domingo, julho 27, 2008
self
certamente a noite me engolira com sua boca inchada
- entumecida
além de provavelmente invisível.
fico aqui
com a luz.
os traços bem definidos de um rosto em decomposição.
1.
hoje a luz principal do banheiro estava apagada,
mas eu via os olhos e seus contornos com a luz que sobrava da sala.
escuras olheiras - eu lhe diria.
no entanto não lhe digo nada.
guardo segredo.
2.
o dia passou como uma mentira,
como um sonho que não se sabe exatamente se foi sonhado ou...
(o som do ar entrando nas costelas)
pressentido.
assim como lembro-me do passado
- e não do futuro.
3.
querida,
eu hoje te inventaria.
alguém que talvez merecesse essa carta,
engavetada no lúgubre sotão das minhas memórias.
(curvas alongadas, um soluço ausente, granito, estátuas de corujas)
não te invento.
pois tenho a você e a mim distantes dessa tão rala (e não esparsa) realidade.
realidade de rotos, cheia de detalhes, embora (apenas) vital quanto a poeira.
4.
escuta.
escuta bem.
mergulha no silêncio escondido por trás dessas palavras.
esse silêncio somos nós.
sábado, julho 19, 2008
substitui
vem maré,
dá-me a mão.
o vento viaja sobre nossas cabeças.
tudo aquilo que nos liga sem nosso conhecimento.
a luz negra do breu,
a iluminar a disformidade,
ausência de limites,
internos excessos.
pulsa a lua,
pela janela aberta
converso com o mar.
lampejam ondas no vidro do meu olhar,
sei pois sinto o sal nas têmporas
e a escuridão de uma bem sucedida noite.
a terra se converte em espasmos,
viva, mulher, sob meus pés.
tua umidade explode dispare
por todos territórios.
a terra nos é,
quando, já,
não podemos nós ser.
quinta-feira, julho 17, 2008
peter
prescindo afirmar:
Sou.
Sei.
E então posso ter uma dor.
Embora saiba
- e sei
que dor tão calada,
tão sem nome,
tão sem dor,
só possa ser saudades.
odores frios
como a memória destituída de forma
- mas não de cor.
suspensos no ar,
em nenhum lugar,
odores frios.
unhas com cal,
dentes com terra.
o cheiro alcóolico do seu perfume sem odor.
rastros meus para apagar.
silêncio
silêncios densos,
úmidos.
são os poros de um dentro,
se dilatam conforme vem o vento,
me dizem,
todos os dias,
que útil mesmo é ver as coisas bonitas.
quinta-feira, julho 03, 2008
o frio de uma noite sem porquê.
seus olhos se sentaram ao meu lado.
a água que tinha certamente
(planificando as emoções em sede),
tentava possuir-me nesse enxame de abelhas.
e sua mão procurava a minha no escuro dessa indiferença,
e sua umidade muita ameaçava o meu calor derradeiro.
fostes embora num corcel dourado,
era eu que te mandava de volta para um passado,
noite fria, sem amor, sem ninguém a ser amado,
seus olhos ainda me olhando no escuro,
no fundo da noite,
com a ligeira imcompreensão de quem já entendeu,
- me dava medo.
nós pequenas, sombras apenas,
esmagadas contra um tempo suspenso.
peço perdão. verdadeiramente.
pois, tanta bobagem, e mesmo amor.
o frio de uma noite sem porquê.
saudades
que a morte levou nos braços,
assim era o seu quarto vazio.
vagos traços familiares,
linhas - as mesmas
contornos - sem vida.
a calma de uma poeira antiga,
essa sim com vida própria,
a reclamar o quarto.
luzes passageiras,
brilhos sem lusco-fusco.
seu quarto também era como o passado.
pois de todas as vezes que estive lá,
dessa, lembrei a primeira.
lembrança como coisa viva,
mais viva que a vida,
mais viva que o dia,
mais viva que o quarto.
domingo, junho 29, 2008
difusa como as profundezas do mar.
escuta, e se eu te cantasse,
e se eu te levasse?
não sabes cantar.
pois sei.
pois não.
não
sabes.
e elas cantaram as músicas dos passarinhos,
longe longe do vento.
eu passava os dedos pelos seus cabelos
e me perdia em labirintos inventados.
e então voava pra fugir disso tudo,
encantada,
que nem o outro moço lá,
pra ficar tanto perto do sol quanto do mar.
eis que encantadoras vidas me levaram as asas,
náufrago merecido.
eis-me num mito perfeito,
do herói naufrágio.
com todos os dedos da mão
e do pé,
e um a menos coração.
sábado, junho 28, 2008
esquizofrenia não
todos os dias,
estar perto de você pra me sentir mais sincera.
quinta-feira, junho 26, 2008
acordar
o mundo inteiro e o seu corpo,
um bando de sensações difusas.
começou aos poucos:
percebia, talvez tarde demais, ou cedo,
que o mundo era um
e ele era outro.
sentia os pés,
tão longe....
envoltos no segredo cruel do frio.
e as mãos metidas dentro das calças,
a procura de algum calor miserável.
então o mundo talvez se repartia entre coisas,
a mulher ao lado acabava no limite de sua pele,
(imaginava),
a luz já era tarefa mais difícil,
assim como a chuva,
embora uma vez ele tivesse escutado que a umidade das mulheres
se assemelha a chuva.
olhou para o espelho do banheiro
entrevisto pela porta aberta,
sorrateiramente,
e aquilo o localizara novamente,
num tempo e espaço bem preciso,
(espantava os sonhos como cachorros vadios).
ele sentia fome e dor na coxa esquerda,
existia,
existia,
tudo não parava de lhe dizer.
e no entanto,
assim também lhe eram os sonhos,
que tinham algo da morte.
e algo o afastava
(ligeiramente)
daquilo tudo.
algo como um protótipo magnético
que ocupasse o seu lugar,
e que na hora de voltar,
ele ficara como está:
flutuando em órbitas inseguras,
em volta do próprio umbigo.
saudades de mim
escuta, me abraça forte mais uma vez, que eu não aguento mais saber o que é viver. porque todos os corpos são iguais, e todos nós temos nariz, e nariz é uma coisa pra lá de esquisita. somos todos tão esquisitos. e às vezes eu realmente penso que lido com pessoas de aço, ou que se não, ao contrário, são como pequenas nuvens tenazes, me acertando com sua umidade. esses são os piores. esses só sopro. porque nem revidar eu posso. tento lhes acertar um soco, e as nuvens desenham novos desenhos.
rita, me trás mais uma dose, ou quem sabe vamos jogar um jogo. você me conta uma história, eu te conto outra, a gente se reveza nisso de se olhar, e vai tecendo uma história fabulosa que só termina quando acabar.
querida, me dá suas mãos, vamos combinar de ser macias, eu só quero me distrair, a gente se abraça de um jeito novo, e daí não vai ser se abraçar.
minha flor, eu não me reconheço, estou cansada dessa pessoa aqui jogando minhas palavras fora, vem pra perto de mim, você que também taopouco existe, suga minhas entranhas quando for a hora. e não se esquece, meu amor, de depois levar o lixo lá fora.
medo
florestas inteiras dentro dela,
escurecendo.
sons sem donos,
difusos,
seus dêmonios, o mundo dentro e fora dela,
a mesma massa orgânica.
em algum ponto ela pediu perdão.
abaixou-se de joelhos rente à água,
e fechou os olhos.
há tempos não ouvia as palavras,
mas fez com as mãos uma concha,
e preenchendo-as de matéria sua,
as levantou em libação,
fazendo ranger as rodas do tempo.
quarta-feira, junho 25, 2008
pineu
achava justo ver o sol,
já que todos os dias ele voltava a nascer.
ela acordava e vestia sua pele que deixara secando na noite passada,
punha os olhos cuidadosamente,
os cabelos,
os dentes,
tudo menos os buracos,
uma vez que durmira com eles.
então ela lembrava do mundo,
(e isso era o sol quem o fazia),
e ela lembrava de vestir as saudades,
com cuidado para as alegrias e as lágrimas não se misturarem,
vestia os ódios, cuidadosamente separados das ideologias,
punha o ócio e a vaidade,
a gula, o êxtase absoluto, e também aquela velha sensação cheia de mofo,
o nada.
o mundo continuava então a nascer,
os orvalhos invariavelmente evaporavam,
os passos continuavam,
e os sons eram pressentidos.
para ela, isso pouco importava,
fazia tanto tempo que tudo isso acontecia,
que já nem era mais tempo,
era retorno,
em espiral o infinito.
entretanto, um dia, desatenta,
ela vislumbrara o tempo,
pois ao vestir sua desusada sensação de nada
notara que o mofo quase a havia destruido por completo.
e, apesar dela nunca lançar mão de tal sensação,
isso a preucupara, e a aflingira.
e assim foi, pelos próximos meses,
logo antes do sol nascer, ela aproximava-se do nada,
e lá estava, um pouco mais daquela rara penugem
meio esverdeada.
então um dia,
não se sabe exatamente se se passaram anos, meses, ou vidas,
a sensação de nada desaparecera,
não transformara-se em pó,
mas transformara-se em nada.
e ela, que vivia bem ali,
pois acreditava na imersão do tempo,
de que tudo era o mesmo ontem,
e de que de tanto tudo, ela não precisaria de mais nada,
caiu por terra de joelhos.
sentiu então gotas de saudades descerem-lhe pelo pescoço
(e também lembrou de recolhe-lhas, para as vestir no dia seguinte),
lembrou através da memória,
e sentiu raiva e vaidade,
por ter o seu nada perdido,
e riu de êxtase absoluto,
pois perdida em desespero.
e quando desvestida,
em pleno dia,
de todos os seus caprichos, peles, e meios dias,
inflou-se de uma antiga sensação,
que se chamava vazio real que é viver,
e então ela a apelidou de nada,
esqueceu-se,
e viva, adormeceu,
infinitamente.
terça-feira, junho 24, 2008
a noite
como o frio que de repente toma meus braços,
e de repente se torna incerteza.
escuto seu nome em vão,
tento te alcançar com meus braços,
chamo seu nome,
te chamo querida,
nunca, jamais, te alcanço.
a noite é infinita,
a escuridão da noite,
o silêncio da noite.
escuto seu nome,
e percebo que ele vem de mim.
não me escutarás,
não verás o meu calor chegar,
a noite é imensa
a noite é vulgar.
que raios
que ela feche meus olhos com um sopro
que eu possa não pensar em nada.
quando ela vier
que venha de preto.
quando ela vier
que só eu a veja,
e que ela toque minhas mãos.
que ela me leve,
quando tudo for só trevas.
que pela minha boca saia minha alma,
para que igual a ela eu me torne.
negra, a morte.
segunda-feira, junho 23, 2008
ritmo
Ando
Nu
E o vento que me leve.
Tenho
Sim
Pois Não
Diabo que carregue.
De
Um
Fio Terra
Sequer uma vontade.
Sou
Muito
Pura
E cheia de idéias.
domingo, junho 22, 2008
oração
insistir nos mesmos erros
se lembrar de se esquecer
perder o prumo - e as passagens
roubar o frio de uma flor
desfazer-se dos deuses
coisas dessa quarta-feira
amar entre os pés de laranjeira
atear fogo na terra
apresentar o vento à mágoa
desconhecer.
algueres mulheres
ter e temer
tremer
de prazer
esperar
algo da vida
algo belo
algo em cheio
algum incenso
sem senso um cheiro
eu e você
momento acesso.
um segredo
- aquele momento.
como se escuro,
as mãos tatiando o caminho,
para desaprender as carícias que nos farão tanta falta.
os olhos mais bonitos que sempre,
já guardam outras imagens,
sonhos de outros sonhos.
meios sorrisos
verdades inteiras
palavras erradas
apostas fechadas
as coisas bonitas
explodiam na sua boca
(bolhas de sabão)
e me dava vontade de chorar.
um pedaço de presente
com os braços agarrando o passado.
um último olhar antes de continuar andando,
como quem sabe guardar um segredo.
quinta-feira, junho 19, 2008
as armas e os barões assinalados
andar com soluços secos,
se ver e não se olhar.
a sala está vazia.
a cidade convulsiona pela janela aberta.
o corpo que lê o jornal,
não fede nem cheira,
vira as páginas mecanicamente,
e tem o mundo nas mãos,
(embora não tenha conhecido, ainda, os vizinhos).
enquanto isso
seu coração descontrolado,
dúbio, ébrio,
canta vidas outras,
dentro de suas esquinas,
um sim, ou não - talvez.
num dos quartos de sua alma um leão,
com as jubas vastas, os olhos calmos,
com a sapiedade de vidas passadas.
o leão espera afoitamente que o mágico,
que mora no quarto ao lado,
traga-lhe a carne moída do almoço.
(na falta de fêmeas, mágicos).
num andar acima mora a cantora de jazz,
e sua coleção de vestidos.
toda noite ela canta para uma platéia vazia
(todos preferem o show de horrores do quarto andar),
embora escute em seu peito a explosão da salva de palmas.
há muitos quartos,
há muitas pessoas.
gordos, carecas, sereias,
e até um anão,
apaixonado pelo frigobar.
mas entre tantos quartos e gêneros,
há uma porta que a menina dos olhos puxados não ousa abrir.
o quarto tem seu próprio pulso,
suas próprias idéias,
suas próprias paixões.
nele o vinho vira água,
os filhos mais velhos,
das moscas e das rãs,
morrem com feridas na pele.
há frio e escuridão,
e a vontade determinada de que um dia
(talvez tarde, talvez nunca)
as portas se abram,
e numa linha contínua e infinita,
saiam todos
resíduos emprestados de uma vida,
cigarras e gafanhotos.
segunda-feira, junho 09, 2008
sexta-feira, junho 06, 2008
opaco reflexo
que me adianta a vida.
a noite agarro-me ao escuro,
de tarde a ausência me arde,
me encontro apenas no banho.
opaco reflexo,
grita minha perda,
dos fazeres sem vontade,
atos tolos sem presente.
sexta-feira, maio 30, 2008
punho
porque oco,
não guarda no eco,
lembrança.
no entanto o punho,
persistente signo do contrário,
quando encosta no vidro frio,
causa abafo.
terça-feira, maio 27, 2008
quem te ensinou a nadar
o mês olha a lua,
e a mulher.
o dia olha o sol,
e antes de dormir,
as estrelas.
a música,
olha a vida,
o ritmo,
o tempo,
a melodia,
o olhar.
e antes de dormir,
as estrelas.
chover
o que dentro de mim ri.
pelo mesmo motivo que chove lá fora,
o que dentro de mim chora.
domingo, maio 25, 2008
gingas
esse é o teu nome sem rosto.
Vestido Rodado,
essa é a tua pele.
Sorriso, Cheiro de Flor, Piso de Madeira.
- quer dançar comigo?
incomunicantes
pedras,
rostos,
lagos,
nada se move.
obscurecidas pálpebras,
espelhos,
de não ser carne nem éter,
ser noite,
indeterminada e difusa.
fecho os olhos
nada distingue.
para dentro:
Infinita.
(caos/origem)
para fora:
Terra esparsa.
(mansa/cru
determinada).
segunda-feira, maio 12, 2008
porosidade
olha-se com os braços cruzados.
em cima do muro, manhã,
é daí que se vê,
essa luz que te toma ao largo,
enche meus olhos de horror,
breu luminoso
de atos sem voltas,
é sem querer encarar-te os olhos que me entrego,
pois és absoluta manhã.
toma-me o tempo
toma-me o espaço,
invadindo-me em cada poro.
manhã, nasce
enquanto te olho.
sábado, maio 10, 2008
terra estrangeira - cinco minutos na vida de alguém.
o dia está acabado, o mês, talvez a vida. eu canto acompanhada do silêncio, e não existe nem passado nem futuro. existe minha voz. e o silêncio dentro e fora dela.
quarta-feira, maio 07, 2008
com os olhos bem abertos
eis-me com os olhos bem abertos
no meio de um contra-tempo.
os braços querem encontrar os limites dos dedos,
o cenho, franzido, sério,
diz de um tempo em que as coisas eram aceitadas dessa forma:
sem muitas perguntas.
o vento quer levar meu cabelo embora,
mas não leva,
pois resisto a tudo,
a todas as intempéries que de certa forma mereço,
com os mesmos olhos bem abertos.
Porém, não há matéria que minha mão resguarde,
todos os segundos me atravessam como o vento,
sinto-os por entre meus dedos,
como rarefeita areia,
e logo os esqueço.
como única lembrança uma ordem,
vinda não sei de onde,
sabe-se lá de quem,
de resistir inerte,
perante o vento e o tempo,
com os olhos bem abertos,
enquanto você não vem.
segunda-feira, abril 28, 2008
o sentido da luz vermelha
lento, o encanto quanto
atravessa-me o mesmo peito.
da superfície
o momento imenso,
olha-me a luz como quem mergulha,
as profundezas escuras,
do céu do espírito ou mar.
de ser alegre, ou de ser triste,
Tocamo-nos com o coração fechado,
E é do mesmo abismo,
O que Deixamos para depois.
domingo, abril 27, 2008
paz nenhuma
pensamento põe suas mãos sob meus olhos, e com os
pés,
na minha úlcera se apoia.
terça-feira, abril 22, 2008
palavras
sem receio, viver é temer o tempo.
ébrio erro, a morte do desejo, o seio.
quinta-feira, abril 17, 2008
nostalgia ''
deixa o vinho amargo.
o alcool sagrado,
não é doce nem é santo,
porque senão vinagre é casto.
não sei se é sono ou sobriedade,
se insônia ou se saudade,
o instante é o que se soma,
o que eu sei é o seu nome,
maria-mariana.
nostalgia '
no corpo espontâneo, um estalo,
e tive medo quando percebi que deitando no meu ombro,
você podia escutar os meus segredos.
nostalgia
é seu filho e carrega
carrega o mundo nos ombros.
olha ao longe, observa
seus olhos perderam o brilho,
suas mãos perderem a maciez.
meu deus, olha e chora.
não há volta.
não será hoje nem amanhã.
olha seu filho,
fina flor da manhã,
perdeu as esperanças.
se tornou mais um de nós.
cegos e surdos,
olhando para o horizonte,
à procura de nossos filhos.
de quando eu era menor
?
para sempre só o que deixará para mim.
e a outra, estirada no sofá, contando os dedos,
ignorando os beijos
do rapaz com os pés descalços.
é porque a música invade a sala
e inflama nosso peito caótico já
de fumaça.
através dela que ainda te vejo,
suas costas quietas,
quase sem desejo.
é noite e me basta,
o seu silêncio.
quarta-feira, abril 16, 2008
desvolução
o homem é a falta.
o homem, é homem.
- existe para fora.
a pedra, pedra.
a pedra que não precisa saber.
a pedra é.
a pedra.
quinta-feira, abril 03, 2008
marte
se ainda me aquecesse ou me esfriassse.
se ainda,
umidade da chuva,
calor do trem,
medo do escuro.
o mundo me acolhe
e também me cospe,
como é e há de ser.
e você é só parte do mundo.
terça-feira, abril 01, 2008
contramão
minha alma fica pros cupins
pra sobremesa dos besouros, ficam os olhos.
segunda feira cansada,
a mesma ensimesmada loucura
de balançar os sonos no trem.
meu braço alcança a parede,
mas quer encontrar o mundo.
é tarde,
a lua é o sol,
é tarde demais.
os olhos vermelhos da idéia
que viver não é motivo pra chorar,
as vontades enconstadas num canto,
recolhidas pelo lixeiro.
as flores são mortas e fartas,
e as sombras dos homens.
terça-feira, março 25, 2008
calças
o que não juro é nos conhecermos.
sei que nos pressintimos,
a cada palavra errada,
e cada passo dado,
na direção contrária.
bem dentro da carne
(sem carne alguma
e sangue algum).
no fundo do pensamento
(sem conceitos
e sem devaneios).
pra lá da matéria,
mais longe que o tempo,
eu sou, você é.
nunca nos encontramos,
talvez sequer nos encontremos.
no entanto, ainda a vida é possível,
pois apesar de tudo,
(do certo e do absurdo),
ainda nos pressentimos.
segunda-feira, março 24, 2008
mão
e outra, cálida, na pele do bolso. pálida.
como as ideias nunca postas em prática. (pois isso significaria perda-las).
ser
o mundo.
através da linguagem
o que me é.
com as nossas palavras
as coisas
nunca absolutas.
com as mesmas palavras
o murmúrio
o som
o sim.
mas nunca o silêncio do silêncio.
falar para alcançar o pleno
do só no silêncio.
perder-se na transitoriedade das palavras,
perder-se em ser.
pois no início era o caos
e no fim era o silêncio.
domingo, março 23, 2008
desabar sobre os homens
terça-feira, março 18, 2008
rua-tempo
sou de um invariável existir para fora.
provavelmente os passos tomam a largura da calçada
meus olhos se perdem por suas curvas
e nada mais ultrapassa.
mas assim como o vento bate no rosto,
e desmancha os pensamentos,
outras vezes me preencho.
e não por desejos
condições
ou medos,
mas de fundo ainda resto,
resto fundo de mim,
o que eu sou
que é sem fim.
quinta-feira, março 13, 2008
anda
eu sequer pensava em você.
outra vez,
porque era apenas o sangue que pulsava
tantas e tantas vezes (você)
que não eram nem palavras.
não, eu não pensava em você
eu andava e as vozes que queriam te alcançar
formavam um coro em unissono
que eu decidi, a tempo, chamar de silêncio.
eu te tinha e eu te era
no fundo do espaço e do tempo
porque nada mais importava,
como agora nada importa.
sábado, março 08, 2008
abstinência
bêbados em vão tentavam voltar pra casa
as luzes iluminavam os quarteirões alaranjados
e a lucidez falava
gritava e aplaudia
por dentro dos copos vazios.
quarta-feira, março 05, 2008
malfeja
como se viver de olhos fechados.
seus pés vacilam no solo,
o sangue quer fugir das veias,
das mãos que te tomam o corpo imberbe
mal sabe-se a procedência.
então o ralo desgosto do ser,
ignorando tudo aquilo que há de importar.
quinta-feira, fevereiro 28, 2008
pusilame
não há escolha.
entretanto ela pulsa,
e continua pulsando.
instantes outros:
quando penso lembro e sou
e a rua com seus rostos anônimos e sóbrios.
quando decido para que lado vou,
e me perco faço e acho.
ligeiro prazer do vento,
sorriso de dentes claros,
para quando tudo está no seu tempo.
segunda-feira, fevereiro 25, 2008
espelho
passam as paisagens pela janela do carro
passam os conflitos os medos os pelos
passa a angústia do não ter
os inimigos
e até os amigos.
passa a vontade de beber.
só não passa você
de frente de um espelho
duelando consigo mesmo.
domingo, fevereiro 24, 2008
the big swallow
músicas inteiras,
com suas melodias.
és mulher
também as páginas em branco
que deixei em casa
e o violão que tanto te maltrata.
e quando perguntas se vamos bem as duas,
é que para todo o povo da rua,
e abre bem os olhos para nos ver passar,
pois dos poemas que li,
e das músicas que escutei,
és certamente a mais bem feita dessa matéria outra,
dos feitios da poesia
das promessas da ternura.
the big swallow
músicas inteiras,
com suas melodias.
és mulher
também as páginas em branco
que deixei em casa
e o violão que tanto te maltrata.
e é por isso que quando me perco por suas veredas,
reconhecendo,
uma por uma,
as suas ternuras,
para todo o povo da rua,
e abre os olhos para nos ver passar.
segunda-feira, fevereiro 11, 2008
fato I
sempre aos poucos.
mamãe punha sua mão no ventre que se mexia convulsivamente. e a outra secava o suor que grudava os cabelos na testa.
o tempo se dividia nos compassos da dor,
e a sala pela proximidade das paredes.
era melhor viver assim,
com o problema já dado,
pois então não seria necessário gastar a rala criatividade com outro.
a sede era infinita, e já perdera a muito a característica primeira de tal quimera
(o vulto do saciar).
quinta-feira, fevereiro 07, 2008
américa metáfora fácil
Faço-me prenda fácil de quem consola o âmago.
E de quem, com uma vista bonita,
engorda os bolsos (e o rebanho).
Cedo, todos os dias, à brancura fácil de falsas paredes,
e à presença morna da trilha sonora,
apenas pra poder, segurar o mundo lá fora.
domingo, fevereiro 03, 2008
gêmeos
não anoiteço da vontade, e não me perco de desejo.
o meu toque, com ou sem consentimento,
é leve como os passos de quem dança e sabe,
pois de a ver não arrefeço.
beijos de boca fechada,
olhares fixos no nada,
carinhos de solidão.
a frieza de quem menos esperava,
e um eu que desconheço.
esquizo
Então eu ouvia um pouco mais de seus discos, e reincindia na constância suicida do alcool. o fim último da bebida para fortalecer as mentiras, expelir as verdades que inflamariam o ar de sua sala, repleta do nosso bafo roto de más vivências.
Bebemos, e fumamos. fizemos brindes, e principalmente mentimos. ela, quando inventava suas histórias. eu, quando fingia acreditar.
porque éramos novamente adão e eva, e éramos também criatura e criador, homem e mulher; Acima de tudo, éramos reús reincidentes, e por isso, é que deveríamos nos compulgir.
os discos continuavam a rodar na vitrola, como nossas cabeças em palmas de prata, como a sala, muito embora, continuasse parada.
duas músicas depois de seus primeiros passos bêbados, constrangido a acompanhar sua dança, a agarrei pelos cabelos, e como nos primeiros tempos, a levei para o quarto. - como no tempo em que as mulheres compreendiam seus pápeis, e a proximidade da vida com a vida de fato tornava tudo muito justo.
meus dedos duros tocavam seus mamilos excitados. meus dentes afiados os procuravam. eu a amava com meu ódio de ser fraco demais para nosso amor, e ela me odiando me amava, com seus mamilos duros e sua boca seca. ela era vítima da violência de desejar um homem misógino, e por sua vez retribuia-me evitando friamente o seu próprio desejo.
juntos, regurgitavamos a solidão à dois incrustrada em nossos despojos. nossos corpos nus emergindo na violenta febre da morte. nos odiando sem nos amar, do mesmo amor sem ódio que é o um ser dois que nunca se falam.
enfim, antes derrubados pela exaustão física da impossibilidade, do que pela desistencia em si, nos engalfinhamos como dois mafagotos. E dormimos enfim, o sono pesado dos justos.
esquizofrenia
eu, com o sorriso calmo fingindo uma segurança inexistente, a seguia por todos os cantos, com a paciência grave de quem morre de fome. eu a desejava de uma fome inventada desde que pussera os pés pela primeira vez na soleira de sua porta. os vincos marcados do rosto, as histórias guardadas na memória ou perdidas no esquecimento de uma vida não mais jovem, e principalmente o alto teor de mentira que impria em tudo. e em todos.
a desejava com minha fome jovem e folgazã, como quem sabe a única chance repousada no acidente.
compramos seu cigarro. que nos custou 6 visitas rudes a botecos tétricos, uma leve batida no parachoques, alguma gasolina, e muitas mentiras. eu, sempre enganado, pensava estar colecionando mentiras que decorariam o relicário do nosso sexo. pensava estar cortando uma por uma as predileções rituais do nosso sexo. a verdade é que independente da ordem dos fatores ou das palavras, eu pensava em sexo. porque, afinal, nessa época eu ainda pensava nisso.
próximo item: ouvir um pouco mais de seus discos, reincidir na constância suicida do alcool, fortalecer a mentira, inflando o ar de sua sala com nosso bafo roto de más vivências.
pois bebemo-nos, e fumamos. fizemos tantos brindes, e principalmente mentimos. ela, quando eu inventava suas histórias. eu, quando fingia acreditar.
éramos novamente adão e eva, éramos também criatura e criador, homem e mulher; acima de tudo, éramos reús reincidentes, e por isso, soube depois, é que deveríamos pagar.
foi duas músicas depois de seus primeiros passos bêbados, que constrangido a acompanhar a dança a agarrei pelos cabelos, e como nos primeiros tempos, a levei para o quarto. como no tempo em que as mulheres compreendiam seus pápeis, e a proximidade da vida com a vida de fato tornava tudo muito justo.
meus dedos duros tocavam seus mamilos excitados. meus dentes afiados os procuravam. eu a amava com meu ódio de ser fraco demais para nosso amor, e ela me odiava me amando, com seus mamilos duros e sua boca seca. ela era vítima da violência de desejar um homem misógino, e por sua vez retribuia-me evitando friamente o seu próprio desejo.
juntos, regurgitavamos a solidão a dois incrustrada em nossos despojos. nossos corpos nus emergindo na violenta febre da morte. nos odiando sem nos amar, do mesmo amor sem ódio que é ser dois que nunca se falam.
enfim, antes derrubados pela exaustão física da impossibilidade, do que pela desistencia em si, engalfinharam-se como mafagotos e dormiram o sono dos justos.
sexta-feira, fevereiro 01, 2008
o mundo
rubens
os ventos não favorecem ninguém, não se importam se já amanheci triste. pois se postam cinzas como memórias, e então chovem quando não há mais nada a fazer. há , porém, em dias como esses - arrogantes, malditos - outros meios pelos quais o sol, de mim, se aproxima - contrariando a vontade daquele que desconheçe meu nome. então, apesar da chuva, posso tocar o limiar virulento da vida. dias esses em que posso, além de todos os pré-nomes dados sem perdão, apenas sentar-me dentro de outros olhos e me reconhecer viva. lado a lado com um raro sujeito, sem grau algum de miopía na alma vasta.
meninas
quero sambar meu bem
Você que tem as mãos claras, as mãos limpas.
Pousa tua mão, na minha cara.
Deixa eu por os braços na sua volta.
Esquece todas as palavras do mundo,
por um instante,
esquece tudo.
Deixa eu te dar mais um beijo, pequena.
Esquece seus dramas, suas dores, seus discos.
Deixa eu te fazer um samba,
Na minha alma eu tenho tanto samba pra você.
espelho
por todas pequenas de milhares insignificantes janelas
- não interessa a ninguém.
pois ontem foi pessoa
entre as quadro paredes de um claustro inventado.
e hoje era eu
por quem a falta chamava o nome
e os rios e os mares não sufocavam a ausência.
terça-feira, janeiro 29, 2008
apenas
sábado, janeiro 26, 2008
solidão
e a mais densa paixão amansara-se em tristeza.
fraca, sem dedos,
uma tristeza calma, de já não machucar mais ninguém.
a vontade de fazer-se espuma
transformou-se em olhar o mar.
o mar que indo e vindo num não mais parar,
acalmava os ímpetos.
a alma estendeu-se na praia,
os dedos se incrustaram na areia,
os olhos se fizeram de pedra.
era um só por inteiro.
e por inteiro só
era.
tristeza'
eu acordei, eu dormi,
e dentro de mim uma dor que me acompanhava.
como uma cantiga antiga,
como o abraço da saudade.
às vezes parecia querer me abandonar,
mas eu lhe implorava que não,
pois me acostumara com o latejar discreto e constante das dores difíceis.
se tudo passasse
então voltaria a me conformar com a exatidão das coisas,
e a vida fecharia suas asas de morte.
os amigos e as lembranças,
todos os dias seriam o bastante,
se eu tivesse uma dor.
se eu tivesse uma dor...
quinta-feira, janeiro 24, 2008
tristeza
é ela que diz-me do eterno emudecer diante das contrariedades.
com que direito?
e com que braços velados, por trás de quais véus?
passará carmim nos lábios, quando já bem perto,
chamar meu nome?
óculos escuros
e por trás de seus ombros
as estrelas hão de cair no chão.
olhe para cima,
e a ferocidade da terra se abrirá sob seus pés
olhe para o chão,
e alguém repousará a mão entre seus olhos.
saiba entender o mesmo
(imenso) mistério
encravado na carne.
denso respeito calado,
latente morte entre nossos pés,
o mar,
a vida,
quando nos olhamos nos olhos.
poeira leve
corpos fusos,
intenções outras,
nem tudo é da mesma límpida matéria do que só se pensa,
e sequer se sente.
tínhamos-nos da mesma maneira do não ter
que sempre fomos
quando ausentes em nós.
tua mão no meu rosto
repetindo a palavra de ordem,
não nos permitia ser mais do que:
eu, o meu medo
você, o seu.
conhecia de cor os amanhãs que nos separariam,
e que tornavam a noite uma malfeita miragem.
por entre minhas mãos que te procuravam atenciosamente
já teu corpo sumia
por entre meus braços que te apertavam violentamente
gritavas sua ausência de mim nesse mesmo corpo.
sempre tomadas por dois opostos que num distraído impasse
se juntam.
os mesmos que juntos não podem estar.
no fim não existíamos,
não podíamos,
não éramos.
no fim dormimos nosso sono pesado.
quarta-feira, janeiro 23, 2008
tristeza
sábado, janeiro 19, 2008
uma aprendizagem ou o livro dos prazeres
clarice.
segunda-feira, janeiro 14, 2008
outro
(pois não se sabe)
inventam-se mil minutos desperdiçados.
a mim basta-me não saber nada,
quando vejo
que não saber já basta.
segunda-feira, janeiro 07, 2008
sucinto
eu te esperava em cada esquina
sem saber,
era sem esperar
que eu estava lá.
entendi os olhos mais velhos que o corpo.
seus olhos perfuravam-me até o medo.
ele chegara até o oco,
e me olhava com a pedra.
sorria-me e além disso a barba no pescoço
atraia o meu foco,
se eu ainda estivesse distraída.
distraia-me com suas palavras
e me olhava.
perfurou-me
inundou-me.
era sem esperar,
que eu estava lá.
sábado, janeiro 05, 2008
preparação para um haikai
não podia fumar.
decidiu estar com saudades,
por hábito,
ou ainda,
por tédio.
olhou sem muita pressa os retratos de um passado recente.
a dor de estômago pedia atenção
(as fotos não).
passava uma por uma,
como quem olha os pássaros na rua,
e não os nomeia:
de tutu, jeremias ou eleonora.
a chamavam do outro lado da rua,
até iria,
depois a solidão seria mais macia,
e mais pura.
voltaria pro seu quarto,
sentiria cada músculo,
o corpo de um adulto.
as roupas estiradas no chão
teriam algum conforto guardado.
o vento traria alguma doença,
e na pouca morte um corpo que treme,
vivo,
certamente.
saberia traçar planos rudes,
e guardar segredos covardes.
porém, tudo ruiria,
bastasse um aroma
suspenso no ar.
sábado, dezembro 29, 2007
tejo
passaram-se os anos e ainda lhe tocavam o ombro e a enganavam. ninguém a tinha muito em conta, nem olhava fundo nos olhos assustados. todos os dias voltava para casa, e já sabendo andar sem encher os pés de areia, tirava as tardes para pensar.
pensava em mundos outros, tomava posse de seus sonhos, e quando menos esperava, no décimo segundo andar de um prédio qualquer, tornava-se fielmente a menina dos olhos.
agora quando as mãos tentavam marcar-lhe os membros, esquivava-se como se nunca se acostumasse. era apenas sua, pois era de todos os mundos noturnos inventados desde a infância, que eram, na verdade, as mil e uma formas que ela inventara de ser.
os dias acabavam e as manhãs nunca cansavam de nascer. quando se cansava podia sempre deitar-se na pequena parte de chão que lhe cabia e olhar as poucas estrelas da cidade. olhava a imensidão do céu e algo lhe dizia que valhia a pena. a solidão dos olhares assustados, perpetuada pelos anos todos, e olhava o céu e se sentia olhada. e o vento batia e lhe contava as histórias que os homens esqueceram de contar. e pensava no mar para quando se sentisse muito nua, e ele pudesse a vestir.
pisava nas folhas porque elas estavam secas e estalavam do gozo de não estarem mais vivas. dos homens só esperava alguma coisa dos olhos, que sentia vivos, enquanto calados. então a noite chegava de mansinho, e ela dormia.
apesar-de
para que alguém decida cantar.
choveu,
porque alguém quis se molhar.
o elevador parou,
mas você precisava mesmo pensar.
o dinheiro acabou,
e você parou de fumar.
viver é viver,
sempre apesar-de.
quarta-feira, dezembro 26, 2007
mentira
laticínio
dedos frios,
esvai-se o sangue.
no espelho os lábios pálidos,
no corpo oco,
esvai-se a fome.
sentir-se mais uma
outra vez
como a morte.
não sentir saudades,
não querer,
e perder,
esvai-se o nome.
segunda-feira, dezembro 24, 2007
bêbado e tarado
"sim sim
quando deus criou amor ele não ajudou muito
quando deus criou cachorros ele não ajudou cachorros
quando deus criou plantas ele não fez nada de mais
quando deus criou ódio nós ganhamos uma utilidade
quando deus criou a mim ele me criou
quando deus criou o macaco ele estava dormindo
quando deus criou a girafa ele tinha bebido
quando deus criou narcóticos ele estava louco
e quando ele criou o suicídio ele estava miserável
quando ele criou você deitada na cama ele sabia o que ele estava fazendo
ele estava bêbado e louco e ele criou montanhas e o mar e o fogo ao mesmo tempo
ele fez alguns erros mas quando ele criou você deitada na cama
ele gozou em todo seu abençoado universo."
bom humor
sábado, dezembro 22, 2007
formol
o prédio está vazio.
nenhum som,
a não ser as folhas secas a tilintar o vento.
nenhuma vontade,
a não ser a de evitar o medo.
companhia dos passos ocos
no chão de cimento.
invado o estar sincero
das coisas desta sala.
vivas longe destes olhos,
imóveis diante da porta aberta.
são orgãos e vísceras,
de matéria carcomida,
embaladas noite adentro
pelo formol e sua sombra.
esperam a morte,
suspensas,
em um tempo úmido,
e sem valor.
tocam-me o bumbo
insurdecedor,
do rufar dentro do peito.
pois já não há espera que crie acalanto,
e nem poro que resista a outro beijo.
sem vida alguma,
jaz o coração suspenso.
e não é formol, nem espera,
o líquido que o congela.
é apenas o que resta,
de anos e anos de quimera.
escorrendo pelas beiradas,
a aguardente solidão.
equívoco
nenhuma bebida, nenhum cigarro, nenhum carinho oculto por trás das esquinas. então entendia que a noite deveria ser encarada de frente, sem medo. para tanto, deram-me o riso como única defesa, e para quando não aguentasse mais, o ombro dos mais amigos para que pudesse enconder o rosto. porém, deveria acima de tudo persistir nos impulsos, e acreditar que dormir é sempre a última saída.
eis que a vida transborda das beiradas mal comedidas da vida, e que em ambiente tão infecundo, nasce um sentimento sem nome, travestido nos últimos dias pelo nome da saudade. enche-me o peito vazio desse denso emudecer, e mesmo que o saiba o nome de erro, é impossível esvazia-lo pelo tempo.
na noite proclamada, procuro as saudades, que recusa-me os olhos. e então é a primeira vez que me toca o peito algo que não via a tempos. toca-me e repousa as mãos, os dedos delicados, como o tecido da morte, por cima das veias saltadas e mal contidas. é a primeira vez na noite, e cansa-me tanto o sorriso, que nem sequer previno o ato.
pois o tempo segue sem medo, e sem medo também o inesperado ocorre. continuo a falar como se por trás do laconismo viesse a morte. sinto-me nua perante o bar que gira em voltas absortas dentro de um pensamento, e volto a me vestir, desesperadamente, com as palavras que não cesso de vomitar sobre outros ouvidos. os pressinto com o fundo de mim, e sinto infinito o negro gotejar percorrendo o meu corpo.
passam instantes. sempre instantes e as máscaras caiem. o cansaço invade a têmpora, caio de joelhos perante todo e qualquer esforço. o sorriso transforma-se em mudez, e a dor em consolo.
a mão, que antes delicada, amparava o músculo cardíaco no escuro do dentro, passa a asperamente o contorcer, como se o sangue fosse suco possível de infeliz resignação. o coração freme a cada aperto de mãos fortes, e sem resistência, cede à tristeza e seu estandarte.
o nada, antes previsto, devolve à palavra o poder do dizer mal, ou bem. maldição consumida em verbo, a lua amarela postada no ar que dizia aos incautos - mais cuidado. e bem a lua que da dor sabe, repetindo o não adiantar do cuidado, da precaução, ou dos pés calmos. pois quando o passo é largo, olha-se para o céu, e eis-se deslocado, novamente, na solidão de um erro.
sexta-feira, dezembro 21, 2007
quinta-feira, dezembro 20, 2007
so nice
faz bem pros olhos, e para a alma.
chega com esse cigarro mais pra lá,
para de sorrir pra parede,
olha fundo nos meus olhos.
eu te engasgo com o meu olhar,
mas sei que você só quer se perder.
a cada esquina sem encontrar as palavras certas
- não encontrarás.
try
os olhos
esperando
um mundo
que se moveria
a cada vez
que as pálpebras
se fechassem.
ao contrário,
para além
do tempo
restava
apenas
o
sono.
segunda-feira, dezembro 17, 2007
gibraltar
enquanto por aqui chove quase todos os dias, e as plantas vão vencendo a dureza da pedra com a umidade da vida, penso em um tu que certamente não é outro que o próprio.
quando o vento bate nesses altos muros e ainda se vê o mar, a solidão sibila os caminhos tortos que levam às cidades, e os pássaros negros voam em outras direções. então, és tu que me faz companhia, presença opaca por trás do vapor do chá, pressinto os teus olhos enquanto leio os livros que me trouxeram até aqui.
e no entanto estou aqui e te escrevo. pois diz que não estás. que não és. esse tu inventando quando erámos jovens. diz que há outro lugar, em que os carros passam com fome de esquecimento. e que os mortos são sempre mortos por inteiro.
diz em tuas cartas que sente a mesma falta, mas não vês, a falta como os buracos negros criados por presenças que não podem ser substituídas por coisa alguma, sequer ar. não vê os meus olhos por trás das janelas, à espreita. nem os meus vícios nos personagens dos romances.
não sabe-me, nem sequer pressente. inventa outros ares, e com eles engana minha ausência.
domingo, dezembro 16, 2007
waltz
e as ondas
contagios
como se ainda
a vida não passasse das mesmas tentativas frustradas
de sair de debaixo das nuvens mais escuras.
quinta-feira, dezembro 13, 2007
imaginação
com as mesmas mãos afoitas que invadiriam
o seu estar consigo. do susto provocado
te reestabeleceria do pânico com os braços
bem apertados. eis que nus,
em minutos perdidos, estaríamos vestidas de escuro,
bem no centro de tal tempo suspenso.
então o sol voltariam a brilhar,
os minutos a fugir,
e nada passaria de um sonho,
como sempre o foi.
libertango
te levava a todo lugar,
e transformava a solidão
no estandarte da tua ausência.
por mim
eu deixava a coerência de herança,
perdia todos os anseios pra crueldade,
e passava todos os dias,
te seguindo pelas ruas.
por mim
o nada seria tudo
e eu, vagabundo,
era só os olhos pro seu escuro.
domingo, dezembro 09, 2007
acalantaria
meu toque no seu sono.
perco as mãos para a vontade,
e engulo todo medo.
o dia morreu,
a noite acabou,
e ela ainda dorme.
brisa
por trás da nuca,
quando todo resto há de bastar .
não vou me virar,
você sabe que não é preciso,
pois sabe todo o meu amor,
vivo no sorriso que não vês,
embora o pressinta,
como todas as coisas entre nós.
sorrir
terça-feira, dezembro 04, 2007
ópio
todas madrugadas,
mostram-me um mesmo caminho.
é que é preciso sempre dar boa noite à morte,
dizer que nos vemos outro dia,
que já é tarde,
e que hoje fico com a vida.
nos braços
sonos
o corpo procura abrigo na obtenção de seus falsos desejos.
e a alma em pleno silêncio,
espera calmamente sua vez.
segunda-feira, dezembro 03, 2007
palatho
as transparências do vício,
e as vicissitudes do amor.
o sal torna a existência mais dura,
e o amargo faz tudo caber na devida dor.
gírus
a vida como se não houvesse meio de vive-la.
os dias como atos indecisos de uma peça por acabar.
e o acaso mordisca os meus pés.
domingo, dezembro 02, 2007
(in)gentil
o silêncio imerso da solidão engole minhas palavras.
dessa solidão para dentro, só resta existir para fora.
os olhos nas coisas. os sons do mundo.
quando as ausências passam dos contornos,
o silêncio contamina os dias.
sábado, dezembro 01, 2007
solidão
para se abandonar à distração como uma ordem.
dançam os nomes e as coisas,
nos círculos de fogo e de aço.
por entre as palavras de pedra,
eu prefiro olhar para as estrelas.
sexta-feira, novembro 30, 2007
o velho e o mar
minhas costas se curvam por anos de pesado fardo.
e o sol e a areia tomam minha pele magoada.
com cal e sem medo,
transformo toda dureza em ternura,
que é pra você deixar de ser boba.
velamento
quarta-feira, novembro 28, 2007
cem anos de solidão
e o doce gosto da terra.
os corpos cegos
procurando-se sós,
silenciosamente,
com medo de acordar.
histórias repetidas nos mesmos nomes de outrem,
como sombras extintas pela luz.
as páginas cessam,
o livro nunca.
terça-feira, novembro 27, 2007
assídia
mal cicatrizadas.
andam todas em filas,
passivas e caladas.
quando chamam seus nomes de dor
angústia, assídia, agonia;
mal olham para o lado.
preferem seguir em passo reto,
sem esperar nada,
com os mesmos olhos quietos.
sábado, novembro 24, 2007
triste fim de uma essência.
repelem o escuro com o seu silencioso gesto,
embora absoluto.
não há obtuosidade alguma que persevere sob os quartos de luz acesa,
entre uma sala e outra.
chamam nenhum nome. a lista é curta,
e ninguém nos salvará.
seguem os desenhos tecidos desde o ventre,
os padrões escolhidos por seus próprios dedos,
que se repetem até o fim dos tempos.
todos os dias,
todos.
cheios deles mesmos.
quarta-feira, novembro 21, 2007
pensamento
Não tem sol,
tampouco lua.
Atrás da porta tem um aviso,
que ninguém nunca escreveu.
Como é o pensamento sem idéia,
e a palavra sem tinta,
além do céu é infinito,
para quem tem os passos leves.
domingo, novembro 18, 2007
cascavel
desmanchando ausências em atos.
estou a poucos palmos,
sei que sou vazio transfigurado
em forma.
um pouco de luz invade o quarto,
e ainda posso ver.
aproximo-me com pouca exatidão,
não sei exatamente sob que forma o medo me invade.
temo a perda, metamorfose do pó,
se a vigília se perde em estado.
a pergunta perde-se na falta do pensamento,
se o desejo faz diluir
ou somar.
e a resposta é sempre a mesma:
ouve-se um não em cada fato,
demarcado e transcorrido.
a noite torna-se dia,
o tempo fechado.
estou cheia de nomes,
dados sem perdão.
com o passo perco a razão,
há fogo em tudo,
assim começa a ruína dos homens.
sábado, novembro 17, 2007
perigos noturnos
vírgula
o corpo estirado na varanda,
não tem para onde olhar,
e fuma os cigarros cheios de silêncio.
nenhum olhar já se encontra
.
toda intenção se perde,
músculos involuntários
e sem razão. dar-se inteira,
e não pela metade
é guardar-se para todos outros dias.
mas não um eu,
e sim um ela,
que quando a noite é escura e fria
não chama meu nome.
embora o tenha
embaixo da língua,
e longe do peito.
.
sexta-feira, novembro 16, 2007
terça-feira, novembro 13, 2007
eu preciso te contar uma coisa
na lógica que está prestes a mudar sua vida.
1 - o tempo futuro é infinito
2 - a probabilidade do homem controlar as possíveis intempéries letais é grande.
3 - mesmo se a humanidade fracassar em tal intento e for extinta, nesse tempo infinito é muito provável que uma espécie evolua de forma nunca antes vista.
4 - considerando os estudos de einstein, da física quântica, etc.. torna-se altamente provável que tal civilização crie uma máquina do tempo.
5 - logo, estatisticamente a possibilidade de voce olhar para direita e encontrar um ser do futuro é de 50%. metade para o caso de ter, e metade para o caso contrário.
esbugalhar
para que se possa chorar.
cada carne morre,
em algum lugar que ninguém pensa.
domingo, novembro 11, 2007
canalhinha
a mando,
mando,
uma resposta,
uma pergunta,
uma viagem,
de raspão.
no chão,
que arde e coça,
não pergunte,
só me ame,
amor,
não reclame,
deixa eu deixo,
passar a mão.
terça-feira, novembro 06, 2007
como se cauterizar todo o sangue dos dentes
caóticas paredes
sempre quatro
olhando a si mesmas
.
o desejo amortalhado pelo medo,
a atenção perecendo em segredo.
cada janela te espia,
enorme cidade vazia.
as valas públicas,
e as vidas vadias,
quem finge de morto,
e todos os outros:
paciências
pelo peito
sempre as palavras fazem o mesmo som
em uma só boca
uma só náusea.
o tempo corre escondido
por debaixo das visceras.
nada se pensa
nada se apanha
.
nenhum fruto
discórdia do desconhecido.
todos os segundos atentam
para esse eterno inomiável.
no escuro resta opaca meia vida da transgressão.
trabalho dos veios das sombras,
trama de mãos delicadas,
inventar a vida que já nos basta.
segunda-feira, novembro 05, 2007
trama
sexta-feira, novembro 02, 2007
cafundó
atrás de mim tem o sol e tem a terra,
e mesmo assim é embaixo dos meus olhos
que você escolhe estar.
o que temos a nos dizer
é quase nada.
as manhãs se parecem,
e é quieto o nosso ser.
para ouvir o silêncio
tem que ter apaziguamento.
tem que virar o barulho do silêncio,
pra começar a escutar.
sexta-feira, outubro 26, 2007
casa 8
ímpio,
falo da superfície escassa
hábil criatura
volúvel
primária
.
deita-me as horas do melhor sono
em forma de delírio.
cansa-me a pele,
apenas,
durante todo o dia
deixar-te a ferida aberta como solução.
borbulha em forma de nuvens isso que te foge a boca,
enche-me as panturrilhas.
sem emoção nada
cheia do que te fala
do seu não ser inteiro e sem perguntas
mas ainda tu
há tu
que me questiona.
questões longas dilatam nosso labirinto.
cai a noite, e menos ainda, ele descansa.
não há,
afoito,
luz.
frio ferro e fogo,
nossos olhos se queimam na água
inteira fome
medo
somos criaturas do medo.
de deus nos olhos,
e de outras dores.
quarta-feira, outubro 24, 2007
poeminha de quinta (categoria)
sorrisos,
para distribuir como flores,
ou pequena nota de antemão.
como um poema frouxo
na extensão da face.
deles roubaste-me os melhores,
os risos mais mansos,
a cada olhar correspondido,
com ternurna sem medo,
e estar sem decisão.
roubaste-me sim,
pois não foi de bom grado,
nem escolha de fato.
tão logo chegavas,
já estava,
minha boca tola,
a sorrir como desgraçada.
foi então que vi ser tudo de graça,
(tudo).
pois talvez não tenha entendido,
ou pior ainda,
nunca ter visto.-
-todos meus risos mais mansos,
guardados só para você.
sábado, outubro 20, 2007
quarto andar
e a fome continua
seca e surda.
parece justo,
o eco das palavras
e a falta
do excesso.
a manhã distrai os sentidos,
o erro ébrio sem perdão,
duas vezes cometido,
é a farsa
e a solidão.
terça-feira, outubro 16, 2007
segunda-feira, outubro 15, 2007
corpo rio
- você me dói como a umidade negra da pele que cessa de estar num rio. calor intrépido da derme contra a água da carne. os lábios frios sem medo. como tal, um abraço inesperado.
quarta-feira, outubro 10, 2007
segunda-feira, outubro 08, 2007
diálogo
em cada gole,
demorado para desculpar
o olhar.
não entender - eu não entendo,
pois esse vento
quem viu atrás da janela ficou.
eu te vejo e isso persiste,
é de rir de graça que eu gosto,
e eu tenho rido até chorar.
quarta-feira, outubro 03, 2007
rei de paus
impressão opaca.
tudo que é reflexão revolucionada do instante,
não há nada.
além sobra,
de um espelho dentro do outro.
as marcas na lama,
são feitas de sombra.
tudo o que é volta a ser
a palavra exata.
se juntos ardem
ainda me resta saber
o que um espelho no outro vê
se o nosso olhar é de graça.
terça-feira, outubro 02, 2007
tento
alguém canta,
sem nunca mais parar.
passa o tempo e eu imagino
mergulhar fundo
em um teu perto do que tenho.
nada quer dizer tanto
quanto resta de nós-duas.
passa a vida
e eu só quero te ter sua,
para ainda assim estarmos mudas.
chega a manhã vento para te ter,
e eu te tendo, eis que estou.
quinta-feira, setembro 20, 2007
zinco
ouço a música feita com a sua fome
e meu pescoço se prepara.
eu fecho os olhos e me deliro pra frente.
segunda-feira, setembro 17, 2007
lado b
no escuro não ver lágrima
pra lavar a minha dor.
dor foi e não partiu
esse vazio só acaba
na próxima temporada.
domingo, setembro 16, 2007
gutural
os céus que abatem a vegetação rasteira
nele o mar bate.
eu não me importo,
só um pouco ao menos,
pra que eu possa ganhar ar (e tempo).
cada dia que passa, eu não tenho medo.
quinta-feira, setembro 13, 2007
cerco
em cada resto inoculto dobravam mil decibéis. ébria cissão entre o fora e o dentro, me esparramava com a boca enlameada sujando os seus tapetes. pouco me importava. era então ódio do começo ao meu fim, o deslizar secreto do que parece mais natural, os olhos passando pela sala, fixos nas garrafas vazias que serviam nosso banquete.
olhava intermitente o casal fuso nos sofás, flutuando na música altíssima e dissipada daqueles dias. era o ódio quem tornava tudo muito natural. olhava as garrafas - as garrafas são de vidro.
olhava para o casal - o amor que é de vidro.
ato 2:
então veio o sol e diluiu tudo na rubra aurora.
terça-feira, setembro 11, 2007
tédio
as palavras cediam, eram pedras que a horizontalidade da água vencia.
eu te pedia com os olhos por um pouco de água, meus dentes estavam cheios de sede,
logo em pouco iriam sangrar. eu gritaria,
correndo por entre os obstáculos, os derrubando com beijos,
iria Gritar: quem pode saturar os caminhos nessa febre de sal,
as gengivas irão sangrar, e ninguém vai me livrar do tédio.
por obrigação
da garganta
olhos sem deixas
atos sem intenções
achar-se sem dons
umbigos
carinhos - vazios
beijos por obrigação.
domingo, setembro 09, 2007
gipsy
essas jamais saberão dos segredos por trás do meu violão.
há algo levemente azul e morno,
distrai os olhos,
cessa os vícios.
domingo, setembro 02, 2007
carta pra passado
sábado, setembro 01, 2007
estarém
segunda-feira, agosto 27, 2007
segunda-feira, agosto 20, 2007
rio
Fez com as palavras um muro intransponível, subindo cada dia mais um nível, fez do ódio argamassa dos seus riscos. Peça-me que fale tudo que já sendo, e mesmo assim quando te olho, te rogo, te perco. Faz-me todos os seres que dentro de mim se contradizem, impossível a comunhão de dois, te digo, quando começa o outro o um acaba. E então poderia te enganar nessa ladainha até o final dos tempos, a anonimidade perversa das palavras, vês, o limite frágil entre a mentira e a verdade. Antes o erro, depois o fruto. Depois do fim, segredos que a curva aguarda, faz-se sólido o teu Acaso.
quinta-feira, agosto 16, 2007
turbilhão da vida
passam nus, mas não vêem nada.
atrás das cadeiras de vime,
perto de onde os sorrisos não mais tocam,
eu não te guardo.
teus olhos
estão cegos de dentro para fora.
minha boca está seca nesses seus olhos,
eu te peço, te rogo, alguma palavra.
sempre fomos tão mudos,
mesmo quando eloquentes,
a ordem das palavras nunca mudou a ordem do silêncio.
escuta
os olhares que passam na rua.
o teu sorriso não aguarda,
nem sequer teus braços prendem.
quarta-feira, agosto 08, 2007
história
vagabundo
quando sob ele pouso meus olhos.
Perco para os pés a gravidade,
para os braços
as mãos umas vez unidas.
terça-feira, julho 31, 2007
antonico
por mais que a gente tente atingir com as palavras, afia-las como dardos, elas perdem a força nesse ar cético
peitos com coletes de chumbo
e cera nos ouvidos
vereda
sexta-feira, julho 27, 2007
vênus, meu amor
polenta
terça-feira, julho 24, 2007
lunáticos
- eu sou maluca?
- acho que não.. mamãe disse que maluca é quem mora na lua.
medula
domingo, julho 22, 2007
horus
deixa eu te dizer uma coisa,
isso tudo aqui não é real.
eu sou uma alucinação individual,
mas podia ser pior,
imagina só se fosse uma alucinação coletiva.
praia
o mar inunda.
Te tocar em cada poro,
em cada fundo,
se fosse útero.
Inunda e mata,
se bastar,
o ar te falta.
O mar à noite,
mas não tão só.
Abraço n'água,
esse todo mar.
quinta-feira, julho 19, 2007
tre
terça-feira, julho 17, 2007
ou é por quilo?
a. abate o corpo a falta de coragem
b. finjo que disso não sei
2. olho-a bem, franzo o cenho, e me entrego
a. sobe a boca resquícios constantes Ácidos
b. ponho para dentro sem nem saber
3. depois de umas 5 ou 6 me embriago
a. diluída num clown patético
meio amargo
ainda
tempo vento e morte - persistem,
pois dizem que o mundo é justo.
matéria de veia que incha e inflama,
sangue que erra num constante passar,
se fosse andar com os pés dessas dores
- bolhas, espaços perdidos,
entre isso e aquilo.
tenho certeza de que tenho certeza de que tens a certeza
E ainda somos tão pouco.
ralar o coração na falta de ter coração.
pensar nas coisas mais estúpidas por excesso de tempo,
ou de medo.
vivo (ponto final).
essa seria a palavra que eu escolheria.
sábado, junho 30, 2007
tempo demais
faço esses desenhos poucos com os dedos na areia,
o mar às vezes bate nas nossas pernas.
se você diz alguma coisa eu até respondo,
embora tudo continue calado.
os gestos e as mágoas.
as nuvens e as marés.
os amores e os ódios.
o mar às vezes bate nas nossas pernas.
quinta-feira, junho 28, 2007
pathos
as nuvens confundem a natureza da água salgada que toca o solo. não deixam de passar, em absoluto. tenho como exemplo as formas de suas curvas. idéias e mundos que passam por vezes despercebidos. a espécie de segurança da gratuidade que tem o afeto de um felino.
sou seca, rala, pouca. fecunda. não me diferencio do solo, da vegetação rara, ou então das nuvens. o ritmo da terra, batimento cardíaco lento, toma conta do meu ser. caminhada letárgica.
tais imagens sem nicho, flutuando por todos os ares, invadem-me o estar que torno como uma obsessão: repentinamente as linhas de um círculo que dele toma posse. círculos, retornos imersos nos caminhos. no meio do deserto sem fim encontro um cactus. forte, linha bruta do constraste. resistência agreste da vida que se cumpre. signo inteiro da fecundidade.
fluxos do tempo, e do meio, no outro áspero, desfaço-me da pedra, despojo-me da areia que formou-me, entrego-me. mato e morro. fim concluso da procissão, sem linhas retas. libero-me da minha carne, arrebento-me no meu ser. sou outra vez.
quinta-feira, junho 21, 2007
tereza
a fuga da fuga
em doses homeopáticas:
cerveja a cada dia,
pedaço a cada esquina,
eco sem sujeito, óculos sem miopia.
não se procura e não se acha, enfim a sua resposta:
o nada.
no mais, só
as palavras
que nunca
se calaram no ar.
domingo, junho 17, 2007
desconstruindo werther
eu lembraria do seu sorriso,
e não é que quando me encanto sei transpor isso ao outro, no instante de uma palavra?
por trás de cada sílaba antes o ritmo do que o fatídico sentido,
sei sim,
e o sorriso de lia.
a faria um samba, se é que tu me entendes.
como uma ladeira iluminada de sol,
como uma saudade,
gato, gato. rato. triste saudade.
triste saudade de lia.
chá de romã
pois não é como se fosse cheiro algum, pois está lá. é o profundo cheiro do nada. enquanto isso volto a minha atenção ao filme que passa. que babaca, sem propósito algum. e eu penso no que penso. minha cara, sem propósito algum. como se nadasse e meus pensamentos fossem espuma do mar, não importa que não tenha nada além da espuma, o que importa é que eu sinto.. :que há algo, só não sei se já encontrei.
dou mais um gole no chá,
como um tapa na cara a verdade se revela:
o profundo cheiro do nada.
sexta-feira, junho 15, 2007
debaixo do pano
entre as suas expectativas, e o que o punho fechado guarda.
-não. eu não falo de pombas voando.
eu penso no que do tempo me aguarda.
este é o se perder: esperar.
o pôr do sol tem hora marcada. quase.
mas nada tem hora marcada.
-é que me perco.
poesia de cego.
mágica pra ninguém ver.
mudar as expectativas.
quarta-feira, junho 13, 2007
leão
sabe que seus olhos estão vermelhos.
ângulo torto de si mesmo,
descobrindo o mundo que fez-se sozinho nas noites passadas.
levanta, olha.
o que mais desdobra da falta aguda do pensamento?
o mundo se arrepende,
sustentado na fraqueza ébria de seus joelhos.
quinta-feira, junho 07, 2007
terça-feira, junho 05, 2007
quem sabe um dia
procuro e acho que sei,
mas nunca sei.
fecho os olhos de desespero. abro os olhos e me tenho.
domingo, junho 03, 2007
desconstruir
para escutar tudo o que você tem a dizer.
quem sabe assim eu ouça o que sempre quis ouvir:
os seus fins vão ser os meus começos,
a minha mentira vai ser a sua verdade.
viver
não há algum contrato
que de fato
nos proteja.
nascer sem petição,
morrer,
por ventura,
por acaso.
e entre isso e aquilo,
todas as pedras,
no meio do caminho,
no fundo do sapato.
quinta-feira, maio 31, 2007
total
instantâneo
bike
segunda-feira, maio 28, 2007
7
navego pelos mares secos que foram essas horas,
reformulo as palavras que ficaram suspensas no ar.
os rostos,
os rostos, todos deformados:
será miopia dessas gotas d'água?
a palavra nunca.
o braço imobilizado,
ato sem fim,
semi círculo.
por essa estrada
nunca avançará.
dos grãos de tempo,
castelos de areia, pequenos contos.
compulsivamente me alimento
dessas migalhas que achei pelo chão.
se todas as fomes são infinitas:
enfim o seu não.
por tudo o que foi fácil,
não suprirá a falta:
vejo a vida com suas tetas imensas,
apagando brancos incêndios.
sob os olhos de aproximar-se
de um instante, tempo e espaço,
descubro a matéria do vazio:
eis a infinita chama.
a dureza desses passos,
marcas fundas no solo.
o tempo passa:
estamos salvos,
ainda somos.
sábado, maio 26, 2007
é lava
é se encontrar chorando, perdida em si mesma,
e não se encontrar.
e não ter pra quem ligar.
é uma ladeira que não dá pra enfrentar sozinha
e não ter com quem ir junto.
é fingir que não precisa de ajuda e então ter que não precisar.
é querer se matar, mas não ter coragem.
é gritar e gritar e gritar, e não saber gritar,
e precisar, e não saber precisar, e não vir ninguém. é isso.
é essa lágrima que caí sozinha.
sexta-feira, maio 25, 2007
que instâncias da personalidade?
- despressuriza bicho.. escreve, escreve tudo! pôe no papel, finge que isso tudo é deles também...
- eu não quero escrever. eu quero viver.
paúra
tá tão frio, e a cidade anda tão bonita. a rua tá cheia de pessoas com frio. não importa muito o que elas pensam, elas são o que elas são de qualquer maneira. pensamentos são só espaços brancos com desenhos. uma mulher de casaco roxo escova os dentes e com os olhos olhando pra dentro pensa em qualquer coisa. eu olho pra ela e eu vejo ela. basta olhar pra dentro.
faz uns dias que tem uma dor no peito que atesta que eu existo. minha hipocondria vigilante já tentou mil diagnósticos, de gases à botulismo. parti pra freud, pensei quais eram as pulsões que eu reprimia, em que buraco eu me metera. mas prefiro não pensar assim. eu sei que se a vida deixar de ser só esse empurra empurra, se escondendo nas entrelinhas para não tomar chuva, eu vou chorar. dor no peito de se encontrar sozinha.
sabe, cada dia mais eu penso que existir é isso, existir mais por inteiro, é achar-se sozinha.
eu me prendo às pessoas, às teorias, aos livros. ao mar. talvez tenha desaprendido a viver sozinha. a estar sozinha. eu sempre penso que uma música vai me salvar. o que eu tenho é medo.
quarta-feira, maio 23, 2007
concêntrico
A luz é pouca. É luz da madrugada. Os grilos me trazem esse silêncio imenso que chamam solidão. Não ligo, sou esse outro. Corpo ao vento. O redor me engole como seu, como um nós. Inventado, já que me esqueci.
Aos poucos as unhas vão se encardindo da terra que não consigo evitar, os pelos vão se coçando da grama que incomoda entre as pernas, e já nem incomoda mais. Não há luz que me chama, não há voz, nem mesmo sopro. Não há ondas que não poderia romper.
Talvez venha um cão aos meus pés, cumplicidade de olhar no mais fundo de nós dois. Ele se entrega e eu me entrego. Amor barato que prefiro. Estar só, sem vozes. Reverbera o som e o calor.
celeste
todo o tempo que passa
sabe mais quando não diz
tanto bem e todo mal.
nas nuvens
dá-me tua mão.
hoje eu vejo tudo com novos olhos,
olhos de quem nunca viu.
aqui dentro como flor única,
pés decalços em piso de madeira.
indistinto ir sentindo
corpo todo, alma aberta.
esse existir leve,
carinho de pluma,
passos de lebre.
escuta esse silêncio todo,
e me dá tua mão.
sábado, maio 19, 2007
brother jack mcduff
- não sei. impossível reter os flocos das pessoas reais. por isso que eu não gosto de cinema, os personagens quase nunca tem mapa astral.
- mas quiçá... quiçá criar é quase psicografar, umas coisas de inconsciente coletivo, manja? mapa astral, jung....... física quantica e qualquer coisa é possível..
- inclusive criar.
- vai ver..
papirus
já não sabe mais das histórias do passado,
não é lúdico, tão pouco sábio,
sem matéria, ou futuro.
peito agora de se ver por inteiro,
quem sabe sentir o momento.
fluxo, instante fluxo do erro.
quarta-feira, maio 16, 2007
desabafo
segunda-feira, maio 14, 2007
faísca / retalho
dúvida de que essa existência ébria e escura, por só, fosse como minha. era nada! era pouca. aprendi quando me esqueci, porque me encontrei no ato. no que de mim retornava quando eu fingia não ser. me encontrei em todos os enganos, pois me entreguei. foi assim que novamente o erro encheu minha boca de palavras: quando a melancolia com sua ladainha atraente conquistou-me numa esquina. encheu-me matéria vazia no peito.
bebi, e não voei. só pude andar. princípio do fim a falta. enleio da matéria. é isso que somos.
o oco inadimplente retorna. e então somos nós.
sábado, maio 12, 2007
pra não perder
tenha signo de também ser útero,
tenha olhos de entender no escuro,
quero um homem que nunca seja bruto,
da poesia ser também mulher.
sexta-feira, maio 11, 2007
manga
é uma fruta - me dizem.
pego uma manga na mão
procuro uma fruta.
a mordo - procura a fruta da fruta
a mordo - a devoro - a sou.
procuro a fruta da fruta
chego ao caroço
e me encontro
a fruta está no oco
muito pouco
se não for para ver o time ganhar, basta andar pela cidade. eu ouço melodias no meu oco, eu sorrio de uma alegria qualquer. esquinas e esquinas, anônimas. esses são os meus passos (eterno desconhecer de suas meninas). o céu me cobre, a rua me cede,eis que invado a vida, com seus pés de aço: venço seus vãos. assim que esvazio o sentido da inversão que é ser para dentro. a cidade me faz tão pouco, me rareia, não passo de um não nome. andar desse existir para fora.
quinta-feira, maio 10, 2007
cruz das funções
segunda-feira, maio 07, 2007
mao
pensar é sua terapia
me diga dos seus dias
deixe seus pés no chão
não voe tão alto
é árido o ar
rarefeitas são as sombras.
o caminho e as pedras
as pedras e o caminhante.
(sim, tema. pois o erro também está lá) .
o fim não existe até chegar,
qual projeto que não é como horizonte,
qual delírio que seca antes da fonte.
o caminhante, meu amigo,
é o todo, é o próprio caminhar.
domingo, maio 06, 2007
metafísica
sei desse marca passo
dos erros
finjo a nostalgia do controle
tensiono todos os músculos
nos dedos evito
abandonar-me num largo precipício.
e penso
e sinto
e tento
o fim é sempre o fim
e o erro é inevitável.
quarta-feira, maio 02, 2007
mariposas
eu descascava a vida como se fosse uma cebola
e em poucos instantes lá estava eu
e a vida. sozinhas.
algo como se luz
de cozinha iluminasse tudo.
não estava preparada
e chorava molhando os ombros fortes
do meu pai.
segunda-feira, abril 23, 2007
rogar. em vão
quem tem paz e dorme não precisa de palavras. te inveja um olhar macio que pouso na-tua-nuca. a maneira qualquer como esparrama os cabelos, sem jeito, na cama. o sono sem culpa e ateu. consolo-me com um apesar-de. é um desconso-lo do ser. sou toda pra fora. esbanjei já minha dor ao nascer, e todas as lágrimas no decorrer dos dias. sou vasta e árida. já passa meu tempo e prevejo. por isso os sábios sorrisos que os bons velhos me dão na estação de trem. eles preveem, além deles, o meu fim. sinto-me num aquário. viver sufoca-me como não ser água, como não ter ar. tem vezes que é impossível não debater-se no medo de nunca subir a tona. tem vezes. como não dormir por medo. lisura da pele quadrada. estou naquela casa e só eu posso me salvar. do medo. eis aí a ambiguidade.
amanhã é terrível. não suporta minha cabeça num travesseiro.
a madrugada conforta-me. parece imensa. seu tempo mente. é eterna, e estou só enfim.
a luz do dia que virá é como viver em claro. desta vez é o sol que obscurece as ilusões (sim, na ordem inversa). trás os passos curtos e garantidos, e também sombras. na noite tudo quanto é gente é sombra. de dia só restam os espelhos. vis. não me confortam. cínicos. os odeio. minha morte será como a noite. será uma madrugada sem fim.
consolo
a água do chá da menina fervera. ela, sem medo e etereamente terrena foi à cozinha. da altura infinda dos seus pensamentos, o menino despencou com ossos fracos (perdido no seu próprio vazio. nos seus pelos feios. seu olhar de monstro. seu nome de joão paulo). caiu dos seus infernos e paraísos criados no erro que concebia, segundo após segundo, querendo quem não o queria.
domingo, abril 22, 2007
juventude viada
ah! esses dias em que alberto caeiro é precioso, pra livrar-nos desses maldito martírio de Ser. muito difícil viver em paz nessa panqueca de ecos freudianos, niilistas, moralistas, pugilistas; transformaram existir numa escolha de vida. decidiram por quais vias devemos testar nossos passos antes de andar. eu só quero andar, e gritar, e esquecer toda essa porcaria sem sentido que andam ensinando por aí. enfie kant no cu, cuspa em nietzsche, ponha o dedo no nariz de adorno! cansei dessa briga efêmera de grandes autores anônimos, de pequeninas letras xerocadas. eu quero ver o mar. em paz. e formular minhas próprias teorias.
-é cara!