. o sol, o sal, nenhum gosto a mais.

e as ondas

dilatava a cada hora desgastada em verdades e mentiras na vontade de ficar um pouco mais. despia-me desse orgulho tépido, para que as noites de fato me vestissem com suas cores. não havia muito mais no que confiar. os dias passando, estandarte dos óbitos passados e presentes. esperava não sei com que fome que tudo se desdobrasse em outro estar menos sóbrio, e menos escuro. enquanto isso doia, e nunca pararia de doer, por trás de cada vértebra. de cada espera que teimava em brotar pelos dias. e que morria todas as noites. como semente para as manhãs que nascem. e essas são as únicas que não cansam de viver.

contagios

minha boca está seca,
como se ainda
a vida não passasse das mesmas tentativas frustradas
de sair de debaixo das nuvens mais escuras.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

imaginação

eis que desligaria a luz do mundo
com as mesmas mãos afoitas que invadiriam
o seu estar consigo. do susto provocado
te reestabeleceria do pânico com os braços
bem apertados. eis que nus,
em minutos perdidos, estaríamos vestidas de escuro,
bem no centro de tal tempo suspenso.

então o sol voltariam a brilhar,
os minutos a fugir,
e nada passaria de um sonho,
como sempre o foi.

libertango

por mim
te levava a todo lugar,
e transformava a solidão
no estandarte da tua ausência.
por mim
eu deixava a coerência de herança,
perdia todos os anseios pra crueldade,
e passava todos os dias,
te seguindo pelas ruas.
por mim
o nada seria tudo
e eu, vagabundo,
era só os olhos pro seu escuro.

domingo, dezembro 09, 2007

acalantaria

acorde dissonante,
meu toque no seu sono.
perco as mãos para a vontade,
e engulo todo medo.

o dia morreu,
a noite acabou,
e ela ainda dorme.

brisa

é num sopro que eu te sinto,
por trás da nuca,
quando todo resto há de bastar .

não vou me virar,
você sabe que não é preciso,
pois sabe todo o meu amor,
vivo no sorriso que não vês,
embora o pressinta,
como todas as coisas entre nós.

sorrir

eu tinha a pele que sempre tive como as marcas vão e vem num dia de sol bem feito. me alegrava com as pequenas coisas, bastava que sorrisse pra que o dia desdobrasse em outras memórias antigas. já não tinha fome, agonia não tinha, era toda feita desses vestidos rodados inventados pra se gozar a vida. pois era se submetendo por todos os dias a tais felicidades de momento que em cada cabelo ao vento te imaginava cantando. fazia parte uma vez uma toalha vermelha e branca com bolos e frutas. uma bicicleta de menino bem bem pobre com boina. tudo fazia parte e sendo-me como acabava de ser e vendo-te os olhos cheios de água, éramos aquela imensidão de tonalidades crespas, de ríspidas e bondosas emoções, tornadas poço de alguma prova em volta de todo aquele ar.

terça-feira, dezembro 04, 2007

ópio

todos os dias,
todas madrugadas,
mostram-me um mesmo caminho.

é que é preciso sempre dar boa noite à morte,
dizer que nos vemos outro dia,
que já é tarde,
e que hoje fico com a vida.

nos braços

a madrugada invade cada janela da casa até que não reste dúvida alguma da noite absoluta. o tempo, apesar do martelar dos ponteiros, diz-me com sua voz de vento que me espera o quanto for preciso. tateio com minhas mãos no escuro, e não te procuro. tampouco te acho. como se sua voz fosse consolo, a invento na falta de qualquer outra coisa, e não bem te vejo, já tu não me bastas.

sonos

a cabeça dói como se ordenasse o pensamento.
o corpo procura abrigo na obtenção de seus falsos desejos.
e a alma em pleno silêncio,
espera calmamente sua vez.

taquigrafia

vôo

como
voam
teus
pés
olhos
mãos
como
são
sou

como
és.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

palatho

rapsódia criada entre quatro paredes. as chamas crivadas toda noite no escuro. sobreposições do breu.
as transparências do vício,
e as vicissitudes do amor.

o sal torna a existência mais dura,
e o amargo faz tudo caber na devida dor.

gírus

comparcerar o talco usado na toillete diária das bonecas de porcelana, e as lâmpadas .
a vida como se não houvesse meio de vive-la.
os dias como atos indecisos de uma peça por acabar.

e o acaso mordisca os meus pés.

domingo, dezembro 02, 2007

(in)gentil

nenhuma palavra me merece.
o silêncio imerso da solidão engole minhas palavras.
dessa solidão para dentro, só resta existir para fora.
os olhos nas coisas. os sons do mundo.
quando as ausências passam dos contornos,
o silêncio contamina os dias.

sábado, dezembro 01, 2007

solidão

muita coragem
para se abandonar à distração como uma ordem.
dançam os nomes e as coisas,
nos círculos de fogo e de aço.
por entre as palavras de pedra,
eu prefiro olhar para as estrelas.

sexta-feira, novembro 30, 2007

o velho e o mar

minha voz assume um tom cansado quando te distingue no vão dos dias.
minhas costas se curvam por anos de pesado fardo.
e o sol e a areia tomam minha pele magoada.

com cal e sem medo,
transformo toda dureza em ternura,
que é pra você deixar de ser boba.

velamento

as mulheres na cozinha de uma solidão, andando como gatos. a cada passo das pernas rijas, o assoalho frio a endurecer a vida. vendo-me nos seus olhos desconhecidos, aprofundo-me num leito úmido, dos mil desdobramentos entre o sono e o sonho. tateio-lhes os olhos como se procurasse a profusão de um tu: o duro entrevir das pernas, as sombras dos quartos e os fantasmas dos ausentes. assim nos se-mos com todos olhos, e então será porque o olhar resiste às sombras.

quarta-feira, novembro 28, 2007

cem anos de solidão

raspar com as unhas o fel das paredes caiadas,
e o doce gosto da terra.
os corpos cegos
procurando-se sós,
silenciosamente,
com medo de acordar.

histórias repetidas nos mesmos nomes de outrem,
como sombras extintas pela luz.
as páginas cessam,
o livro nunca.

terça-feira, novembro 27, 2007

assídia

há dores de outras vidas,
mal cicatrizadas.
andam todas em filas,
passivas e caladas.
quando chamam seus nomes de dor
angústia, assídia, agonia;
mal olham para o lado.
preferem seguir em passo reto,
sem esperar nada,
com os mesmos olhos quietos.

sábado, novembro 24, 2007

triste fim de uma essência.

as mãos criadas antes do medo,
repelem o escuro com o seu silencioso gesto,
embora absoluto.
não há obtuosidade alguma que persevere sob os quartos de luz acesa,
entre uma sala e outra.
chamam nenhum nome. a lista é curta,
e ninguém nos salvará.
seguem os desenhos tecidos desde o ventre,
os padrões escolhidos por seus próprios dedos,
que se repetem até o fim dos tempos.
todos os dias,
todos.
cheios deles mesmos.

quarta-feira, novembro 21, 2007

pensamento

Do lado de lá do mundo tem uma sala.
Não tem sol,
tampouco lua.

Atrás da porta tem um aviso,
que ninguém nunca escreveu.
Como é o pensamento sem idéia,
e a palavra sem tinta,
além do céu é infinito,
para quem tem os passos leves.

domingo, novembro 18, 2007

#

como a violência comprimida por dentro da artéria.

cascavel

o desespero como forma de alimentar o medo,
desmanchando ausências em atos.

estou a poucos palmos,
sei que sou vazio transfigurado
em forma.
um pouco de luz invade o quarto,
e ainda posso ver.
aproximo-me com pouca exatidão,
não sei exatamente sob que forma o medo me invade.
temo a perda, metamorfose do pó,
se a vigília se perde em estado.
a pergunta perde-se na falta do pensamento,
se o desejo faz diluir
ou somar.
e a resposta é sempre a mesma:
ouve-se um não em cada fato,
demarcado e transcorrido.
a noite torna-se dia,
o tempo fechado.
estou cheia de nomes,
dados sem perdão.

com o passo perco a razão,
há fogo em tudo,
assim começa a ruína dos homens.

sábado, novembro 17, 2007

perigos noturnos

abriu-me no peito com armas de cobre os buracos sem nome, de anos, de todos. foi chamando que aos poucos virou-me do avesso até que não tivesse mais sombra. até que da matéria restasse apenas o verbo. como uma carne oca as pernas tentavam seguir pairando na mesma antiga despretensão de possuir apenas medos. a falta de algum pensamento a refletir a vermelhidão do sangue brotando das entrelinhas. os passos queriam seguir, atingir com precisão a nudez destinada. inclinavam-se fundo no gozo intépido a que estavam dispostos. ser como uma palavra estalada na língua, nada mais do que uma face sem nome.

vírgula

suco de laranja na bancada meio dia de sol.
o corpo estirado na varanda,
não tem para onde olhar,
e fuma os cigarros cheios de silêncio.
nenhum olhar já se encontra
.
toda intenção se perde,
músculos involuntários
e sem razão. dar-se inteira,
e não pela metade
é guardar-se para todos outros dias.

mas não um eu,
e sim um ela,
que quando a noite é escura e fria
não chama meu nome.
embora o tenha
embaixo da língua,
e longe do peito.
.

sexta-feira, novembro 16, 2007

fígado

o som da palavra cravada no ar,
matéria inventada da farsa,
desnuda.
ser cruel é ter nos olhos desejo do sangue.

i tu

as vozes
veladas
por trás de um sorriso.

os poros
à beira
impregnados pelos sentidos.

do som
a soma
a reverberar por todos ouvidos.

és como no escuro o grito,
e a presença torna-se
sombra.

terça-feira, novembro 13, 2007

eu preciso te contar uma coisa

pensem comigo
na lógica que está prestes a mudar sua vida.
1 - o tempo futuro é infinito
2 - a probabilidade do homem controlar as possíveis intempéries letais é grande.
3 - mesmo se a humanidade fracassar em tal intento e for extinta, nesse tempo infinito é muito provável que uma espécie evolua de forma nunca antes vista.
4 - considerando os estudos de einstein, da física quântica, etc.. torna-se altamente provável que tal civilização crie uma máquina do tempo.
5 - logo, estatisticamente a possibilidade de voce olhar para direita e encontrar um ser do futuro é de 50%. metade para o caso de ter, e metade para o caso contrário.

esbugalhar

o medo é tanto que não há mais claridade alguma
para que se possa chorar.
cada carne morre,
em algum lugar que ninguém pensa.

domingo, novembro 11, 2007

canalhinha

amor,
a mando,
mando,
uma resposta,
uma pergunta,
uma viagem,
de raspão.
no chão,
que arde e coça,
não pergunte,
só me ame,
amor,
não reclame,
deixa eu deixo,
passar a mão.

terça-feira, novembro 06, 2007

como se cauterizar todo o sangue dos dentes

prender em portas nunca adentradas a fome
caóticas paredes
sempre quatro
olhando a si mesmas
.
o desejo amortalhado pelo medo,
a atenção perecendo em segredo.
cada janela te espia,
enorme cidade vazia.

as valas públicas,
e as vidas vadias,
quem finge de morto,
e todos os outros:

paciências

refém do tempo,
pelo peito
sempre as palavras fazem o mesmo som
em uma só boca
uma só náusea.
o tempo corre escondido
por debaixo das visceras.
nada se pensa
nada se apanha
.
nenhum fruto
discórdia do desconhecido.
todos os segundos atentam
para esse eterno inomiável.
no escuro resta opaca meia vida da transgressão.
trabalho dos veios das sombras,
trama de mãos delicadas,
inventar a vida que já nos basta.

segunda-feira, novembro 05, 2007

don juan

eu não aguento mais mentir.
estar só
até que realmente não o queira mais.

trama

a vida, essa desconhecida, te aposta os dentes nas coisas, te faz perder os medos. a rua ainda é úmida, e o céu não transparece nada, além do leitoso conjunto. os pés já não sabem para aonde ir, e mesmo que nunca o soubessem, agora o tem como certeza. não há nicho que não seja isso, da mesma matéria involuntária e fria seguem as veredas do dia. os carinhos muitas vezes mentem, erram de endereço. os olhares, patéticos resquícios, por oras quase que iludem, até perder o viço. resta apenas o silêncio, do oco dos seus passos. do eco da sua voz. a sombra da saudade.

sexta-feira, novembro 02, 2007

cafundó

quando eu te passo,
atrás de mim tem o sol e tem a terra,
e mesmo assim é embaixo dos meus olhos
que você escolhe estar.

o que temos a nos dizer
é quase nada.
as manhãs se parecem,
e é quieto o nosso ser.

para ouvir o silêncio
tem que ter apaziguamento.
tem que virar o barulho do silêncio,
pra começar a escutar.

sexta-feira, outubro 26, 2007

casa 8

o oco sei de cor o teu encanto
ímpio,
falo da superfície escassa
hábil criatura
volúvel
primária
.
deita-me as horas do melhor sono
em forma de delírio.
cansa-me a pele,
apenas,
durante todo o dia
deixar-te a ferida aberta como solução.
borbulha em forma de nuvens isso que te foge a boca,
enche-me as panturrilhas.
sem emoção nada
cheia do que te fala
do seu não ser inteiro e sem perguntas
mas ainda tu
há tu
que me questiona.
questões longas dilatam nosso labirinto.
cai a noite, e menos ainda, ele descansa.
não há,
afoito,
luz.
frio ferro e fogo,
nossos olhos se queimam na água
inteira fome
medo
somos criaturas do medo.
de deus nos olhos,
e de outras dores.

quarta-feira, outubro 24, 2007

ato falho

se o ato
rarefeito
é silêncio
entrecortado

o grito respira
o que o ar incandesce.

poeminha de quinta (categoria)

guardei dos meus primeiros dias,
sorrisos,
para distribuir como flores,
ou pequena nota de antemão.
como um poema frouxo
na extensão da face.

deles roubaste-me os melhores,
os risos mais mansos,
a cada olhar correspondido,
com ternurna sem medo,
e estar sem decisão.

roubaste-me sim,
pois não foi de bom grado,
nem escolha de fato.
tão logo chegavas,
já estava,
minha boca tola,
a sorrir como desgraçada.

foi então que vi ser tudo de graça,
(tudo).
pois talvez não tenha entendido,
ou pior ainda,
nunca ter visto.-
-todos meus risos mais mansos,
guardados só para você.

sábado, outubro 20, 2007

quarto andar

o paladar muda,
e a fome continua

seca e surda.

parece justo,
o eco das palavras
e a falta
do excesso.

a manhã distrai os sentidos,
o erro ébrio sem perdão,
duas vezes cometido,

é a farsa
e a solidão.

terça-feira, outubro 16, 2007

haikai

opaco entender tudo do lado errado,
o mar bate no céu,
e deus está nos olhos.

segunda-feira, outubro 15, 2007

corpo rio

todo confronto de duas metades é um pouco inteiro, outro tanto despedaçado. uma metade é seca, outra nunca.

- você me dói como a umidade negra da pele que cessa de estar num rio. calor intrépido da derme contra a água da carne. os lábios frios sem medo. como tal, um abraço inesperado.

quarta-feira, outubro 10, 2007

almoço

as coisas nunca,
na vida que acaba.
mas sempre as coisas
na vida finita.

grupo de quarta

perscrutando os olhares a minutos.
o fundo da alma
é o verbo do afeto.

segunda-feira, outubro 08, 2007

diálogo

então ri e me devora,
em cada gole,
demorado para desculpar
o olhar.
não entender - eu não entendo,
pois esse vento
quem viu atrás da janela ficou.
eu te vejo e isso persiste,
é de rir de graça que eu gosto,
e eu tenho rido até chorar.

quarta-feira, outubro 03, 2007

rei de paus

cada erro acerta no reflexo que é do tempo,
impressão opaca.
tudo que é reflexão revolucionada do instante,
não há nada.
além sobra,
de um espelho dentro do outro.

as marcas na lama,
são feitas de sombra.
tudo o que é volta a ser
a palavra exata.
se juntos ardem
ainda me resta saber
o que um espelho no outro vê
se o nosso olhar é de graça.

terça-feira, outubro 02, 2007

tento

passo as tardes nos seus olhos,
alguém canta,
sem nunca mais parar.
passa o tempo e eu imagino
mergulhar fundo
em um teu perto do que tenho.
nada quer dizer tanto
quanto resta de nós-duas.
passa a vida
e eu só quero te ter sua,
para ainda assim estarmos mudas.
chega a manhã vento para te ter,
e eu te tendo, eis que estou.

quinta-feira, setembro 20, 2007

zinco

ódio por você,
ouço a música feita com a sua fome
e meu pescoço se prepara.
eu fecho os olhos e me deliro pra frente.

segunda-feira, setembro 17, 2007

lado b

hoje fez nuvens em meu peito
no escuro não ver lágrima
pra lavar a minha dor.

dor foi e não partiu
esse vazio só acaba
na próxima temporada.

domingo, setembro 16, 2007

gutural

mãos dobradas por cima das falanges,
os céus que abatem a vegetação rasteira
nele o mar bate.

eu não me importo,
só um pouco ao menos,
pra que eu possa ganhar ar (e tempo).
cada dia que passa, eu não tenho medo.

quinta-feira, setembro 13, 2007

cerco

ato 1:

em cada resto inoculto dobravam mil decibéis. ébria cissão entre o fora e o dentro, me esparramava com a boca enlameada sujando os seus tapetes. pouco me importava. era então ódio do começo ao meu fim, o deslizar secreto do que parece mais natural, os olhos passando pela sala, fixos nas garrafas vazias que serviam nosso banquete.
olhava intermitente o casal fuso nos sofás, flutuando na música altíssima e dissipada daqueles dias. era o ódio quem tornava tudo muito natural. olhava as garrafas - as garrafas são de vidro.
olhava para o casal - o amor que é de vidro.


ato 2:

então veio o sol e diluiu tudo na rubra aurora.

terça-feira, setembro 11, 2007

tédio

ali naquela sala opaca indecisão entre o tudo e o nada eu me dizia em voz alta: iria morrer cedo. por ali ninguém desconfiava com seus ternos de vidros, os bolsos cheios de segredos.
as palavras cediam, eram pedras que a horizontalidade da água vencia.
eu te pedia com os olhos por um pouco de água, meus dentes estavam cheios de sede,
logo em pouco iriam sangrar. eu gritaria,
correndo por entre os obstáculos, os derrubando com beijos,
iria Gritar: quem pode saturar os caminhos nessa febre de sal,
as gengivas irão sangrar, e ninguém vai me livrar do tédio.

por obrigação

como as palavras secas que estalam nas tortuosas veredas
da garganta
olhos sem deixas
atos sem intenções
achar-se sem dons
umbigos
carinhos - vazios
beijos por obrigação.

domingo, setembro 09, 2007

gipsy

nem todas as mulheres olham para mim.
essas jamais saberão dos segredos por trás do meu violão.
há algo levemente azul e morno,
distrai os olhos,
cessa os vícios.

domingo, setembro 02, 2007

carta pra passado

hoje eu me escondi num canto escuro da rua e desfaleci o inferno de dentro num mar de lágrimas. eu chorei até fazer daquela água suja um troço, uma imundice de mim, um acumulo de amargura. e, despida de tanta loucura, desamparo de me encontrar em mim, veio uma coisa muito forte. as lágrimas começaram a fluir cada vez mais intensas e foi porque eu lembrei de você. e lembrei de um amor por você que eu tinha engulido, que eu tinha esquecido. lembrei de um joão que já não é mais. e me deu tanta saudade. tanta saudade. e eu até te liguei nesse desespero. mas voce nao atendeu. é que eu precisava de voce naquela hora. mas só de voce. e do joão que foi e eu já não sei se é mais. que eu nunca mais vi em bar, esquina nenhuma. um joão que tinha ingenuidade, paixões, e esperanças. que gostava de drummond de peito aberto. que me dizia que nos relacionamentos ninguém perde, ninguém ganha. um joão que eu tomava com exemplo, que eu achava que nunca mais ia perder. um sei lá. um amigo. um amor.

sábado, setembro 01, 2007

estarém

estava com a boca seca para as intenções daquela manhã quente e sem dono. as árvores estavam verdes, o ceu quase sem nuvens, a luz amarelada. só rapidamente e sem muitos compromissos adentrava às visceras de um além tempo, apoiado veemente nas rodas do carro. não importavam os minutos, quanto mais o que sob ele ocorria. o sol esquentava seus dentes estragados pelo hábito. não tinha cólera, apenas no corpo a ausente sensação de um banho tomado. a oleosidade nos cabelos cheia de fábulas fanáticas. nada importava e seu estômago queimava. a música não o abandonava. as fezes não o abandonavam. a dor o abandonava. ao som de quem bem não conhecia. tens medo? perguntava juntando os cacos. tinha nos olhos outros lugares, paragens, vertentes e cachoeiras, assim era seu deus. não dormiu por esse mesmo medo, de ter um deus nos olhos, atrás da pele seca que a morte aos poucos transformava em pó manso. o cansaço comprovava a existência de algum outro-então deus, dessa vez demônio, talvez, esse, visse apenas no reflexo de seus olhos num espelho. apesar de tudo ainda não tomara banho, e o dia, apesar de tudo, estava quente.

segunda-feira, agosto 27, 2007

hai kai

não tinha medo das palavras,
diluia-se no impensável
enquanto o chá ficava morno.

páginas

aos passos pesados, lembranças do futuro,
reinventava como um menino,
as pombas cansadas nos tetos de zinco,
a chuva que jamais faria.
uma por uma, como um menino,
todas as manhãs perdidas.

segunda-feira, agosto 20, 2007

rio

Não dura um segundo a fome de minuto, é que te peço sem medo algum pelo pressuposto do que virá. Te rogo, assim fica mais pleno, tenho a consciência do que jamais será. Pede que te molhe o tempo, pede que te melhore a imagem. Não peça - faça, se lambuze no desfaçelamento intrépido da vida.
Fez com as palavras um muro intransponível, subindo cada dia mais um nível, fez do ódio argamassa dos seus riscos. Peça-me que fale tudo que já sendo, e mesmo assim quando te olho, te rogo, te perco. Faz-me todos os seres que dentro de mim se contradizem, impossível a comunhão de dois, te digo, quando começa o outro o um acaba. E então poderia te enganar nessa ladainha até o final dos tempos, a anonimidade perversa das palavras, vês, o limite frágil entre a mentira e a verdade. Antes o erro, depois o fruto. Depois do fim, segredos que a curva aguarda, faz-se sólido o teu Acaso.

quinta-feira, agosto 16, 2007

turbilhão da vida

passam os seus olhos mudos pela rua,
passam nus, mas não vêem nada.
atrás das cadeiras de vime,
perto de onde os sorrisos não mais tocam,
eu não te guardo.
teus olhos
estão cegos de dentro para fora.

minha boca está seca nesses seus olhos,
eu te peço, te rogo, alguma palavra.
sempre fomos tão mudos,
mesmo quando eloquentes,
a ordem das palavras nunca mudou a ordem do silêncio.

escuta
os olhares que passam na rua.
o teu sorriso não aguarda,
nem sequer teus braços prendem.

quarta-feira, agosto 08, 2007

história

sento-me à secretária - perante os ruídos silenciosos da tarde - examino as mãos turvas de idéias e as páginas sobre elas, pálidas. a responsabilidade aguda de inscrever em tamanha solidão preenche-me as têmporas sob a forma do temor. Maldita arte da inversão, futuro em branco tornando-se passado-página, história passada em futuro- o fruto.

vagabundo

o vislumbre desfaz-se em miragem,
quando sob ele pouso meus olhos.
Perco para os pés a gravidade,
para os braços
as mãos umas vez unidas.

terça-feira, julho 31, 2007

antonico

tudo é tão longe
por mais que a gente tente atingir com as palavras, afia-las como dardos, elas perdem a força nesse ar cético

peitos com coletes de chumbo
e cera nos ouvidos

vereda

é que nesse instante indeciso entre o passado e o futuro (como o ar que a corda do equilibrista divide em dois) não pedem nada de mim. mas olham bem nos meus olhos e me fazem o pior. olham-me com esses olhos calmos e não pedem nada, não mandam nada. nada que eu não queira. no silêncio assim rompido não posso dizer não, não há não, não há palavra que se mantenha no silêncio desse instante que te digo.

sexta-feira, julho 27, 2007

vênus, meu amor

libação sem vinho é palavra
e quem ouviu falar
os sons que nunca se calaram,
no ar.
o silêncio da onda é um segredo só pra quem puder ouvir.
vêm no meu ouvido e diz o segredo do mundo,
bem baixinho, como quem não quer chorar mais.

polenta

talvez na ordem das palavras eu possa encontrar algum consolo pra minha própria desordem.
um desenho, um risco. algo que agrade, como um cheiro perdido no ar.
um cheiro de comida da vó que ninguém sabe donde veio.
uma frase inédita, sincera, e anônima

terça-feira, julho 24, 2007

lunáticos

a irmã saiu do quarto descabelada, os olhos fora das órbitas, recém saída daqueles famosos surtos que a acometiam intermitentes ao sonhos:
- eu sou maluca?
- acho que não.. mamãe disse que maluca é quem mora na lua.

medula

engolindo aqui uma porção do vinho ruim que minha mãe me deixou de herança. se você visse minha cara ia ser a cara de quem mastiga pétalas e mais pétalas de flores, embora sem expressão alguma. é uma fome convulsa que te deixa amarelo. faz salutar essa tua ironia. pra mamãe o melhor é deixar de presente uma frase bonita, ou duas, junto com a bandeja do café da manhã. aí ela sorriria forte e o dia ia nascer bonito, com um sol lá em cima acreditando em tudo. coisas de barulho de pedrinhas de sabão escorrendo no rio. coisas de saudades de ninguém porque eu não acredito mais em pessoas, ou de insônia dormindo porque esses segundos também são oníricos. tem alguns momentos, poucos, que não precisam ser salvos por essa doçura amarga do vinho. cintilam, percebe. e doí então cada vértebra.

domingo, julho 22, 2007

horus

não, não existo.
deixa eu te dizer uma coisa,
isso tudo aqui não é real.
eu sou uma alucinação individual,
mas podia ser pior,
imagina só se fosse uma alucinação coletiva.

praia

O mar é bom,
o mar inunda.
Te tocar em cada poro,
em cada fundo,
se fosse útero.
Inunda e mata,
se bastar,
o ar te falta.
O mar à noite,
mas não tão só.
Abraço n'água,
esse todo mar.

quinta-feira, julho 19, 2007

tre

há esse acorde que se perde pelo ar, como quem passa por uma sala vazia e suspeita outra presença oculta. como o calor de um abraço que não se cumpre, é a promessa da morte que logo se dá.

terça-feira, julho 17, 2007

ou é por quilo?

1. sinto o cheiro
a. abate o corpo a falta de coragem
b. finjo que disso não sei
2. olho-a bem, franzo o cenho, e me entrego
a. sobe a boca resquícios constantes Ácidos
b. ponho para dentro sem nem saber
3. depois de umas 5 ou 6 me embriago
a. diluída num clown patético

meio amargo

no ímpeto agudo de todos os poetas,
ainda
tempo vento e morte - persistem,
pois dizem que o mundo é justo.
matéria de veia que incha e inflama,
sangue que erra num constante passar,
se fosse andar com os pés dessas dores
- bolhas, espaços perdidos,
entre isso e aquilo.
tenho certeza de que tenho certeza de que tens a certeza
E ainda somos tão pouco.
ralar o coração na falta de ter coração.
pensar nas coisas mais estúpidas por excesso de tempo,
ou de medo.
vivo (ponto final).
essa seria a palavra que eu escolheria.

sábado, junho 30, 2007

tempo demais

olha nos meus olhos, eles já não dizem mais nada.
faço esses desenhos poucos com os dedos na areia,
o mar às vezes bate nas nossas pernas.
se você diz alguma coisa eu até respondo,
embora tudo continue calado.
os gestos e as mágoas.
as nuvens e as marés.
os amores e os ódios.
o mar às vezes bate nas nossas pernas.

quinta-feira, junho 28, 2007

pathos

agora começo a entender. indecisa como uma caminhada, sujeita às veredas. cúmplice, e apenas isso, de um momento que se conjuga no cerne mais denso do presente. se foco os meus olhos para os passos passados, deixo de adivinhar a marca pesada dos meus pés na areia: o vento os apaga, o calor do sol os confunde. então não posso mais com isso, mantenho meus olhos sempre a altura do horizonte-futuro, sempre o porvir. não existo, se inerte morreria. assim continuo no meu exercício maldito, dos passos inesgotáveis, da meditação inesgotável. o sol extrai sem esforço o suor, a areia nele se difunde, renova-se pedra em meu rosto. meus sentidos tornam-se dispersos, entenda o ritmo a que me submeti como uma sucessão de tambores, mantras, preces. torno-me, no deserto, projeto vago de sinestesias. estado de dissolução - moldura. começo, meio e fim - nível d'água. vida seca, rarefeita. olhos embotados de sépia. assim me proclamo, como uma ordem fugaz no deserto.
as nuvens confundem a natureza da água salgada que toca o solo. não deixam de passar, em absoluto. tenho como exemplo as formas de suas curvas. idéias e mundos que passam por vezes despercebidos. a espécie de segurança da gratuidade que tem o afeto de um felino.
sou seca, rala, pouca. fecunda. não me diferencio do solo, da vegetação rara, ou então das nuvens. o ritmo da terra, batimento cardíaco lento, toma conta do meu ser. caminhada letárgica.
tais imagens sem nicho, flutuando por todos os ares, invadem-me o estar que torno como uma obsessão: repentinamente as linhas de um círculo que dele toma posse. círculos, retornos imersos nos caminhos. no meio do deserto sem fim encontro um cactus. forte, linha bruta do constraste. resistência agreste da vida que se cumpre. signo inteiro da fecundidade.
fluxos do tempo, e do meio, no outro áspero, desfaço-me da pedra, despojo-me da areia que formou-me, entrego-me. mato e morro. fim concluso da procissão, sem linhas retas. libero-me da minha carne, arrebento-me no meu ser. sou outra vez.

quinta-feira, junho 21, 2007

tereza

lente branca pra essa quarta feira,
a fuga da fuga
em doses homeopáticas:
cerveja a cada dia,
pedaço a cada esquina,
eco sem sujeito, óculos sem miopia.

não se procura e não se acha, enfim a sua resposta:
o nada.
no mais, só
as palavras
que nunca
se calaram no ar.

domingo, junho 17, 2007

desconstruindo werther

se eu pudesse escrever uma carta de amor agora, não seria para uma camila, nunca. tampouco uma bia, talvez uma lia. lua de lia. morena de samba. duas horas da manhã e me bastaria uma lia.
eu lembraria do seu sorriso,
e não é que quando me encanto sei transpor isso ao outro, no instante de uma palavra?
por trás de cada sílaba antes o ritmo do que o fatídico sentido,
sei sim,
e o sorriso de lia.
a faria um samba, se é que tu me entendes.
como uma ladeira iluminada de sol,
como uma saudade,
gato, gato. rato. triste saudade.
triste saudade de lia.

chá de romã

enlaço o chá nas mãos, até o ponto que ele permite (e ele não permite muito, vai logo queimando minhas mãos, minha língua. é um amor difícil). ele esfria, como tudo há de esfriar, todos somos iguais, é só esperar esfriar. entorno em vagos goles, mata a minha sede, e intermitente, me chega a boca o profundo cheiro do nada.
pois não é como se fosse cheiro algum, pois está lá. é o profundo cheiro do nada. enquanto isso volto a minha atenção ao filme que passa. que babaca, sem propósito algum. e eu penso no que penso. minha cara, sem propósito algum. como se nadasse e meus pensamentos fossem espuma do mar, não importa que não tenha nada além da espuma, o que importa é que eu sinto.. :que há algo, só não sei se já encontrei.
dou mais um gole no chá,
como um tapa na cara a verdade se revela:
o profundo cheiro do nada.

sexta-feira, junho 15, 2007

debaixo do pano

na verdade é apenas uma construção. uma equação talvez.
entre as suas expectativas, e o que o punho fechado guarda.
-não. eu não falo de pombas voando.
eu penso no que do tempo me aguarda.
este é o se perder: esperar.

o pôr do sol tem hora marcada. quase.
mas nada tem hora marcada.
-é que me perco.

poesia de cego.
mágica pra ninguém ver.
mudar as expectativas.

quarta-feira, junho 13, 2007

leão

acorda.
sabe que seus olhos estão vermelhos.
ângulo torto de si mesmo,
descobrindo o mundo que fez-se sozinho nas noites passadas.
levanta, olha.
o que mais desdobra da falta aguda do pensamento?
o mundo se arrepende,
sustentado na fraqueza ébria de seus joelhos.

quinta-feira, junho 07, 2007

feno

minha boca:
os fios de luz passam

instante de samba


só a vida
deixa ser

terça-feira, junho 05, 2007

quem sabe um dia

o que eu tenho?
procuro e acho que sei,
mas nunca sei.
fecho os olhos de desespero. abro os olhos e me tenho.

domingo, junho 03, 2007

desconstruir

eu vou demorar cinco segundos a mais
para escutar tudo o que você tem a dizer.
quem sabe assim eu ouça o que sempre quis ouvir:
os seus fins vão ser os meus começos,
a minha mentira vai ser a sua verdade.

viver

não é assim tão justo,
não há algum contrato
que de fato
nos proteja.

nascer sem petição,
morrer,
por ventura,
por acaso.

e entre isso e aquilo,
todas as pedras,
no meio do caminho,
no fundo do sapato.