quinta-feira, maio 31, 2007

total

a vida que me apresenta de pés descalços e me chama pra dançar. recuso, pois já não sei. nem sei mais meu nome. a verdade é que tenho medo. a verdade é que a verdade não é fome, nem sono, nem medo, nem desejo. é qualquer outra coisa. de pés descalços. a verdade é que eu quero fugir. será verdade que eu vou. será partir uma grande e ciumenta ilusão da vida que te reparte em dois e come teu fígado como se ainda fosse dia? é. eu tenho fome dessa vida. descalça, mansa, e inteira. me diz o tempo todo que está lá à minha espera. ignoro sabe? finjo que não. finjo que está tudo calçado com sapatos pretos de ir deitar calçado (acho que era drummond que falava assim da morte). meu amor. a vida é pra virar as páginas do coração, mas é sozinho. sempre sozinho. sempre úlcera. e te amo tanto quanto pode-se amar no mar. quero ir pra praia. e um dia quero que uma das suas páginas seja virar peixe comigo. a vida é bonito já diziam. e é mesmo. mas só descalça.

instantâneo

Te aparecia a uma esquina, estavas de chapéu, inventada no esboço de um sorriso. Eras toda felicidade de passado. Encantava os retratos sem fome, como se fossem doces, os dias, aqueles. Olhava a flores para mim, era toda de cheiros, dançava outonos. Aos sonhos feitos de nuvens, a foto morna como no rosto a sensação de um beijo que acabou de ser dado.

bike

Eu ganhei de aniversário uma bicicleta vermelha, com um laço, sem laço, era tudo aquilo que eu lembrava. Grito de um vermelho contra uma mansidão de cinza. Cachorro do mato. Grito que ninguém deu. Palmeira de Drummond? Riso perdido pelo chão. Vejo um tempo de tocaia, era um sonho que se escondeu na contra mão de um pensamento. Eu digo ninguém nunca viu o vento. Atesto, proclamo, transformo tudo em cruz, sacrifico os cordeiros. Mão que toca meus ombros, não posso olhar para trás, como passado, ou como silêncio.

segunda-feira, maio 28, 2007

7

espero da frieza da sua boca a palavra de ordem.
navego pelos mares secos que foram essas horas,
reformulo as palavras que ficaram suspensas no ar.

os rostos,
os rostos, todos deformados:
será miopia dessas gotas d'água?

a palavra nunca.
o braço imobilizado,
ato sem fim,
semi círculo.
por essa estrada
nunca avançará.

dos grãos de tempo,
castelos de areia, pequenos contos.
compulsivamente me alimento
dessas migalhas que achei pelo chão.
se todas as fomes são infinitas:
enfim o seu não.

por tudo o que foi fácil,
não suprirá a falta:
vejo a vida com suas tetas imensas,
apagando brancos incêndios.

sob os olhos de aproximar-se
de um instante, tempo e espaço,
descubro a matéria do vazio:
eis a infinita chama.

a dureza desses passos,
marcas fundas no solo.
o tempo passa:
estamos salvos,
ainda somos.

sábado, maio 26, 2007

é lava

qual é a palavra que salga sua boca? é a solidão.
é se encontrar chorando, perdida em si mesma,
e não se encontrar.
e não ter pra quem ligar.
é uma ladeira que não dá pra enfrentar sozinha
e não ter com quem ir junto.
é fingir que não precisa de ajuda e então ter que não precisar.
é querer se matar, mas não ter coragem.
é gritar e gritar e gritar, e não saber gritar,
e precisar, e não saber precisar, e não vir ninguém. é isso.
é essa lágrima que caí sozinha.

sexta-feira, maio 25, 2007

que instâncias da personalidade?

- tô me sentindo uma merda. tô sentindo dor, e to fingindo que é poesia, e tô falando que ela tá ardendo em mim.
- despressuriza bicho.. escreve, escreve tudo! pôe no papel, finge que isso tudo é deles também...
- eu não quero escrever. eu quero viver.

paúra

tá tão frio, e a cidade anda tão bonita. a rua tá cheia de pessoas com frio. não importa muito o que elas pensam, elas são o que elas são de qualquer maneira. pensamentos são só espaços brancos com desenhos. uma mulher de casaco roxo escova os dentes e com os olhos olhando pra dentro pensa em qualquer coisa. eu olho pra ela e eu vejo ela. basta olhar pra dentro.

faz uns dias que tem uma dor no peito que atesta que eu existo. minha hipocondria vigilante já tentou mil diagnósticos, de gases à botulismo. parti pra freud, pensei quais eram as pulsões que eu reprimia, em que buraco eu me metera. mas prefiro não pensar assim. eu sei que se a vida deixar de ser só esse empurra empurra, se escondendo nas entrelinhas para não tomar chuva, eu vou chorar. dor no peito de se encontrar sozinha.
sabe, cada dia mais eu penso que existir é isso, existir mais por inteiro, é achar-se sozinha.
eu me prendo às pessoas, às teorias, aos livros. ao mar. talvez tenha desaprendido a viver sozinha. a estar sozinha. eu sempre penso que uma música vai me salvar. o que eu tenho é medo.

quarta-feira, maio 23, 2007

concêntrico

A luz é pouca. É luz da madrugada. Os grilos me trazem esse silêncio imenso que chamam solidão. Não ligo, sou esse outro. Corpo ao vento. O redor me engole como seu, como um nós. Inventado, já que me esqueci.

Aos poucos as unhas vão se encardindo da terra que não consigo evitar, os pelos vão se coçando da grama que incomoda entre as pernas, e já nem incomoda mais. Não há luz que me chama, não há voz, nem mesmo sopro. Não há ondas que não poderia romper.

Talvez venha um cão aos meus pés, cumplicidade de olhar no mais fundo de nós dois. Ele se entrega e eu me entrego. Amor barato que prefiro. Estar só, sem vozes. Reverbera o som e o calor.

celeste

passa toda a história que se esgota
todo o tempo que passa
sabe mais quando não diz
tanto bem e todo mal.

nas nuvens

vem, olha esses passos.
dá-me tua mão.
hoje eu vejo tudo com novos olhos,
olhos de quem nunca viu.
aqui dentro como flor única,
pés decalços em piso de madeira.
indistinto ir sentindo
corpo todo, alma aberta.
esse existir leve,
carinho de pluma,
passos de lebre.
escuta esse silêncio todo,
e me dá tua mão.

sábado, maio 19, 2007

brother jack mcduff

- que diálogo seria possível?
- não sei. impossível reter os flocos das pessoas reais. por isso que eu não gosto de cinema, os personagens quase nunca tem mapa astral.
- mas quiçá... quiçá criar é quase psicografar, umas coisas de inconsciente coletivo, manja? mapa astral, jung....... física quantica e qualquer coisa é possível..
- inclusive criar.
- vai ver..

papirus

tem algo que eu sou agora, reconheço.
já não sabe mais das histórias do passado,
não é lúdico, tão pouco sábio,
sem matéria, ou futuro.
peito agora de se ver por inteiro,
quem sabe sentir o momento.

fluxo, instante fluxo do erro.

quarta-feira, maio 16, 2007

desabafo

como não sentir-se os restos batidos vendo essas moscas rondando às voltas da minha cabeça. franzo o cenho desse odor contínuo, perco o orgulho nas vicissitudes do momento. o sal que escoa minhas palavras, as silencia, é a ira. ela que embora carregue uma cruz que não a pertence, também sabe que as causas são apenas minhas. infrinjo-me as dores, este é o não sucesso, chama-se frustração. não durmo, não digo. sou um resto. sou resquício de chama que se apaga com o vento. fruto contínuo de certo desamor. céu sem nuvens. sonho sem noite.

segunda-feira, maio 14, 2007

faísca / retalho

cansou-me esse lastimar que eu era. anos de alguma incongruência com os fatos do mundo, dia após dia, me tornando aquela coisa aberta de quase morte. tornando um resto qualquer, uma poça de emoções amargas. eu talvez fosse um lago ou uma casa, era uma carta que ninguém nunca leu, permitia no mais fundo do meu silencio ser pouco menos que um buraco. eu era um nada, achando que assim eu me tinha inteira. me guardava no escuro, aguardava outros tempos, e nada. todo ato se desvanescia no ar, pimenta aguada nos olhos, medo-espécie-de-amargura.
dúvida de que essa existência ébria e escura, por só, fosse como minha. era nada! era pouca. aprendi quando me esqueci, porque me encontrei no ato. no que de mim retornava quando eu fingia não ser. me encontrei em todos os enganos, pois me entreguei. foi assim que novamente o erro encheu minha boca de palavras: quando a melancolia com sua ladainha atraente conquistou-me numa esquina. encheu-me matéria vazia no peito.
bebi, e não voei. só pude andar. princípio do fim a falta. enleio da matéria. é isso que somos.
o oco inadimplente retorna. e então somos nós.

o tempo

quero morrer antes que seja tarde

sábado, maio 12, 2007

o haiti não é aqui

gosto de porra de gordo na boca:
- a vida não é pra ser digerida.

pra não perder

tenha alma de entender clarice,
tenha signo de também ser útero,
tenha olhos de entender no escuro,
quero um homem que nunca seja bruto,
da poesia ser também mulher.

sexta-feira, maio 11, 2007

manga

pego uma manga na mão.
é uma fruta - me dizem.
pego uma manga na mão
procuro uma fruta.
a mordo - procura a fruta da fruta
a mordo - a devoro - a sou.
procuro a fruta da fruta
chego ao caroço
e me encontro
a fruta está no oco

muito pouco

a solidão me gasta a pele como o meu medo de não ser. apenas como isso. eu deveria me lembrar de que os passos se dão por negação. a força das pernas vence a preguiça.
se não for para ver o time ganhar, basta andar pela cidade. eu ouço melodias no meu oco, eu sorrio de uma alegria qualquer. esquinas e esquinas, anônimas. esses são os meus passos (eterno desconhecer de suas meninas). o céu me cobre, a rua me cede,eis que invado a vida, com seus pés de aço: venço seus vãos. assim que esvazio o sentido da inversão que é ser para dentro. a cidade me faz tão pouco, me rareia, não passo de um não nome. andar desse existir para fora.

quinta-feira, maio 10, 2007

cruz das funções

acho que o pensamento é uma merda. uma construção eterna e incompleta. milhares de barreiras, milhares de instantes, e nenhuma verdade. eu acredito no sentir. o sentir me conta dele próprio, sem passado e sem futuro. o tempo foi inventado quando desistiram de sentir e passaram a pensar.

segunda-feira, maio 07, 2007

mao

acalma menina respira
pensar é sua terapia
me diga dos seus dias
deixe seus pés no chão
não voe tão alto
é árido o ar
rarefeitas são as sombras.

o caminho e as pedras
as pedras e o caminhante.

(sim, tema. pois o erro também está lá) .

o fim não existe até chegar,
qual projeto que não é como horizonte,
qual delírio que seca antes da fonte.

o caminhante, meu amigo,
é o todo, é o próprio caminhar.

domingo, maio 06, 2007

metafísica

por engano
sei desse marca passo
dos erros
finjo a nostalgia do controle
tensiono todos os músculos
nos dedos evito
abandonar-me num largo precipício.
e penso
e sinto
e tento
o fim é sempre o fim
e o erro é inevitável.

quarta-feira, maio 02, 2007

mariposas

cada dia que passa faz mais tempo,
eu descascava a vida como se fosse uma cebola
e em poucos instantes lá estava eu
e a vida. sozinhas.
algo como se luz
de cozinha iluminasse tudo.
não estava preparada
e chorava molhando os ombros fortes
do meu pai.

segunda-feira, abril 23, 2007

rogar. em vão

penso em claro. e com isso quero dizer que ao invés de dormir, pairo em pensamentos com a luz do abajur a obscurecer quaisquer ilusões que porventura apareçam. resisto ao sono, não me deixo tocar pela mão do terreno livre. terra de ninguém, cenário indeciso dos meus sonhos. não bem resisto, pois senão não precisaria de palavras. as palavras vieram com a fome. com a vontade de dividir os gritos, ou a carne. o expresso.
quem tem paz e dorme não precisa de palavras. te inveja um olhar macio que pouso na-tua-nuca. a maneira qualquer como esparrama os cabelos, sem jeito, na cama. o sono sem culpa e ateu. consolo-me com um apesar-de. é um desconso-lo do ser. sou toda pra fora. esbanjei já minha dor ao nascer, e todas as lágrimas no decorrer dos dias. sou vasta e árida. já passa meu tempo e prevejo. por isso os sábios sorrisos que os bons velhos me dão na estação de trem. eles preveem, além deles, o meu fim. sinto-me num aquário. viver sufoca-me como não ser água, como não ter ar. tem vezes que é impossível não debater-se no medo de nunca subir a tona. tem vezes. como não dormir por medo. lisura da pele quadrada. estou naquela casa e só eu posso me salvar. do medo. eis aí a ambiguidade.
amanhã é terrível. não suporta minha cabeça num travesseiro.
a madrugada conforta-me. parece imensa. seu tempo mente. é eterna, e estou só enfim.
a luz do dia que virá é como viver em claro. desta vez é o sol que obscurece as ilusões (sim, na ordem inversa). trás os passos curtos e garantidos, e também sombras. na noite tudo quanto é gente é sombra. de dia só restam os espelhos. vis. não me confortam. cínicos. os odeio. minha morte será como a noite. será uma madrugada sem fim.

consolo

os corpos distavam um do outro em pouco menos que cinco centímetros. as mentes, entretanto, planavam em pairagens nunca vistas por olhos nus, tão distantes quanto podem dois universos dispostos. ele pensava nela, mas num Ela sem corpo, sem medos, sem o terror da materialidade. ela, por outro lado, consolava-se em uma banalidade de poucos limites: a janela, o chá, a tarde, talvez até o futuro. ele se perdia em labirintos obsessivos, desaprendia formulas e repetia orgulhoso as temáticas do inferno, da perdição, dos sexos, das saudades. inflava o cenho de uma poética inventada (não por ele, mas por outros, antigos, nobres, e poetas). criava-se vivo perante essas contradições eternas dos homens e seus pares, voava a milhas de distância daquela sala escusa, filiava-se pródigo de grandes nomes. vasto e repleto. os olhos cegos e um projeto infantil de riso.
a água do chá da menina fervera. ela, sem medo e etereamente terrena foi à cozinha. da altura infinda dos seus pensamentos, o menino despencou com ossos fracos (perdido no seu próprio vazio. nos seus pelos feios. seu olhar de monstro. seu nome de joão paulo). caiu dos seus infernos e paraísos criados no erro que concebia, segundo após segundo, querendo quem não o queria.

domingo, abril 22, 2007

juventude viada

-todos os dias o mesmo oco que é ser. fome maldita que estraçalha os melhores colchões, a melhor música fudida. será uma expressão incontinente de um desejo fantástico e (até) mórbido? fome essa que não se basta em nada. alimenta-se do intante e perde-se no momento.
ah! esses dias em que alberto caeiro é precioso, pra livrar-nos desses maldito martírio de Ser. muito difícil viver em paz nessa panqueca de ecos freudianos, niilistas, moralistas, pugilistas; transformaram existir numa escolha de vida. decidiram por quais vias devemos testar nossos passos antes de andar. eu só quero andar, e gritar, e esquecer toda essa porcaria sem sentido que andam ensinando por aí. enfie kant no cu, cuspa em nietzsche, ponha o dedo no nariz de adorno! cansei dessa briga efêmera de grandes autores anônimos, de pequeninas letras xerocadas. eu quero ver o mar. em paz. e formular minhas próprias teorias.
-é cara!

sexta-feira, abril 20, 2007

beleza pura

Da Maior Importância (escutem!)
Caetano Veloso

Foi um pequeno momento, um jeitoUma coisa assimEra um movimento que aí você não pode maisGostar de mim, direitoTeria sido na praia o medoVai ser um erro, uma palavraA palavra erradaNada, nadaBasta quase nadaE eu já quase não gostoE já nem gosto do modo que de repenteVocê foi olhada por nósPorque eu sou tímido e teve um negócioDe você perguntar o meu signo quando não haviaSigno nenhumEscorpião, sagitário, não sei que láFicou um papo de otário, um papoIa sendo bomÉ tão difícil, tão simplesÉ tão difícil, tão fácilDe repente ser uma coisa tão grandeDa maior importânciaDeve haver uma transa qualquerPra você, e pra mimEntre nósE você jogando fora e agoraVai embora, vá!Deve haver um jeito qualquer, uma hora!Há sempre um homemPra uma mulherHá dez mulheres para cada umUma mulher é sempre uma mulher etc., talAssim como existe disco voadorE o escuro do futuroPode haver o que está dependendoDe um pequeno momento puro de amorMas você não teve pique e agoraNão sou eu quem vaiLhe dizer que fiqueMas você não teve piqueNão sou eu quem vaiLhe dizer que fique…Mas vocêNão teve piqueNão sou eu quem vaiLhe dizer que fiqueNão sou eu quem vaiVocê não teve piqueNão sou eu quem vaiLhe dizer que fiqueNão sou eu quem vai

basta quase nada

a princípio você perde o equilíbrio.
-tem vontade de encontrar as paredes (as perguntas)
-tem vontade, a máxima e única de abrir os olhos.
mas não. adivinhe o som do vento no escuro da sua própria vida,
e não abra os olhos tão cedo.
ceda ao exagero,
solte seu corpo na falta de acreditar na gravidade.
reinvente os nomes das cores.
'seja quem você nunca será.
não tenha medo do que virá - ele virá.
porenquanto abrace o agora e seu nome de erro.
nomes não passam de nomes.
eu só acredito no rio que passa dentro da minha aorta.

quinta-feira, abril 19, 2007

gabriel

sete os buracos da cara,
pregos na parede,
dias da semana,
planetas flutuando.
doze passos de cristo,
anos de castidade,
meses do ano.
três pernas se bastam,
duas pernas procuram,
uma perna sozinha,
perde-se ao vento.

quarta-feira, abril 18, 2007

boi voador

meus dentes ardem da quase morte que eu inventei. não sei de que matéria imagino não ser assim viver: recuso-me a comer, visto-me do nojo que tenho dos outros. hábitos de um vampiro. Trato do sangue, signo claro de um certo tipo de dor. faço da minha cor clara um exagero pra te agradar. agora que te escrevo, tremo, mas já não mais de medo. não querer ser-me recusa-me o medo.
dizem que a pior coisa a fazer é se abandonar. eu digo que são patéticos os apelos do corpo. não sentir. não ouvir. não ver. primeiros passos pra vida de fato. travessia da indiferenciação. liberdade de regressão evolutiva.

tia edna

invejo a calma pacífica com que você dorme. Quando me desespero tento me concentrar nessas certezas caladas. o mar indo e vindo. talvez você inveje o jeito que eu me movo, ou quase morro de dentro para fora. Talvez.
eu passo os dedos na linha da sua coluna, e acho tudo isso uma bobagem. te vendo daqui, dormindo. a ternura é quase a única coisa que toca meus poros.

domingo, abril 15, 2007

hein

suspeito um pouco que tenho signos de água demais. água nos olhos demais. e então, depois disso, começo a suspeitar que não há nada de errado nisso. chora menina que é bom, e quem disse que a hipocrisia dos outros é desculpável? sim. aprender com os erros, apreender a verdade. há pessoas bonitas no caminho que te encorajam. você até tem doçura no coração. às vezes. quando não é a amargura no fundo do estômago. eu não quero que você pare de acreditar na ilimitalidade do mundo. só se for por experiência própria. medo. esse é o grande imponderável. sexo. outro obstáculo à frente. dois morenos e você fumando cigarros. te dói a impotência absurda de só não o ser, pois não o é. não nasci homem pra fazer gozar as mais fracas de osso.

sexta-feira, abril 13, 2007

com um laço vermelho

-a vida é bonita. - disse só porque se espreguiça-va tranquilo, fazia um solzinho nas ventas e ele não usava óculos.
ele ouviu. e depois ele lembrou. porque afinal já fazia muito tempo que a vida era bonita. agora ele se debruçava em cima de uma madrugada doente (os fluxos doentes da cidade, os canos, os ratos - o porco. que matéria mesmo essa que o lembrara do "idiota"?). tarde demais pra lembrar. debruçava-se sem sono em cima da cidade e de um lado pro outro na sua cabeça ouvia "a vida é bonita". tanto tempo. era o tempo ainda que as coisas partiam de direção, o céu era azul e por isso a vida era bonita. depois tudo mudou, foi bem quando ele quis entender o que entendesse, sem que o dissesem. quis achar sartre um merda, e achar que podia ser dele também as verdades. foi um certo dia aí que ele descobriu que pra fazer uma verdade bastava uma mentira. e agora ele olha o céu e não vê nada. são olhos mudos. e ele come salada, e se sente uma vaca. ele digere tudo em pedaçinhos e não come nada. ele se debruça na cidade, e se sente olhando a grama verdinha e sem graça do pasto. ele come, vomita, e come de novo, a mesma massa verde (verde como o fundinho ralo que ele guarda na parte debaixo do estômago). caga sempre a mesma merda. e quase não tem mais paciência. dizem que a mentira é a verdadeira transcendência humana. a mentira é tudo e a verdade é nada, e nada é tudo. e todo mundo só quer trepar. mentira. tudo mentira. ninguém quer porra nenhuma. se tiver alguém que diz que quer chama aqui pra ver. lorota. medo. só medo. é só isso que te faz achar a vida bonita. e agora bem bonitinho senta e fica com essa mentira que eu fiz de presente pra você.

só pulsão, hein

estou pedindo a minha morte de propósito e de joelhos. em cada erro que eu faço. é como uma lição de casa, um exercício pro tônus. pílulas inúteis e inofensivas de arsênico. é assim que vou pedindo a mão da morte pra dançar comigo, de rosto colado. tenho certeza que ela não liga que eu danço mal. ela me ama a desgraçada, e é uma puta, com aquele vestido preto decotado, você devia ver que peitos!
graças a deus não pego mais ônibus, é uma hora a menos pra se torturar. hoje em dia eu só penso antes de dormir (tem reparado as olheiras?). e é também quando eu menos penso. ou menos existo. eu mais nada. nem dor eu tenho mais. eu tenho só esse nada, só lastimo que ele seja imenso. meio fora de moda, mas tenho que admitir que as vezes o meu coração desiste de ser músculo, e vira mar mesmo. juro mesmo, cê devia ver ele inundando tudo. e eu fico lá sujeita a esse corpo ridículo que eu nem pedi pra nascer com os olhos bobos perguntando o que aconteceu. só vou saber no dia seguinte, manchete: inundação na avenida sumaré, subtítulo: nenhum ferido já que chave não corta. (pelo menos foi isso o que ela pensou, ainda bem hein. porque o pai disse que a história era outra). preciso de alguém pra me dizer se a vida é mesmo esse eterno esvaziar-se pra não estourar. não estourar. melhor que terapia comprar uma porção de alfinetes bem brilhantes. ou bomba de bicicleta. ou morrer todo o dia um pouquinho. antes de dormir, os seios da morte seduzindo. e o sorriso de dentes cheios. pílulas da morte do doutor xavier.

dentro da vista

espera um instante, eu tô lembrando o que eu queria falar. olha, não briga comigo não, já tá vindo. é uma palavra com gosto metálico, faz anos que me esqueci. ou será que nunca soube? ou será que sempre soube. ela me vem a garganta, sinto com uma dor de regorgito. ponho todo meu esforço nisso, e até me cansa. não posso olhar, o olhar desvia. acho que é uma ordem, não quero me perder. acho que é um intuir. como uma tênia que vai percorrendo o corpo e não a acho. adivinho-a, tateio-me, e ela acha que me engana. mas tenho certeza dela. dela é o meu vazio. dela estou aqui. dela sou. não. não quero chorar, mas acho que descobri. acho que isso que foge de mim pelo meu corpo, que quase me escapa pela garganta.... será que é alma? agora estou com medo. estou sozinha, antes mesmo porque estou e depois porque, talvez, tenha alma. a palavra agora foi. se perdeu completamente. ou de repente a alma foi dormir na casa do cachorro. esse meu medo atrás do ouvido... será? agora não preciso de abraço, nada. escovar os dentes, os musgos dos dentes, o medo dos dentes. vou escovar os dentes e vou dormir.

quinta-feira, abril 12, 2007

amnésia, hein

naquela época eu não pensava muito, acho até que vivia mais. também não lembro de como tudo se passou, as formas do pensamento, as sombras...
a verdade é que ninguém pode confiar na memória, mas é possível que tenha sido mais ou menos assim:
o sol batia no conjunto de prédios do outro lado da rua, era um conjunto grande, cinza, quadrado, me lembrava às vezes 1984. e o sol (ou melhor, o reflexo dele no prédio) era sempre alaranjado. talvez porque eu sempre chegasse um pouco antes do entardecer, ou talvez porque os caprichos do tempo preferiram assim.
era um tempo em que se bebia demais, todos os dias. íamos quando podíamos, assim como os outros, e não saíamos nunca mais. não que fosse nossa culpa, não era, definitivamente. eram os músculos que se amoleciam nas cadeiras, os amigos que puxavam com suas mãos ocultas por mais alguns intantes da sua presença (que sempre duravam horas), até os garçons que nunca paravam de trazer cerveja eram mais culpados do que nós.
uma hora ou outra o nosso contínuo esforço de ir embora perseverava sob o ímpeto daqueles Outros, que queriam fazer do nosso fígado patê pra passar no pão. íamos embora então, às vezes cabisbaixos, mas na maioria das vezes esquecidos de qualquer coisa (que talvez até hoje não lembramos).
o gosto amargo, concentrado, da cerveja ficava nos cantos da língua, tinha o rosto suado, os cabelos despenteados, mas a certeza de que a vida era linda. andava tonta pelas ruas, preferindo sentar por poucos minutos nas sarjetas do que pensar em voltar pra casa.
Pois bem, voltei pra casa, e aqui fiquei... já passaram os dias que eu me esquecia pelos cantos. agora são os dias que a gente se lembra de si (isso são o que Eles dizem). todos os dias escrevendo o nome em todos os lugares, assinando os papéis da burocracia, condensando números ao lado do seu rosto. sim, Eles nos lembram de quem somos todos os dias. eram aqueles os dias em que a gente se esquecia. pois sim, pois sim.

terça-feira, abril 10, 2007

caminho

escapa-me um suspiro, eis que ergo-me viva perante olhos que olham para fora. então onde estou? para que ângulos e dobras olham esses olhos? ouço ecos. onde estou? pergunto-me tateando portas e fluxos. serei o ser que se forma das sombras, dos delírios?
outro suspiro sai à fonte. como os minutos que levam um pensamento. exatamente como eles, insuspeitos, embora se percam com a menor desatenção. estou atrás desses olhos. firmo-me atrás desses suspiros. me admito. pois sim, fui eu. quem irá elevar a voz perante esses descuidos? se meu crime não passa da admissão dos teus. pois levo como arma, e apenas isso, um meio sorriso. é que então vou aprendendo esse ser. enquanto inundo-me, o tempo passa sob o meu corpo. ou talvez seja o contrário, o tempo convencendo tudo ao infinito. não saberei, ainda não. embora persista, evito pisar em falso. e por enquanto basta. possuo algumas dessas verdades, talvez sejam delas a cal dos meus passos. sobretudo quando minto e ardem feridas abertas nas costas. há tudo o que imagino ser, imaginando apenas pois há medo. e por fim, há o amor, e acima de tudo é o amor que admito. e então ser torna-se sentir, que torna-se saber. e então sinto que passos caiados, que nuvens, que sonhos, delírios, tem a latência delicada dos traços brancos do ópio. e que sorrisos deixam de ser armas.

noite

-escuta...

terça-feira, abril 03, 2007

descarte descartes

eu tenho medo de que não me levem à sério.
ai das emoções falsas que andam escrevendo por aí,
quem se negar emoção devia .........
......meu corpo vai pedindo isso tudo que sente,
gritos e risos desconhecidos e - sem sentido.
é que eu fecho os olhos e tenho vontade de dançar,
vou dançar, a abôbada celeste me cobre a cabeça.
eu vejo as estrelas com as mãos.
e só então sei que estou com sede de me cobrir toda de mar.
mar me leva, me cobre, posso estar nua, posso estar viva,
que há o mar, há o escuro, pra me engulir.
eu não sei falar as palavras que o corpo me pede,
só ele diz,
ele chora e sente fome,
e grita.
eu me deixo porque vou aprendendo que nós dois nos-somos,
sem medo,
como no mar, sob o céu,
o mesmo mar.

domingo, abril 01, 2007

cactus

amar é ter sede.
ter uma sede árida do outro.
árvores crescem
filhotes viram adultos
porque tem sede.
não é nada além disso estar vivo.

cara batalha

eu fico com o drama que sobrou de toda solidão,
sei que a vida é vontade de morrer,
e espero que arda mesmo.

eu sei que vou beber,
eu vou escutar chico e chorar.
eu vou arder e vou gozar.
e vou morrer, e vou morrer.
só porque me cansa viver.

ainda, depois, espero
ser abandonada no meu próprio desperdício,
ser o resto de um rarefeito excesso.
sem desprezo ou pena,
ser tão miseravelmente triste,
que se torne uma certeza.

deixa balançar a maré

o que dói é quando eu me vejo torta,
como um quadro na parede que por mais que você tente ajeitar,
não rola.
você solta os dedos e o quadro entorta de novo.

queria que freud me contasse,
o que é ser torto e o que não é.

quarta-feira, março 28, 2007

psicótico

coletor de traças
aprendiz de lobos
eu era e sou de novo

traço uma linha no teu estômago oco
há reflexos no teu olho - eu vejo outro
é o que fez e faz o louco.

domingo, março 25, 2007

sobre a arte de contar histórias

sobre a arte de contar histórias
como uma novelo de lã que aos poucos se desen-rola
talvez um velho e um banco
ou mesmo uma distração para o estado de vigília
digo que é fazer pouco caso do princípio de realidade
e fazer do dia o príncipio da vida

dia de semana

o lugar era um apartamento grande e antigo perto da augusta.
a paisagem eram os rostos bonitos daquelas meninas desconhecidas.
me lembro bem da música que tocava e das conversas que, apesar de tudo, não mereciam ser lembradas. lembro sobretudo de uma delas, que floreava as bobagens como se fossem formais epitáfios, construindo sua fala com o resto do corpo. era uma boa época para ser bonita. enquanto ela comentava borges eu focava a luz que vinha do lustre atrás de mim, com uma taça de vinho, no seu rosto. o jogo era esse, enquanto ela tentava se impor, eu a perseguia com a crueldade do vinho. é sempre assim que os minutos passam, até o jogo botar suas visceras para fora, até o inevitável instante em que a verdade, e o tempo, mostram o seu calibre inevitável. eu queria ter aquela menina num gozo. foi assim que eu perdi o jogo.

segunda-feira, março 19, 2007

escrever

parece-me por vezes que conseguir dizer alguma coisa com essas palavras que nos deram é milagre dos mais raros. desconfio com o canto dos olhos que a frieza completa que elas possuem conspiram pra um eloquente silêncio. é, temos que bagunça-las todas, também faze-las nossas, transtornar todos os signos e emblemas,
dessas letrinhas fazer farofa.

domingo, março 18, 2007

macunaíma

não me freio. hoje não. me recuso. hoje sou, e ser é enorme. o carinho me atormenta feito flecha, e isso tudo porque o recebo com o peito aberto. estou cultivando as veias saltadas, cheias do sangue pulsante que mais uma vez denuncia vida. num espasmo o corpo digere o mundo que se espalha por aqui: é cremoso e branco, é um mundo nu que tenho em minhas mãos e enche os olhos de alegria. os espasmos soltam lágrimas. hoje não deixo de dizer nada do que me cabe porque tive a coragem de ser: fraca, morna, lisa, mulher, ser. esse foi o dia que eu disse, olha, deixa disso, nem tudo é pressa, nem tudo amor, e eu estou nuinha aqui pra você fazer o que você quiser de mim. e isso eu disse pra vida. ela riu de mim, rimos juntas, de mim e dela. ainda estamos aqui, quietas, uma rindo pra outra.

viva

anoiteço com essa fome no meu ouvido. avulsa. já vou te dizendo com a voz alta, com a voz também apaixonada. estou com fome de vida. fome da hipérbole sensacional das paixoes, das viagens, das músicas! digo, porque esse instante está vivo em mim. acho que a morte é o medo da vida, e só isso, porque dando-se um jeito até morrer é vivo. então amanha eu quero ser feliz, e gritar, amanha eu quero bem é ver o mar. dado de realidade é pra beato, eu quero mais é acreditar num hedonismo alienado e puro. eu quero sujar as minhas mãos e o meu corpo numa subversão de anjos. quero conspurcar com os diabos. mesmo triste, o que eu quero mesmo é ser feliz.

freud

sinto-me nas órbitas flutuantes,
limbos, de espuma, e ópio.
espaços e gravidades alterados,
sou pura e não invejo a vida.
quase que só erros,
sórdidos desejos,

eu estou cansada desses erros.
quero dormir,
o sonho é a gravidade zero do desejo.

domingo, março 11, 2007

sem censura

tou triste
quero me sufocar num abraço.
quero morrer de carinho.

sábado, março 10, 2007

bolero de ravel

(pra se ler como se a tia velha lhe desse um relaxamento daqueles bem persiana-oriental)

- de repente o corpo,
seguindo os fluxos do mundo,
vai se envolvendo em si mesmo,
murchando,
passando o ponto.
torna-se repentinamente esquálido,
os lábios, os músculos, tornam-se acinzentados,
e, de compasso em compasso,
vão perdendo seu sentido.
o que era antes carne putrefata e antiga
torna-se o pó sem vida do tempo,
a forma que antes envolvia os tecidos comprimidos
desfez-se nos desenhos que o ar, a gravidade,
(e invariavelmente o destino),
desenharam ao chão.
do pó, rasteiro e raro,
o vento fez o vazio.
e o vazio, que já era pouco, assim ficou.

segunda-feira, março 05, 2007

nuel

os minutos soavam no relógio da cozinha. as paredes eram sólidas como nos tempos de infância. o sol estirado no chão se parecia com um retrato antigo, encontrado na poeira da biblioteca. os gatos quietos roçavam as ramagens. entre os elementos dispersos no ar, havia uma bruma sem matéria que tornava os limites mais sutis. todas imagens formavam o silêncio daquela tarde distante.
sentado no quintal de casa a tarde me engulia enquanto eu experimentava o gosto ruivo e ácido do uísque na garganta. ali, me sentia só e vivo como as criaturas fundamentais da terra, talvez um córrego, ou mesmo uma pedra. ali, me sentia preso a vida por uma força sem vontade e sem questão. vivo como uma coisa morta.
é porque repentinamente não queria mais fechar os olhos, ou mesmo pensar em lugares distantes. toda idéia de fuga ou evolução me dava nauseas. a vida deixara de girar em círculos, de formar labirintos metafísicos, de dançar entre promessas. a vida era a ordem que o silêncio ditava. era o retrato do instante em que o sol se punha.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

teorema de peixes

na falta de saber qualquer acorde ou letra, poema ou piada,
pra te fazer dormir,
invento uma palavra.
mesmo que nunca possa deixar de ser-me com tantos dentes,
a verdade é que pra você eu também inventaria felicidade,
inventaria o subjulgo da solidão,
a dissolução dos egos,
a subnutrição da angústia.
invento tudo e tanto,
que as vezes até duvido
se esse mundo não fui eu que fiz pra você.
mas fecho os olhos e você aceita,
e dorme com o descanso afoito das crianças,
no meu ombro esquecido por trás dos seus cabelos.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

helion

os dias me secundam antes de tudo.
seguimos juntos por esses vales,
bebemos águas frias e raras que descem nos córregos,

nós,
o pastor e as ovelhas.

na verdade são todos dias de sol,
e de som.
seguem todos tranquilos,
e quando não,
é porque ao final das contas há sempre uma ovelha negra.

compreendo então, de certa forma, a vida que arde em mim e arde no mundo que há dentro e fora de mim, compreendo o arder, compreendo essa força energética imensa que me leva a crer num certo algo a mais. compreendo como a magnética subterrânea dessas verdades não me deixa seguir calada com o meu rebanho.
então apoio nas mãos (que surgem dos antebraços dobrados) o queixo, e me abatem as ovelhas negras, persuasivas, sinceras. a força fundamental da vida que não se deixa enganar por esse cotidiano corrosivo.

e o medo por fim. o medo.
que nos segura até o fim dos dias.
como pobres pastores arrebanhados por suas ovelhas.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

vive la fête

intrigas
sexos francamente nada
uivos
perpetuar sigo indo
costas quentes
e fez-se a luz vermelha e os corpos nus em profusão

há uma pequena mesinha preta, circular
há três ou quatro copos largos cheios de gelo e de um leitoso líquido transparente
ninguém liga pra eles,
exceto um cara magro de sobretudo que excluído da orgia decidiu odiar todos aqueles corpos futuramente inertes.
a luz combina perfeitamente com o mamilo sendo lambido.

a rua lá fora é escura e fria e deserta

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

quinta

suas mãos que deslizam do parapeito como uma tragédia em preto-e-branco. pouso os olhos e saio com os olhos ensandecidos, seguindo com passos tortos e loucura nos dentes. sangra a gengiva de uma outra vontade de viver, que não essa calculada pelas baladas dos violinos. salvo-te da boca voraz do inimigo, segue a trilha irremediável dos dias ruins, segues caindo por entre abismos,

já não sei mais se para aninhar-se nos braços de um herói esquálido, ou mesmo para que saibas da certeza do perigo. transporto-me para outro plano, como sobreviver numa batalha perdida. janela da cidade, um bocado de compaixão, canto-te com o amor que me resta, e o vinho acaba em um instante.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

exercício de abrir e fechar os olhos

quando eu fico triste é porque o corpo não alcança o voo da alma.
como quando o tempo jorra e faz da tarde cachoeira fechando os olhos pra ter o tudo abstrato-descabelado nas palmas das mãos - que brotam dos seios - que fazem amor - mas também lembram sempre de que a ordem mais certa é do céu pro chão.

então abrir dos olhos e ver a vida,
como uma descabida ordem.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

menino

toda vez que o vejo por essas esquinas
como um animal machucado
fumando compulsivamente com sua mãos sedentas por alcool
trêmulas e pálidas
lembro de algo
que nem sei a forma
(nem sei se existiu)
e grito, berro com ele
tento sucitar do silencio dele algo real
mais real do que aquela ostra com pernas.
eu fico com raiva e ele nunca passa do limite da hipocrisia.
papos cretinos.
vida cretina.
e eu tenho medo que a minha agressividade possa afasta-lo.
afasta-lo do que me pergunto?
ele é pálido e parece carniça
e eu não vejo vida nos seus olhos.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

édipo

aparece andando com passos delicados e elegantes
parece que flutua no asfalto
(começa a tocar radiohead)
mero costume de estar desconectado desse mundo
tudo parece medido
quando ele chega no banheiro da mãe
e escova com a escova dela os dentes.

u-alter

positivamente estava próxima do in-consciente
divisando linhas imaginárias das certezas
sabendo o que ainda não escreveram nos livros
o que eles -ainda- chamam de loucura

havia a interface entre as pessoas e os mundos
e as idéias
que eram reais e além de tudo sólidas

tinha fatos
como o de que tudo era fluxo
e fluxo era

como os sonhos e as luzes acesas

fora disso os pesos e as angústias estavam mais perto
embora fosse perceptível claramente os nichos por onde se escondiam
ora atrás do ouvido de um
talvez embaixo de um caichinho
também no que de você me era desconhecido
por assim ser


tinha sentido
talvez seja esse o meu ponto
pois era claro
- quando não é claro as mensagens não dizem o que são
(comunicação maldita)


a loucura ria desordenadamente da realidade
como uma mãe passa as mãos no cabelo do filho
o real é tão estúpido e puro como um filho
um filho da mãe

então fechava os olhos
enquanto o vento aumentava
e enchia a noite de luz (na verdade o breu é uma luz escura)
embora levasse no rosto um quieto riso
piedosamente

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

ando meio piegas

lagoa

a leve tristeza da morte nas curvas dessa cidade.
ainda por cima essa chuva.
meu peito lateja,
solta as grossas gotas de lama da morte.
a verdade é que apesar de tudo eu também não poderia ver o mar:
me faria nos mil pedaços dos fogos de artifício.
o mar é muito pra mim,
assim só, e frágil.
antes de tudo eu precisaria olhar nos seus olhos e saber que você está lá me entendendo.
coisa de perceber o brilho dos olhos.

nega maluca

nem lágrimas -reflexos- nem gotas de sangue.

(pontos finais) - eu suporto tudo pois te espero.

vou te contando então da minha fome velada,
amorfa, inerte, fome dos ricos.
a fome que suplanta o silêncio da alma.
Digo - o meu vazio.

vou te suportando toda pois te espero.
eu espero quem elegerei o cavaleiro do apocalipse da minha fome.
eu espero toda vida.
toda chuva.
toda morte.

pela vida que sequer tem braços e pernas.

em silêncio que é como eu aprendi a estar.

agora me entenda. entenda o meu silêncio.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

insônia

1. eu grafo o seu nome no tempo
2. há as temeridades no meio do caminho
3. se já não é, faço de tudo uma grande mentira
4. me preocupo, pois sim, há sempre as certezas cruéis
5. eu chamo o tempo de espaço
6. sinto a tua mão no meu peito, me apertando com grave respeito, com um certo amor materializado não sei donde, sinto sua boca procurando o meu pescoço, carnes nuas, fazendo ao invés de sexo, ternurna
7. sinto a sua falta
8. e por fim durmo

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Olinda, 7 de janeiro de 2007.

tensiono nessa carta que te minto trazer-te um pouco viva nessa triste manhã de olinda. a verdade é que subjugada pelas entranhas da memória, e talvez por um leve apetite egocêntrico, tenho para mim nessas ocasiões que o mundo todo lá fora dorme.
é que foi uma noite longa, de suores e medos, e tive essa manhã de despojar-me das muitas horas de desespero na ducha fria do chuveiro.
agora que sento e te escrevo, e também o faço por medo, vou me sentindo invadida por um leve desapreço, dessasossego, esquecimento. ainda que equilibro a caneta aqui, bem embaixo de nossos narizes, para sucitar vozes de longe.
além disso sei que vivo, o estômago urge, e os cachos secando vão demoradamente se compondo.
sei que as coisas que aqui digo de fato nada falam. é só para reproduzir, no ligeiro estupor que tenciono produzir em suas têmporas quando receber essa carta, um abraço forte e vivo.

romeu e julieta

a harpa
e o halo
da serpente
o falo da maça
e o medo do desejo

"se você quer me seguir não é seguro"

quinta-feira, janeiro 18, 2007

ordinária

nesse dia 18 de janeiro, de 2007, me proclamo em primeira pessoa.

dedico

olho atentamente esses seus olhos cor de caju e vejo fome.
desesperadamente uma vontade de que a vida abra as pernas e proclame como ordem o esfolamento final. é coisa de se pedir dois segundos de folga, respirar bem, olhar pros dois lados, e mergulhar a cabeça como se estivesse pra morrer. arrancando com a boca os pedações do ócio (só porque eu queria falar ócio), comendo cru. se lambuzando em sangue antes casto.

como ei de partir

o que incomoda é essa distante vontade de talvez morrer.

frágil como galinha d'angola

dia esse agasalhado de nuvens, sinto contrações no peito, boto a dor como botam ovo. dirijo e o estado evidente me faz querer tacar o carro nas coisas, dou caronas e me arrependo, às vezes até da amizade que resta. quinta feira essa que é domingo, lagrimeja o que me resta como chuva rala, insignificante. esse dia que me arde as têmporas, eu só precisava conversar. e de um abraço, e de um sorriso, quiçá.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

gastrite

se chegar em casa te faz querer desaparecer atrás de um travesseiro é também porque sonhar é ignorar as condições (primárias) da vida. assim como as ilusões transformam os fluxos do tempo, mesmo que no fundo tudo aconteça simultaneamente. plano em tais limbos da consciência que só existe como um exagero para a metáfora que traduz. é que esse mundo é matéria prima, pro que der e vier, digo assim, que por um lado, o que é concedido só pode ser posto de lado por você, e tão somente que ignora todas as imensas possibilidades. ficamos então com a mediocridade.

sábado, janeiro 13, 2007

dois

há duas semanas os percebo invadindo lentamente as estruturas da razão. os síntomas são claros tanto quanto possível, há duas semanas que olhando seus olhos com uma pequena lanterna (os abrindo com esforço e apuro médico) não vejo nada. dois olhos verdes levemente umidecidos (e de fato saudáveis), residindo aí o único brilho que encontro. nenhum movimento por trás do cristalino. no breu da alma só vozes, que não dizem muito, e o convidam, e o confundem.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

essa noite eu não durmi bem, deve ser por isso.
o sono não tem sido como era, uma ordem apenas, dormir e então acordar no outro dia.
a noite tem sido cheia de fantasmas e medos e aflições.
a verdade é que eu procuro evitar o passar dos dias.
perde-los pra sempre,
sem nem, ao menos, uma lembrança na retina.
a memória que cessa.
os dias tem sido maus, por mais bons que tentam ser.
desgasto minha pele na areia, no sal, o mar e o sol.
desgasto minha alma deitada na areia.
e por vagos momentos não tenho mais medo,
nem essa incessante vontade de chorar.
até o instante em que tudo se figura errado,
e eu penso em ir pra bem longe,
aonde tenha só o vento, e o mar, e o som das folhas.
então eu lembro que eu estou bem longe,
aonde só tem o vento e o caramba a quatro.
enquanto isso minha alma morre envenenada

segunda-feira, dezembro 25, 2006

freaks

mas que coisa mais linda ver as duas dançando,
vermelhos e azuis intermitentes,
como luzes que se apagam.
uma se foi na metade,
a outra me deixou na esquina,
e eu logo senti umas saudades.
saudade grande, saudade boa.
é coisa de guardar no peito,
essas duas aí.

domingo, dezembro 24, 2006

celibato bicho

turva água que irrompe desses olhos,
libertando vontades de outros carnavais.
jaz, assim como plena, também fugaz,
refletida na retina. apenas.

eu não quero eles,
e não quero elas.
anseio pela mais absoluta abstração,
abnegação de defeitos,
de charmes, e medos.
faço desse meu eleito.

exercício bilac-an(us)

há o mal que me faz tu.
se escondes no breu,
essa outra, não eu,
és cruel e nefasto.

calor que dependo,
pensado e então dito,
distante e maldito,
acaba que sendo.

se já não aceitas,
os intentos lindos,
que entrego em sua mão,

as juras mal-feitas,
ou beijos bem vindos,
como ato simplório, que jogas ao chão.

sotão

pra fazer o nascer do dia,
vingar o sol,
só maria.
tão só.

maria.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

vamos beber um vinho?

o dia inteiro desamparado. mas já não podia beber, não podia sequer reagir com um sorriso, ou meio. surto mudo. invadiu seu próprio útero, alcançou o som da luz, quis fazer do sim, talvez. interrompeu o tempo vendo o céu.
era o monstro novo que tinha nas visceras. angústia que quando se mexe causa enxaquecas e hemorragias.
entrou correndo no quarto, balançava os cabelos como um lunático, pôs os tambores africanos sintetizados, e dançou toda cegueira.

cortou os cabelos com as mãos nuas de calos.
(medo do depois de desconstruir todas personas)

desespero bom de se tacar na janela.

have a good sleep

procurou o espelho com os olhos e achou repentinamente sua face, endurecida, mesmo que surpresa, como se anos houvessem passado em algum momento desde o passado. decidiu por ímpeto próprio transformar-se, corrigir suas fraquezas resgatando partes perdidas de si. mirou-se outra vez, dessa vez era um homem decidido, declamando suas dores pela sala, fazendo voar perdigotos por todos os cantos. terminou a fala como um cão em liberdade, um pássaro, talvez um gato. sabendo, ao menos por pouco, vislumbrar a própria liberdade. lia como um desvairado, em sua mente, as palavras que escrevera à anos, e que sobreviviam sem razão aparente no sotão de suas memórias.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

blue print

ainda sou a folha em branco,
e posso voar.
eu tenho a liberdade do domingo,
mundos sem formalidades.
na minha testa não imprimiram nada,
perua, solteira, vagamente ruiva,
psicóloga.

ainda me dão o direito
de finalmente ser eu.

o tempo pra mim é areia.

eu não pedi por nada disso.
não quero a responsabilidade de uma escolha que eu não fiz.
não quero um fardo que sequer é meu.

tô pensando em trancar a puc

quarta-feira, dezembro 20, 2006

reprise metrificada mais bilac

o sol azulejar o dia,
nos passos dispersos e livres,
vem me fazer companhia,
além do teu útero,
macio e leve.

apesar de toda tristeza,
me escorre puro assim - belo,
pelos poros que além de tudo meus,
também tem sua beleza.

beijos enfim na tua bochecha,
esparramando-se pelos teus restos,
chego em casa enquanto amanhece
e cessa o pensamento.

semi

cheiro os meus dedos, e sim, é um tema chato, mas eles cheiram a cigarros. é porque eu sinto falta de sentir alguma coisa. imagina só aquela velha história de realmente ficar feliz quando alguém chegar. velhas velhas histórias.

crazy.

li com certa dor, porque eu sei que de qualquer forma você não sabe se entregar, digo fenomenologicamente. que adianta você falar de mim? se pra você qualquer nome serve.



não que pra mim não sirva, e não que você não ame a todos. mas é como se fosse diferente. é igual, mas é diferente. pra mim eu me entrego na esperança que alguém possa entender. você tem medo. de qualquer maneira. e eu não sei quando você pode me entender. catzo.

todas as mulheres são malucas.

terça-feira, dezembro 19, 2006

mack the knife

seus olhos de anos estão vivos dentro de mim. me perseguem em cada canto que eu vou, e me deixam dormir em paz. quando eu rio, quando eu danço, quando eu nego, esses seus olhos estão dentro de mim. é porque eu vi eles vivos em outros tempos, e eu sei guardar segredos.

domingo, dezembro 17, 2006

inc.

a minha genialidade é diretamente proporcional a quanto estou distraída.

ópio

esperava a brasa atingir por inteiro o cigarro, não queria aquela deformidade inadequada de quando não prestava a devida atenção aos fósforos. esperava levemente irritado, que era a forma que ultimamente esperava todas as coisas. cortando fárois vermelhos, perdendo amigos, comendo cru. finalmente queimava por igual e então ele se dedicava distraidamente a tragar todos os cinco minutos que tinha à mão. quando já não podia fumar sentia-se vazio, como poderia então acompanhar aquela noite linda, com tal música lúdica? sentia-se vazio, e dividia-se: abrir um vinho, acender outro cigarro, bater uma punheta. de fato não poderia ficar inerte ante a manifestação da qual era mero sujeito. até porque desaprendera a ser, como simples fato consumado. deitava na cama com o mesmo não sorriso dos últimos tempos (via sua própria face por outros olhos nessas horas - a cara séria, pálida, quieta), se o vissem poderiam até acreditar que era um dos tais homens honestos, porém, ele o sabia, qualquer charme extraído de sua feição era pura hipocrisia - aquilo tudo não passava de amargura. em cima do criado mudo repousava um salinger. era um pouco como se sentia. como um personagem de salinger. toneladas de melancolia mascarando um mar de situações mal resolvidas. ao menos isso admitia.
deitou e então quis fugir. pensou em morrer por poucos segundos. perdera o amor, perdera o sentido. como sempre nas horas do desespero tentou hipoteticamente achar um lugar em que poderia estar em paz. e como em todas as vezes, não encontrou. sempre soluções patéticas e temporárias. intermitentes euforias.
sentou-se perto da janela e acendeu outro cigarro. a paz de cinco minutos de um cigarro bem fumado. esse era o seu paraíso. o único que sua fé fraca conseguia alcançar. o vento bateu na sua cara, trouxe a fumaça pra dentro do quarto. e a única coisa que ele quis foi miseravelmente acreditar em deus. qualquer um que fosse.

sábado, dezembro 16, 2006

molhar no mar

não me dê atenção ou te desprezo. não toque no meu cabelo, não faça carinhos no meu pescoço, corre o risco da minha dor cuspir na sua cara. se você vier mais uma vez falar da sua vidinha pequena, eu ainda não vou saber quem te perguntou. se você errar ou rir demais, sim, será inevitavelmente uma incompetência. e eu vou gritar e cuspir, e rir desesperadamente pra dissimular. porque no fim das contas, é coisa de se sentar numa viela escura sem medo de assalto e chorar, chorar, e deixar numa poça toda a amargura. e sair leve e nova.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

peter pan

se eu simplesmente pudesse mijar nas calças e ficar tudo bem,
o tudo que dói não doeria.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

privacidade é pra judeus

eu não gosto de me enganar..
não, eu espero que não...
eu não vou te enganar..
eu só quero fazer uma poesia bem bonita,
pra você poder beber com vinho,
pra você poder olhar com flores,
ou comer no meio da salada..
eu sempre espero que você não se chateie,
com tanto dadaísmo..
mas todo mundo sempre se chateia,
e eu mesmo me chate-ei
então estou sendo chata.
um pé no saco,
embora nenhuma de nós tenha um desses.
bagos, essa é uma boa palavra.
há muito mais do que isso.
do que a mediocridade que eu vejo.
só porque voce nãoo é uma pessoa medíocre.
e é por isso que eu nao vou te enganar.
não, eu espero que não............

aleatória

são traços de se encontrar que me trazem felicidade, melhor ainda um tipo de beatitude, espalhados pelo quarto. mamilos vinhos e charles mingus. se eu acender um fósforo e olhar meus olhos dentro do azul da chama, é que meus olhos são azuis, e de repente tudo é o samba que toca, e dá vontade de por vestido. to sambando baby, com as mãozinhas rídiculas em movimentos rídiculos, to valsando baby, como não danço, e como o faço sozinha. mas a música já mudou e agora não dá mais pra pensar nessa batida de violão. agora é tudo euforia bruta. chuva suor e cerveja.

sábado, dezembro 09, 2006

essa noite sonhei

primeiro puseram dois potes de sorvete de chocolate com pedacinhos de chocolate, calda de chocolate e licor - de chocolate. eu com o meu ímpeto comunista e controlador decidi ordenar as coisas, servindo por ordem de idade e sexo. qual não foi minha surpresa quando levada por forças ocultas a encerrar tal atividade, o Homem, um tipo magro e pálido, designado para substituir-me, serviu-se da última extração possível do sorvete e partiu, com uma nova mancha na camisa grande demais para ele. ao deparar-me com dois novos potes de sorvete, dessa vez de creme, e sem artifícios de caldas ou pedacinhos, fui levada por um ímpeto decidido de fuga, ao que fui me esconder em baixo das mesas grandes da copa. não deixando então de tornar lágrimas sujas, mesmo que pueris.

então freud disse pra tentar interpretar.... e o que eu acho de tudo isso é que........
sou adulta... é, adulta.. virei uma adulta amargurada porque nem ligam mais pro sabor de sorvete que eu acabo no prato.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

lucky strike

ahhhh....
cerveja, cigarros, chocolates...

quinta-feira, dezembro 07, 2006

exército

eu não sei exatamente o que me angustia tanto quando eu tento escrever.
se é porque eu sou realmente ruim,
ou se é o instinto perfeccionista.

terça-feira, dezembro 05, 2006

radioplex

carros passando
homens-passarinho,
putas se dando,
e eu..?
só existo de fininho.

então é que fico pensando,
e invento musas e poetas:
faço-os meus enquanto ando.

essas vidas que não são minhas,
se escrevem pelos meus delírios,
retratos vagos de traços e linhas,
anônimos por definição.

borrão inadequado,
por persistir nessa cidade lúcida,
mais de mil léguas cansadas,
mais um grito rouco na esquina.

e se é pouco,
o que deles sinto.
talvez tudo seja ainda,
é por isso que minto.

tarada

acho que não tem nenhum problema ficar pensando em sexo.
natural.
são os hormônios.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

atribuído

tive um filho nas últimas doze horas
era eu olhando para um espelho branco
brandas dores do parto

era um quadro
era um dorian gray
era um rococó neo expressionista
era o meu eu mais gay

pura descontrução
juba de leão ruiva vasta
e um resto que eu conhecia

achei bonito.

bíblico

eu guardo meus clichês numa pasta furta cor, os tateio no escuro quando preciso de conforto.
(sobe um tom)
precisamente nas noites que transtorno vira obsessão, trazendo a insônia como um presente de mil verbos: como um bule de chá preto, como uma dor de estômago, como não ter um amor. são raros minutos de se mastigar a própria companhia, e a própria ausência. - ela não acreditou da penúltima vez que lhe disse (por mais que tenha me convencido do exato oposto), mas acreditou na última. e me deu um abraço de anos.

sexta-feira, dezembro 01, 2006

faz

é que eu esqueci de passar carmim
fazendo-me mulher
em vestidos rodados e flores
que eram só pra ti

fazendo das minhas linhas
vírgulas
sozinhas
para que possam ditar meu ritmo

é que quando mais preciso
as subtraio do meu gesto
e transformo a presença
em branca desnuda ausência

pois bem quando não me faço mulher
dessas que só choram as dores do parto
bem quando me faço em pedaços
é que de ti só resta
a branca desnuda ausência.

quinta-feira, novembro 30, 2006

prisma

Eu sou o labirinto.
Eu sou as milhares de veredas que não levam a lugar algum.
Eu sou cada caminho que além de suas curvas guarda novas promessas.
Eu sou o medo, de nunca chegar a nenhuma parte.
Eu sou o fim no meu próprio cerne,
e tenho nesse fim a morte.
Eu tenho a alma desvairada,
que sobe pelas paredes com as unhas mal cortadas.
Eu tenho a alma perdida,
que calma vaga por essas brumas.
Eu tenho para cada passo em vão um sonho perdido.
Tenho a indigestão do ócio,
a amargura do tédio,
e as cólicas da solidão.
São todas minhas as esquinas perdidas pelos reflexos.

Mas não,
não sou nada.
Nem Fernando, nem pessoa.
Não ouso ser nada.
Não ouso ter nada.
Além do labirinto,
nessas curvas miseráveis.
Não há nada além disso,
nem uma migalha, não há um resto,
sequer,
que deforme o labirinto nos espelhos.

quarta-feira, novembro 29, 2006

ne me quitte pas

das vezes que se mexer é insuportável e mesmo que você tenha dormido 12 horas, mesmo que você tenha passado a noite inteira tentando se esquecer, e de repente tenha virado dia, e mesmo que já seja de tardinha. ainda sim o mundo é pesado demais pra você e é melhor continuar dormindo. tencionando os músculos na cama pra acabar com essa energia repentina. dormir e se esquecer. assim é ótimo. já não há mais mundo.

e então já se passaram dias e seu corpo tomou a forma da cama. a pele mole, o suor acumulado na camisa. o desespero alimentado. aí alguma coisa acontece. começa a chover estrondosamente. seu pai aparece com um taco de beisebol. ou você está a um passo de bombar na faculdade. e então você se levavanta. e o mundo é frustante.

segunda-feira, novembro 27, 2006

tupperware

era frio frio frio........
todos meus pelos gritavam,
tudo em mim pedia morte,
imediata, coerente.
não..


minto.
olha, é difícil explicar sabe.
não posso dizer que não houve,
que aconteceu tenho certeza,
foi a ordem dos fatos entende?
teve o frio úmido,
(mas ainda não tenho a certeza ímpia de que o frio era
ausência de calor.) tem desses por aí também.
e tem outros.
mas isso foi antes, e foi depois também.
entre o frio, teve um calor,
úmido também, que fazia as costas pedirem socorro. dessa vez.
(aí foi um entre, mas foi um entre antes).
daí no fim foi o frio de novo,
mas outro. não de clemência,
mas de lembrança.
esse aí nem doeu não.

sábado, novembro 25, 2006

do meu lado

de repente era tudo muito pouco.
soma irrisória de acontecimentos,
dias seguidos, intercalados por noites,
vazios - úmidos.

de repente já nem era mais real,
mais uma questão dessas de viver agoniada,
um quase nada,
seguindo o fluxo constante dos segundos.

suspeito que esse andar assim,
não leve a lugar algum.
sei que o transtorno da melancolia
é porque teimo em não escutar.
seja o patético ímpeto da alma,
ou ainda a famigerada vivência dos poetas.

acabo por me tornar uma viciada em solidão.

terça-feira, novembro 21, 2006

hare rama

é que eu tinha dentro de mim um troço de um mundo.
e as pessoas iam ser o melhor delas.
e elas pensariam coisas belas, simples e profundas de monte.
e não seriam fúteis (mas tão fúteis como o são).
e não ligariam pra coisinhas pequenas como formigas,
(mas ligariam pras formigas.)
e a paisagem seria tão bonita que era alimento.
e todo mundo era gentil,
pra pensar em todos com carinho,
com calma.
porque eles iam se dar o tempo de ser.
iam todos ser juntos.

e daí eu descobri que esse lugar existe.

quinta-feira, novembro 16, 2006

lira

eu não sei,
de quase nada,
do que veio depois,
do que veio antes.
de quase tudo,
eu não sei nada.
do que veio antes do depois,
e que foi depois do antes.

eu não sei do tempo, nem do erro, nem da morte, nem de sartre.
eu não sei dirigir caminhão, andar só com as mãos, ou ouvir um não.
sei só o saber
do melhor é não saber.

segunda-feira, novembro 13, 2006

domingo

créditos rolando no fundo escuro, música brega, mais uma ilusão americana.
massa cinzenta.
lentamente tomando consciência de si mesmo. costas doendo, uma vida inteira nas mãos:

-não é possível voltar a viver assim, repentinamente assim. - pensou num ímpeto inexato, com a cabeça baixa para que não vissem as lágrimas que, de qualquer forma, não estavam ali.

saiu
escoltado pela multidão.

perdia-se de si, e voltava a regurgitar pensamentos:
sussurrou amargurado, repetidamente, rendeu-se, lacônico. mesmo achando que eles nunca compreenderiam o sentido daquilo tudo. não, definitivamente não entenderiam. era um silêncio que nem ele mesmo ousava saber de todo.
apressou os pés, e voltou-se para o seu disfarçe. um homem tocava tranversal, o outro desenhava retratos, a chuva rala caía, e era noite. tudo se encaixava nos gabaritos da sua solidão. pensava, desleixadamente, queria um gravador para poder captar e destruir toda a graça dos fluxos de consciência.

espreguiçou-se lânguido na poltrona vermelha. um jazz distante, talvez do vizinho de baixo, os cigarros que ele já não fumava a anos. podia finalmente ser o jornalista desiludido, vendo os carros passarem com desespero através da persiana decadente comprada na 25 de março.

quedaria-se, em instantes, na cama, vencido pelo cansaço, perdendo mais uma madrugada em que ele poderia ser ele, um ele-eu, um gato, e mais outro gato que era a noite-tão-tarde: dois vagabundos insones.
sonharia um sonho branco, leitoso,
no final das contas acordaria e, quem sabe, seria mais uma vez o ainda ingênuo e pequeno, e pastoso, e piedoso, eu, que apesar de tudo
(todo o peso do tudo)
ainda achava divertidas as formas retorcidas das nuvens.

pássaro verde

era novembro, porém, a menina do ônibus tinha a mão pousada sobre o mês de setembro.

quarta-feira, novembro 08, 2006

depressão (II ou III)

: faz suas coisas, é só a serotonina tentando te destruir.
parece que tem uma nuvem pentelha te seguindo o dia inteiro, apontando as coisas ruins, mas é que se você for ver bem elas nem são ruins, é um puta troço perverso sabe. fácil perder o prumo, dormir até que ninguém mais ouse te procurar. não dá pra parar de se achar um merda e pensar que ninguém gosta de você, acreditar nisso nesses instantes é bem dolorido cara. isso aí é trabalheira de racionalização todo dia, pra não se enganar. meu medo é que não seja mentira, e a minha mentira é achar que não é verdade.

segunda-feira, novembro 06, 2006

caverna

quase que pessoa,
tenho em mim todos os medos do mundo.
estando ali, e não estando,
enquanto você fala, eu ouço.
é um leve desconforto de não ter coragem de enfim,
ser-se assim.

nem coragem de olhar os olhos,
de aninhar braços,
de ouvir um não.

de todos os meus medos,
o pior.
menina, você é melhor do que eu.

quarta-feira, novembro 01, 2006

miojo

os dois pratos de macarrão pronto em cima da mesa, tão assim, calados, sozinhos, cada um olhando prum lado. (na cozinha branquidão das sete da manhã). olhando pela janela com paciência uma espera a outra, nem se preocupando se o macarrão vai esfriar, enquanto apura os mínimos gestos do entrevir, as pernas, e os braços. sabendo que cada segundo gasto daquele ritual é um instante inteiro. a outra senta-se a sua frente, parcimoniosamente começam a comer, concentradas, cada uma tão só quanto seu prato. logo sentem-se mais a vontade e começam a discutir dos fatos da vida: ainda tão infímas mesmo em relação ao barulho dos carros que passam, mas, mesmo assim, tão imenso quanto pode ser a vida enfim. os dois pratos vazios anunciam a hora da partida. despedida de entrelinhas tanto quanto o é, e o foi, para o resto de seus dias.

domingo, outubro 29, 2006

oxalá

puxa vida, a solidão e a anonimidade agora me alimentam. qualquer parede, atenção, dever e função me oprimem tanto. não costumava ser assim, e mais uma vez, me cheira a esquizofrenia. vou viajar, pra mais uma vez, pros outros, não ser ninguém.



mentira.

décimo quinto andar

os meninos dos telhados fumando cigarros, tirando a roupa já que não gritam com a mãe, bebendo a pinga dos trabalhos que não fizeram pra faculdade, olhando a cidade só pra eles, ao contrário das meninas que nunca se entregam. uma hora e meia que ninguém se importa onde eles possam ter se escondido, algo entre o término da aula e o jantar. Um lance de escada a partir do último andar, e eles são os reis que sempre foram, sem a opressão das mesquinharias constantes. esforço tão grande de tornar medíocre essa vida de que te falo. tem que ser muito passional pra saber viver das entrelinhas.

sexta-feira, outubro 27, 2006

like a roling stone

aqueles arzinhos de samba burguês infectavam as narinas de um jovenzinho de criação liberal como ele. vestidos de bolinha, saias de paetês, e dez mil meninas bonitas. o samba correndo por detras não acalmava suas hipóteses, os casais semi-profissionais no meio da sala, recendendo a sexo dócil. foi-se dali na pressa das coxas, com uma ou duas palavras gentis caiu numa ruela mal iluminada (e nem precisava ver mais nada). a rua era tão fácil pra ele, a chuvinha fina e a escuridão gritavam sua anonimidade. "when you got nothing, you got nothing to lose". há de se esvaziar o momento, em poucos minutos estará perto demais. novas palavras doces e a imensidão perdida, entre as quatro paredes do claustro, comeu uma banana e dormiu.

folículo

eu me pergunto porque toda felicidade intensa vem junto desse leve desamparo, minutos de querer morrer. se enfiar tanto na solidão e não ter mais solução. sim, sim, fácil falar dos outros, eles que não sabem lidar com nada (delicado erro), se protegem em mil máscaras, e eu já nem mais sei amar o amor dos puros. tais carinhos calculados, utopia de uma liberdade corrompida, ecos de uma existência conturbada. reconhecerá facilmente a melancolia nos meus traços? nela me protejo. não aprendi a lidar com o mundo, mas (ainda) sei de côr o sofrimento.

quinta-feira, outubro 26, 2006

awareness

auto-sustentada enfim?

segunda-feira, outubro 23, 2006

inocência

vai ver é trauma de intuição.
só sei sentir as coisas nas mãos,
digo,
extravasando pro algo mais.
sexo, arte, ou berro,
matando dias a grito.

chopchop

dias em que amigo de verdade é granola.

sábado, outubro 21, 2006

ato

não imagino pois escrever já é imaginar.

lapela

Chamo-te pra dançar, assim como quem não quer nada, quanto menos ao que diz respeito. Dar-te a mão como quem sabe segredos, intimidades do tempo. Travessia dessa tua sensibilidade, não saberás assim de mim, ao menos que seja dado. Mais uma, outra, tentativa rota, de que sendo eu a conduzir essa velha dança, não te percas no tempo. Não sendo eu outro vestido, tendo-te por parentesco ninguém mais do que as traças do úmido armário ainda seco, como teu sexo, mortalha de nós.
Mas giraríamos, e talvez nesse lusco-fusco, permitiria-se ser menos tu do que usual, entregaria-me mão, e seio, e virtude, como as flores que faço girar e girar. E por último, desespero cândido, tontura da sede que te provoco, daria-me tua liberdade, o mais belo, para que possa devolvê-la enfim intacta.

peixe

a vida só me é nas margens que a comprimem, nos olhos velhos que tem a doença de saber: olhos também cegos.
a primeira, ao redor é uma releitura, frequências e ritmos cambaleando no pensamento.
a segunda, o vejo com o que não deixo de saber, e não vivo a vida que vivi nos livros. descamuflando o pensamento, por vezes, torna-se como foi ontem, e o é raramente, ver-te assim pura e sem projeções infames. vida na essencia, eu estar assim, olhando pra você, se dando assim, é sentir a intensidade mais densa dos pequenos gestos.

sexta-feira, outubro 20, 2006

labirinto

se eu contrair esquizofrenia tão cedo na vida,
deixo pro nicolai todo o alcool que eu não bebi,
todos os cigarros que não me mataram,
e todas as ressacas que eu evitei.
pro bruno tudo o que eu não escrevi,
e pra juba todos que não amei.

sabe o que que é?
eu perdi o medo.

quarta-feira, outubro 18, 2006

síntese

crash,
poft,
pow.

domingo, outubro 15, 2006

meia lua inteira *

a lua muda surda,
toda palidez nua.
muda em sua loucura.
lunática
sem cura.

a lua muda em lua,
quarto minguante
nunca sua.
a andar perdida nas ruas.

*reprise

água ardente

escondida no porão, fumando cigarros de medo. meio rosto penumbra de vela, música de respiro. se olhar pros cantos e saber que não há em lugar nenhum, é também chorar, enquanto me abandono à você. momentos distraídos e é mulher. o sol nos prédios como gatos dormindo depois do almoço, metáforas sinalizadas do algo mais, detalhes submissos.
homem pálido esquálido, segurando lança de ponta, contra os ímpetos insaciáveis das visceras. tudo isso acontecendo, enquanto dormia no meu colo.

sábado, outubro 14, 2006

sombra

tenho que me livrar do medo.
ele não existe,
mas me controla.
solidão é uma ilusão,
não sei mais bem que música,
me diz que é melhor ser feliz sozinho.

contrasta a compulsão,
que é ainda achar beleza no mundo.

cambaio

o sol azulejar o dia, nos passos dispersos e livres, vem me fazer companhia, além do teu útero, macio e leve. apesar de toda tristeza, me escorre puro assim - belo, pelos poros que além de tudo meus, também tem sua beleza. beijos enfim na tua bochecha, esparramando-se pelos teus restos, chego em casa enquanto amanhece e cessa o pensamento.

quinta-feira, outubro 12, 2006

vazio

parto nessas viagens de que te falo como um homem cego. passos de ansiedade na ida, e passos de quieto desespero na volta. busco enfim a parte de mim nas cidades a minha volta, busco a palidez no breu que nos afronta. busco a alma que perdi, e que no entanto, me procura. de cidade em cidade, e em lugar algum. não posso encontrar-me nas paisagens, não posso me encontrar com tais pessoas, enquanto for impossível.

terça-feira, outubro 10, 2006

piegas

não me sinto vazia quando me aprendo. coisas como o amor sem esperar, aos outros, para si. as verdades todas estão em todo lugar. mundo-holograma.

macrobiótica

a realidade quem inventa
sou eu
o todo é o meu resto.
cindido mundo ao meio
todas as metades são inteiras
construções erradas são
laranjas ou não
minhas preferidas.

domingo, outubro 08, 2006

poesia barata

você aninha eu,
e eu aninha,
em teus braços.

sábado, outubro 07, 2006

olhos de vidro

às vezes as palavras dão razantes, é parte da poética o som que o som faz. outras vezes é preciso atenção, como quando as crianças tem a alma na superfície.
o importante é manter o espírito livre,
garantia é olhar fundo nos olhos.

quarta-feira, outubro 04, 2006

fome

verbo vivo oco,
de dentro do seu olho,
grita passos e quimeras.
sem carboidratos,
clamotivações.

terça-feira, outubro 03, 2006

esqueça

eu achei talvez que o erro fosse meu e assim de qualquer maneira poderia diluir-me algo circundante da noção de eu além de páginas e páginas tudo que põe-se pra dentro - e pra fora além dos olhos nos olhos e o que mais pode significar a solidão alimento-me de mim então os ossos reclamam e se leio os jornais já nem tenho (pra quem) dizer eu te amo tem um pouco de vazio em quase tudo toda mulher é também um pouco de dor e se desisto de tudo por um instante e se toda verdade arde e vira pó em um instante ainda posso mudar de idéia mastigo o que resta depois a liberdade do nada ausência de projetos de modelos da idéia esqueça-me da poética contrua teu próprio niilismo não venha me achando as coisas bonitas se perca não saiba mais a noite até que anoiteça não cabendo mais no peito.

segunda-feira, outubro 02, 2006

fibrax

os franceses são uns idiotas,
eles acham que os solteiros são celibatários.

domingo, outubro 01, 2006

nhoque

divido-me nos pedaços que você fez de mim,
metades absurdas e tímidas,
ora prefiro o não, ora prefiro o fim.

maltratam-me os meios carinhos,
a frieza úmida da noite,
e essa atravessada saudade.

busca incessante
se inexistem razões
metafísicas ou conscientes.

em mim tua ausência
arde como
não há liberdade - sua presença.

sexta-feira, setembro 29, 2006

peter pan

acordei mais fraca que eu, as escadas subi, e me perdi no caminho. procurei qualquer carinho que houvesse, consolo pra solidão. minutos de criança afogueada, procurando ombros pra secar as lágrimas.

escorpião

as vezes eu invento a dor pra não sentir a dor. e sinto - é assim que posso me esconder atrás do meu silêncio.
o meu silêncio é uma terra fantástica, eu invento a solidão num copo de uísque, e não tenho medo das minhas criaturas incríveis. silêncio faz sentido. olho mudo pra fora, é como se o mundo não existisse dentro de mim.

quinta-feira, setembro 28, 2006

samba

dia quente de domingo,
vestido de organdi amarelo,
banhada e asseada,
na sua varanda.

o rapaz vem todo lindo,
tocava violoncelo,
margarida na lapela,
esqueçe o dia, e anda.

os dois seguem seu samba,
calado e receoso,
enquanto ele pensa, ela canta.

mas de noite quando dormem os pombos,
ela sonha com eles e ele sonha acordado,
com muito cuidado pra não acordar os vizinhos.

quarta-feira, setembro 27, 2006

ímpar

nada é igual
singular soma mais um
só assim
natural.
ainda
prefiro a vida de par
em par.

sugestão

erros todos
equívocos azedos
se marcam
sem hora marcada.

segunda-feira, setembro 25, 2006

erosão

resigno aos acordos unilaterais,
apesar de tudo cedo aos ímpetos.
acordo cedo,
as primeiras luzes da manhã
são certas.
agarro sua mão com toda a força
e dor que tive,
(luz inevitável).
desenho a parede com resquícios,
os medos,
e além do nada que me resta,
a rejeição, profunda e branca.

sábado, setembro 23, 2006

infância'

sempre tive medo daqueles caras que gostavam de sexo drogas e rock'n roll,
tão cabeludos e safados,
infernos de bitucas de cigarro,
putas loiras, cintas ligas, e guitarras.
não tive outro jeito de lidar com a coisa,
senão gostar também.

sexta-feira, setembro 22, 2006

leãozinho

a chamei de super-homem (quiçá nem conhecia nietzsche),
respondeu-me que eu era - superficial.

escancarado

foi por medo de parar o coração que nada fiz,
digo que o erro é ingênuo.
o tango,
e os casais,
eram a vida
em homenagem.

control freak

achei num buraco fundo o meu não amor,
que assim pude te amar pela primeira vez.

segunda-feira, setembro 18, 2006

um beijinho e um tapa

"sempre me surpreendo quando te leio, eu acho que você escreve bastante bem, coisas inteligentes e profundas. não entendo depois quando te vejo na rua, olhando pro nada, por mais tempo que o esperado.."

circular teu infinito

fantástico como vai me matando aos poucos,
pequenos avisos,
surpresas de raspão.
inverso ao carinho,
ao desejo, ao calor.

tudo pra desvirtuar o sentimento,
de baldes de idealizações
pra uma poçinha de nojo.

domingo, setembro 17, 2006

do mar

ela é tão linda, que eu às vezes até digo pra ela entre o gole no café e os instantes em que não tiro os olhos na hora de ir embora se eu não abraça-la forte morro um pouco.

quinta-feira, setembro 14, 2006

mata-me de rir

foi descobrindo sozinha as pernas e perdas a noite que me emocionei.

sintomático

não é a melancolia que faz mal,
se ela decidisse simplesmente ser estaria tudo bem.
mas há ainda a esperança de que ela passe,
e então é insuportável.

é algo ligeiramente puro, ainda,
que impede o niilismo completo.
esperar ansiosamente algo que nem nome tem,
sequer forma.
queria saber o nada como um todo,
pois se não todos os dias serão fugas.

brio

seria absurdo se permitir o abandono e a mediocridade nessa vida em que nascer do sol na varanda é tentar quebrar a superfície com uma colher assim como vejo passarinhos acordando desconexos com os prédios porque fecho os olhos e tenho vida em mim tenho vontade de putrefazer-me o dia nessa esperança que me corroi.

terça-feira, setembro 12, 2006

flashback

é mais fácil romper a camada superficial da noite em alta velocidade.
é mentalizar o momento em que devolvia os filmes de fellini logo atrás da trançinha por baixo da lã azul claro.
(o jeito cândido como fingia não percebe-la, por vergonha ou pudor).
aquelas janelas perigosas do segunda andar, em que da mesma maneira ria e desviava o olhar, sabendo no fundo, mesmo assim, de tudo.
- costurando túneis, acabou só, e pálida.
como a flor em sua mão, esquecida há horas.

domingo, setembro 10, 2006

carne de sol

queria sair à tona
o ócio virar procura
queria leva-las todas
as palavras à loucura.
se soubesse sabe-las a samba
soma de carne com mulata
viraria só batuque.
se do nada fizesse susto
quem sabe depois de uma cachaça
não houvesse mais
nem tino nem dor
e nem sarro.

encostado na cadeira velho e maltratado
o tal sorriso demente.

tosse

quando o acupulturista apertou meus pulsos
e disse
são os pulmões e o fígado
estava tudo muito claro.
ainda bem que
(eles ensinam lá na escola)
é tudo psicológico.

sábado, setembro 09, 2006

bertioga

em cima da mesa uma noite densa que era dia, fazia do caminho sob o som seco, caminho reto de lama e sangue, fumando cigarros acesos ao acaso, próprio. lua inteira, quase sol, coisas sempre acontecem - nunca visíveis. Agora me debruço no marulhar, assim como o verde, pensar no joyce, no vinho, e pouco importar. difícil as amarras do pensamento, somos isto, e isto quer mais saber apenas do que sabe. concedo-me aos vícios, endureço meus mamilos, e da verdade não sei nada. os passos nunca cessam, mas os olhos tem aptidão para os angulos - só para que possam saber dos erros, as perdas entre os passos. ainda estar aqui é fato. Mãe, você acha que eu sou superficial? ela achava que não, eu também achava que não, mas quiçá.. quiçá... Dentro de mim sinto algo, farei da tarde algo imenso, terei compaixão, amassada nos cigarros e no vinho roubado. e escutarei elis regina.

réquiem

das coisas que lembro algumas tem a luz do sol,
ele, magro, mais os cigarros.
eu, ao seu lado,
mais as cervejas.

uma manhã nua,
acordando no espelho,
e ele acordando meu pescoço,
nós dois um quadro nu.

feitos de desesperos e dores,
percebidas tarde demais,
de perdas e ganhos.

vai cada um pra um canto,
desfalecendo num canto,
cheios de desilusão.

sexta-feira, setembro 08, 2006

desencontro

- tudo bem? - passara o dia preocupada, com a voz fria do outro lado do amontoado de fios. a menina olhou pros lados, numa resposta calada.
- o que que há? - queria olhar nos seus olhos.
- vai ver não é nada.- e andou para o outro lado.

no resto da noite não parecia tão triste, levemente só talvez, e não olhei em seus olhos sequer uma vez.
talvez suas atitudes patéticas a afastaram tanto assim, talvez suas mãos e seus olhos cedentos nada adiantariam vez alguma, talvez todo o carinho tenha se desvanecido assim, não mais que de repente.

meu

quarta feira de cinzas acordou com o dia entrando pelas vértebras. sutiã perdido, carteira perdida, e algo mais. olhou para o espelho despenteada, nua. apreciava esses momentos da manhã que a luz batia em suas curvas. uma mulher tem sempre suas dores. passou a mão por sua brancura, segurou os seios no ar, num deles com tinta indelével havia escrito no dia anterior - idiota - cada vez mais idiota.
entrou no banho e os pingos a batucaram o chão, essas horas são como tambores africanos, tum, tum, hipnóticos. azulejos brancos, a luz da manhã. - sabe, todo mundo sempre acha uma porrada de gente idiota, mas quase ninguém se acha idiota, menos quando tá com depressão. cadê esses caras então? vai ver sou eu, seguindo a teoria das probabilidades é bem possível. - mas não, sabia que não era idiota, dessa vez não com toda a certeza, mas 3/4 dela garantida. foi imbecil, isso é claro, mas nada definitivo.

quinta-feira, setembro 07, 2006

só companhia

contar os andares através do pequeno buraco do elevador o acalmava - não gostava de lugares fechados. em 52 segundos ansiosos pisou o chão seguro já esquecido de tudo o que era até ali, (afinal das contas não era caramujo nem nada). alcançou a rua com seu passo firme, o vento mexendo seu cabelo, tentando leva-lo de volta pra casa, os carros tentando cindir seu caminho - os homens e as mulheres do caminho.
tinha algum tipo de liberdade barata em andar só por essas ruas conhecidas, algo de fantástico na anonimidade de um olhar de soslaio pras bundas nas bancas de jornal. assim construía seus personagens, limpando maças na lapela, acendendo cigarros operários na contramão. de banderas almodovariano à orfão parisiense num quarteirão.
saiu dos seus sonhos como quem acorda, ao ver ao longe o vislumbre da menina. ainda contava os segundos para que ela o reconheçesse, os instantes em que ela ainda era ela mesma.

liberdade das coisas

calculo pro todo um denominador,
dentro de cada coisa,
ao passo das transcendências possíveis,
há a liberdade (de si).
para a dor, há a cura,
(branco, preto, e cinza)
pro vazio, a loucura.
se trata da liberdade das coisas,
todas elas tem a sua,
(é só olhar fundo o bastante).
todo instante tem em si,
o completo em potencial.

segunda-feira, setembro 04, 2006

quase

lá vou me embora outra vez,
exagerar a esquizofrenia pra fingir a desilusão.
o vento cortanto a cara fica mais fácil chorar,
e meu corpo que repugna tanto álcool,
que morre de sede,
e por dentro se contrai,
achando que amargura é pecado.

domingo, setembro 03, 2006

minduim

cinquenta e seis passos de felicidade,
atravessando o supermercado,
amigo antigo, de barba e responsabilidade.
não nos conheçemos,
nem as esquinas traçadas nos últimos tempos,
mesmo que saibamos beber umas cervejas em silêncio.

cheio de chaves balançando nos bolsos,
junto com as moedas.
as idéias nem tantas,
mas pra isso ninguém mais tem tempo.

nostalgia de chá da tarde,
em plena madrugada.

claustro

nada supera o entorpecimento de um werther pós moderno.

delimitado

tô fingindo que isso é calda de chocolate,
só porque eu não consigo sublimar de outras maneiras.

sexta-feira, setembro 01, 2006

de noite na cama

era noite ou a luz que entrava se filtrava em mim, me alimentava de ar, deitada e só, acordada te via. trazia a tona todos os absurdos usados pra justificar a vaidade rota. roubando seus segredos guardados tão seguros, aliás, não era outra coisa que fazia durante o resto do dia. passava-os roubando segredos transparecidos nos rodapés. assim, construía teu perfil, do nariz, o cabelo.. pensava em quiçá tacar um beijo, aninhar nos braços.. acabava no frio te observando, a poesia é martirizante mesmo. acho que é porque o mundo gira muito rápido, que tudo muda assim. d'eu te ver e me ver tão maior. e mesmo assim não consiguir estancar o meu carinho escorrendo em vasos dilatados sob pressão. nos ouvidos e poros, esse carinho infinito.

quinta-feira, agosto 31, 2006

barroco mineiro

desde sempre o delírio do comportamental, a ver, seu vestido não se mexe no vento, antes de tudo nem sequer vestido está. menina molhada de chuva, jogos e medos, falsos, o que motiva é inconsciente. cadê meu estado de graça, consciente do inconsciente? pra ninguém botar defeito vou bem só, se música e bebida houver. cruza a temporada da minha solidão.

quarta-feira, agosto 30, 2006

dois nacos de algodão

se você não abrir as pernas muito será mais interessante, isso, a calça antes dos joelhos, nem que queira baby. (nem que queira baby).
duas nádegas durinhas,
o desprezo de um cigarro na varanda.
me despojo da amargura pra comer seu cu.
(como os russos, pura pulsão).
falo em porcos e penso na minha mãe.
os valores morais perdi no vietnã.

domingo, agosto 27, 2006

som do vento

- sentei-me na varanda, eu, o cão castanho, e o velho sussurro da morte-

de certa maneira outra
corpo frio de febre
à flor das flores
chamei
em vão
minha
poesia
mono
sílaba
uísque na mão.

espiral

tudo é meio do caminho,
não quero estar em parte alguma,
(metonímia).
nem lembranças,
e limites.
talvez se fosse temporário,
então seria fácil.

solidão absoluta.

sábado, agosto 26, 2006

chamá-la ei de flor amarela

de olhos fechados, lânguida, nunca tão linda, dizia-me da falta de pureza absoluta.
enquanto a comia com os olhos, enquanto consumia-a em labaredas insanas de lúxuria nada cândidas. soube que enfim, esse ser do pó, da lama, do desejo puro e mal carpido, da guerra, da fome, e do vício, esse ser da morte, não é nada além de puro, como puro são seus erros.

e nunca me esquecerei

terça-feira, agosto 22, 2006

as prostitutas e eu

subindo a augusta de bicicleta,
- você quer comer a minha batatinha?
- puxa vida, só vou comer a sua batatinha..........
- então engole em dez minutos que eu te dou uma carona..
- cê me ajuda a engolir?

só desilusão

e já tudo começa mal demais, sei bem como são esses dias que eu não me lembro de nada. não me lembro como acordo, como durmo e quando sonho. desde de manhã vai crescendo um monstro na barriga, as mãos ficam inquietas, as coxas. se contabilizam as pulsões, se sublima a raiva e o medo. ao meio dia é insuportável, visualizo cortes, muitos cortes, pelo corpo inteiro, continuo andando ajeitando a vida, e o sangue escorrendo cândido pela barra das calças, me espalhando por aí. vejo todas as aulas, e o sangue saindo por todos os buracos, são tiros de cowboys, frases de poetas, e continuo andando, sou milagre, e vivo. fecho os olhos na mesa do bar, rio, rio de luxúria, como nunca ri antes. morro, morro, mas não corro, e não fujo. mas fujo? sei que fujo. e então?

segunda-feira, agosto 21, 2006

dias + dias são meses que ninguém viu

não chore sobre o leite derramado,
que o açucar não anula os danos do sal.

controle sua amargura rapaz,
ela não é nada pra ninguém,
nem matéria literária,
de um texto sem autor.

zero não é vazio

estou doente, e não tenho medo. pedras no rim, lágrimas duras, copo d'agua, pra tudo cessa sede. se soma tudo o que não se nega.

psicosomático,
doente da civilização,
deito no silêncio pra curar as chagas.

ledo engano,
não é o corpo que não acompanha a passionalidade,
é a alma que não acompanha mais nada.

(deito no silêncio como orvalho, deixo derreter como rio, a pele.)

sou pouco sem contar o infinito,
mas ainda sigo,
quando tudo é impossível.

sexta-feira, agosto 18, 2006

batata

acordou com a mão dentro da calça, com a outra procurou o cigarro. adorava acordar canalhinha com sua jeans surrada,
tragava o fumo, e olhava o quadradro branco da janela,
qualquer um acreditaria ver james dean.
a menina ainda dormia, pesado e sem a menor elegância.
olhando a figura opaca através da fumaça pensava
"há dois tipos de garota,
as que perdem a graça quando dormem,
e as outras."
somos todos grandes filósofos.,
principalmente pela manhã.
mas não importava,
ele nunca se relacionava com garotas,
ele simplesmente duelava com seus próprios conflitos,
a frieza, as prisões, as distâncias,
antes de tudo o amor,
eram uma forma de garantir a maldição.
antes que ela acordasse partiu para rua,
seu jeans, seus olhos, o chão, a fumaça, o café,
manifestações da massa putrefata.
sua juventude tinha vida útil,
do último café até a próxima úlcera.
perdido em pensamentos niilistas e ordinários,
como bem desejava sua poesia maldita,
fechou sua braguilha aberta.

quinta-feira, agosto 17, 2006

baiacu

nove da manhã e recolho os meus destroços,
nada melhor do que um solzinho nas ventas pra matar os micróbios.
no outro banco do pátio escuto sonzinhos mortos de bocas,
beijinho, beijinho, olho pra menina,
ela num consultório médico,
33...
33..
beijinho.....
que horror essas meninas de hoje em dia,
pede pra vovó botar viagra no canjão.

outros passos, seguro minha ânsia pra dentro da calça,
dois meninos discutem a racionalidade e o comunismo,
deus ateu, me salve desses reacionários..

blasê... blasê.. pois não? como não!

terça-feira, agosto 15, 2006

batuta

narciso nunca descansa,
de tudo somos um tanto,
nos olhos-espelhos que temos.

sou também o leão do mágico de oz,
e preciso de coragem.

se tivesse alguma,
investiria no bovespa.

domingo, agosto 13, 2006

cérebro eletrônico

as mãos estão frias,
vejo nos olhos que mudam de direção,
na boca que se sacia e murcha.
os ossos estão duros,
a carne putrefata,
e a solidão imensa.

a noite engole os vícios,
e te deixa caminhar sozinha,
nunca foi tão claro.
ninguém vai conseguir te alcançar.

sexta-feira, agosto 11, 2006

deltas de vênus

não, não quero seu casaco,
não, não quero seu amor.
a maior homenagem é o silêncio,
testemunhando cada um.

de que valem sonhos e copos de cerveja?
se você não sabe como todo dia eu canto no banheiro,
os trantornos bipolares, os vícios de linguagem,
as cicatrizes.

descubra minhas pintas,
descontrua meu passado.
e aí sim,
terá verdade no que eu digo.

quinta-feira, agosto 10, 2006

nevasca

toda gelo, pra rimar com cocaína,
de vestido verde,
e trançinha.

passava na minha frente no bar,
todas as vezes necessárias,
pra ainda me deixar longe.

eu sei que eu sou uma criança,
me contentava em ver suas costas,
e seu homem do outro lado da mesa.

ína, da heroína,
seus olhos pedrinhas,
não consigo proferir palavras em sua presença.

queria um dia,
dar um teco
da tua frieza.

queria um dia,
quando largar mão do barbicha,
que sejas minha farinha.

segunda-feira, agosto 07, 2006

eu não lembro

domingo, agosto 06, 2006

razão

ninguém nunca vai saber que dúvidas fazem a mulher neurótica com pílulas e cigarros convulsos e uma bolsa cheia de coisas que ela empilha uma por uma procurando a garrafinha de scotch. nenhuma mulher nunca vai entender suas próprias costas e a silhueta fantástica a não ser no ardor de mãos fortes e nos brilhos de outros olhos. quem saberá um dia se é melhor viver pelo desvirtuado hedonismo ou seguindo como um tonto essa tal de ética? e antes de tudo, quem poderá equacionar o amor e suas possibilidades? não ouso tentar amparar o mundo nos braços, se o que sei é apenas uma miragem.

a menininha e os lobos

passo o dia buscando razões que me justifiquem,
mas é mais fácil postar no horizonte.
pra nunca mais me sentir vazia,
eu finjo,
que nunca terei o que espero.
tão mais leve fingir que sentir,
sentir marca, pesa, e... desaparece.
faço-me de espectro então,
plenamente nada,
porque tenho medo.
(tenho tanto, que até com o medo me assusto).
não sei,
só sei que preciso de uns braços, e umas pernas,
ao menos uma mão que me ajude,
a descobrir essas pedras do caminho.

sábado, agosto 05, 2006

morning

quando você decide corroer seus orgãos,
destruir o super-ego,
e se transformar numa massa porosa do etílico,
nada melhor que uma coca-cola.

quarta-feira, agosto 02, 2006

vermelho

descia do ônibus,
mostrava os peitos,
e dá-lhe pão com requeijão.

terça-feira, agosto 01, 2006

aeroporto

a realidade jamais ultrapassa os mais baixos níveis da mediocridade,
é dura e sua feiura não é nada encantadora.
assim, não me aparece melhor alternativa do que sentar e escrever
- lotar de adjetivos essa tal de civilização,
vira-la de lado, de baixo, de todos os ângulos sórdidos.
ir perseguindo como uma miragem os melindrosos instantes do conjunto, numa tentativa ensandecida de torná-la encantadora.-
talvez só tente resguardar a repugnância,
que tenho ao mundo,
como veio ao mundo.
talvez a poesia seja só uma esperança,
de que a poesia realmente exista.

pela janela

imagino
que em algum lugar entre a escuridão e a escuridão,
esteja o horizonte.
mas no que penso...
tenho certeza.
(tenho a lógica dos poetas)

afinal,
estrelas não são nem de mercúrio, nem de sódio.

sexta-feira, julho 21, 2006

ilusões

é de se esperar que o agora seja pleno.
foi um crime premeditado,
e já não sou réu primário.

equações são assim,
perfeitas e dedutíveis,
é só por um pouco de vinho.

depois olhe para o lado,
e vai passar a vida,
e mais uma vez você não percebeu,
confundiu como um tolo,
as entrelinhas com o contexto.

veloso

ele estava sentado manso a meu lado, dizendo as maiores baboseiras, mas com pura poesia. viajou na minha blusa, disse parecer miró, falou das coisas mundanas e de seus planos, de suas viagens, de suas dores. o dia passou quieto, e eu chorei sozinha e perdida na esquina. ele chegou mais uma vez manso, ajoelhou-se do meu lado, pegou nas minhas mãos, e olhou nos meus olhos embriagados de calor. falou suas coisas calmas, e citou agora as minhas dores, serviu-se de cerveja, e eu o amei assim.
entre um gole e outro, vendo atráves da lágrima e do gosto, nos livros que dizia e nos países que visitara. amei-o enfim, por um dia, e bastara.

quinta-feira, julho 20, 2006

de(fin)itivo

(gosto de verbos sucedidos a palavras fortes,
.do som que faz o som da luz.)

-dentro de alguns anos não lembrarei de você-
foi o que disse.
mas não se sinta culpada.
pode ser só o meu vício.

disse e saí andando, sob os olhos as conhecidas negruras. uma espécie de graxa que ataca como sinusite, te faz ver o mundo com dor. contei os passos, 627 deles. e então pinga morte desolação. e uma mesa quebrada.

restou-me o gorfo, e a bronca do tfp. o mundo e suas paredes de aço.
meus dentes estão amarelos, tenho olheiras na pele pálida.
nada é real por aqui. não sinto as coisas reais. só as metafísicas.
um sufoco.

(comida macrobiótica, índia, injetar penicilina, ter filhos quiçá.)

e ele disse para os esquecer.
ingênuo.

quinta-feira, julho 13, 2006

tarja preta

você fuma seus cigarros convulsionadamente durante o dia,
declama neruda, discute rimbaud,
e me parece tão pouco.

antes eu tava encantada,
e queria dizer das coisas que via,
e escrever, pensar mil coisas.

mas foi apodrecendo,
de dentro pra fora,
uma coisa meio idiota,
acabei só vendo hipocrisia e miséria do lado de dentro das coisas.

e as coisas encantadoras,
que me faziam sorrir de graça,
essas perdi no meio do caminho.

panis et circenses

o espetáculo começou tão logo saí do elevador. os poros invadidos por aquela música clássica altíssima. era estonteante, tanto, que pra decifrar esses sinais demorei um certo tempo, "um vizinho ensaiando violino", cheguei a pensar no segundo que passou. é claro que seria constante a hiperbole, dois passos adiante a porta semi aberta num convite nu - já abria um sorriso de orelha à orelha. como um estrangeiro acima do peso passava pelas roupas jogadas ao chão, e os violinos a me martelar os passos, as roupas e os maltratos. um lustre de mil peças de cristais, estatelado em cima da mesa. entro na cozinha. seios. é tudo o que vejo. seios. e então o resto do panorama vai se acostumando, rostos, vejo seios, digo, rostos. três na mesa. o primeiro é o famoso intelectualóide, com sua fala mansa, e os milhares de livros lidos (e as milhares de freakies comidas). o outro é um viado, lindo como o primeiro, o cabelo preto cintilando na luz da tarde, o meio dedo que falta, e logo abaixo o graaande anel dourado cafetão dos anos 70. e finalmente a dona dos seios, linda também (que originalidade hein), a axila mal feita, e o colar de pérolas. -persisto nessa pobre descrição estilo neo eça de queiroz, por isso, minhas desculpas.- sobre a mesa ovas laranjas de peixe, e café. emblemático. é uma maravilha.

quarta-feira, julho 12, 2006

eu-lírico, cidadão do mundo

meditação, heroína,
meu nirvana encarnado não se encontra tão longe.

me lembro da meninice, um velho careca magro e funcionário público,
atrás de uns livros que chamavam "para gostar de ler".
pra mim, no máximo, ele preenchia formulários,
mas aquele homem, meu deus, dizia coisas tão belas, e tão próprias.

quando o leio percebo, toda santa vez, que quem escreve não é o careca velho, não tem nariz, nem sequer boca (por mais que as vezes afirme o contrário).
sabe, escrever é a transcendência absoluta.

domingo, julho 09, 2006

hipocrisia

- e aí, o que você tá fazendo da vida?
- psicologia.. letras.. cinema... tanto faz..
(não aguento mais essa pergunta)
- é?..
- é...
(cara de brava pro cara ir embora)
- então... mas tanto faz?
- tanto faz..
(você ainda não entendeu, narigudo?)
- e porque?
- porque eu amo o gênero humano

turquesa não é verde

- foi assim que eu aprendi a comprar absinto de qualidade.-



textos correlatos: http://marromaocontrario.blogspot.com/2006/07/turquesa-no-verde_09.html

http://2serelepes.blogspot.com/2006_07_01_2serelepes_archive.html

obs: no ultimo link é o ultimo texto, e sim, eu sou uma merda com truques tecnológicos.

sexta-feira, julho 07, 2006

as palavras

aparentemente são de fácil manejo, com sentido instruído por dicionário.
se somadas, além de símbolos, são imagens. às vezes formam poemas de namorados, (e então é difícil entender a relação entre o contraste no papel, e uma vertente de lágrimas), tratados de direito, ou receitas de cozinha. são, antes de tudo, isso: o breu no absoluto do vazio.

peculiar

alguns poemas saiem numa mijada.

quinta-feira, julho 06, 2006

blasê

as mãos que eu não pus na sua coxa,
pois não te chamei pra dançar.
o meio beijo que eu não te dei,
mesmo não faltando gim.

meio vazio, meio cheio,
prefiro meu dia assim.

te gosto só pra mim,
não é pra você não.
no ar do pulmão,
pro sangue,
escarrado na noite fria.

sangue escuro, fogo fátuo,
não é amor, não é carinho,
antes de tudo,
é ócio demais.

terça-feira, julho 04, 2006

blocos de lego

quando eu era pequena, era bailarina sem saber.
flutuava no piso aqui de casa.

era flautista auto-didata,
espalhando melodia sem dizer nada.

antes de tudo girava,
através dos nomes, e das datas,
respirando liberdade,
meu carinho costumava ser de graça.

segunda-feira, julho 03, 2006

nelsinho da cor do verão

entre a barbicha e o all-star,
meio intelectuais-meio de esquerda,
a juventude trans-viada.

põe o menino na cadeira do cinema,
escuta uma salsa francesa.

logo se acotovela nas filas da falocracia,
coloca um laço na cabeça, e sai dançando na augusta.
enche a cara de mortadela, e vai velar os mortos na consolação.

tá apaixonado, mas só sente tesão,
com um salsichão.

assim que é bom,
assim é cool,
com o cu na mão.

terça-feira, junho 27, 2006

ondas alpha

todos os segundos escorrendo pela memória, não os sei - eles não me sabem. esses instantes todos construídos na solidão absoluta de todo homem, não me parecem nem exatos, nem reais. deles, os que se salvam, são muito poucos. como andar na praia até amanhecer comentando infâncias nunca antes trazidas a esse meio fio de vida (esquecidas nos cantos obscuros da memória). surreal como o resto, no entanto, tenho uma certa impressão de que por vagos momentos, a alma não era só minha, e sim, podia ser dividida. digo isso pois o decorei, sei de cor o instante, mas ele não existe. - existiu? - possível, mas já não há mais provas concretas. pura ilusão toda idéia de construção, afetam-me apenas a influência espectral dos instantes somados, mas reduzidos ao passado. dos amores que tive ou não tive, das amizades: sombras e marcas d'água. só o é em um instante, na possibilidade do presente (pois ele também não existe). vagas construções, as sensações são a única prova de que há vida. sinto o instante no prazer. no instante sinto prazer, nem antes, nem depois, apenas no vislumbre do segundo.

domingo, junho 25, 2006

índice

tenho uma loucura,
faço minhas próprias regras.

sozinha num mundo à parte (?)

ou eles, fora desse meu mundo,
é que estão loucos?

sábado, junho 24, 2006

cara ahhh anets sério eu adoro voce´, bem piegas idiota, sem grandes inspiraçoes... vc merece mais neh? vc sabe?...
amo vc bixo, seja sempre...annets! (vc acaba de ganhar de ser denominada um adjetivo! fora seus outros significados: contadora honoravel de piadas muito-boas, judia mais gostosa do universo, loira dos cachinhus dourados, jogadora de poquer, dançarina profissional...)
amo vc nets!
a.k.a: japa mais gostosa do recinto.

hoje tava afim de ser romantiquinha

meu sentido tá na sua atenção

terça-feira, junho 20, 2006

alienação

(girava, girava, gritava, anseava, a lágrima, o suor, e o desejo. e gritava de desejo, e ardia.) - mas nisso não preste muita atenção.

paredes que continham as neuroses, os limites a criar a civilização, matar um velho desespero humano.
dentro do quarto ardia incessante a vida, ausente da vida.

dias que passam brancos, salvam-se os mínimos instantes,
de coisas que podem ser sentidas,
com o âmago.

nem o amor se salva,
esse que se inventa.

nem o frio, nem a dor, nem o poeta,
no fim já não há mais o que se salva,
o que resta de profano e puro,
fora teu sexo e sangue,
e tinjo-me de tinto,
e deliro,
acabo com a angústia da dúvida,
que é a única coisa que me resta.

segunda-feira, junho 19, 2006

esquizofrenia.

parece que eu tenho que começar tudo de novo,
descobrir traquejo por traquejo as manhãs do mundo.
as palavras, certas, nas horas certas.

desaprendi,
dentro de mim,
foi tilt,
melhor, afinal das contas,
sempre quis demolir meus muros.

meus olhos brilham com a novidade,
do antigo desconhecimento.

tenho que começar do príncipio,
do que são as coisas,
e seus lugares.

escapar da desconstrução absoluta,
do esquecimento.

eu posso criar um mundo.

terça-feira, junho 13, 2006

sapeca

preciso suplantar uma tal de eloquência pedante.


(hihihihihi)

domingo, junho 11, 2006

o cimo do outeiro

o som seco dos meus passos,
as consequências tolas dos meus atos.

desequilíbro,
os sonhos e delírios estreitos durante o dia.
ímpetos barrocos,
da hipérbole vazia e inata.

o riso e a utopia,
o sucesso e a discordia,
príncipios da realidade,
não desse outro mundo que me invade.
ébrio sem beber, esquizofrênico,
perverso até seu fim,
privado.

das vezes que acordar não é mais abrir os olhos,
quando não se tem mais medo,
dos mistérios além da curva.